Archive for November, 2007

A luz que vem de fora

Thursday, November 29th, 2007

Sei que não sou perfeito. Ninguém é. Todos têm seus defeitos, e isso é normal. O meu é não querer conviver sob o mesmo teto com ninguém. Quando um homem e uma mulher resolvem morar juntos, vêm à tona detalhes que antes eram escondidos - propositalmente ou não. Isso não é uma desculpa de alguém que não quer se comprometer com alguém. É a mais pura verdade.

Eu até tentei. Mas não deu certo. Aconteceu assim:

Um belo dia, resolvemos morar juntos. Isso foi em julho. O casamento seria realizado em dezembro do ano seguinte. Nos primeiros meses convivendo juntos tudo correu bem. Mas, aos poucos, os detalhes tão pequenos de nós dois, com o perdão da citação deveras piegas, mostraram-se maiores do que a paciência para aturar as nossas particularidades, digamos assim.

O meu acordar tarde nos fins de semana a incomodava, pois ela preferia sair cedo para resolver as pendências de casa. Meu sono, que só se apresentava altas horas da madrugada, também não a agradava. Ela não conseguia dormir tranqüila sabendo que eu estava na sala vendo tv. Coisas.

Dela vinha a rigidez e a cobrança, pois queria que eu me adequasse às convenções sociais. As besteiras que tentei toda a vida resistir, tais como fazer a barba, cortar periodicamente o cabelo, comparecer a comemorações e reuniões de amigos, entre outras coisas que não gostava de fazer. A mim me bastava ficar em casa, fazer o deve ser feito quando se pode fazer, sem pressa, sem horários marcados. Podem me chamar de anarquista, mas não chega a tanto.

O reflexo do que nós somos pode ser visto no que fazemos. Ela, professora de colégio, eu, escritor. Para ela, sou o típico aluno irresponsável. Me disse isso uma vez. Ou várias vezes, já nem sei mais.

E o reflexo de todas essas coisinhas que começaram a virar motivo de antológicas discussões, pôde ser visto em uma manhã, que aparentava ser como qualquer outra. Ela sairia cedo de casa, e eu ficaria deitado até perto do meio-dia, como sempre.

Na noite anterior, tínhamos discutido mais uma vez. Eu deixara pra fazer, em cima da hora, uma compra que ela pedira há dias. A demora não a prejudicou em nada, mas, mesmo assim, ela não deixou de reclamar. De nada adiantou dizer que ela estava fazendo tempestade em copo d’água e que nada do que estava falando tinha lógica, pois tudo estava comprado e ela não precisava de nada antes daquele dia. Ela retrucou dizendo que eu poderia não ter achado os produtos. O que ela ouviu foi o seguinte: “se eu não achasse, eu iria até no inferno comprar isso, pra você não me encher o saco”.

E fui dormir. No quarto, é claro. O sofá é para os fracos.

Na já citada manhã seguinte, ela não foi para o colégio. Ficou meio-deitada, encostada na cabeceira da cama.

Se a conheço bem, ela ficou roendo as unhas por um bom tempo. E depois de quase comer os próprios dedos, abraçou as pernas e ficou olhando para a janela aberta e descortinada. Isso para forçar o meu acordar. A luz vinda de lá sempre me incomodou.

Depois de acordar e passar algum tempo fingindo estar dormindo, olhei as horas e estranhei-a ainda ali, ao meu lado. Perguntei o que houve e por que ela não saíra para trabalhar.

Disse-me que, enquanto eu estava dormindo, ficara acordada ouvindo o rádio, e perguntou-se, apenas uma vez, o que eu poderia estar sonhando. Depois percebeu que, para ela, a resposta já não importava. Ela simplesmente não se importava mais comigo, com o que eu pensava ou com o que eu sonhava. E então concluiu: já que tudo havia se tornado um inferno, era melhor colocar um fim na nossa história. Caso contrário, ela perderia o controle de si mesma. Estava a um passo disso, disse ela.

Eu, acordado daquela maneira, com a luz do sol a incomodar meus olhos, não tive reação. Pensei até estar sonhando. Ela percebeu isso e perguntou se eu a estava ouvindo. Perguntou se eu havia esquecido o que acontecera.

