Archive for July, 2008

A literatura como doença

Tuesday, July 29th, 2008

Parece que tenho algum tipo de esquizofrenia literária. E não apenas eu. Conheço outro tanto de gente com o mesmo “mal”.

A pessoa tenta abraçar o mundo das letras. Ela lê, escreve e consome literatura de maneira desenfreada e desregrada. Tão desenfreada e tão desregrada, que mal consegue terminar de ler ou escrever algo que começou. Leituras e textos se atropelam, os livros são comprados de par em par, às vezes a granel, e logo a pessoa se vê cercada de livros, já sem ter lugar onde guardá-los.

É óbvio que tais “sintomas”, apesar de percebidos pelo enfermo, são ignorados. A esquizofrenia literária é uma doença que só avança, nunca se retrai. Ela pode, no máximo, ser controlada, pois não há cura. Esta, só além-túmulo. Ou vermelho na conta bancária.

O presidente negro, de Monteiro Lobato

Monday, July 28th, 2008

Achava-me um dia diante dos guichês do London Bank à espera de que o pagador gritasse a minha chapa, quando vi a cochilar num banco ao fundo certo corretor de negócios meu conhecido. Fui-me a ele, alegre da oportunidade de iludir o fastio da espera com uns dedos de prosa amiga.- Esperando sua horinha, hein? - disse-lhe com um tapa amigável no ombro, enquanto me sentava ao seu lado.

- É verdade. Espero pacientemente que me cantem o número, e enquanto espero filosofo sobre os males que traz à vida a desonestidade dos homens.

- ?

- Sim, porque se não fosse a desonestidade dos homens tudo se simplificaria grandemente. Esta demora no pagamento mais simples cheque, donde provém? Da necessidade de controle em vista dos artifícios da desonestidade. Fossem todos homens sérios, não houvesse hipóetese de falsificações ou abusos, e o recebimento de um dinheiro far-se-ia instantâneo. Ponho-me às vezes a imaginar como seriam as coisas cá na terra se um sábio eugenismo desse combate à desonestidade por meio da completa eliminação dos desonestos. Que paraíso!

- Tem razão - concordei eu, com os olhos parados de quem pela primeira vez reflete numa idéia. - A vida é complicada, existem leis, polícia, embaraços de toda espécie, burocracia e mil peias, tudo porque a desonestidade nas relações humanas constitui, como dizes, um elemento constante. Mas é um mal sem remédio…

Você acabou de ler o início de “O presidente negro“, de Monteiro Lobato. O romance, escrito em 1926, “fala”, entre outras coisas, sobre uma eleição presidencial nos Estados Unidos que tem como candidatos uma mulher, um branco e um negro. A eleição acontece no ano de 2228, e fica-se sabendo desse fato, no romance, através de uma máquina chamada “porviroscópio” - o nome deriva de “por vir” - que permite visualizar o futuro tendo como base os fatos do presente.

Esse início é uma aula de como bem escrever. Beira a perfeição.

Mais sobre o livro você lê nesta resenha no Digestivo, escrita por Ricardo de Mattos.

Ainda não, ainda não

Sunday, July 27th, 2008

Já falei aqui que prefiro não escrever sobre minha família. Este blog já é tão pessoal, que alguma coisa é necessário preservar. Mas desta vez o acontecido foi tão engraçado - não engraçado Mel Brooks; engraçado Woody Allen ou alguns momentos de Charlie Kaufman - que resolvi quebrar o protocolo.

Para entender a historinha, é preciso saber que há algumas semanas comprei uma remessa de livros para tentar revender. Mas, para isso, precisei pedir permissão aos velhos, para não pensarem que eu estava torrando dinheiro à toa.

Agora, sim, a historinha.

***

Meu pai conversando com minha avó, por telefone:

- Vai, ele vai casar.
- …
- Tá sim, até demais. Tá trabalhando numa livraria, tá participando de um jornal na internet e agora disse que vai vender livros. Tô até danado com ele, porque ele só quer saber de trabalhar.
- …
- É isso, ele tá pegando poucas matérias, mas disse que vai terminar.
- …
- É letras que ele tá fazendo.
- …
- É, pra ensinar, ou ser escritor. Ele quer viver de livro. Aí tá na livraria, tá nesse jornal e agora vendendo também, ele tá do jeito que quer.

***

O “jornal”, no caso, é o Digestivo. Minha avó mora no interior da Paraíba. Certamente “jornal”, nesse contexto, foi bem melhor que “site” ou “revista eletrônica”.

E não, ainda não estou do jeito que quero. Ainda não.

Comentário no Digestivo

Saturday, July 26th, 2008

Título do comentário:

“O jegi”

Comentário propriamente dito:

“O jegi quebrou o meu computado”

É mole?

Um dia quase perdido

Saturday, July 26th, 2008

Eram quase oito horas da noite de uma sexta-feira e estava o vendedor de livros estava um tanto cabisbaixo. Além de ter vendido pouquíssimo naquele dia, não havia acontecido nada de inusitado durante o dia de trabalho. Sem comissão e sem história para contar. Um péssimo dia. Mal sabia ele que em poucos minutos adentraria a loja um garoto de mais ou menos 14 anos, e entre eles desenvolveria-se o seguinte diálogo:

- Você tem tarô aí?
- Tem sim, é logo ali.

