Sob o céu de Samarcanda, de Ruy Espinheira Filho

March 12th, 2010

Um amigo recentemente me perguntou se eu tenho lido poesia. Eu disse que não e ele, que sempre me dá bons conselhos, disse que eu não deixasse de ler versos, que arrumasse um tempo para eles.

Isso coincidiu com a notícia do lançamento de “Sob o céu de Samarcanda“, de Ruy Espinheira Filho. Pensei, então, em unir o útil - o conselho - ao agradável - literatura - e voltar a ler poesia justamente com o novo livro do Ruy. Comprei-o há alguns dias e de fato li alguns poemas - destaque para o “Manuscrito encontrado entre os papéis do poeta, em envelope lacrado que ele, infelizmente, nunca chegou a abrir” (p.129), uma homenagem a Mário de Andrade -, mas não pude me dedicar exclusivamente a livro por conta de obrigações outras.

Farei isso em breve. Mas enquanto não me livro - olha só, um trocadilho! - de algumas leituras (veja bem… não estou reclamando delas, mas queria mesmo poder estar somente com o “Samarcanda”) sigo lendo alguns poemas, folheando o livro, me maravilhando com a poesia de Ruy.

Pra quem ficar curioso sobre o autor e o livro, aí vão dois links: um com minha resenha de “De paixões e de vampiros”, romance de Ruy publicado em 2008, e outro para uma matéria que o pessoal do Saraiva Conteúdo fez sobre o autor, com direito a um vídeo com trechos da entrevista que fizeram com ele.

CP Filosofia, CampiDigital e Melhores discos de 2009

March 6th, 2010

Pessoal, está nas bancas a revista Conhecimento Prático Filosofia nº 22, Karl Marx na capa, que traz uma resenha minha dos três livrinhos que compõem a coleção “Sobre o que nos perguntam os grandes filósofos”, de Leszek Kolakowski. O texto pode ser lido no site da revista, mas quem puder comprar, é bom, né? Até porque o visual da matéria ficou bem bonitão.

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Foi publicada hoje uma entrevista comigo no site do CampiDigital, um evento que vai rolar em Salvador, no dia 20 deste mês. A conversa foi sobre minha experiência com o Digestivo Cultural e como as mídias sociais podem interferir no jornalismo feito na internet. Ficou bem legal, confiram lá!

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E foi publicado ontem, no Digestivo, meu texto sobre os melhores discos de 2009 - na minha opinião, claro. Corram pra ver!

Lançamento: Sobrescritos, de Sérgio Rodrigues

March 5th, 2010

O sempre infalível Sérgio Rodrigues - de quem infelizmente não sou parente - está lançando livro novo. Trata-se de “Sobrescritos - 40 histórias de escritores, excretores e outros insensatos”, pela Arquipélago Editorial, a mesma editora de “O Pai dos burros”, de Humberto Werneck.

Segue abaixo o release que recebi por email.

Caros amigos,

A Arquipélago Editorial acaba de lançar SOBRESCRITOS - 40 histórias de escritores, excretores e outros insensatos, novo livro do escritor e jornalista Sérgio Rodrigues, autor de As sementes de Flowerville (Objetiva) e de Elza, a garota (Nova Fronteira), entre outros. Sobrescritos é uma coletânea dos melhores contos publicados por Sérgio em seu Todoprosa, um dos sites sobre literatura mais lidos e comentados do país.

No link abaixo, assista ao teaser do livro, uma animação produzida por Leon Vilhena, com narração do próprio Sérgio Rodrigues. O texto é o conto “Virtual”, que encerra o volume:

http://www.youtube.com/watch?v=TvpaJvH0yWo

O lançamento de Sobrescritos, no Rio de Janeiro, será na próxima quarta-feira, dia 10 de março, às 19h, na Livraria Travessa de Ipanema (Rua Visconde de Pirajá, 572 (veja o convite abaixo).

Nas livrarias: O altar das montanhas de Minas

March 1st, 2010

Chegou às livrarias - ou está chegando, a depender da rapidez ou demora dos distribuidores - o romance “O altar das montanhas de Minas“, de Jaime Prado Gouvêa. Publicado originalmente em 1991, pela editora Siciliano, o livro volta em nova edição pela editora Record.

Pouco posso falar sobre o livro no momento, porque já escrevi sua resenha - que em breve será publicada em algum lugar - e nela falei bastante sobre ele. Mas aqui posso acrescentar o seguinte: quem é mineiro, vai se identificar mais ainda com o romance; quem já foi a Ouro Preto alguma vez, vai se sentir “em casa” lendo o livro; e quem não é mineiro e nem foi a Ouro Preto, vai querer ir a Minas assim que terminar de ler.

