Três vezes Mirisola
Monday, September 22nd, 2008Deixo o link logo hoje porque estou indo dormir. “Três vezes Mirisola” é o título da minha coluna de amanhã, no Digestivo. Que vocês podem ler já agora.
Deixo o link logo hoje porque estou indo dormir. “Três vezes Mirisola” é o título da minha coluna de amanhã, no Digestivo. Que vocês podem ler já agora.
Rapaz, reli um texto meu e gostei tanto que resolvi republicar imediatamente aqui no blog. O original está no Digestivo, junto com a resenha de um outro livro que não gostei.
Pouco praticada no Brasil, a prosa poética (ou poesia em prosa, como preferir) pode causar estranhamento ao leitor acostumado à prosa tradicional. O texto é escrito em forma de prosa, mas sua construção é um pouco mais complexa, mais cuidadosa. A escolha das palavras é feita como nos poemas, com um rigor um pouco maior que o da prosa pura. Definir a prosa poética não é a intenção deste texto, mas é necessário um breve divagar: na prosa tradicional, há espaço para imagens poéticas, é claro. Mas nenhum prosador, por melhor que seja, escreve um texto inteiramente ritmado, cadenciado. Do mesmo jeito que um poema não pode ser totalmente livre, por mais livre que ele seja. Um verso não pode ter três, quatro linhas. Se tiver, já não é poema, é poesia em prosa (ou prosa poética).
E, se já não é fácil escrever boa prosa, fazer poesia de qualidade parece ser ainda mais difícil. O que dizer, então, de um autor que escreve um romance em prosa poética (ou poesia em prosa)? No mínimo, que ele é ousado. Os mais conservadores o chamariam de louco. “Casa entre vértebras” (Record, 2007, 224 págs.), vencedor do Prêmio Sesc de Literatura 2006 na categoria Romance é o livro, e Wesley Peres é o seu autor.
O louco, na verdade, pode ser o protagonista do livro, um homem solitário, que passa os dias escrevendo e fazendo anotações para si mesmo e redigindo rascunhos de cartas para uma mulher sem nome, que em determinado momento resolve chamar de Ana.
As cartas, ou rascunhos, falam sobre a solidão vivida pelo protagonista, sobre sua infância, sobre seus medos, sobre o amor e sobre o ato da escrita. O homem que escreve parece viver num constante estado de melancolia e aflição (ou frustração?), por causa de sua solidão. Não se sabe se essa solidão é eventual, resultante de escolhas (se certas ou erradas, não importa, nem há espaço para tal questionamento, no livro) do protagonista ou se de algum problema psicológico (em algumas passagens o personagem parece ter perdido a razão). O que se sabe é que é um homem complexo, tentando conviver com seus demônios e manter-se vivo (talvez seja esse o motivo que o leva a escrever).
Muito do que um autor pode realizar com um livro depende do personagem que ele escolhe para protagonizá-lo. E o protagonista de “Casa entre vértebras” dá a Wesley Peres toda a liberdade necessária para criar o que bem entender, desde aliterações a neologismos, mas sem cair no exagero de “inventar uma nova linguagem”. É muito mais um “brincar com as palavras”. Wesley Peres caminha bem distante dos imitadores de Guimarães Rosa e James Joyce. Fica mais próximo dos seguidores (no bom sentido) de Fernando Pessoa e Franz Kafka.
“Casa entre vértebras” é uma obra intrigante, porque não se tem absoluta certeza do que se passa com o protagonista, e instigante, porque “cada uma das palavras escritas se endereça a uma outra palavra da mesma carta” e, como uma carta leva a outra, todas têm uma ligação e cada uma delas revela um pouco do personagem.
É um livro ambicioso, sem ser pretensioso. Uma obra que merece ser lida e relida com a atenção e, paradoxalmente, com o descompromisso que só os bons livros merecem e sabem ter.
Gosto de ler e-mails e posts antigos. Dá pra ter uma noção do quanto mudei - como pessoa e como escrevinhador. Hoje escrevo melhor e, penso, sou uma pessoa melhor - ao menos para mim. Para os outros, não sei. E, se não for, paciência. Vivo para mim, não para os outros.
