Entretantos no site da Bravo!

April 8th, 2010

Acho que nem preciso dizer o quão orgulhoso estou, né?

A partir de hoje o Entretantos - ou ao menos a parte “cultural” dele - estará no site da revista Bravo!.

Isso significa que o Entretantos, que me acompanha há anos e já passou por dois endereços diferentes, ficará restrito a posts mais pessoais, ao aviso de eventuais publicações de textos meus por aí etc. Comentários sobre filmes, livros e música serão publicados no seguinte endereço:

http://bravonline.abril.com.br/blogs/entretantos/

Conto com a presença de vocês por lá e peço também que vocês me deem uma ajuda na divulgação do novo endereço.

Um abraço a todos!

Dicas úteis para uma vida fútil, de Mark Twain

April 6th, 2010

* Texto publicado originalmente no blog Paralelos, lááá em 2006. Reproduzo aqui sem alteração alguma, de modo que algumas falhas do texto ficarão à mostra. Não tenho vergonha delas.

Quanto melhor o livro, mais complicado escrever sobre ele. Não sei se com os críticos é assim, mas comigo, mero “recomendador” de livros, é.

A responsabilidade é maior, creio eu. Um texto mal escrito pode espantar leitores, ao invés de fazer com que eles procurem a obra, se interessem por ela. Afinal, é essa a intenção de uma resenha: fazer com que o leitor procure o tal livro, folheie ele em alguma livraria, busque informações na internet, procure um amigo que tenha a obra para emprestar.

(Se seu amigo for como eu, desista. Ele inventará mil motivos para não emprestar o livro).

Ainda mais se ele for “Dicas úteis para uma vida fútil” (Relume Dumará, 224 págs.), de Mark Twain. Com o subtítulo de “um manual para a maldita raça humana” é um livro imperdível.

Poucos livros me impressionaram pelo projeto gráfico. Antes desse, só “O amor esquece de começar”, do Fabrício Carpinejar. Mas a Relume Dumará realmente teve um cuidado especial com esta obra de Twain. O livro é muito bonito, e muito bem acabado. Nota-se que houve um enorme cuidado em sua edição. A capa é bonita e o livro é recheado de fotos de Mark Twain, além de fac-símiles de manuscritos do autor e de páginas de jornais nos quais saíram seus textos.

Pegando o gancho, os textos reunidos em “Dicas úteis para uma vida fútil” são cartas, trechos de discursos de Mark Twain e escritos autobiográficos, como diz a orelha, e que eu prefiro chamar de crônicas.

Alguns desses textos são curtos, e posso até transcrever um inteiro aqui, como aperitivo:

“Desejo de Natal (publicado no New York World em 1890)
Ao editor do The World:
Meus calorosos votos e imensas esperanças natalinas de que todos nós (os da alta, os da baixa, os ricos, os pobres, os admirados, os desprezados, os amados, os odiados, os civilizados, os selvagens) possamos nos reunir em eterna paz e felicidade (exceto o sujeito que inventou o telefone).
Mark Twain
Hartford, 23 de dezembro.”

Em todos os textos há, no mínimo, a informação do ano em que ele foi publicado. Alguns têm a data exata, outros vêm acompanhados de uma pequena introdução, explicando como surgiu o tal escrito.

Mark Twain, ou Samuel Langhorne Clemens – seu nome de registro – não teve uma vida fácil – ficamos sabendo disso na introdução do livro. Mas nem por isso deixou de ser um homem bem humorado. Como quando dá dicas de como se comportar em um velório (“Não leve seu cachorro”), ou quando debocha de Benjamin Franklin (para depois se render a seus ensinamentos, que são passados de geração para geração nos Estados Unidos) e quando deixa um aviso ao próximo ladrão que tentar roubar sua casa, dizendo que “esta casa só tem baixelas de alumínio, agora e sempre” e pede “Por favor, feche a porta ao sair.”

Alguns dos textos presentes em “Dicas úteis para uma vida fútil” são inéditos. Outros, estavam fora de catálogo há décadas.

Eu, que não tinha lido nada ainda de Mark Twain, me diverti bastante com as palavras deste que é “a mais conhecida voz literária americana no mundo”, como diz a orelha do livro.