O romance tem sua carga trágica, mas há também momentos engraçadíssimos. Os diálogos, trechos que causam uma das maiores dificuldades para escritores, são quase perfeitos. Prova de que Jaime teve o maior cuidado com sua obra.

Enfim. Recomendo desde já a leitura de “O altar das montanhas de Minas”. É um livraço. Do mesmo autor eu resenhei “Fichas de vitrola & outros contos”, e fiz uma entrevista com o Jaime, está lá no Digestivo (quem acompanha o blog tá cansado de saber disso, mas não custa relembrar).

Pergunte ao Bandini

March 1st, 2010

* Texto publicado em junho de 2006, na minha extinta coluna Literando, no site Argumento.

E, por favor, sem trocadilhos infames com a marca de macarrão [Brandini], como anda fazendo um amigo meu.

Bandini, Arturo Bandini, é o alter-ego do escritor norte-americano John Fante (1909-1983), personagem de quatro romances do autor: “O caminho de Los Angeles“, “Espere a primavera, Bandini”, “Pergunte ao pó” (recém-adaptado para o cinema) e “Sonhos de Bunker Hill”. Os três primeiros foram publicados no Brasil pela José Olympio Editora. O último saiu pela L&PM, em edição pocket.

Cheguei à literatura de John Fante por causa de Charles Bukowski (1920-1994), que decidiu ser escritor depois de ler “Pergunte ao pó”.

Mas então. Às pressas escrevo este texto, em uma maldita madrugada insone, tendo à minha frente o romance “O caminho de Los Angeles” (que ganhei de minha namorada neste último dia 12 de junho), tendo como motivação a estréia do filme “Pergunte ao pó”. Um estalo tardio em minha mente (em todos os sentidos). Minhas boas ideias surgem com um “delay” que ainda não sei explicar.

Pois comecei a ler “O caminho de Los Angeles” (colocando-o à frente de um sem número de leituras atrasadas), e fiquei surpreso. Não achei que o livro fosse tão bom e tão agradável. E olha que ainda estou no começo.

Resolvi, então, fazer essa recomendação e deixar aqui um trechinho do livro.

Opa! Faltou eu dizer que Arturo Bandini é um descendente de italianos que mora nos Estados Unidos com a família e sonha em ser um escritor de sucesso. No romance “O caminho de Los Angeles” acompanhamos um Bandini extremamente ácido e sarcástico em suas andanças e vivências ainda no Colorado, antes de se mudar para a cidade dos anjos.

Peguei meu livro de Nietzsche debaixo do balcão e parti para a porta. Nietzsche! O que sabia ele sobre Friedrich Nietzsche? Embolou a nota de dez dólares e a jogou sobre mim.

- Seu salário de três dias, seu ladrão!

Encolhi os ombros. Nietzsche num lugar destes!

- Estou indo embora – falei. Não fique excitado.

- Saia daqui!

Estava a uns bons quinze metros de distância.

- Escute – falei. Estou vibrando por sair daqui. Estou cansado de sua baboseira, de sua hipocrisia elefantina. Queria abandonar este emprego absurdo já há uma semana. Portanto, vá direto para o inferno, seu carcamano de merda!

Parei de correr quando cheguei à biblioteca.

Da falta de tempo para postar

February 27th, 2010

Na verdade, não é nem tanto falta de tempo, mas sim forças para escrever. O cansaço é tão grande, o volume de coisas a fazer é tal que o tempo que me sobra de ócio eu uso justamente para… o ócio. Quem pensa que escrever é fácil e não dá trabalho nenhum, mesmo para um blog, está muito enganado. Ou não dá a devida atenção ao que escreve.

Como não quero deixar o blog sem posts, vou começar a republicar aqui alguns textos meus que saíram no site Argumento, quando de lá fui um arremedo de colunista, entre meados de 2006 e início de 2007. Encontrei os textos graças ao Web Archive, pois não tenho mais a maioria deles no meu computador.

(Acabei descobrindo por que não os tenho arquivados: enviava os textos no corpo do email.)

Isso não significa que o blog não será mais abastecido com posts inéditos. Tenho várias ideias anotadas em meu Moleskine de bolso. É só uma questão de tempo para desenvolvê-las (algumas necessitam de pesquisa).

O primeiro texto da Literando a ser republicado será sobre John Fante. Faço isso amanhã.