Em alguns textos antigos, me vi fazendo planos que, por conta de uma série de fatores, não se concretizaram. Talvez fosse bem melhor se tudo tivesse saído como planejei, mas mesmo as coisas tendo fugido um pouco do meu controle, nada de grave nem nenhuma mudança brusca ou desistência aconteceu. Os planos são os mesmos, houve apenas um pequeno atraso.
E houve, também, o acréscimo de outros planos. Então, no fim das contas, se não saí no lucro, no prejuízo não estou. Mas de uma coisa estou certo: planejar é bom apenas para não ficar feito cego em tiroteio. Realizar um projeto pode não depender apenas de nós mesmos. E não é nenhuma vergonha admitir que um plano não deu certo. A vida nos dá várias possibilidades, é necessário aprender a trabalhar com todas elas. Mas, é claro, fazendo o possível para atingir nossos objetivos.
Acho que uma novidade, apenas: pedi pra sair da livraria. O trabalho é ótimo, as pessoas são ótimas, o ambiente é ótimo, mas a vida que eu estava levando podia me fazer surtar em pouco tempo. Além disso, preciso terminar minha faculdade. Ou isso ou os velhos me matam.
Faz uma semana que estou sem trabalhar fora. E não pensem que estou naquela de “sombra e água fresca”. Quando não se está em casa, você deixa de ver muita coisa, e ninguém conta com você pra nada - afinal, você não está em casa. Agora, me irrito com as bobagens do dia-a-dia e voltei a servir de office-boy e motorista nas horas mais impróprias. E o pior: custeando coisas que antes não custeava, como a ração da cachorrinha. Falando assim, parece que não fiz bom negócio. Mas vamos aguardar os próximos meses, certo?
Ao menos assisti a três bons filmes nos últimos dias, e isso já me rendeu um texto. Pela primeira vez em muito tempo comecei e terminei de ler um livro na mesma semana. Pena que foi um livro ruim, mas enfim. Agora vou começar a tirar da cartola resenhas de livros que deveria ter resenhado há meses e meses. Mas o melhor mesmo é que tenho visto minha bem-amada com maior frequência. E isso é muito mais que excelente.
O negócio agora é só eu me organizar melhor. Levar os horários a sério e tal. Nos últimos dias, tenho ido dormir já ao amanhecer. Tudo bem que é na madrugada que consigo escrever em paz, mas isso precisa mudar.
Atenção: este post não é à prova de falhas e foi escrito por um leigo. Caso encontre alguma informação incorreta no texto, agradecerei a correção.
Não sei por que, mas sempre simpatizei com Pedro Malan. Sentia segurança nele, me parecia um excelente ministro. Aliás, ele foi um excelente ministro.
Mas aí o Lula vem e me coloca o Guido Mantega na pasta da Fazenda. Em plena crise financeira mundial, o cara me aparece com esta: “O Brasil já estaria de quatro em outras circunstâncias“. Tudo bem que a economia brasileira está mais resistente que há alguns anos, mas precisava falar esse “de quatro”?
Pedro Malan não usaria tal expressão. Pedro Malan é um gentleman. Esse Guido Mantega parece aquele cara que assume a presidência de uma associação de moradores, um Juvenal Antena, que nem falar direito sabe. Pior, não é nem um pouco elegante. É impressionante como nenhum terno lhe cai bem.
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Agorinha há pouco a Globo, no Jornal da Globo, quis pegar o Henrique Meirelles pra Cristo. O cara é inteligentíssimo, e um gentleman também. William Waack (até tu, William?) e Carlos Alberto Sardenberg fizeram uma sabatina com o presidente do Banco Central brasileiro, fuzilaram Henrique Meirelles com perguntas agressivas e capiciosas, mas Meirelles saiu-se muito bem, obrigado. Pelo visto, foi bastante sincero. Não quis deixar ninguém alarmado, mas também não saiu dizendo que o mundo é belo e que amanhã tudo vai ser uma maravilha. Pelo contrário. Afirmou que é provável que a crise se arraste por um bom tempo, mas que o Brasil realmente está melhor preparado para enfrentá-la.