A verdade (?) sobre os escritores

April 4th, 2010

“(…) escritores tendem a ser piores de cama do que a média dos homens: mais broxas, mais ejaculadores precoces, além de mais inseguros, mais ciumentos, mentirosos, desleais, descuidados, caspentos, fedidos, barrigudos, egoístas, frios, estúpidos, babacas… Tudo aquilo que os homens em geral costumam ser, escritores têm tendência a ser um pouco mais.”

Trechinho legal de um dos contos de “Sobrescritos“, de Sérgio Rodrigues, que comecei a ler enquanto espero dar a hora da corrida de hoje.

Educação (An Education)

April 2nd, 2010

Foi publicado recentemente no Brasil o roteiro do filme “Educação”, escrito/adaptado pelo escritor Nick Hornby, que, por sua vez, é muito conhecido por seus livros adaptados para o cinema, como “Alta fidelidade” e “Um grande garoto”.

Educação” é um belo filme. Fala sobre anseios e decepções da jovem inglesa Jenny, na década de 1960. Ela está terminando o colegial e é pressionada pela família e pelo colégio para ingressar numa boa universidade - no caso dela, Oxford - por ser, aparentemente, a melhor aluna da escola. Mas eis que Jenny conhece David, um homem alguns anos mais velho - David tem 30 anos ou mais, a idade não é especificada no filme -, que começa a lhe tirar um pouco da vida certinha e regrada que vivia até então. Eles passam a ir a bares, concertos, fazem viagens - vão, inclusive, a Paris, cidade que Jenny ansiava muito por conhecer. Tudo era alegria até o dia em que, por acaso, Jenny descobre que David não é exatamente como ele demonstrava ser. A essa altura, Jenny perdeu e deixou de lado coisas importantes de sua vida, algumas delas irrecuperáveis.

A história do filme é ótima, apesar de o enredo não ser nada raro em filme algum. Um jovem que pensa estar ganhando o mundo quebra a cara e aprende uma lição, ponto. Mas “Educação” tem uma série de diferenciais - ótima trilha sonora, direção pra lá de competente, roteiro sem “buraco” nenhum -, sendo o maior deles as atuações. Carey Mulligan, que interpreta Jenny, faz o seu papel de maneira brilhante. Ela é simplesmente sensacional, nesse filme. Qualquer coisa perto da perfeição. Peter Sarsgaard, o David (se você assistiu a “Plano de voo”, com Jodie Foster, vai lembrar dele: é o vilão do filme), também tem uma atuação digna dos mais altos elogios, embora ele seja ofuscado por Jenny. Dominic Cooper, amigo de David, tem um papel menor mas sua atuação é também excelente. O filme conta, ainda, com participações especialíssimas de Alfred Molina, como pai de Jenny, e de Emma Thompson, diretora do colégio em que Jenny estuda, e que lhe alerta para as possíveis decepções e perdas que ela pode ter com o relacionamento que tem com David.

Baseado nas memórias da jornalista inglesa Lynn Barber, o roteiro de “Educação” não é, como eu pensava, uma obra original de Hornby, mas sim uma adaptação de um ensaio da jornalista publicado na revista Granta. Posteriormente, Barber ampliou esse ensaio, deu-lhe o mesmo nome (”An Education”), e publicou-o como livro. É curioso, portanto, o fato de não ter sido publicada aqui a obra de Barber. Ou não tão curioso assim, já que Lynn Barber não tem, no Brasil, o apelo que tem Nick Hornby. A publicação do roteiro em vez das memórias foi uma mera decisão mercadológica. Fica o desejo de a Granta em português, editada pela Objetiva, publicar ao menos o ensaio da jornalista que deu origem às memórias, em uma de suas próximas edições.

Resenha de O grande jogo de Billy Phelan

April 2nd, 2010

É o que vocês vão encontrar hoje, na minha coluna no Digestivo. Confiram lá!

Os descaminhos da crítica literária brasileira

March 31st, 2010

* O texto abaixo, de minha autoria, foi publicado na edição de julho de 2009 do Suplemento Literário de Minas Gerais.