Era agosto. Três meses nos separavam do nosso casamento. Três meses para o passo final.

O rádio ainda tocava e eu mal via seu rosto, tão incomodado que estava com a luz forte vinda lá de fora. Ela sabia de cor as palavras que eu poderia dizer ali, naquele momento. Todas as promessas que um homem alquebrado como eu poderia lhe fazer.

Eu também sabia disso. Mas sabia que o melhor a fazer era levantar, arrumar minhas coisas, abrir a porta e ir embora.

O nome da morte, de Klester Cavalcanti

Thursday, November 29th, 2007

* Texto publicado originalmente no Digestivo Cultural

O jornalista e escritor recifense Klester Cavalcanti é um homem de sorte. Não digo isso pelo fato de ele ter trabalhado em “algumas das maiores publicações do país”; Klester já passou pela revista Veja e hoje é editor da revista VIP, por exemplo. Nem pelo fato de ele ter conquistado, em 2005, o prêmio Jabuti na categoria livro-reportagem, pelo seu Viúvas da terra. Tais informações revelam a capacidade e a competência de Klester Cavalcanti.

Digo que ele é um homem de sorte pelo fato de ter conhecido, em 1999, quando era correspondente da Veja na Amazônia, o personagem que qualquer escritor gostaria de conhecer. Trata-se de Júlio Santana, um matador de aluguel que, em 35 anos de trabalho, executou 492 pessoas em diversos lugares do Brasil.

Tão logo conheceu o homem, apenas por telefone, Klester vislumbrou a possibilidade de uma grande história, um grande furo de reportagem. Ganhou a simpatia do assassino que, nas palavras do jornalista, “não me pareceu um sujeito violento nem agressivo”. O assassino, por sua vez, estava com vontade de contar suas histórias para alguém: “Se você quiser, eu lhe conto tudo. Nunca falei essas coisas para ninguém.” Essa foi a primeira conversa. Combinaram de voltar a se falar alguns dias depois. E seguiram se falando por telefone durante anos, até que recentemente, no final de 2006, essas conversas deram origem ao livro O nome da morte (Planeta, 2006, 256 págs.).

A carreira de assassino de aluguel de Júlio Santana teve início em 1971, quando o então adolescente – Júlio tinha 17 anos de idade – fez sua primeira vítima: um pescador que havia abusado sexualmente de uma garotinha de 13 anos. O mandante do crime foi o pai da menina.

Até aquele dia, em que cometera seu primeiro assassinato, Júlio levava uma vida tranqüila. Morava com os pais e seus dois irmãos mais novos, no município de Porto Franco, na divisa do Maranhão com o atual estado do Tocantins – na época Goiás. Sua única preocupação era caçar para ajudar na alimentação da família. Coisa que fazia muito bem, pois de tanto praticar adquirira uma excelente pontaria. A mudança na vida de Júlio começou quando seu tio Cícero, que morava no Maranhão, chegou para passar uns dias na casa do irmão Jorge, pai de Júlio, coisa que procurava fazer ao menos uma vez por mês.

Cícero era policial militar na cidade de Imperatriz, no Maranhão. Mas essa era apenas uma das duas atividades do tio de Júlio. Além de policial, Cícero era também matador de aluguel, e estava em Porto Franco a serviço. Fora contratado para matar um pescador que morava na região. E iria fazer o trabalho, caso a malária não o deixasse de cama por dias. Júlio, por ainda ser jovem, suscetível a influências e por admirar muito o tio, era o único a quem Cícero poderia contar aquele segredo e pedir para fazer o trabalho em seu lugar.

E foi isso que aconteceu. Depois de muito protestar e negar, Júlio não teve escolha, teria de matar o pescador. Uma das justificativas que o tio deu ao sobrinho foi a seguinte: “se você não fizer o serviço, quem vai acabar morrendo sou eu. (…) nesse negócio é assim. Depois que a gente recebe o dinheiro, tem de fazer o serviço. Senão, quem acaba assassinado é o próprio pistoleiro. Você quer que eu morra?” Outra justificativa foi esta: “se eu não fizer esse trabalho, com certeza vai aparecer gente para fazer. Ou seja, o infeliz vai morrer de qualquer jeito. Assim, pelo menos eu ganho um dinheiro a mais.”