O vendedor acompanha o garoto até a seção e volta a seus afazeres. Naquela momento, na verdade, à falta deles. Pouco depois, o garoto faz nova pergunta ao vendedor:

- Vocês vendem cartas de Magic?
- Sim, sim.
- Posso ver?
- Ah, claro, é logo ali.

Vão vendedor e garoto até as cartas de Magic. No estoque, apenas dois decks.

- Só tem esses?
- É.
- Quando deve chegar mais?
- Olha, semana que vem deve chegar mais.

O garoto devolve os decks ao vendedor e pergunta:

- Vocês vendem punhal?
- Punhal, que você diz, é punhal?

(Ao falar pela segunda vez a palavra “punhal” o vendedor faz gestos de espadachim.)

- Sim, punhal.
- Não, não vendemos.

O garoto agradece e vai embora. O vendedor fica sem entender o que teria a ver tarô, Magic e punhal. Em vez de tentar fazer alguma relação entre as três coisas, resolve procurar livros para arrumar. É melhor.

Sobre Alice

Friday, July 25th, 2008

Mais uma colaboração minha no Blog da Feira: resenha do livro “Sobre Alice”, publicada originalmente no Digestivo. Mais uma vez: quem não leu, pode ler agora.

Valho o que sou

Friday, July 25th, 2008

“Eu gostaria de ir embora para uma cidade qualquer, bem longe daqui, onde ninguém me conhecesse, onde não me tratassem com consideração apenas por eu ser ‘o filho de fulano’ ou ‘o neto de beltrano’. Onde eu pudesse experimentar por mim mesmo as minhas asas para descobrir, enfim, se elas são realmente fortes como imagino. E se não forem, mesmo que quebrassem no primeiro vôo, mesmo que após um certo tempo eu voltasse derrotado, ferido, humilhado - mesmo assim restaria o consolo de ter descoberto que valho o que sou.”

Caio Fernando Abreu, em “Limite branco“, trecho citado por Jeanne Callegari em seu livro.

Prestenção:

Thursday, July 24th, 2008

Você pode ser arrogante e se achar o dono da razão. Claro que pode. Você pode fazer o que bem entender de sua vida, afinal, já é bastante grandinho ou grandinha e sabe diferenciar o bom do ruim, o bem do mal.

Então, você pode ser arrogante e se achar o dono da razão. Você pode até agir como se fosse o dono da verdade e ter um ar de arrogância. O que você NÃO PODE fazer é agir assim PROPOSITALMENTE. A arrogância e o excesso de auto-confiança devem ser características inerentes à sua pessoa, e não hábitos/manias/maneirismos/frescuras adquiridos ao longo da vida, só porque você resolveu encher o saco de todo mundo com suas opiniões idiotas e seu ar superior.

O que quero dizer é: você pode ser arrogante e prepotente, mas não pode fazer isso propositalmente (rimou!). Você não pode acreditar demais em você e na sua arrogância.  Às vezes (ÀS VEZES, entendeu?) é até bom duvidar do seu potencial, perguntar-se se está no caminho certo, se tem feito tudo direitinho, se tem feito as escolhas certas. É bom também conversar com outras pessoas, pedir a opinião delas. Não que você vá segui-las, afinal, é você quem deve decidir. Mas é bom ver as situações por outros olhares.

No fundo, no fundo, você precisa ser bastante humilde. Ou será engolido por você mesmo.

Emprego versus intelecto

Wednesday, July 23rd, 2008

O Montana me indicou um blog por um motivo e cá estou eu lincando o tal blog por outro. Ela resumiu um dos motivos de eu ter decidido parar de trabalhar aqui na cidade. A não ser que as coisas desandem de maneira caótica e desesperadora. E que espero que não aconteça, é claro.

Não parei, ainda. Mas em breve.

Caio F., por Jeanne Callegari

Tuesday, July 22nd, 2008

Terminei de ler ontem o ótimo “As armas e os barões“, de Flávio Moreira da Costa. Já tenho os primeiros parágrafos da resenha.

Sigo lendo “A última casa de ópio“, de Nick Tosches. Era pra ter falado dele aqui antes, mas acabei me passando. Esse livro eu conheço há anos. Quase comprei diversas vezes pela internet, mas sempre deixava pra depois. O folheei umas duas vezes na livraria aqui, anos atrás, mas não fui fisgado pelo autor. Dia desses, estávamos recolhendo os livros da Conrad pra fazer uma devolução, e lá ia o Tosches no meio. Abri mais uma vez o livro, depois de anos, e li o seguinte:

“Veja bem, eu precisava ir pro inferno. Eu estava, pode-se dizer, com saudade de casa. Mas antes, à guisa de explicação, a cebola.”

Seja lá o que for essa cebola, vou levar, pensei. E foi o que fiz.

E comecei a ler ontem, logo depois de terminar “As armas e os barões”, “Caio Fernando Abreu“, de Jeanne Callegaris. Um perfil que a jornalista e escritora mineira (eu já ando em contato com mineiros, né?) escreveu e recentemente (mas bem recentemente mesmo) publicou. Inclusive, tem lançamento dia 29, em São Paulo. Quem puder ir, vá. E quem não puder, vá também, oras.