Archive for January, 2009

O curioso caso de Alberto Mussa

Friday, January 30th, 2009

Foi só recentemente que me dei conta: tenho quatro dos cinco livros escritos pelo escritor carioca Alberto Mussa. E, curiosamente, todos me chegaram por acaso, não fui atrás de nenhum deles. Depois de constatar isso, pensei na carreira do Mussa. O cara está publicando livros desde 1997, se não me engano, e nenhum deles tem personagens ou histórias sequer parecidas ou que lembrem as obras que a maioria de seus contemporâneos escrevem. Enquanto estes fazem dos livros que escrevem um festival de escatologias, uma metralhadora de palavrões e arremedos de pornochanchadas, Alberto Mussa vai na contramão e escreve livros baseados em culturas, digamos, mais antigas.

Elegbara“, por exemplo. É composto por narrativas que se passam entre os séculos XVI e XX e que dialogam com a história do Brasil, de Portugal e da África.

No prefácio de “O trono da rainha Jinga“, Alberto Mussa diz “Concebi ‘O trono da rainha Jinga’ para o formato clássico de novela policial, com crimes, investigadores, múltiplos suspeitos e um mistério que só se desvenda nas últimas páginas”. Mas não podemos esperar uma história urbana, à la Conan Doyle. A trama acontece no Rio de Janeiro do século XVII, e a África e os africanos são presença forte no livro.

O movimento pendular” é, de todos os livros de Mussa, o que eu tenho mais curiosidade de ler, porque tem o adultério - uma de minhas fixações - como tema principal. Mas o livro não é uma ficção; também não é não-ficção. É um amálgama dos dois gêneros; nas próprias palavras do próprio autor: “Literatura e ensaio se confundem. Ou melhor, o que existe é uma espécie de ensaio ficcional, como se eu imaginasse ser um ensaísta.”.

Agora, “Meu destino é ser onça“, que chega hoje às livrarias do Brasil. Eis o que o release da editora Record fala sobre o livro:

Em torno de 1550, durante a ocupação da Baía de Guanabara pelos franceses, um certo frade católico, chamado André Thevet, andou pelos matos, acompanhado de um intérprete, registrando vários aspectos da natureza americana e da cultura dos indígenas com quem conviveu - a outrora poderosa tribo dos tamoio, como também eram conhecidos os tupinambá do Rio de Janeiro. Entre as informações mais interessantes obtidas pelo frade, destaca-se uma série de relatos míticos - que viriam a formar o maior corpus de mitologia tupi de todo o período colonial.

Escrito após extensa pesquisa, o livro é calcado nas informações colhidas diretamente dos tupinambás por historiadores e cosmógrafos que desembarcaram no país junto com os primeiros europeus. Da história contada pelos índios para Thevet, Hans Staden, padre Anchieta, Cardim e outras fontes dos séculos 16 e 17, o escritor tirou a massa bruta para montar uma espécie de quebra-cabeças e reconstituir uma grande narrativa mitológica dos tupinambá - que abarca a história completa do universo, de suas obscuras origens ao iminente cataclismo final -, preenchendo algumas lacunas, deixando outras. “Quis criar o ‘mito que poderia ter sido’, o ‘mito baseado em mitos reais’. É onde reside a literariedade do texto”, conta o autor.

O tema central de “Meu destino é ser onça” é a busca da terra-sem-mal, só atingível com a prática do canibalismo - costume que tanto repugnou aos europeus. Todavia, como se pode perceber nas entrelinhas, a complexa metafísica tupi aponta para uma surpreendente conclusão: a de que o rito antropofágico era, para os índios, a principal aquisição da cultura, capaz de transformar em Bem o Mal inevitável inerente à natureza. Segundo Mussa, “no jogo canibal, cada grupo depende totalmente de seus inimigos, para atingir, depois da morte, a vida eterna de prazer e alegria. O mal, assim, é indispensável para a obtenção do bem; o mal, portanto, é o próprio bem.”

Nota-se, portanto, que Alberto Mussa não é “mais um” escritor brasileiro. Ele é um dos mais originais e, segundo o querido Luis Eduardo Matta, um dos mais competentes e bem-sucedidos autores contemporâneos. É bom ficar de olho nele. E nos livros dele também, é claro.

Sonho doido

Thursday, January 29th, 2009

Tive um sonho estranho. Envolvia o livro “A face da guerra“, uma discussão acalorada de lordes - entre os quais, claro, estava eu - sobre ele e uns bonequinhos tipo Animaniacs pulando como se fossem os bonecos do Mario do Nintendo.

Quando parecia que eu ia entender o sonho, a cachorra começou a latir e eu acordei.

Foi apenas um sonho

Wednesday, January 28th, 2009

Ainda não assisti - e é provavel que isso demore de acontecer - ao filme “Foi apenas um sonho”, estrelado por Leonardo di Caprio e Kate Winslet, mas recebi esta semana o livro de mesmo título que deu origem a ele, do escritor americano Richard Yates.