A frieza do tio assustava Júlio. Mal sabia ele que, anos depois, seria ele o agir com uma calma e frieza impressionantes, matando centenas de pessoas por todo o Brasil.

Mas antes de tornar-se um matador profissional, Júlio participou de um episódio importante na História recente de nosso país: a guerrilha do Araguaia. No início de 1972 Cícero perguntou a Júlio se ele não gostaria de ganhar dinheiro servindo de guia para os militares do exército que estavam à caça de comunistas que se escondiam no meio da selva amazônica. Na época, o jovem Júlio se via às voltas com uma namorada, a Ritinha, e um dos argumentos do tio foi o de que com o dinheiro que Júlio ganharia por esse trabalho, ele poderia dar início ao plano de se casar com a garota. Depois de muito dizer “não” ao tio, mais uma vez Júlio acabou cedendo, e partiu para a cidade de Xambioá, no então estado de Goiás.

Lá chegando, Júlio conheceu um outro mundo. Xambioá ainda é uma cidade pequena, mas na época era bem maior e mais movimentada que o povoado no qual Júlio morava com sua família. Tudo para ele era novo e deslumbrante. Mas Júlio não teve muito tempo para aproveitar a cidade. Nem cabeça para isso. Ele preferia passar o pouco tempo livre que tinha trancado no quarto de uma pensão: dormindo ou pensando em Ritinha, de quem sequer se despedira quando saíra de Porto Franco.

Em Xambioá Júlio guiou o grupo formado pelo delegado Carlos Marra e mais quatro homens. Esse grupo, muito graças à experiência de Júlio dentro da selva, capturou um dos guerrilheiros mais famosos do país: o ex-presidente do Partido dos Trabalhadores, José Genuíno.

Júlio liderou a captura de Genoíno e presenciou a tortura que o guerrilheiro sofrera nas mãos dos homens de Carlos Marra. Depois de uma temporada de quase três meses com eles, sem contato nenhum com a família e com mais uma morte – esta por acidente, da guerrilheira Maria Lúcia Petit –, Júlio finalmente retorna a Porto Franco. Depois da emoção do reencontro com os pais e os irmãos, Júlio vai ao encontro de Ritinha. Mas o jovem fica desolado ao saber que a garota está com outro namorado. Isso contribui muito para a mudança definitiva de Júlio, que poucos dias depois vai para Imperatriz morar com o tio. É aí que tem início sua carreira de assassino, quando seu tio Cícero o convence de que o trabalho não é tão ruim quanto parece, e que se não for ele a fazer, aparece um outro e faz.

Isso é apenas um pouco da história que Klester Cavalcanti conta em seu O nome da morte. As linhas que escrevi não dão conta nem de 10% do livro. Klester relata os conflitos internos – eu poderia dizer “existenciais”, por que não? – de Júlio; os pesadelos que ele ainda tem com algumas vítimas que fez – uma delas por engano, diferente da já citada Maria Lúcia, que foi um acidente –; a briga que tem com o tio ao descobrir que Cícero, que era quem lhe arrumava “trabalhos”, ficava com boa parte do dinheiro que seria de Júlio; o dia em que ele conheceu aquela que viria a ser sua esposa; a única vez em que foi preso e o dia do ano de 2006 em que finalmente resolveu parar de matar pessoas. Júlio Santana agora se dedica a viver de maneira honesta, em um outro lugar do país, que nem mesmo Klester Cavalcanti – ou só ele – deve saber onde é.

O livro, que tem tudo para faturar outro prêmio Jabuti, não tem nada de ficção, como me disse o próprio escritor, via e-mail: “Não há nada de ficção. Todos os nomes do meu livro são reais. Carlos Marra, por exemplo, é o nome do delegado que comandou o grupo do Júlio Santana no Araguaia. Inclusive, todos os nomes de mandantes de crimes e de vítimas são reais. Não usei a minha imaginação para nada. O livro é uma grande reportagem investigativa. Passei sete anos trabalhando na história do matador Júlio Santana.”

