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Sunday, November 30th, 2008Só pra avisar: dei uns pulinhos no Blog Paralelos recentemente.
Só pra avisar: dei uns pulinhos no Blog Paralelos recentemente.
Acabo de chegar à conclusão de que o problema não sou eu, e sim as editoras. Afinal, são elas que continuam a lançar livros atrás de livros, muitos deles bastante interessantes, o que me deixa com a maior vontade de comprá-los todos, o que eu geralmente acabava fazendo.
Agora, por exemplo, saiu o romance “Uma vontade louca de dançar“, de Elie Wiesel (detentor de um Prêmio Nobel da paz, aliás; dele eu tenho o curtinho “A noite“, que ainda não li). O título é lindo e a capa idem. Fiquei com uma vontade louca de comprar.
Outros que me deram água na boca foram: “Entre nós“, de Philip Roth; “Cidadezinhas“, de John Updike e “Procedimento operacional padrão“, de Philip Gourevitch e Errol Morris. De Roth e Updike eu tenho vários aqui sem ler. De Gourevitch tenho “Gostaríamos de informá-lo de que amanhã seremos mortos com nossas famílias“, que Cássia me deu, mas que também não li ainda.
Mas, como disse, comprá-los todos seria algo que eu faria, em outros tempos. Este mês me comprometi com Cássia a não comprar nada, porque comprei muitos livros na Paraíba. E deu certo - ela abriu algumas exceções, como o “Conclave“, um cd do Linkin Park (nossa, muito bom, apesar de muita gente dizer que a banda é fabricada etc.) e mais recentemente alguns livros do García Márquez (do 1 ao 4, o 5 eu já tinha) que estavam em promoção. O valor de todos esses itens juntos não chegam nem perto do valor que gastei com livros na nossa viagem. Ou seja: deu certo.
Em dezembro pretendo continuar com essa “tática”, com esse compromisso. Já tenho alguns títulos em vista, é verdade, mas são poucos e baratos. E minha bem-amada está ciente de tudo e tem toda a liberdade para controlar e barrar meus impulsos consumistas (o que, aliás, ela deve - e vai - mesmo fazer).
Sem contar que, arrumando meus livros aqui, me dei realmente conta de que não adianta ficar comprando livros assim, de maneira desenfreada. Não há tempo para ler tudo e muitas vezes um livro muito desejado em um determinado momento nem é uma obra fundamental para a sua formação como leitor ou autodidata.
Já falei isso outras vezes e cheguei a mandar o consumismo para a PQP, num momento de maior exaltação, mas foi na tranquilidade das palavras de minha bem-amada e no silêncio do ato solitário de arrumar os livros que finalmente entendi e compreendi minha situação.
Bom. Antes tarde do que nunca.
Finalmente colocamos (e quando digo colocamos é porque fomos nós mesmos que pusemos a mão na massa e fizemos o serviço) aqui umas prateleiras para meus amados livrinhos.
Digo, para alguns deles. Porque a primeira constatação que fizemos foi a de que não adiantaria muita coisa, são livros demais. A segunda constatação é minha só, e diz respeito aos autores que mais estão presentes em minha biblioteca.
Eu pensava que Fernando Sabino e Carlos Heitor Cony não tivessem páreo. Na verdade, Sabino não tem, porque dele tenho a obra completa + extras, digamos assim, mas pensava que Cony não teria adversários fortes. Achei que J.M. Coetzee e Charles Bukowski eram os que mais se aproximavam dele. Sabia que tinha uma porção de livros de Nelson Rodrigues, mas como eles estavam espalhados, “esqueci” deles. O mesmo aconteceu com os livros de Paul Auster e George Orwell.
Então, às contas. Do velho safado (apelido do Bukowski para os mais íntimos) tenho oito (sendo que um, vejam só, lembrei agora e não sei onde está; opa, achei); do Nelson, tenho sete, o que o mantém ali no topo. O Coetzee, que pensei estar bem à frente de uma porção de outros, perde para Paul Auster (tenho seis livros dele, fiquei bege!) e empata com Orwell. Vale mencionar John Fante e Flávio Moreira da Costa, também com cinco títulos aqui (se contar as antologias organizadas pelo Flávio, esse número sobe pra oito).
