Archive for May, 2007

A infeliz orelha

Wednesday, May 30th, 2007

Quando achávamos que o fim da Guerra Fria marcava o “fim da história” e a humanidade enfim viveria em paz, o atentado terrorista de 11/9 - o maior atentado terrorista de todos os tempos - mergulhava o mundo em perplexidade.

O trecho acima é o início da orelha de “O vulto das torres” (que chegou aqui ontem), do jornalista americano Lawrence Wright, um dos convidados da Flip deste ano. O motivo de eu falar dela aqui é o seguinte: fiquei estupefato ao ler “e a humanidade enfim viveria em paz”.

Logo depois da Guerra Fria começou a Guerra do Golfo. Sem contar outros inúmeros conflitos internos em não sei quantos países. O conflito entre israelenses e palestinos tem décadas. E as guerras civis em países latino-americanos? “Enfim viveria em paz”? Jamais.

Sei que estou sendo chato, mas uma frase dessas não poderia entrar na orelha. Ainda mais na orelha desse livro, vencedor do Prêmio Pulitzer de 2007 na categoria não-ficção. Quem escreveu a orelha deveria ter tomado um pouco mais de cuidado.

Outra coisa que me incomodou nesse trecho foi ”o atentado terrorista de 11/9 - o maior atentado terrorista de todos os tempos”. Eu não sou nenhum gênio das letras, e não há nada de errado no trecho, mas eu tentaria evitar a repetição tão próxima da expressão ”atentado terrorista”. Só uma questão de gosto mesmo, sei lá. Poderia ser “o atentado terrorista de 11/9 - o maior de todos os tempos”, não sei… Mas aqui já é chatice demais minha.

***

Estou cada dia mais interessado em História. Em especial História Contemporânea. Mais especificamente na História das Guerras. E em anos-chave de nossa nossa História. (Repeti “História” demais, né? Mas isso aqui não é uma orelha de livro da Companhia das Letras, é só um postzinho cheio de marra e birra.). É uma pena não poder ler e saber tudo sobre o assunto. Não sei nada sobre nada, mas vou começar a ler mais sobre. A começar por “O vulto das torres”. Só não sei quando.

Fotografia 3×4

Sunday, May 27th, 2007

Quem nunca ouviu Belchior tá em tempo ainda. Estou ouvindo uma coletânea dele já há mais de uma hora, repetindo algumas músicas. Abaixo a letra de uma delas, uma de minhas prediletas.

Belchior - Fotografia 3×4 

Eu me lembro muito bem do dia em que eu cheguei
Jovem que desce do norte pra cidade grande
Os pés cansados e feridos de andar légua tirana
E lágrimas nos olhos de ler o Pessoa
e de ver o verde da cana

Em cada esquina que eu passava
um guarda me parava, pedia os meus documentos e depois
sorria, examinando o três-por-quatro da fotografia
e estranhando o nome do lugar de onde eu vinha.

Pois o que pesa no norte, pela lei da gravidade,
disso Newton já sabia!, cai no sul grande cidade
São Paulo violento, corre o rio que me engana
Copacabana, zona norte
e os cabarés da Lapa onde eu morei

Mesmo vivendo assim, não me esqueci de amar
que o homem é pra mulher e o coração pra gente dar,
mas a mulher, a mulher que eu amei,
não pôde me seguir, não
Esses casos de familia e de dinheiro eu nunca entendi bem

Veloso, o sol não é tao bonito pra quem vem
do norte e vai viver na rua
A noite fria me ensinou a amar mais o meu dia
e pela dor eu descobri o poder da alegria
e a certeza de que tenho coisas novas
coisas novas pra dizer
A minha história é, talvez,
é talvez igual a tua, jovem que desceu do norte
que no sul viveu na rua
e que andou desnorteado, como é comum no seu tempo
e que ficou desapontado, como é comum no seu tempo
e que ficou apaixonado e violento como você
Eu sou como você. Eu sou como você. Eu sou como você
que me ouve agora. Eu sou como você. Como você.

Até quando, meu Deus?