Nesses sete anos de trabalho o contato com o matador fora apenas por telefone. Somente em abril de 2006 Klester Cavalcanti conheceu pessoalmente Júlio Santana. Para tanto, foi até Porto Franco, onde passou “três dias ao lado de um homem calmo, bem-humorado, caseiro, carinhoso com a mulher e com os filhos e muito religioso. Um homem aparentemente comum. Perfil bem diferente dos assassinos que povoam a literatura e o cinema.”

Isso só reforça minha opinião de que, nas palavras de João Ubaldo Ribeiro, “a vida real é muito mais absurda do que a ficção.”

E O nome da morte é bem isso. Afinal, quem imaginaria que hoje, em algum lugar do nosso Brasil, vive um homem que por 35 anos viveu de matar pessoas?

O nome dele é Júlio Santana. E ele pode ser seu vizinho.

Livros, livros e amor

Tuesday, November 27th, 2007

Ê dia bom! Recebi um monte de livros hoje, uns que tinha comprado chegaram e ainda comprei um outro no hipermercado por um precinho muito camarada. Vamos a eles, já que não tenho nada mais pra postar:

Os que eu tinha comprado:
A maleta do meu pai” - Orhan Pamuk
Amor e lixo” - Ivan Klíma
O Evangelho segundo o Filho” - Norman Mailer

Um breve comentário sobre eles: Sobre o do Pamuk eu já falei há alguns posts. “Amor e lixo” tem uma sinopse interessante: um escritor, após ter seu livro recusado por várias editoras, vai trabalhar como gari.

O do Mailer, que faleceu recentemente, me interessou por causa do título e também tem uma sinopse interessante, já implícita (aliás, explícita, não?) no título: é a história de Jesus contada por Ele mesmo. É um livro também, no mínimo, interessante. Estes dois últimos são da coleção de pockets da Record, o selo BestBolso.

Os que recebi:
O mundo do sexo” - Henry Miller
Contramão” - Henrique Scheider
As horas podres” - Jerônimo Teixeira
Júlio Verne: a ciência e o homem contemporâneo” (Diálogos com Jean-Paul Dekiss) - Michel Serres
O atentado” - Harry Mulisch

Um breve comentário sobre eles: Não li ainda nenhum livro de Henry Miller, apesar de ter mais outros dois livros do autor. Mas sei que o sexo é um tema presente em sua obra, e que em “O mundo do sexo” Miller resolveu falar sobre o tema fora de um livro de ficção. Mas isso não significa que ele tenha deixado de lado seu estilo, digamos, despreocupado:

“Por mais que eu me apegasse a uma ‘buceta’, eu sempre ficava mais interessado na pessoa que a possuía. Uma buceta não vive uma existência separada. Nada vive. Tudo está interrelacionado. Talvez uma buceta, por mais cheirosa, seja um dos símbolos primais para a conexão entre todas as coisas. Entrar na vida por meio da vagina é um caminho tão bom como qualquer outro. Se você entrar bem fundo e permanecer o tempo suficiente, vai encontrar o que procura. Mas você precisa entrar com coração e alma - e deixar seus pertences do lado de fora. (Por pertences eu me refiro a medos, preconceitos, superstições.)”

Legal, não?

Navegando na rede, me deparei com um link para “Contramão” e li sua sinopse: um jovem executivo atropela dois garotos e foge. E segue adiante, sem rumo, sem destino. Veremos em breve se é mesmo bom. Parece ser.

Jerônimo Teixeira deve ser o crítico literário mais odiado dos últimos tempos. Ao contrário do que deseja a maioria dos escritores criticados por ele, sua ficção parece ser boa. “As horas podres” foi originalmente publicado em 1997. A deste ano é uma edição revista pelo autor. Um crítico de respeito que leu o livro, uma novela, me disse o seguinte: “Cara, é muito bom.” E esse crítico, quando diz, “cara, é muito bom”, ele quer dizer “cara, o livro é foda”. Estou animado com o “As horas podres”, mas não devo ler por agora.

Pelo que folheei de “Júlio Verne: a ciência e o homem contemporâneo”, Júlio Verne é só o catalizador de uma conversa sobre literatura, os escritores, a crítica literária e, é claro, as obras de Verne.