Procurei no Google alguma resenha ou comentário sobre o livro, lançado recentemente pela Alfaguara, e quase não encontro. As referências eram todas ao filme. Até que, finalmente, encontro um post de Jonas Lopes, que dedicou alguns parágrafos ao livro.

Perdi a linha de pensamento, fui interrompido por um par de horas. Mas o que eu queria dizer é que o filme resgata a obra de Yates, que eu não conhecia - e acredito que um bando de gente também não. É claro que o romance vai vender muito por causa do filme, mas talvez apareçam mais textos falando sobre Yates - espero que sim -, porque me parece que é um belíssimo livro, e minha intuição não costuma falhar.

Enfim. Em breve começarei a lê-lo e aí poderei dizer uma ou duas coisas sobre ele.

***

Aproveito pra lincar aqui o post que Jonas fez sobre a morte de John Updike.

Algumas palavras, mas algumas mesmo, sobre John Updike

Wednesday, January 28th, 2009

Confesso que não lembro o motivo que me levou a comprar o livro de contos “Confie em mim”, de John Updike, anos atrás. Talvez - sim, agora começo a lembrar -, alguém tenha me indicado, afinal, há alguns anos eu queria ser - e, se o leitor tiver alguma boa vontade, fui - um contista.

Eu escrevia - ainda escrevo, é verdade - contos, e todo bom contista deve ler bons contistas. As lembranças estão ficando mais claras. Agora me recordo que comprei, junto com o livro de Updike, outro livro de contos, de Dino Buzzatti, “A queda da baliverna”. Procuro “Confie em mim” na estante para conferir a data em que o recebi: 04 de maio de 2005. Vou ao site das Americanas, desta vez para confirmar se foi mesmo o livro de Buzzatti que comprei junto, e vejo que houve um terceiro título, de Charles Bukowski, “Fabulário geral do cotidiano”.

O tempo passa e, em abril de 2007, vamos à Bienal do Livro em Salvador. Lá, encontro o romance “Bech no beco”, também de Updike, por módicos 5 reais. Não penso duas vezes antes de comprá-lo.

Um mês mais depois recebo em casa outro romance do escritor americano; desta vez, “O terrorista”, livro que fiquei curiosíssimo para ler assim que soube do lançamento.

Acontece que, durante todo esse tempo, só li alguns contos de “Confie em mim”. “Bech no beco” e “O terrorista” foram apenas folheados. É óbvio que não me orgulho disso. Mas admito isso apenas para dizer que, apesar de não conhecer nem “conhecer” John Updike, fiquei muito triste quando soube de sua morte, ontem.

Mais um da velha guarda que se vai. Mas seus livros ficam. É um consolo. Raso, mas um consolo.

Meus melhores discos de 2008

Monday, January 26th, 2009

Depois de listar os melhores filmes e os melhores livros do ano passado, resolvi listar, pra fechar a conta e passar a régua, os melhores discos de 2008 - na minha opinião, é claro. Confiram lá, no Digestivo!

O livro que eu deveria ter escrito

Wednesday, January 21st, 2009

Ei-lo: http://www.bbc.co.uk/portuguese/reporterbbc/story/2009/01/090120_francalivrocaixa_fp.shtml

Pôxa, eu trabalhei com atendimento ao cliente - inclusive como caixa - por mais de quatro anos, eu era quem deveria ter escrito esse livro. Até porque, ela que me desculpe, mas trabalhar com análise de crédito é uma batata quente. Porque você tem que informar ao cara que o cartão dele não foi aprovado.

Agora, imagina: o cara é dono de uma loja de informática, ou de um supermercado, ou um advogado ou, pior ainda, um deputado. Quando acontece um caso assim, os atendentes empurram um para o outro a tarefa de informar ao cliente, porque nunca se sabe o que vai sair dali. Já tive cliente que ficou quase uma hora na minha mesa, discutindo comigo, recusando a levantar-se, se não pudesse falar com um superior ou se não saísse dali com um documento, assinado por mim, afirmando que EU não havia lhe concedido crédito. Sendo que nós, atendentes, quase não temos como interferir na aprovação de um cadastro. Quase. (Conseguem ouvir minha risada sarcástica?)

Mas, enfim, que publiquem logo o livro dela. E se alguma editora se interessar por mais histórias de lojas de departamentos e empresas de cartão de crédito (ah, e livrarias também!) - inclusive sobre funcionários que não medem esforços para subir na empresa -, é só falar comigo. Tenho milhares dessas.

De como entrar

Tuesday, January 20th, 2009

“É preferível entrar numa mulher pelos cabelos.”

David Foenkinos, em “Em caso de felicidade“, que recebi ontem e estou lendo.