Saturday, May 26th, 2007

Seus artigos. Eternamente se preparando para tornar-se escritor, eternamente começando, em pouco seria tarde, não mais teria direito de escrever asneiras, teria de começar com uma obra-prima. Não depois que lera “Guerra e Paz”. Jamais nenhum romancista seria capaz de escrever algo de mais completo, e no entanto ninguém deveria ambicionar menos. A literatura se dividia em duas partes: antes e depois de “Guerra e Paz”. Isso era fácil de dizer, tudo na vida se dividia em antes e depois; antes e depois de casar, antes e depois de amar, antes e depois de escrever. A própria literatura: antes e depois de Proust, de Kafka, de Joyce… Para um escritor o importante não era antes nem depois, mas durante. Colocar-se naquela postura de que vai escrever - eis tudo, o resto era fácil. Quando iria ele, afinal, levar sua vocação a sério, começar?”

Já postei aqui esse trecho de “O encontro marcado”. Mas é sempre bom reler. Mesmo que ele acabe comigo.

Mais sobre a crítica

Friday, May 25th, 2007

Todo crítico tem o direito de gostar ou não de determinado livro, mas ele não tem o direito de falar mal de uma boa obra apenas pelo fato de não ter gostado dela. Se o crítico não souber distinguir o que é bom e o que é ruim e separar isso da questão “gosto”, ele está perdido. Nem deveria fazer crítica, aliás.

Ainda bem que até o momento não tive a necessidade de falar mal de um livro. Tenho tido sorte com minhas leituras, muitas delas escolhidas de maneira totalmente anárquica, sem critério concreto algum (isso é assunto para outro texto, aliás). Se bem que tem um autor que está na minha estante só aguardando o tempo certo de eu ler os livros dele e falar mal. Porque esse realmente eu acho que é obrigação minha avisar a todo mundo que não presta.

Trecho da minha mais nova coluna no Digestivo.

***

E agora sair já não se trata de ter mais tempo. É uma questão de sanidade mental.

Até o dia em que o cão morreu

Thursday, May 24th, 2007

Não havia nada de errado com aqueles sonhos, mas eu duvidava que um dia eles pudessem se tornar realidade. Isso eu não dizia pra ela, claro. Mas exatamente quanto da vida ela estaria disposta a sacrificar com um trabalho que a fazia sentir-se humilhada, conviver com gente que não suportava, passar semanas inteiras dormindo mal? Todos os sonhos dela estavam marcados pra dali a três, cinco, dez anos. Nenhum deles valia pra agora, pro dia em questão. Me dava agonia ver alguém se preparando constantemente pra começar a viver. Parecia bem mais adequado permanecer exatamente onde eu estava, aceitando que minha vida era aquilo mesmo.

Quem fala é o protagonista de “Até o dia em que o cão morreu“, novela de Daniel Galera, relançada recentemente pela Companhia das Letras. A novela (tem 99 páginas, pra mim é novela, mesmo a orelha dizendo que é romance; pode o papa dizer que é romance, mas pra mim não é) foi lançada em 2003 pela Livros do Mal, editora montada pelo Galera, pelo Daniel Pellizzari e pelo Guilherme Pilla.

Esse trecho me fez pensar nos últimos anos de minha vida, no meu presente e no meu futuro. Porque é assim que me sinto: me preparando pra começar a viver. Tudo que faço é por algum motivo, uma maneira de chegar mais perto de algum objetivo. É como se meu presente fosse de imediato transformado em passado, sendo este descartável e “esquecido” logo em seguida. Minhas ações são, digamos, voláteis, porque momentâneas, e logo substituídas por outras que, apesar de me levarem a outro lugar, são também rapidamente “esquecidas”. Entre aspas porque não esqueço, mas porque quase não dá tempo de pensar e lembrar. Tudo se atropela, e a única coisa que fica à minha frente é o futuro.