“Existe um critério em crítica? A crítica deveria ser uma boa disciplina no que se refere aos critérios, já que seu título até repete a palavra. Eu me dera o critério do esgotamento: numa dada obra, a boa teoria permitira então deduzir todos os desenvolvimentos, todas as metáforas, todas as vírgulas, enfim, o texto global e seus detalhes. Eis o critério do esgotamento. A questão sobre a física implica uma outra, sobre as condições necessárias, enquanto o esgotamento implica a condição suficiente. Ora, tem-se a tendência de confundir necessário com suficiente.”

Por fim, “O atentado”, de Harry Mulisch. Sobre ele, não tenho nada a dizer, mas pelo visto parece também ser bom. E envolve um tema sobre o qual quero aprender muito: as Grandes Guerras. No romance, mais especificamente, a Segunda Grande Guerra.

O que comprei no hiper:
Leviatã” - Paul Auster

Um breve comentário sobre ele: Bom, é Paul Auster, e estava por R$ 9,90. Não tenho mais o que dizer hehehe

***

Há três anos, dia 27/11/2004, todo sem jeito e muito tímido, perguntei a Cássia se eu podia lhe dar um beijo.

Digestivo fora do ar (again)

Sunday, November 25th, 2007

Alguns posts atrás, indiquei algumas colunas do Digestivo Cultural. Quem tentou acessá-las nos últimos dias percebeu que o site está fora do ar.

Não falei nada aqui antes porque achei que seria uma “queda” momentânea, e que o site voltaria a funcionar normalmente em breve. Mas esse “em breve” já dura quase uma semana.

Quando o Digestivo irá voltar, não sabemos. O que sabemos é que a empresa que hospeda o Digestivo parece não estar dando a devida atenção ao site. Uma vergonha, sabendo-se que esta empresa é o Terra.

Enfim, torçam para que isso se resolva logo.

Knut Hamsun

Sunday, November 25th, 2007

Ninguém jamais me disse palavra alguma sobre o escritor norueguês Knut Hamsun. Não sabia de sua existência até ler “Sonhos de Bunker Hill“, de John Fante, que termina assim:

“Por favor, Deus, por favor, Knut Hamsun, não me abandonem agora. Comecei a escrever e escrevi:

‘É chegada a hora’, disse o Leão-Marinho,
‘De falar de muitas coisas:
De sapatos - e navios - e cera para lacre -
De repolhos - e reis -’

Olhei para aquilo e umedeci meus lábios. Não era meu, mas, com os diabos, um homem tem que começar por algum lugar.”

Não tenho a menor idéia de quem seja o poema citado. O que me deixou intrigado foi o fato de Bandini, protagonista do romance e alter-ego de John Fante, pedir a Knut Hamsun - além de Deus - que não o abandonasse naquele momento.

Como disse, eu não sabia da existência de Knut Hamsun até então. Não lembro o que veio depois, mas sei que de alguma maneira fiquei sabendo que Hamsun é autor de um romance chamado “Fome“, sua obra mais famosa. Por algum motivo que não lembro, não fiz nenhuma pesquisa maior sobre o autor.

De lá para cá quase dois anos se passaram. Foi no fim de 2005 que li “Sonhos de Bunker Hill”.

Já quase não lembrava mais de Hamsun. Meses atrás comprei um livro chamado “A arte da fome”, de ensaios, do escritor americado Paul Auster. O título do livro vem de um ensaio sobre “Fome”. Folheei o livro, li alguns techos do ensaio, mas não cheguei a procurar nada sobre Hamsun.

Há alguns dias, resolvi procurar livros de Knut Hamsun em livrarias virtuais. Não lembro também o que me levou a fazer isso, nem sei se houve algo que tenha me levado a fazer isso. Fiz uma busca, enfim. E encontrei vários livros dele publicados aqui no Brasil, pela editora Itatiaia, entre eles “Fome”, que pensei logo em comprar.

Antes, fui ler algo sobre Knut Hamsun. E então vi que ele foi premiado, em 1920, com o Prêmio Nobel de Literatura, após a publicação do romance “Os frutos da terra“.