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Já o Joelmir Beting, na Band, foi bem menos apocalíptico e bem mais sensato. Ao falar da “fuga” dos investidores estrangeiros do Brasil, que ajudou a Bovespa a ter o pior índice desde os atentados de 11 de setembro (já estão usando, aliás, a expressão “15 de setembro”, para falar desse dia terrível para a economia), deu a única explicação possível, a explicação correta: eles estão tirando seus investimentos daqui para cobrir os rombos acolá. Não estão indo embora por medo do nosso mercado, estão indo embora por medo do mercado deles!
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E como essa crise começou? Com os caloteiros. Na empresa de cartão de crédito que eu trabalhava, a grande maioria das pessoas que negociava a dívida do cartão não poderia tê-lo novamente. Jamais seria cliente da empresa outra vez. E as pessoas reclamavam, achavam errado. Pois foi por causa de pessoas assim que a economia americana quebrou. Se eu entendi bem, aconteceu assim: o cara pegava um empréstimo num banco e dava a casa como garantia. O banco, achando que o indivíduo pagaria o empréstimo em dia (como puderam ser tão ingênuos?), tomava um empréstimo com outro banco ou fazia despesas a prazo, que seriam pagas com os juros do empréstimo que o cara lá ia pagar. Mas aí o cara deixou de pagar as parcelas do empréstimo e a despesa que o banco fez era maior que o valor da casa do rapaz. Ou seja: mesmo o banco tomando a casa do indivíduo e fazendo dinheiro com ela, ficava lá o prejuízo.
É como se, para pagar uma dívida de 500 reais, eu fizesse um empréstimo de 600, mas que, com os juros, fosse para mil reais. O banco usaria esses 400 reais de sobra para, sei lá, comprar material de escritório, parcelado. Mas aí eu deixo de pagar ao banco; e o banco, sem meu dinheiro, deixa de pagar o fornecedor de material de escritório, que, por sua vez, deixa de pagar alguém também. Enfim, uma loucura.
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Aí vão alguns links pra quem quiser entender essa putalhada toda da crise econômica mundial, do mercado imobiliário americano e também ler um artigo sóbrio sobre a situação brasileira nessa bagaça:
MAS ANTES, um aviso: é preciso ter estômago, ler em silêncio e ter paciência. Não é tão fácil entender a situação toda. Quer dizer, ao menos não é pra mim, que tenho o raciocínio meio lento para o lado dos números.
[-> Entenda a bolha imobiliária dos EUA, via G1
[-> Entenda a crise financeira que atinge a economia dos EUA, via Folha
[-> Calma que o Brasil é nosso!, artigo do economista José Paulo Kupfer
* Texto originalmente publicado no antigo Entretantos.
O mundo nunca foi, não é e nunca vai ser o mundo perfeito que muita gente quer e imagina que possa vir a ser.
A maioria das pessoas foi, é e sempre será ignorante, mal-educada e fútil.
O lucro foi, é e sempre será o objetivo de todo e qualquer ser humano. A ambição é inerente à nossa espécie. Raros são aqueles que não têm metas maiores a alcançar. E coitados deles, pois são atropelados por todos os outros.
Os filhos foram, são e sempre serão rebeldes sem causa, e só aprenderão as lições da vida quando algo de muito grave com eles acontecer. E quando isso ocorrer, é muito provável que eles estejam sozinhos no mundo, sem os pais, e afastados do que antigamente chamavam de família. E só então vão perceber que, na verdade, nunca souberam o que o termo “família” significava. Raros são os filhos que dão valor a seus pais.
A maioria dos pais foi, é e sempre será impaciente e muito pouco compreensiva no que concerne às vontades e sonhos dos filhos, justamente dos filhos que são pacientes e compreensivos com eles. É incrível. Mas a culpa disso não é dos pais: é do mundo, cada vez mais cruel e insuportável, por culpa das pessoas que não têm a mínima preocupação em serem pessoas melhores. Os pais preferem, portanto, que os filhos não sonhem, que não se iludam com o mundo, pois não receberão boas novas em troca. Apenas sonhos despedaçados.
Tudo hoje gira em torno de apenas duas coisas: dinheiro e satisfação pessoal. Dane-se o próximo. Dane-se um “bom dia”. Dane-se um jogar o papel do chiclete no lixo. Dane-se uma gentileza, um ato de respeito ou de carinho. Dane-se tudo, danem-se todos. Eu, eu, eu. É só o que importa: eu. E mais nada.