Nessa arrumação aproveitei também para separar os livros que Cássia meu deu de presente. A conta começou com sete, mas estranhamos o número. Procurando um pouco mais, subiu para oito. Depois nove, dez, onze… Parou em doze, correndo o risco de ser mais e tanto eu quanto ela não estarmos lembrando.
Sobre critérios de arrumação: tentei separar alguns autores, algumas coleções/editoras (Alfaguara e Cosac Naify, por exemplo), seções (jornalismo de guerra, jornalismo literário), mas não fiquei de todo contente. Acho que de propósito: é muito gostoso arrumar livros. Cansativo, com certeza. Mas é uma beleza.
Nem sempre quem escreve ou afirma algo deseja ter razão, estar certo. Quando, por exemplo, digo que as pessoas em geral são burras e idiotas, quero, na verdade, que me digam o contrário, que me façam acreditar que estou errado e que as pessoas são gentis, atenciosas, educadas, inteligentes e sábias.
Infelizmente, ninguém tentou me convencer de que estou exagerando.
Quando escrevi a segunda parte deste texto, eu estava irritado com uma série de coisas (isto e isto, só para ficar em dois exemplos). Destilei ali a minha indignação, transformei em palavras o meu sentimento, organizei em caracteres o que antes eram apenas resmungos solitários. Como resultado disso, apenas um indivíduo que vestiu a carapuça e saiu gritando na rua “AAAAAAAAAAIIIIIIII, SOU EEEEEUUUUUUUUU”, outros que tentaram colocar a carapuça em mim, e alguns outros que concordaram comigo.
O problema é que, mesmo quem tentou virar meu texto contra mim - tem coisa mais burra que isso, tentar jogar, contra um escritor, sua própria criação? - não chegou a discordar, a tentar mostrar que eu estava errado. Ao fazerem comentários quase agressivos, acusadores, apontando dedos para o meu nariz, eles fizeram justamente o que eu critiquei no texto.
Mas o que mais me incomoda mesmo é ver que nada mudou. Eu continuo coberto de razão, por mais que apareçam pessoas dizendo que não. E, sinceramente, eu gostaria muito de ter errado na época. Ou de agora o texto não fazer mais sentido. Mas faz. E muito mais.
Resenha de “Da preguiça como método de trabalho”, de Mario Quintana. Lá, no Digestivo.
Se você não sabe, o Paiol Literário é um evento promovido pelo jornal Rascunho em parceria com o Sesi Paraná e a Fundação Cultural de Curitiba. Todo mês um escritor é convidado para uma conversa mediada pelo crítico José Castello - que muito admiro - e trechos da conversa são publicados no Rascunho (aliás, se você mais que gosta de literatura e não é assinante do jornal, não sabe o que está perdendo).
No mês de outubro o escritor convidado foi João Paulo Cuenca, mas desta vez José Castello não mediou a conversa. Assumiu a tarefa o infalível Rogério Pereira, editor do Rascunho. Os trechos do encontro ainda não estão disponíveis no site do jornal, mas como recebi a edição deste mês ontem, adianto pra vocês dois trechinhos:
“A gente tem que ter consciência de que o público leitor é pequeno. Os escritores, hoje, têm uma função quase que de evangelizadores. Você tem que chegar aos lugares e falar sobre você e seus livros. E essa tem que ser uma atividade constante. Ocupar os jornais, a imprensa, a televisão, o cinema. Ocupar todos os espaços e brigar por isso, porque a gente está perdendo a briga. Para a tevê, para o cinema, para a internet e todo o resto.”
Antes eu discordava do que JP Cuenca diz; pensava que os escritores não tinham nada a ver com isso, e que o problema era dos professores, que não ensinavam corretamente literatura em sala de aula. Mas hoje concordo e acho que nós, profissionais das letras ou não, amantes da literatura, devemos fazer o máximo para “converter” o maior número de pessoas.