E a vida, afinal, não é mesmo isso? Não há como colocar em prática aquilo de “viver o aqui e o agora”. Digo, todos vivem o presente, todos aproveitam. Só não faz isso quem está morto ou vegetando. Mas existem aqueles que se prendem ao presente, e ficam admirando o momento. No mais das vezes, não tenho tempo pra isso. Cada minuto pra mim é importante e o momento decisivo pode chegar sem avisar. Se eu for me prender ao “aqui e agora”, esqueço do futuro. E eu sou do tipo que gosta de ter tudo - ou quase tudo - sob controle. Já disse uma vez, não sei se aqui ou se em outro lugar, mas tudo que eu faço tem um propósito. Tudo é de caso pensado. Bem, quase tudo. Existem certas “coisas” que simplesmente acontecem sem avisar (ainda bem). Voltando ao assunto, gosto de planejar bastante minhas ações. E fazer de uma o trampolim para outra. Isso não me impede de viver o presente. Me impede de colocá-lo numa moldura e ficar admirando, é verdade. Mas eu não sinto falta disso.

Foi-se o tempo

Tuesday, May 22nd, 2007

Foi-se o tempo em que eu acessava quase que diariamente os sites das grandes editoras, em busca de lançamentos de livros.

A página da editora que eu mais curtia visitar era a da Rocco, sempre com algum lançamento no mínimo interessante (pra mim, claro).

Entrei agorinha lá e vi que dois livros que eu aguardava saírem já saíram.

Um é o “DJ pessoal - Uma áudio ajuda“, do estimado e querido Dodô Azevedo, autor também de “Pessoas do Século Passado”, também publicado pela Rocco.

O outro é o romance “Indecisão“, do americano (?) Benjamin Kunkel, que o Daniel Galera indicou uma vez no blog dele, bem antes de saber que ele seria o tradutor do livro.

Espero tê-los em breve.

***

Foi-se o tempo também em que eu podia tocar minha guitarra. A pobrezinha está lá no meu quarto, encostada atrás da porta, fechada dentro da caixa, clamando por minhas mãos.

Os vizinhos agradecem o silêncio. Mas eu, não.

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Enviei sábado meus votos para o Portugal Telecom. Torço muito pelos cinco livros que indiquei, em especial por dois deles, mas todos os cinco merecem o prêmio. Espero que eles estejam entre os 50 finalistas livro mais citados, que é de onde vão sair os 10 finalistas. Se o meu preferido ganhar, maravilha.

***

Eu não sei por que diabos continuo comprando livros. Não vou ler nada tão cedo mesmo… Ontem comprei outro, e por motivos que nem mesmo eu saberia explicar ao certo.

***

E Romário fez o milésimo. O Diego queria ver um post meu sobre o gol, mas não tenho muito o que dizer. Eu queria ter falado sobre os goleiros idiotas que ficaram parecendo menininhas dizendo “ai, não quero levar o milésimo, ui ui ui”. Pô, levar o milésimo gol do Romário é uma honra. Eu, se goleiro, e se pudesse ter a chance de levar o milésimo, dava uma voadora no primeiro que entrasse na grande área, só pra dar a chance ao baixinho. Não tão voadora assim, pra não ser expulso. Antes de ele bater o pênalti, eu beijaria a bola. EU. E quando ele batesse, eu ficaria parado, só olhando pra redondinha. Tudo bem que ninguém fala direito do goleiro que levou o milésimo gol do Pelé, mas não importa. Eu aposto que ele contou pros netinhos “sabiam que o maior jogador do mundo, o rei do futebol, fez seu milésimo gol em mim, de pênalti? pois é, meus netinhos. vamos ver o VT pela milésima vez?”

Romário, o príncipe do futebol. Tá, eu sei de Garrincha, mas até ele respeita o Romário. Coisa que alguns goleiros bobalhões não fizeram. 

Ah, e eu chorei. Vi o milésimo gol três vezes e chorei, junto com o Romário.

Fui mexer em colmeia…

Sunday, May 20th, 2007

Eu não queria dar trabalho a ninguém, mas aí o Lucas comentou, o Diego comentou, eu repliquei, agora o Ed comentou e o Lucas também. Sendo que o Lucas ainda escreveu um post enorme no blog dele sobre o assunto.