Passei dias e dias pensando em como escrever este texto. Meu objetivo era mostrar que a crítica literária brasileira está em crise. Depois, pensando melhor, cheguei à conclusão de que a situação não é tão desesperadora. Não há uma crise, mas sim uma proliferação de pessoas incompetentes e/ou interesseiras praticando a crítica literária, pessoas que não têm nenhum comprometimento com a literatura.

Quando digo “crítica literária” não me refiro apenas às análises de livros que encontramos em jornais e revistas. Coloco no mesmo balaio – e sei que vai haver quem proteste – blogs e sites que se dedicam a comentar literatura. Mas, se generalizo, não é senão porque, de uns tempos para cá, todo indivíduo que leu meia dúzia de clássicos tomou a liberdade de se dizer crítico literário.

Voltemos à “crise”. “Normalmente as resenhas são feitas no interesse dos editores e não no interesse do público”, diz Arthur Schopenhauer em “A arte de escrever“. Foi assim por um bom tempo, e, ainda que isso tenha diminuído bastante, continua sendo. Com uma pequena diferença: hoje o interesse é, quase sempre, pessoal: do próprio “crítico”. Não há mais, salvo raras exceções, críticos preocupados em expor sua verdadeira opinião sobre determinada obra. Hoje boa parte dos resenhistas utiliza critérios abomináveis quando vão escrever a respeito de algum livro: amizade (ou inimizade) que têm com o autor criticado e/ou ter um original na fila de espera da editora que publicou o livro a ser resenhado são dois exemplos.

Dessa forma, lemos críticas favoráveis a livros ruins e desfavoráveis a livros bons. É certo que uma resenha não tem mais o “poder” que tinha antes. Do final do século XIX até meados do século XX (talvez um pouco mais, até a década de 70), um crítico, a depender de quem ele fosse, poderia definir o destino de um livro. Mas não é porque hoje uma resenha não tem tal influência que podem os críticos utilizar seus textos para adubar anseios pessoais e profissionais.

No ensaio “O ideal do crítico“, Machado de Assis faz uma belíssima reflexão sobre a crítica literária. Mais que refletir, Machado mostra os caminhos que levam a uma crítica justa, coerente, sincera e independente: “A crítica útil e verdadeira será aquela que, em vez de modelar as suas sentenças por um interesse, quer seja o interesse do ódio, quer o da adulação ou da simpatia, procure reproduzir unicamente os juízos da sua consciência”. Críticos assim não têm muito espaço na imprensa, é verdade, e muitas vezes acabam desistindo da atividade, tamanhas são as dificuldades enfrentadas e as restrições que lhes são impostas. Recorro, mais uma vez, ao ensaio de Machado, para mostrar quão difícil pode ser a vida de um crítico correto: “Com tais princípios, eu compreendo que é difícil viver; mas a crítica não é uma profissão de rosas, e se o é, é-o somente no que respeita à satisfação íntima de dizer a verdade”.

Eis o que deveria guiar todo crítico: a satisfação íntima de dizer a verdade, seja ela qual for. Alguns certamente dirão que a verdade não existe, e invocarão a máxima utilizada pelos relativistas, que dizem que tudo é relativo. Deixo-lhes, então, um trecho do livro “O rio que saía do Éden”, de Richard Dawkins: “Aponte-me um relativista cultural a 10 quilômetros de distância e lhe mostrarei um hipócrita. [...] Se você estiver voando para um congresso internacional de antropólogos ou de críticos literários, a razão pela qual você provavelmente chegará lá – a razão pela qual você não se esborrachará em um campo cultivado – é que uma multidão de engenheiros ocidentais cientificamente treinados realizou os cálculos corretamente”.

O argumento “tudo é relativo”, se é que se pode dizer que isso é um argumento, é divertido quando utilizado em algumas ocasiões (é uma excelente maneira de se irritar uma pessoa, aliás). Mas existem discussões nas quais essa frase não deve ser utilizada jamais. E alguns desses casos estão justamente dentro da literatura.