Direto de Buenos Aires

Monday, January 19th, 2009

Não, infelizmente não estou em Buenos Aires. O título do post é o nome do blog de Marcelo Barbão, que foi morar lá e agora é blogueiro profissional, postando direto da terra dos hermanos dicas, curiosidades e notícias da capital da Argentina.

Entonces, para aqueles que já foram, querem ir, estão em Buenos Aires ou se interessam pela cidade (ou até mesmo para os que não têm interesse algum), o blog do Barbão é um prato cheio. Ele é o brasileiro mais argentino que conheço.

Cessar-fogo

Monday, January 19th, 2009

No último sábado, dia 17, Israel anunciou que iria interromper os ataques à Faixa de Gaza. Horas depois, o Hamas, que negara-se a colaborar com o cessar-fogo, voltou atrás e declarou que iria também interromper os ataques ao território israelense.

Isso não significa, de modo algum, o fim dos conflitos, infelizmente. Não podemos sequer comemorar essa trégua. A preocupação continua, afinal, a qualquer momento um dos lados pode atacar novamente, e aí vai começar tudo de novo…

Mas, é claro, estamos todos torcendo para que isso não ocorra, e para que essa trégua seja somente o início de um longo período de negociações que poderão, finalmente, levar a paz àquela região.

Como a picaretagem conquistou o mundo

Sunday, January 18th, 2009

Ter um bom estoque de livros não lidos proporciona boas surpresas. Foi por acaso que comecei, no ano passado, a ler “O grande vazio”, de Norman Mailer e John Buffalo Mailer, o melhor livro que li em 2008, sem sombra de dúvida. E foi por acaso que comecei, ontem, sábado, a ler “Como a picaretagem conquistou o mundo“, de Francis Wheen, que está me saindo um senhor livro.

No primeiro capítulo, o autor mostra como Ronald Reagan* e Margareth Thatcher arruinaram a economia de todo o universo e quase causaram um colapso no sistema solar (o exagero é meu, mas as estripulias que ambos fizeram nos EUA e no Reino Unido custaram aos cofres não só de norte-americanos e ingleses, mas de todo o mundo, trilhões de dinheiros e milhares de empregos).

No segundo capítulo, Wheen mostra como alguns canalhas se aproveitaram da situação caótica nos anos oitenta para ficarem ricos, não importando quais fossem os meios. Muitos deles, aliás, foram parar atrás das grades depois de aproveitarem por algum tempo as benesses oriundas de atos ilícitos.

Neste segundo capítulo, o autor também fala sobre os picaretas da auto-ajuda, que, na verdade, mais se auto-ajudam. Diferente dos canalhas do parágrafo anterior, os picaretas da auto-ajuda geralmente enchem os bolsos de dinheiro de maneira lícita, aproveitando crises econômicas, políticas e sociais para colocarem no mercado livros que prometem a realização financeira e pessoal de todo aquele que se dispor a dedicar algumas horas e vinténs à leitura de tais obras.

Transcrevo abaixo dois trechos desse capítulo. Não porque dão uma amostra dele, mas porque ri às pampas com ambos. É bom deixar claro que um excerto é de uma página e o outro é de páginas adiante.

Estudando os títulos exibidos na seção de administração da livraria Borders, você talvez imagine ter tropeçado por engano no departamento de história natural: Leões não precisam rugir: destaque-se, enquadre-se e progrida no mundo dos negócios, de Debra Benton; Nade com os tubarões sem que eles o comam vivo, de Harvey Mackey [até então não traduzido no Brasil, pouco tempo depois foi publicado aqui com o título "Como nadar entre os tubarões sem ser comido"], e Ensinando elefantes a dançar: facultando a mudança em sua organização, de James A. Belasco.

Vejamos um exemplo da lógica da água** em ação: “Quantas vezes ocorre a quem usa um barbeador tradicional considerar se, em vez de mover a lâmina, talvez fosse mais fácil mantê-la parada e mover a cabeça? Na verdade, é muito melhor. Mas ninguém experimenta, porque não há ‘nenhum problema para corrigir’”. Se seus alunos de Whitehall*** experimentassem essa técnica de barbear, logo descobririam por que ela não vingou: os resultados se assemelhariam a uma cena do copião de O massacre da serra elétrica no Texas.

* Não encontrei referências em português que ligassem a Segunda-feira Negra, como é chamado nos EUA o dia em que as bolsas de valores entraram em curto, em 1987, a Reagan.

** “Lógica da água” é um “sistema de pensamento” (pelo visto muito ridículo), ou algo do tipo, inventado por Edward de Bono, em seu livro “Os seis chapéus do pensamento“.

*** Whitehall é a rua que vai dar na região onde fica o Parlamento Inglês. Ao longo dela (da Whitehall, no caso) há uma série de edifícios do governo e tal. Ao menos foi o que entendi, depois de ler uns verbetes na Wikipedia. Se alguém notar que estou errado, por favor, me corrija.

Agora, me dêem licença, vou ler o terceiro capítulo.