“Bom”, pensei, “vou comprar esse também”. Pra completar a compra, coloquei na cesta “Um vagabundo toca em surdina“. Os livros chegaram aqui semana passada. As edições são bem simples, até um tanto grosseiras. A Itatiaia é uma editora pequena, pelo visto. Mas tem um catálogo interessante, com títulos como “Geração devassa” (Aldous Huxley), “O gene egoísta” (Richard Dawkins), “Mantenha o sistema” (George Orwell) e “Tempos passados” (John Steinbeck), que parecem ser bons livros.

Aproveitando, se alguém souber como entrar em contato com o pessoal da Itatiaia, por favor, me avisa.

A maleta do meu pai, de Orhan Pamuk

Saturday, November 24th, 2007

Mais conhecido por ser o ganhador do Prêmio Nobel de Literatura de 2006, o escritor turco Orhan Pamuk, autor de “Meu nome é Vermelho” (que dizem ser bem superior a “Neve”, lançado aqui no Brasil quando do Prêmio), está tendo um tratamento todo especial da Companhia das Letras. Dois livros chegaram às livrarias recentemente. Um é o romance “O castelo branco”, do qual nada tenho a dizer - até porque ainda não o vi na livraria daqui - e o outro é “A maleta do meu pai“, onde estão reunidos três discursos do escritor, sendo um deles o do Prêmio Nobel.

O livro é uma beleza. Tanto a edição quanto o conteúdo. Folheei-o na livraria há poucos dias e já fiz o pedido do meu numa loja virtual. Em breve o terei em mãos. Para saber mais sobre o livro, vão lá no Mundo de K, onde o Kovacs fez um post maior sobre a obra.

Arrogante, sim, e daí?

Thursday, November 22nd, 2007

Sou um cara arrogante. Não parece, mas sou. E, se não parece, é por eu ser um cara bastante controlado e um bom ator. Ou seja: faço o máximo para não demonstrar minha arrogância. E tenho conseguido, graças a Deus, fazer o papel de um cara simples, gentil e muito sensato.

Quem conhece meu lado arrogante são meus amigos de verdade. Com eles me sinto muito à vontade, e aí posso ser arrogante, irônico, venenoso. Mas, você me pergunta, por que não ser assim o tempo todo? E eu respondo: você por acaso tolera alguém assim? Eu, não.

Odeio gente que destila arrogância gratuita. E lido com esse tipo de gente todos os dias, no trabalho. Não sei como conseguem isso. Tenho vergonha de ser arrogante com desconhecidos. Os outros, não.

A arrogância, assim como a ironia, deve ser usada com moderação, e em ocasiões especiais.

Há algumas semanas, quase discuti com uma conhecida por causa de um texto. Ela me enviou um texto e pediu uma opinião. Da maneira mais gentil e educada possível, tentei dizer que o texto precisava ser melhorado e que ele “corria” demais. Além de destacar um detalhe: ela elogiava, no texto, uma banda que não merece elogio algum. Mas isso eu falei brincando (apesar de a banda não merecer mesmo elogio algum). Ela tentou me convencer de que o texto estava legal, que a intenção dela era deixá-lo daquele jeito mesmo, que tudo foi proposital, que o texto não estava “corrido” e que a banda é boa.

Minha resposta foi a de que a impressão que tive foi aquela, eem vez de apenas comentar sobre os pontos que ela poderia melhorar, destaquei trechos e sugeri alterações.

Ainda assim, não chegamos a um consenso. E ela ainda dizendo que a banda é boa. Foi quando resolvi me valer de toda a arrogância que pude conseguir naquele momento. Afirmei, em vez de sugerir, que o texto dela foi escrito com pressa, não foi revisado devidamente, apontei mais falhas e disse que não estava falando aquilo por falar ou por achar, mas sim porque eu também escrevo, leio dezenas de textos por semana e sei quando um texto foi escrito com pressa ou não e quando ele foi revisado mesmo ou não. Simples assim. Somente depois de tudo isso foi que ela admitiu que realmente escreveu com pressa, não revisou com cuidado e que precisava melhorar algumas coisas.