É por essas e por muitas outras coisas que o mundo está do jeito que está, e vai piorar, e muito, nos próximos anos.
Não podemos ficar nessa de “cada um que se cuide e salve-se quem puder”. Todos temos nossa parcela de culpa, todos podemos ajudar de alguma forma.
Você não paga pra dar um “bom dia” ao carteiro. Você não paga pra ajudar uma senhora que passa carregando peso ou pedindo uma informação. Você não paga pra dar lugar a um idoso no ônibus, trem ou metrô.
Você não vai morrer se deixar pra jogar o papel do chocolate alguns metros adiante, numa lata de lixo. Você não morre se tiver um pouco mais de paciência com todos os que te cercam.
Muita gente por aí tem uma vida pior que a sua, que a minha, e nem por isso fazem de suas vidas um mar de lamentações. Trata-se apenas de uma questão de paciência, boa vontade e esperança, que anda faltando em muita gente.
Esperança. Por incrível que pareça, e apesar de tudo que está escrito acima, eu ainda tenho um pouco.
Lendo aqui meu antigo blog, vejo como eu era bobo. Parece que em dois anos envelheci uns 10.
Fiquei sabendo agora, a Renata que me contou: o escritor, professor e jornalista americano David Foster Wallace cometeu suicídio em sua casa, na última sexta-feira.
A única lembrança que tenho de Foster Wallace é o livro “Breves entrevistas com homens hediondos“, que sempre quis muito ler e, quando comprei, não pude ler. Mas, não sei por quê, a notícia de sua morte me deixou abalado sobremaneira.
Foster Wallace tinha 46 anos, apenas, e era professor de inglês em uma universidade nos EUA. Entre outros livros, escreveu “Infinite Jest” (em tradução literal “Piada infinita”), um romanção de mais de mil páginas, que chegou a ser incluído em uma lista dos 100 melhores romances em língua inglesa de todos os tempos.
Eu tinha alguma esperança de ver “Infinite Jest” publicado no Brasil. Mas acho que agora nenhuma editora o publicará. O que é deveras uma pena.
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- Obtuário de David Foster Wallace no New York Times.
- Post meu, no antigo Entretantos, de quando comprei “Breves entrevistas…”.
- Post do Cleber Corrêa, em seu antigo blog, sobre o mesmo “Breves entrevistas”.
Acabei de ver Belchior no Programa do Jô. Sensacional. No primeiro bloco, ele cantou “Como nossos pais”, e foi aplaudido de pé. Assisti aos dois blocos seguintes do programa só para esperar o penúltimo e ver a entrevista com ele. Que foi curta, infelizmente, mas valeu a pena. No último bloco, Belchior cantou de novo, desta vez “Velha roupa colorida”.
O mais engraçado disso é que ontem, indo para o trabalho, comecei a cantarolar algumas músicas de Belchior. Na verdade, tentar cantarolar, pois já havia esquecido boa parte das letras. Foi quando percebi que fazia um bom tempo que eu não o ouvia. Ora, um clamoroso erro de minha parte, pois não se deve jamais passar um bom tempo sem ouvir Belchior. Ontem mesmo, quando cheguei do trabalho, peguei a coletânea que tenho dele e mandei brasa no som. Dormi ouvindo, acordei ouvindo e hoje, quando cheguei do trabalho, ouvi de novo, e estou ouvindo agora, enquanto digito este post.
Amanhã, comprar o “Sempre” e outros mais do Belchior que eu ver pela frente. Sem moderação. Já passou da hora.
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Update: Passei nas Americanas, cheguei a ficar com o cd em mãos, mas a fila estava enorme. Ou compro pela internet, ou vou lá outro dia, em outro horário.
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Atualização em 24/08/2009: Se você chegou neste post via Google, leia também “O sumiço de Belchior“.
Depois de uma temporada de molho, fora do corpo de colunistas do Digestivo Cultural (mas sem deixar minha função de editor-assistente, claro), voltei a ser colunista fixo do site. Agora, às terças.
E hoje saiu minha primeira coluna após o retorno, na qual tento prestar uma pequena homenagem a Fernando Sabino e Nelson Rodrigues. Confiram lá.