“Acho tudo muito desconfortável. Realmente acho infernal. Tem gente que diz que tem muito prazer quando escreve. Eu não tenho nenhum. Eu tenho quando termino. Termino de escrever um parágrafo, releio aquilo. Não existia antes, agora existe. Eu fiz isso. É um prazer lindo. Agora, na hora que estou brigando contra mim, é um confronto muito violento. Porque sou um leitor horrível do que escrevo. O que publico, eu não posso nem abrir. Já saio rabiscando. Não consigo. Se leio em voz alta, já mudo as coisas de lugar. É horrível. Tenho de publicar para parar de revisar, de ficar fuçando.”
E é justamente assim. Sentar numa cadeira, olhar o documento do Word ainda todo em branco e pensar em como começar uma história ou como continuar uma já existente não é situação das mais agradáveis. Mas, depois de muito custo, ver que a quota do dia foi preenchida, é uma vitória. Por outro lado, ser vencido pela tela em branco, pela falta de qualidade do que foi escrito ou simplesmente pelo cansaço - e, neste caso, sequer ter forças para abrir um novo documento no Word - é a pior derrota que pode ter um escritor.
Faz tempo que li “Ensaio sobre a cegueira“. Creio que foi em 2003 - eu tinha 19 ou 20 anos. A memória e a idade não me permitem lembrar detalhes do livro (foi por isso que comprei-ô-ô recentemente, pois quero reler), mas recordo que fiquei realmente estupefato com o que li. Daí o interesse pela sua adaptação cinematográfica, que só estreou aqui na cidade sexta-feira passada.
Ontem, fomos assistir ao filme. Minha expectativa era enorme, por causa do livro (arrisco dizer que já é um clássico da literatura de todos os tempos; e, se não é ainda, vai ser; aliás, se não era ainda, agora é, eu proclamo isto aqui). Talvez isso tenha feito com que eu saísse do cinema um pouco decepcionado com a adaptação. Aliás, a palavra correta não é decepcionado. Não sei que palavra utilizar. A questão é que eu esperava um filme tão impactante quanto o livro. Nessa minha expectativa excessiva, fiquei frustrado por minha própria culpa.
A adaptação é fiel ao livro - até onde me recordo dele - e Fernando Meirelles conseguiu fazer coisas impressionantes, como deixar Julianne Moore quase feia. Quase. As cenas de abandono da cidade são belíssimas - por mais paradoxal que esta frase possa ser. A narrativa em off foi pouco utilizada, na minha opinião. Na verdade, Meirelles eliminou boa parte da narração, depois da exibição do filme no Festival de Cannes, por conta dela ter desagradado uma porção de críticos idiotas.
Mas enfim. Como dizem, as melhores obras de arte são aquelas que nos fazem refletir, e “Ensaio sobre a cegueira” me deixou com uma pulga atrás da orelha.
Voltando pra casa, comentei com Cássia que o pior de tudo é que, se realmente passássemos pela situação descrita no filme, agiríamos da maneira que foi mostrada na tela - se querem saber como, vão assistir ao “Ensaio…”.
Mais incômoda que essa constatação - porque, afinal, todo mundo sabe que boa parte da humanidade é idiota, mesquinha, ignorante, burra, intolerante etc. - é a dúvida que não me deixa em paz desde ontem: quando li o livro percebi isso? No caso, percebi que tudo ali descrito se tornaria realidade caso todos nós ficássemos, de repente, cegos? Antes que algum politicamente-correto-chato-de-galocha fale algo, aviso: estou me referindo à cegueira do filme, e não à cegueira que conhecemos, a deficiência visual como a conhecemos.
E por que a dúvida incomoda tanto? Porque se não levei a sério o que li, se não consegui entender que o livro descreve as pessoas como elas realmente são - vide adjetivos acima -, deixei de entender muita coisa que li/assisti na época. Será que eu era tão ingênuo (ou “cego”)?
Pra vocês isso não é nada. Até porque a coisa não é com vocês. Mas, para mim, isso significa muito: vou ter que reler uma porrada de livros e assistir novamente a uma cacetada de filmes. Nada que eu não faça com muito prazer, é claro.