Na Brasileiros de fevereiro

February 24th, 2010

Está lá, no site da Brasileiros, a resenha que fiz do livro “Três Tristes Tigres”, de Guillermo Cabrera Infante, publicada na edição deste mês, de número 31. Não sei ainda se A revista já chegou às bancas de todo o país, mas creio que em São Paulo e no Rio de Janeiro ela já possa ser encontrada. Ao menos aqui na cidade já chegou. Se não chegou ainda na sua, em breve deve chegar. E se não chegar e quiser dizer aqui que não chegou, é só avisar. Quem puder dar esse feedback, agradeço. E Quem puder comprar a revista, agradeço mais ainda. Não que eu ganhe nada com a venda dela, mas é bom saber que ainda tem gente que faz questão de comprar a revista impressa.

Atualizado às 19:42.

O grande jogo de Billy Phelan (trecho)

February 22nd, 2010

Martin Daugherty, cinquenta anos e encarregado da marcação dos pontos, observou com atenção quando Billy Phelan, que vinha fazendo um jogo perfeito, adiantou-se com a arrogância de uma águia jovem e inexperiente até a máquina de devolução, recolheu a sua bola preta com furos só para dois dedos, jogou-a de uma mão para outra feito um malabarista e depois a equilibrou na palma da mão esquerda como se ela não tivesse peso. Billy esfregou a palma e os dedos da mão direita no cone oco de giz preso em cima do prato de latão no alto da prateleira de bolas, tirou o excesso dando um puxão na toalha. Postou-se de frente para os pinos e fez mira no ponto de sempre, na altura onde a madeira da pista mudava de cor, a sete tábuas da borda direita. E então, o que aos olhos de Martin era a mais pura expressão da energia sobre sapatos, ele avançou: pé esquerdo, pé direito, esquerdo-direito-esquerdo, e por ­fim a derrapagem, enquanto a mão direita se adiantava e depois voltava tudo para trás, fazendo o pêndulo, o pulso quebrando só um pouco no ponto mais recuado do arco. Seu braço, que para Martin era a mais pura expressão do controle em mangas de camisa, completou o balanço para a frente e soltou a bola, que saiu deslizando quase sem fazer barulho pela pista reluzente, passando exatamente em cima do ponto escuro da sétima tábua e descrevendo uma curva mínima no trajeto, curva que se acentuou ao se aproximar do alvo, e então a bola atingiu os pinos com toda a força justamente entre o primeiro pino e o de número três, derrubando todos os dez num festival de cambalhotas e rodopios.

“Boa, Billy”, disse o seu ­financiador, Morrie Berman, batendo palmas duas vezes. “Espalhou bem, espalhou bem.”

“A bola está trabalhando direitinho”, disse Billy.

Billy ­ficou parado, magro e com as pernas compridas, esperando que Bugs, o menino vesgo encarregado de arrumar os pinos, mandasse a sua bola de volta. Quando ela emergiu ruidosa do canal curvo de madeira, Billy a levantou, virou-se de frente para os pinos recém-arrumados na pista nove, avançou, arremessou a bola e fez mais um strike: agora eram oito seguidos.

Martin Daugherty anotou o strike na folha de pontos, que ainda não exibia nenhum número, só as oito marcas de strike: dava má sorte começar a fazer as contas enquanto o jogador ainda enfi­leirava strikes. Martin já cogitava que aquele jogo pudesse ser o assunto da sua próxima coluna, se Billy conseguisse ir até o fi­m. Sua ideia era dizer como certos homens chafurdam no lodo cotidiano de suas vidas até que, num lance, desprendem-se desta lama e se transformam. Aquilo em que se transformam, porém, não é resultado de um ato repentino, mas o ápice de tudo que ­zeram ao longo da vida: o triunfo do amadurecimento, o fi­m de algo sem forma, o início de uma coisa de­finida.

Assim começa “O grande jogo de Billy Phelan“, romance do escritor norte-americano William Kennedy, sobre o qual falei aqui anteontem.

Fante e a juventude (ou A Síndrome de Bandini)

February 21st, 2010

Hoje, ao acordar, tive uma quase visão do paraíso. Do meu lado, em cima de uma das pilhas de livros que ficam no tapete ao pé da cama, um pacote da editora Record. Dentro, dois livros: “A balada do café triste“, de Carson McCullers, e “O vinho da juventude“, de John Fante.

Sobre “A balada…” nada direi, por enquanto - até porque nada sei dele, ainda -, a não ser que é traduzido por Caio Fernando Abreu, autor da nota introdutória que acompanha o livro. E que, tal qual “O vinho da juventude”, trata-se de uma reedição.