Existem obras que simplesmente são ruins. Podem ressuscitar George Orwell, um dos maiores críticos literários da história, colocar uma arma em sua cabeça e obrigá-lo a escrever uma resenha favorável sobre uma obra desprezível. Podem fazer um clone de Schopenhauer e torturá-lo para que escreva uma resenha elogiando uma obra de péssimo gosto. Muitos leitores seriam ludibriados, certamente. Afinal, Orwell e Schopenhauer estão acima de qualquer suspeita (mesmo tendo, ambos, errado em alguns julgamentos, como ocorre com todo crítico). Mas, ainda que sejam eles a elogiarem uma obra menor, tal livro não terá sua essência pobre e de baixa qualidade alterada. O pior que pode acontecer, se feita tal inversão de julgamentos, é justamente o leitor levar gato por lebre: comprar um livro ruim pensando que é bom, ou deixar de comprar um livro bom porque alguém o classificou como ruim. Pior ainda: o leitor pode começar a duvidar de sua própria capacidade de discernimento – ainda que a grande maioria dos leitores não tenha tal qualidade –, ou seja, ele pode deixar de folhear livros nas livrarias – em busca de alguma obra que lhe agrade – e, em vez disso, guiar-se apenas pelas listas de “mais vendidos”, que, salvo raras exceções, são compostas por obras irrelevantes. Prova disso é a quantidade de pessoas engabeladas pelos pseudocríticos e por essas listas de “mais vendidos” que existem por aí.

Mas por que obras ruins são publicadas, então? Ao contrário do que desejava Schopenhauer (”a grande maioria dos livros é ruim e não deveria ter sido escrita”), não é possível simplesmente ignorar as tais obras menores. Muitas delas são necessárias para sustentar o mercado editorial. No fim das contas, são os livros ruins que mais vendem. Essa talvez seja a única virtude deles, e é mesmo uma posição honrosa, desde que seus autores não tenham arroubos de arrogância e prepotência, achando-se os mais novos cânones literários.

Infelizmente, a camaradagem, o apadrinhamento, a inimizade são fatores que sempre estiveram presentes na literatura e sempre vão estar. Na verdade, tais características são visíveis em qualquer área da sociedade. É assim na política, é assim no trabalho. Tendemos a ser condescendentes com aqueles que estimamos e intolerantes com aqueles pelos quais não temos estima alguma. O que fazer, então, a respeito disso? Admitir e contentar-se com a situação? De forma alguma. Citando Cícero, Machado diz, ainda no seu “O ideal do crítico”: “É levantando as estátuas do teu inimigo que tu consolidas as tuas próprias estátuas”. Esse deve ser o pensamento de todo crítico: elogiar até os inimigos, se eles de fato merecerem. E criticar até mesmo os melhores amigos, se realmente não houver qualidade em suas obras.

No fim das contas, trata-se de uma questão de caráter. Somerset Maugham, nas suas “Confissões“, diz: “o grande crítico deve ser um grande homem”. Da mesma forma que, nas palavras de J.M. Coetzee, “o padrão ao qual todo romancista sério deve aspirar, mesmo sem a menor chance de chegar lá” é “o padrão do mestre Tolstói de um lado e do mestre Doistoiévski do outro”, o crítico sério deve almejar chegar a um patamar em que sua credibilidade seja ululante, sua honestidade um cartão de visitas e que sua sinceridade esteja estampada em cada texto que escrever.

No território da delicadeza, por Humberto Werneck

March 30th, 2010

* O texto abaixo, do jornalista e escritor Humberto Werneck, foi publicado originalmente no jornal Estado de Minas, em 7 de julho de 1991.

Há algo que me toca neste primeiro romance de Jaime Prado Gouvêa. Não é só a beleza da história, nem as delicadezas de que ela se tece, nem mesmo a dedicatória, que tem a generosidade adicional de me colocar ao lado de Murilo Rubião. Toca-me também, e muito, o que “O altar das montanhas de Minas” significa como fruto maduro numa trajetória de artista. Tenho saboreado o espanto de não poucos leitores diante da alta qualidade deste livro, como se tudo houvesse acontecido de uma hora para outra. Para mim não há surpresa. Tenho, afinal, 32 anos de Jaime Prado Gouvêa – o que significa que o acompanho desde o tempo em que ele celebrava paixões contrariadas com uma série de poemas ironicamente intitulados “As Corníadas”; desde o tempo em que, matando aula no Colégio Estadual, íamos descobrir na vadiagem do pátio que “Le Lac”, de Lamartine, não era aquele amontoado de palavras que dona Aline, a professora de francês, nos enfiava goela abaixo, depois de esvaziá-las de qualquer resquício de poesia.