Se você não tem idéia do que estou falando, leia o post “Em algum lugar longe daqui” e  tudo o que vier depois dele.

Eis o comentário do Ed:

Bom, concordo em parte com o que escreveu o Diego, mas faço umas observações: Oscar Wilde disse o “não há livros morais ou imorais, há livros bem ou mal escritos”, e ele tem toda razão. Percebi nessa discussão um certo imbróglio entre gosto pessoal e fato empírico (para ser chato). O que se gosta, discutir é besteira; há gente de muito mal gosto nesse mundo. Gosto do Guimarães, mas duvido que ele não estava inflamado de uma certa invejinha quando criticou Machado e (Deus!) Joyce; mas ele se pautava pela opinião, e tinha todo o direito de fazê-lo. Mas fatos, mes amis, são fatos, para aludir a Wittgenstein. Exemplifiquemos utilizando a música: funk e ópera. Há quem goste do primeiro, e o ache bom, etc. E há que deteste o segundo, ache maçante, chato, pomposo demais, gay até. Mas fato é: funk não é música; ópera é mais que música, é arte, é poesia (alou, Diego), é lirismo.

Já quando o Diego diz que só gosta do que é literatura, esse é um clássico tropeção temporal. Quem diz quando um obra é ou deixa de ser literatura? Os críticos? Não, o tempo. Hermann Hesse foi o Paulo Coelho da sua época, muito criticado, quase apedrejado, e hoje é o que é. Quando se acha um Ulysses, por exemplo, um livro ruim, a chance de o problema estar na cabeça do leitor são muito maiores que as possibilidades de toda uma geração estar equivocada.

Um abraço Rafael, Diego

O trecho em negrito resume mais ou menos o meu pensamento. 

Agora, o comentário do Lucas:

Oi Rafael,

Vou ver se escrevo um post-resposta lá no blog, mas queria só dar a minha primeira impressão: acho que o nosso ponto de discórdia é que você considera o consenso crítico como algo objetivo, ou pelo menos como algo de valor dificilmente questionável. O consenso crítico é que Machado é bom, e faz parte do papel do crítico ter a humildade de reconhecer esse consenso e de nuançar sua própria opinião. É isso?

Eu acho, por outro lado, que o consenso crítico é um agregado de opiniões individuais, e que opiniões individuais são intransferíveis. Ou seja, a opinião individual de quinhentas outras pessoas não pode mudar a sua opinião nem a minha. Você pode aceitar que o consenso crítico é que Machado é bom, mas para você Machado continuará sendo ruim.

Há outras questões interessantes que você e o Diego levantaram. Por exemplo, a diferença entre importância e qualidade (no caso do Forster), ou entre atender a requisitos formais e escrever bem (no caso do Baudelaire). Sou um pouco como você e acabo esquecendo dos posts que queria escrever depois de um tempo, mas vou ver se esse sai. Abraços, Lucas

E eu fiquei sem ter muito o que dizer. Porque o Lucas fala o seguinte, no post:

Como, então, criar um conceito de bom que vá além do gosto? Uma solução, ironicamente pouco popular, é a democrática: bom é o que a maioria acha que é bom; 50 milhões de fãs de Elvis não podem estar errados. (A frase que melhor desmonta essa idéia, e que eu li pela primeira vez numa coluna do Dapieve, é “50 bilhões de moscas não podem estar erradas: coma cocô.”) A solução que muitos preferem é a meritocrática: bom é o que uma certa elite do gosto acha que é bom - o tal consenso crítico. Mas a escolha de um grupo de pessoas para dizer o que é bom será sempre arbitrária, principalmente porque gostos são intransferíveis e dependem da biografia de cada um. O que é bom para um grupo de especialistas em literatura ou cinema pode não ser o que é bom para um espectador ou leitor casual. Cada um aprecia uma obra de arte com sua própria bagagem e suas próprias expectativas, e não sei como se pode argumentar que as bagagens e expectativas de alguns são superiores às de outros.