Gostaria mesmo é de falar um pouco sobre “O vinho da juventude”. Nem sei se realmente posso divulgar isso aqui, mas acho que não fará mal a ninguém: sei da edição deste livro há pelo menos mais de dois anos, e desde então espero ansiosamente por sua publicação. Por que demorou tanto a sair, já que estava tudo pronto (tradução, revisão etc.), eu não sei. Mas, quando finalmente vi o título na pré-venda do site da Livraria Cultura, fiquei radiante. E hoje, quando vi que acordei do lado dele, vocês podem imaginar minha felicidade.

Porque Fante é um autor que, apesar de eu ter lido pouco - apenas “Sonhos de Bunker Hill” e “Pergunte ao pó”, por enquanto - me marcou muito. Fui às lágrimas nos dois livros que li. E, no caso de “Espere a primavera, Bandini”, fiquei tão bobo com o começo do livro que preferi colocá-lo de lado anos atrás, deixando para lê-lo quando estivesse mais maduro. Porque, na época, eu começava a apresentar sinais do que costumo chamar de “Síndrome de Bandini”.

Quem já leu os livros protagonizados por este impagável personagem sabe muito bem do que estou falando. O ar arrogante de Bandini, sua extrema autoconfiança - mas também a sensação de fracasso que às vezes pela qual às vezes é tomado - e sua infantilidade eram características que eu via também em mim. Mas, é óbvio, eu via aquilo de uma maneira boa, não como algo prejudicial. Eu era Arturo Bandini, em carne, ossos e coração.

Foi justamente por isso, por estar me embriagando de alguém que não sou - coisa semelhante aconteceu em relação a “O encontro marcado”, de Fernando Sabino -, que resolvi não prosseguir lendo Fante - ao menos não enquanto não me curasse da “Síndrome”.

O tempo passou e fiquei curado da Síndrome de Bandini. Talvez até demais, visto que uma certa arrogância que eu possuía foi quase totalmente reduzida a pó. O mesmo pó a que Fante nos aconselha questionar. Autoconfiança e infantilidades persistem, mas controladas, reservadas apenas aos momentos - e pessoas - apropriados. Estamos sempre em busca do equilíbrio, não? Mas acho que determinados arroubos ególatras são sempre bem-vindos, principalmente quando não são levados a sério demais. É uma pena que muitas pessoas não entendam isso, porque era algo que eu adorava fazer. (Hum… Não, eu não deixei de fazer.)

Posso então, finalmente, voltar a ler Bandini. Revisitar as obras já lidas e ler as que ainda faltam. Mais que ler Bandini, ler o Fante deste novo “O vinho da juventude”, e também “1933 foi um ano ruim”. Nunca é tarde para correr atrás do tempo perdido. A não ser que você esteja impossibilitado de fazer isso por motivos graves demais.

Nos próximos dias republicarei aqui no blog a resenha que escrevi de “Sonhos de Bunker Hill”. A de “Pergunte ao pó” está aqui.

Fica a dica, também, deste texto de Eric Nepomuceno, publicado no Estadão de hoje, mais sobre Fante que sobre “O vinho da juventude”. Vale muito a pena ler.

O grande livro de William Kennedy

February 20th, 2010

Ou um dos grandes livros de William Kennedy, já que foi com “Ironweed”, e não com “O grande jogo de Billy Phelan“, que ele ganhou o Pulitzer de 1984.

Falar, agora, de “Billy Phelan” - que é como estou chamando o romance, afinal, sou já quase íntimo dele - é um tanto perigoso, porque estou chegando agora na metade e tenho pretensão de resenhá-lo em breve. Portanto, vou falar o mínimo possível. Este post é só uma indicação superficial de leitura, para o caso de alguém aí passar por uma livraria e poder folheá-lo.

Aliás, não vou falar nada. Apenas indicar, para quem se interessar, que leia o que saiu sobre o autor e o livro nos jornais e sites brasileiros nas últimas semanas (eu não li, para não me influenciar, mas saíram resenhas na Bravo!, no Estadão, no O Globo, acho que na Folha também, além de várias entrevistas com o autor), e também um texto do Daniel Piza que figura na quarta capa do romance (que não tem orelhas). O livro é de capa dura e nela há uns altos relevos em formato triangular que deixam a edição ainda mais especial e bonita.

Quem tiver Twitter e blog pode, também, começar uma campanha para a Flip trazer o Kennedy para o Brasil, em agosto. Capaz de já o terem convidado e tudo, mas nunca se sabe. Dentro de alguns meses sai “Ironweed” por aqui, e, depois, “Velhos esqueletos”.

Ah, e quase ia me esquecendo: segunda-feira postarei aqui no blog as duas primeiras páginas do livro. Até lá.