Então, quando eu leio um livro, acho bom, digo pra todo mundo que o livro é bom e alguém diz que o livro não é bom, não dou muita trela. Eu sei quando um livro é bom e sei quando um livro é ruim. Não me perguntem como ou por quê sei: eu simplesmente sei. Talvez pelo fato de na faculdade ter sido aluno, em mais de uma disciplina, de três grandes professores - dois de literatura e um de análise do discurso. Talvez por simplesmente ter o “faro” apurado. Não sei. Ia dizer que talvez pelo fato de ter lido alguns dos melhores livros da literatura universal, mas isso não seria de todo correto. Tem gente que leu de tudo e diz que um livro bom é ruim - e vice-versa; geralmente essa gente não sabe justificar a própria opinião e se vale da opinião dos outros para justificar a própria. Que, se for parar pra ver, não é própria, é só um conjunto de opiniões de terceiros. É como Schopenhauer diz (não com estas palavras): o cara lê tanto que não tem tempo pra pensar, refletir e tirar as próprias conclusões.

É por isso que quando acontece de alguém discordar de mim a respeito de um livro, não me resta muito a fazer, a não ser lamentar. Fico um pouco chateado, até, mas consigo levar numa boa.

Deus não é grande, de Christopher Hitchens

Wednesday, November 21st, 2007

Cássia e eu compramos alguns livros semana passada, e hoje ela trouxe os meus:

A muralha de Adriano“, de Menalton Braff
Antes, o verão“, de Carlos Heitor Cony
Deus não é grande“, de Christopher Hitchens

“A muralha de Adriano” é o novo livro de Menalton Braff. Dele eu já li “A coleira no pescoço”, de contos, e quero muito ler “A muralha de Adriano”, que é um romance. Mas antes preciso adiantar um monte de leituras aqui, o que é uma pena.

“Antes, o verão” é a nova edição de um dos melhores livros de Cony e um dos romances que mais gostei de ter lido até hoje. Quero reler o mais rápido que puder. Cássia leu em dois dias e disse que gostou muito. Os livros estavam com ela, que esteve aqui ontem e os trouxe.

“Deus não é grande” tem o subtítulo de “Como a religião envenena tudo” e é um dos trabalhos mais ambiciosos do jornalista britânico Christopher Hitchens. Ele toca em um assunto que é polêmico por si só: religião. Como o subtítulo dá a entender, Hitchens defende, entre outras coisas, que a religião mais prejudica do que ajuda. Não li o livro, é óbvio, li alguns trechos. Algumas reflexões são interessantes, outras são óbvias, mas a maioria é um tanto complexa e requer muita atenção e um bom conhecimento religioso. Comprei o livro justamente para isso, para ir atrás desse conhecimento (não agora, claro; ano que vem). Aí vai um trecho:

“Se eu não posso provar definitivamente que o sentido da religião desapareceu no passado, que seus livros fundamentais são fábulas transparentes, que é uma imposição criada pelo homem, que tem sido inimiga da ciência e da pesquisa e que sobreviveu principalmente de mentiras e medos e foi cúmplice da ignorância e da culpa, bem como da escravidão, do genocídio, do racismo e da tirania, eu quase certamente posso afirmar que a religião hoje está plenamente consciente dessas críticas. Também está plenamente consciente das provas cada vez mais numerosas, referentes às origens do universo e à origem das espécies, que a relegam à marginalidade, quando não à irrelevância.”

Não dá pra resumir o livro com isso, há mais assuntos abordados - a questão dos milagres, a questão de que pessoas religiosas teoricamente são mais bem comportadas, entre outros. E não é um livro para ser lido por apenas ateus ou agnósticos. Acredito em Deus, mas tenho consciência de que a religião realmente às vezes atrapalha. Na verdade, o fanatismo é que atrapalha. Taí um outro tema que me interessa bastante. Já havia comprado “Deus, um delírio“, de Richard Dawkins, pensando no livro do Hitchens (todo mundo sabia do lançamento de “Deus não é grande” desde o ano passado). Além desses dois, já tinha um outro livro fundamental nessa discussão: a Bíblia - elementar, meu caro Watson. E quero lê-la também, o máximo que puder. Nota-se que são leituras para toda uma vida, porque uma coisa vai puxando a outra.