Eu poderia tentar encerrar a discussão e dizer que bom é aquele autor ou obra que foi objeto de estudos acadêmicos sérios. Mas não é tão simples assim, não dá pra encerrar a discussão com esse argumento.

Mas, para mim, bom é o que tem valor, o que foi feito com seriedade por uma pessoa séria. Picasso e Van Gogh não brincavam de desenhar. Machado de Assis e Lima Barreto não brincavam de escrever. Todos foram artistas preocupados com as mazelas de seu tempo, e as obras de todos eles refletem a angústia que sentiam. E são bons.

“Bom” não é “legal”. Em música, por exemplo. Tem muita banda que eu ouço que é “legal”. Mas nem toda banda que eu ouço é “boa”. Ninguém venha me dizer que Calypso é bom, que Tati Quebra Barraco é bom e por aí vai. Los Hermanos é bom. Muita gente não gosta, mas dizer que não é bom? Por que, então, que não é bom? Que prove, mostra por A+B que Los Hermanos não é bom. O Amarante toca mal? As composições são mal feitas? O Bruno não sabe tocar teclado? O Barba não bate bem na bateria? Se alguém provar algo do tipo, aí tudo bem, mas dizer que não é bom e não explicar o motivo, não dá.

Não sei, mas sinto que essa discussão não acaba nunca.

Outro trecho do Lucas:

Um crítico que explique porque não gosta de capítulos curtos nem de excesso de ironia e admira descrições de lugares e pessoas tem, para mim, todo o direito de declarar que não gosta de Machado de Assis.

Até aí, talvez Rafael concorde comigo. Mas ele poderia dizer que o fato desse crítico imaginário não gostar de Machado de Assis por bons motivos não nega a possibilidade que outros gostem de Machado de Assis - que Machado de Assis seja, para as pessoas com o gosto apropriado, bom.

Nesse ponto eu sou um pouco reacionário. E alguns vão me considerar exagerado. Qualquer um tem o direito de gostar do que bem entender. Mas no caso de Machado, por exemplo, ninguém pode dizer que ele não é bom. Direito tem, porque quem tem boca fala o que quer. Mas ninguém tem o poder de dizer isso. A não ser que o sujeito passe a vida inteira lendo Machado, artigos, livros, análises, teses e tudo mais sobre Machado, que leia toda a crítica literária possível sobre Machado e que se torne um Mestre dos Magos da teoria literária. Se um sujeito conseguir fazer isso, ele pode dizer que Machado é ruim. Sem isso, no way. Machado é bom. Ninguém tem o poder de contestar isso. Essa é a minha opinião.

E não se trata de abaixar a cabeça e aceitar o fato de que Machado é bom. Quem quiser e tiver inteligência para tanto, pode perfeitamente procurar falhas na obra machadiana - me restrinjo ao Machado porque foi o exemplo que usei no início, mas o pensamento serve para qualquer cânone, clássico e sinônimos outros. Se trata de ler o autor e reconhecer que ele é bom, por mais que não se goste dele. É o mínimo que se pode fazer, em casos assim. Alguns autores são bons, e ponto final. Não existem quem possa argumentar contra a qualidade deles. Machado, Dostoieviski, Kafka e por aí vai.

E agora, José?

Saturday, May 19th, 2007

E eu que pensei que nunca ia ter uma boa discussão aqui no blog. Não por culpa dos leitores, mas por culpa minha mesmo e também porque sei como é chato comentar em blog. Eu mesmo não gosto.

Mas no post “Os russos” já tem uns comentários legais e os dois últimos posts estão rendendo comentários bons também. Primeiro foi o Lucas, e agora o Diego foi quem comentou. Comentou tanto que acabou por transformar o comentário em um post, que reproduzo aqui.

Sobre teus dois últimos post, ô polemiquinha! Difícil responder, hein.

Baudelaire, quando publicou suas flores doentias, foi acusado por uma parte da crítica de ser imoral, embora fizesse versos impecáveis, formalmente achavam-no muito bom. Ou seja: a crítica reconhecia que era bom o livro, entretanto este não lhe agradava!