De vez em quando o presidente Lula dá assunto para este blog.
Desta vez ele andou dizendo umas coisas que, vocês hão de concordar, poderiam deixar de ser ditas. Vejamos:
“Qual é o processo de educação que nós aprendemos quando ligamos uma televisão nesse país? Pelo contrário, o que nós assistimos, em muitos casos, é um processo de degradação da estrutura da família desse país.”
Na verdade, o que está degradando a família brasileira é a corrupção, aliada à negligência dos políticos. Quero dizer com isso que todo o país perde muito mais com o desvio do dinheiro público, que serviria para investir na melhoria da educação, saúde, moradia etc. do que com as porcarias que passam na tevê. Pra fugir da tevê é só desligar, mudar de canal. E pra fugir da corrupção e dos políticos preguiçosos, o que é preciso? Pelotão de fuzilamento, talvez?
“Qual é a coisa que mais dá chance para o pobre vencer na vida? É o esporte. De vez em quando tem um milagre de a pessoa chegar a Presidência da República, mas somente no esporte que o pobre tem alguma oportunidade.”
Essa é uma visão muito limitade e preguiçosa da situação. O esporte não é o que mais dá chance para um pobre vencer na vida. É só ver quantos garotos participam de escolinhas, passam por peneiras e comparar com o número de garotos que vão jogar em times grandes, fazem uma carreira e vencem na vida. Muito jogador promissor se perdeu no mundo das drogas, por exemplo. Ou na mão de um empresário safado. Ou de uma mulher oportunista e vagabunda. Coisas que poderiam ser evitadas se o garoto tivesse o quê? Respondam, quero ouvir. E-du-ca-ção! É na educação que está a maior chance de um pobre vencer na vida. E não no esporte. No esporte está a chance de ele quebrar a perna com 12 anos e não poder mais jogar. É a chance de oferecerem uma carreirinha de pó aos 17 e ele se viciar. Com boa educação, a droga não chega perto. Se chegar, a educação não foi tão boa. O risco de quebrar a perna estudando deve ser bem menor que quebrá-la jogando bola, mas não tenho como provar isso.
Enfim. Agradeço ao presidente por me dar assunto, eu estava mesmo precisando desabafar de novo.
As tuas mãos
Que outrora passearam pelo meu corpo
E me fizeram sentir sensações outras
Os teus olhos
Que outrora cruzaram tantas e tantas vezes com os meus
E me fizeram derramar lágrimas outras
Os teus lábios
Que outrora beijaram os meus e além de…
E me fizeram arfar ares outros
As tuas narinas
Que outrora sentiram os cheiros meus
E me fizeram quase me perder de mim
Os teus ouvidos
Que outrora ouviam meus lamentos
E recebiam com prazer minha língua
Nada disso tem mais sentido
A sete palmos do chão
* Poema escrito há mais de dois anos, certamente sob influência de Augusto dos Anjos, Olavo Bilac e/ou Álvares de Azevedo, que acabei de achar no 3 Vozes. Se o lapidasse, acho que conseguiria torná-lo um poema digno. Mas tenho preguiça.
“O jovem é uma rocha física e uma besta mental.”
Adoraria ser o autor da frase acima. Talvez ela chegasse até mim daqui a 8 anos, mas Bruno Garschagen nasceu primeiro e teve a preferência.
“Sim, o indivíduo é suas decisões, sua família, seu amor, seus amigos. Dedica a todos um amor incomensurável. Não precisa de palavras, abraços, presentes, notícias, só a certeza do sentimento compartilhado. A negligência física nunca corrompeu o que sinto por cada um daqueles com quem nunca mais falei.”
Adoraria ser o autor do trecho acima, também de Bruno. Mas minha parca inteligência fez com que eu dissesse isso de uma maneira totalmente idiota e amadora.
Paciência.
Mas enfim. Ontem foi aniversário de Bruno. A frase e o trecho citados aqui são parte do texto que ele escreveu para presentear seus leitores. Gentil, o Bruno, não? Faz aniversário e quem ganha presente é a gente. Corram lá, leiam e dêem os parabéns ao cara.