O que quero dizer é que, por esses anos todos, pude testemunhar o desenvolvimento de uma obra que se constrói sem solavancos, como que obedecendo a um projeto obstinado – projeto cuja chave o autor parece ter dado no título de seu primeiro livro, “Areia tornando em pedra”, coletânea de contos publicada em 1970: um processo de solidificação. Numa leitura que ele talvez não autorizasse, vejo aí, também, o propósito de remar contra a corrente, numa espécie de radical subversão da geologia – não é a pedra que se faz areia, e sim o contrário.

Remar contra a corrente, em todo caso, é o que Jaime Prado Gouvêa vem fazendo desde que se descobriu escritor, lá no tempo das “Corníadas”, com uma determinação cabeçuda de que eu próprio recolhi amostras. O título do primeiro livro, por exemplo, me pareceu pouco feliz do ponto de vista comercial, e cheguei a fazer esse reparo num artigo. Não houve jeito de convencer Jaime a trocá-lo por outro mais convidativo. A história se repetiria vinte anos depois, quando ele me despachou de Belo Horizonte os originais de “O altar das montanhas de Minas”. Inutilmente argumentei que pouca gente se deixaria seduzir pelo verso pinçado na letra do hino de um congresso eucarístico perdido no tempo. Como no caso de “Areia tornando em pedra”, ele tinha posto o título que encerrava com mais exatidão a ideia do livro (disto não há dúvida), e nem quis conversa.

Tenho o maior respeito por sua integridade de artista, que o impediu de embarcar, como tantos outros, nas sucessivas marés literárias das últimas três décadas. Quem folhear seus quatro livros (com uma escala mais demorada, por favor, nos contos do irretocável “Fichas de vitrola”) vai verificar que Jaime Prado Gouvêa passou ao largo, por exemplo, de uma certa literatura “engajada” ou “participante” que andou provocando arrepios cívicos nos menos exigentes num bom pedaço das décadas de 60 e 70. Também não embarcou no realismo fantástico de carregação trazido na enxurrada do cacofônico boom da literatura hispano-americana. Não se deixou, por fim, contagiar pela facilidade do texto jornalístico, escola posta em moda graças a uma assimilação equivocada de Ernest Hemingway.

Havia, aliás, naquele tempo, e ainda há, no Fla-Flu bocó das artes nacionais, um antagonismo a dividir adeptos de Hemingway e de F. Scott Fitzgerald. Jaime Prado Gouvêa não chegou ao extremo de reduzir o primeiro a um jornalista pautado pela imaginação, como houve quem fizesse – mas seu coração é intransigentemente fitzgeraldiano. Avesso ao preto-no-branco, ao chapado, ao unidimensional, ele pertence, de fato, a essa rarefeita linhagem dos que trabalham a filigrana, os meios-tons. Escritores que, por isso, dificilmente poderiam ser transpostos para outra linguagem que não a das palavras, sem que houvesse irremediável perda de substância. Por mais que se tenha tentado, e se tentou bastante, ninguém, até hoje, conseguiu levar ao cinema as delicadas nuances que fazem o melhor da obra de Scott Fitzgerald. Fico pensando no enorme desafio que seria tirar um bom filme, também, de “O altar das montanhas de Minas”, sem reduzi-lo a uma bela história e apenas isto.

Há poucos dias, num jornal de São Paulo, sentenciava um resenhista a propósito deste romance, depois de atravessá-lo com uma sensibilidade de cupim: “Jaime Prado Gouvêa até que escreve direitinho”. Pudesse a literatura brasileira ser feita de autores que escrevem assim tão direitinho.