Pra mim, há uma questão muito mais difícil: até quando a moral interfere na apreciação do livro?

Tristão de Ataíde (é assim que se escreve?), no prefácio de Os Peãs, do Gerardo Mello Mourão, diz mais ou menos assim: a moral é “dever” e a literatura é “poder” (no sentido de possibilidades), é libertação. Tristão mais ou menos repete o “não há livros morais ou imorais, há livros bem ou mal escritos” e segue também o pensamento de Sartre em o O que é Literatura?.

Guimarães Rosa não gostava nem de Machado nem de Joyce. Ele tinha seus argumentos, bons argumentos e que se justificam em relação a sua obra, sua valoração de literatura. Mas deve-se levar em conta que Machado era até então o maior escritor brasileiro e Joyce o maior e mais inovador do século XX…

Eu realmente fico confuso. Pode até ser que eu esteja enganado, mas agora não me lembro de nada que seja bom e de que eu não goste. Mas noutros momentos me lembro de ter falado: “há coisas que são boas e coisas de que eu gosto”. Mas talvez disso já haja até alguns anos, agora não me lembro.

Estou meio Auerbach, somente é bom aquilo de que gosto. Em meu atual Paideuma não há nada que não me agrade, não há nada ruim. Se, um autor é muito descritivo e essa descrição não tem função literária, péssimo sinal, é ruim ou não tenho sensibilidade para perceber a iminente genialidade… E se eu não perceber como poderei gostar? E se eu não eu gostar como poderei achar bom??

Pensando-se exclusivamente em literatura: só é bom aquilo que é literatura, e eu só gosto do que é literatura.

Caso eu começasse a considerar livros como bons sem gostar, me sentiria um pouco formalista demais. Uma obra pode até ter toda uma construção formal e estrutural excelente, mas se não tiver aquela “coisa a mais”, aquilo que é a “poesia” e que nenhum crítico conseguiu definir,. Realmente acaba sendo subjetivo e inefável (mas compartilhável)…

Mais alguém?

O bom, o ruim (e crítico em cima do muro)

Friday, May 18th, 2007

O Lucas Murtinho comentou o seguinte no post abaixo:

Ao contrário de você, acho que não existe “bom” e “ruim” que vá além do gosto do crítico, ou de qualquer outra pessoa: gostamos do que é (para nós) bom e não gostamos do que é (para nós) ruim. No máximo, podemos fazer a diferença entre tipos de bondade ou ruindade: literário, popular, ambicioso, modesto, difícil, fácil. Mas a apreciação da qualidade em si é subjetiva.

Eu estou cansado pra caramba, a cabeça pesando e funcionando aos trancos, mas vou tentar responder. Porque se eu deixar pra outro dia, já era, esqueço mesmo, ou dá preguiça. Nada com o comentário ou o assunto, é que sou assim mesmo.

Machado de Assis. É bom? É. E quem é doido de dizer que não? Mas Machado é bom. Eu gosto dele? Não. Mas vou dizer que é ruim? Não.

João Ubaldo Ribeiro. É bom? É. Eu tentei ler dois romances e não gostei. Vou dizer que ele - no caso, os romances - é ruim? Não. Eu lá sou doido?

É disso que estou falando. Todo aquele que faz crítica deve ter o mínimo de bom senso, e deve entender que certas coisas são mesmo boas, que por mais que ele não goste, ele não pode chegar e dizer “ah, isso é ruim”. Uma vez vi alguém dizer que Machado de Assis escreve mal. Um dos maiores absurdos que já li, aliás.

Mas é óbvio que o “gostar” pode interferir no juízo de valor do crítico. Ele pode gostar muito de um livro, saber que não é tão bem escrito, mas fazer uma resenha elogiosa sobre ele. A depender de como ele faça isso, tudo bem. Assim: eu tenho ali um livro do Philip Roth pra ler, o primeiro dele, “Adeus, Columbus”, lançado recentemente pela Companhia das Letras. Comecei e tive que interromper a leitura. Mas gostei muito do que li até agora, apesar de achar que o jovem Roth quis mostrar ao leitor que ele tinha/tem muito conhecimento. O excesso de detalhes chega a atrapalhar a leitura em certos pontos e a novela fica chata, em alguns trechos.