Confissões, de Somerset Maugham

Tuesday, November 20th, 2007

Nas últimas semanas adquiri alguns livros que imagino serem fundamentais para minha formação como leitor - e, não adianta querer esconder, como crítico literário que desejo ser algum dia. Um deles, o que mais me surpreendeu, foi “Confissões“, um livro de apontamentos ou reflexões (não uma autobiografia nem um livro de memórias, segundo o autor) do escritor - francês de nascimento, britânico de escrita - William Somerset Maugham.

Folheando o livro na livraria - aquela mesma, onde lancho quase todos os dias -, fui quase que direto nas páginas onde estão os trechos abaixo.

“Eu tinha muitas desvantagens. Era baixo; possuía resistência mas pouca força física; gaguejava; era tímido; tinha pouca saúde. Não tinha facilidade para os esportes, que desempenham papel tão importante na vida normal dos ingleses; e tinha, não sei se por alguns desses motivos ou de outra natureza que desconheço, uma instintiva repulsa pelos outros homens que me tornava difícil entrar em qualquer familiaridade com eles. Tenho estimado indivíduos; nunca me importei muito com os homens em geral. Nada tenho dessa aliciante predisposição que faz com que as pessoas se falem no primeiro encontro. Embora com o decorrer dos anos tenha aprendido a assumir um ar de simpatia quando forçado a entrar em contato com um estranho, jamais gostei de ninguém à primeira vista. Não creio que algum dia me tenha dirigido a alguém, que eu não conhecesse, numa viagem de trem, ou falado com um passageiro a bordo, a menos que eles tivessem falado primeiro comigo.”

“A crítica, a meu ver, é uma coisa pessoal, mas nada impede que o crítico possua uma grande personalidade. É-lhe perigoso considerar a sua atividade como criadora. Seu papel é guiar, avaliar, indicar novos caminhos de criação, mas, se ele se julgar um criador, ficará mais preocupado com a criação, a mais absorvente das atividades humanas, do que com as funções que lhe são próprias.”

“Um dos motivos da inutilidade da crítica atual é que é feita como um ‘bico’ por literatos criadores.”

“O crítico deve ter paciência, firmeza e entusiasmo. Cada livro que lê deveria ser uma nova e sensacional aventura; julga-o com a universalidade do seu conhecimento e a força da sua personalidade. Na realidade, o grande crítico deve ser um grande homem.”

As gentes que eu detesto

Tuesday, November 20th, 2007

Odeio cliente comendo em minha frente. Odeio. Na verdade, detesto ver alguém comer - a não ser que eu esteja também comendo. E, ainda assim, se a pessoa mastigar direitinho. Fico nervoso vendo gente mastigar de boca aberta ou comer muito rápido. Pior ainda é homem ou mulher mastigando chiclete como se estivesse em um campeonato pra ver quem consegue mais abrir e rebolar o maxilar ao mastigar. É terrível. Mais terrível ainda é você ter alguém na sua frente fazendo sexo oral - pra não usar aqui o termo xulo - numa porcaria de uma casquinha do McDonald. Me dá nojo.

***

Detesto também o cliente desmemoriado. Quer dizer, não detesto, só acho mesmo ridículo. Ele vem pra saber o que comprou. “Não faço a menor idéia do que estou pagando”, diz ele. Dá vontade de perguntar o que diabos ele enfia na cabeça, pra não saber o que foi que comprou com o cartão no último mês. Nem eu, que ando com 300 milhões de coisas na cabeça e uma memória péssima, sou assim. Se esqueço, vou direto no local onde guardo as notas fiscais das compras que faço e confiro. Tem gente que é acomodada demais.

***

Aliás, detesto gente acomodada demais. O cara não recebe o primeiro boleto em casa, e tudo bem. Não recebe o segundo, e pra ele tudo certo. Não recebe o terceiro, e continua na maré mansa. Quando já se passaram nove meses sem receber fatura alguma do cartão, ele vem, todo nervosinho, querer saber por que não está chegando a fatura. Porra, não recebeu, liga logo, caramba. Parece que tem gente que deixa essas coisas acontecerem só pra depois irem descarregar nos outros os problemas que eles vão acumulando.