***

Mais sobre “O altar das montanhas de Minas”:

- Artigo de Sebastião Nunes no O Tempo
- Resenha de Duílio Gomes no Jornal do Brasil

Armando Nogueira

March 29th, 2010

Somente há alguns anos pude ter algum contato com o trabalho do jornalista Armando Nogueira, que faleceu hoje pela manhã. Na época tínhamos TV a cabo e eu acompanhava bastante o SporTV, canal no qual Nogueira volta e meia aparecia como convidado especial de algum programa, sempre em participações brilhantes.

Era enriquecedor vê-lo em ação. Não raro lembrava de alguma história futebolesca deliciosa, ou dalgum “causo” dos bastidores do jornalismo. Lembro dele contando histórias maravilhosas envolvendo Nelson Rodrigues e Otto Lara Resende, por exemplo.

Fiquei tão admirado pelo Armando que fui procurar na internet algum livro dele, ou sobre ele, para ler. E cheguei a encontrar, mas acabei não comprando, sabe-se lá por quê. Pensei, ainda, em tentar contactá-lo, quem sabe conversar com ele por email, entrevistá-lo, conhecê-lo, escrever um perfil do grande Armando Nogueira. Mas as limitações geográficas e financeiras, que me impediriam de fazer o que eu realmente gostaria, que era conhecê-lo pessoalmente, acabaram por me fazer desistir até mesmo de tentar um contato virtual.

E hoje Armando Nogueira se foi. Com ele, boa parte da memória brasileira vai junto. A velha guarda vai indo embora, e infelizmente a juventude não está sabendo preservar o legado desses monstros que participaram de momentos decisivos da história do Brasil. Armando, por exemplo, eu li em algum lugar, desafiou a cúpula da rede Globo uma certa vez, o que acabou de custando, de certa forma, o emprego: foi afastado de suas funções e aposentado.

Um exemplo de seriedade e comprometimento difícil de encontrar hoje. Em qualquer lugar.

***

Uma bela entrevista com Armando Nogueira, no jornal Plástico Bolha, que descobri hoje.

***

Hoje seria postado aqui um texto de outro grande jornalista, o Humberto Werneck. Por motivos óbvios, o texto será postado amanhã.

Fiz um Tumblr

March 28th, 2010

Acabei me rendendo ao Tumblr, depois de passar meses (ou anos, sei lá) ignorando a ferramenta.

Estou gostando bastante de lá. É bem mais simples e rápido de postar. Além do mais, estou adorando não precisar colocar títulos nos posts.

Este blog aqui deve começar a ter uma outra “cara”. A conferir.

Aí vai o endereço do meu Tumblr, que não é “entretantos” também por já ter alguém usando esse nome.

http://sobretudo.tumblr.com/

Ah, e só pra criar expectativa: amanhã vou reproduzir aqui um texto do jornalista e escritor Humberto Werneck.

Antes que recolham!

March 26th, 2010

Corram para a banca de revista mais próxima e comprem a Época Negócios deste mês de março. A matéria de capa é sobre as mudanças no mercado editorial causadas pelos e-readers. Matéria grande, fizeram entrevistas com gente muito boa (Jeff “Amazon” Bezos, Ruy “Estadão” Mesquita, Luiz “Cia das Letras” Schwarcz e outros). Esta edição, que comemora o aniversário de 3 anos da revista, teve como editores convidados o Pedro Moreira Salles (do Itaú/Unibanco) e Horácio Lafer Piva (ele eu não conhecia, mas pra ter sido convidado só pode ser muito competente). E tem mais coisas legais além da matéria de capa. Tem uma sobre arte contemporânea, por exemplo. Enfim, pelo que vi aqui - não li a revista inteira ainda, só alguns trechos -, o pessoal caprichou.

Explico o título do post: a revista pode começar a ser recolhida das bancas a qualquer momento pelas distribuidoras. Acho que vocês sabem como funciona o processo, mas não custa explicar: antes de a nova edição de uma revista chegar às bancas, a edição anterior é recolhida e (teoricamente) devolvida à sua respectiva editora. Como estamos no fim de março, pode ser que esta edição da Época Negócios seja recolhida nos próximos dias.

Além disso, há o risco de a revista acabar na banca, como parece ter sido o caso da Bravo! deste mês, que fui comprar e não encontrei em nenhuma das duas bancas que tem aqui perto.