Eu não gosto de detalhes. Digo, eu não gosto de descrições longas e detalhistas. Mas aprecio bastante quem as consegue fazer, porque fazê-las bem ajuda bastante. E Roth faz isso bem. Só que eu não gosto. Mas eu gostei do tema da novela - são seis, se não me engano, no livro, estou me referindo à primeira - e passei o olho pelas outras e percebi que não tem como eu não gostar do livro. Apesar de eu não gostar de certos maneirismos dele.

Meses atrás li “Um quarto com vista“, romance de E. M. Forster. O livro é chato até a metade. É engraçadinho, mas muito chato, a leitura é arrastada. Só que não posso dizer que o livro não é bom. O romance é bem escrito, tem lá suas falhas, mas é bem escrito, e é de uma importância sem tamanho, porque há no livro referências ao movimento feminista, que não tinha ainda força alguma, há no livro críticas à burguesia inglesa e há também uma leve insinuação ao homossexualismo, que viria a ser tema de um outro romance de Forster, décadas depois. “Um quarto com vista” é um livro bom, e pra alguém provar que não é vai ter que suar bastante, mas eu não gostei tanto assim.

O que eu posso fazer no caso do Roth e o que eu fiz no caso do Forster? Simples: deixar claro que, no primeiro caso, eu gostei do livro, apesar de ter achado enfadonho em algumas partes, e exaltar a importância do segundo, deixando de lado o meu gosto, que foi o que eu fiz, e talvez faça com o livro do Roth, se é que vou resenhá-lo algum dia.

Escrevi bem mais do que achei que iria, e nem sei se me fiz ser entendido. Me digam depois. E Lucas, obrigado pela deixa.

Em algum lugar longe daqui…

Friday, May 18th, 2007

Dei meu pitaco em uma acalorada discussão por email. Abaixo alguns trechos da minha mensagem. Separei o que dá pra entender sem precisar entrar num contexto e tal.

(…) mesmo não me considerando um crítico, eu resenho livros, e isso é fazer crítica. Ou não?

O fato é que eu, graças a Deus, escolho os livros que eu quero resenhar. Melhor: eu só resenho o que eu gosto. Eu não resenho livros que me foram empurrados - até porque, ninguém me empurra livro. E quando eu acho um livro ruim, me perdoem, vai doer em alguns, mas eu encosto o livro.

Qual o mal de encostar um livro? Colocar ele de lado e nunca mais ler? Não vejo mal algum. “Ah, mas você tem que dizer que o livro é ruim, proteger o leitor!” Não sou Capitão Planeta, meu nome é Rafael e eu gosto de recomendar leituras. Mas é inegável que o crítico deve, sim, meter o pau quando achar que deve. Até o momento, não tive essa necessidade. Mas tem um autor que está na minha estante, aguardando só o tempo certo de eu ler os livros dele e falar mal. Porque esse realmente eu acho que é obrigação minha avisar a todo mundo que não presta.

(…)

O papel do crítico, como diria alguém, é a folha do caderno, ou a tela docomputador. Ele que seja justo e faça o que for justo. Elogiar quem merece, falar a verdade de quem não tem talento. E ponto.

P.S.: Como uma amiga já entendeu o que eu disse de uma outra maneira, vou escrever o seguinte: o que eu quis dizer com “quando achar que deve” é justamente esse último período escrito acima: “Elogiar quem merece, falar a verdade de quem não tem talento.”, e não escrever uma crítica baseada apenas no próprio gosto. Todo crítico tem o direito de gostar ou não de determinado livro, mas ele não tem o direito de falar mal de uma boa obra apenas pelo fato de não ter gostado dela. Se o crítico não souber distinguir o que é bom e o que é ruim e separar isso da questão “gosto”, ele está perdido. Nem deveria fazer crítica, aliás.