Archive for April, 2009

Pneumotórax

Wednesday, April 29th, 2009

Ontem vendi um “50 poemas escolhidos pelo autor“, de Manuel Bandeira, pela Estante Virtual, e deixei o exemplar separado aqui pra embalar e mandar pelo correio amanhã. Cássia viu, comentou que o livro é bonito e eu peguei o outro exemplar, que está aberto, e mostrei a ela. Daí, não sei por qual razão, inventei de colocar no som o CD que vem junto com o livro, com poemas recitados pelo escritor pernambucano. Qual não foi minha surpresa ao ouvir “Pneumotórax”, um dos poemas mais sensacionais da literatura brasileira. Depois de continuarmos ouvindo e lendo mais alguns, resolvi que vou ficar com o outro exemplar. Minha ideia era vender os dois, mas não dá pra se desfazer de algo assim. Pra quem não conhece, aí vai o “Pneumotórax”:

Febre, hemoptise, dispnéia e suores noturnos.
A vida inteira que podia ter sido e que não foi.
Tosse, tosse, tosse.

Mandou chamar o médico:
- Diga trinta e três.
- Trinta e três… trinta e três… trinta e três…
- Respire.

- O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo e o pulmão direito infiltrado.
- Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax?
- Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.

Em caso de felicidade

Wednesday, April 29th, 2009

* Texto publicado originalmente no blog Ideias & Livros, do JB.

Diz-se que a felicidade pura não existe, que o máximo que podemos ter são momentos felizes. Tal premissa está tão impregnada em nós que chegamos a estranhar quando muitas coisas boas acontecem sucessivamente, durante um bom tempo. Quando isso ocorre, é comum pensarmos que, dentro em breve, algo de muito grave ou ruim vai acontecer, como se para compensar o período de boas novas – o que seria uma inversão do ditado “depois da tempestade, a bonança”.

O romance “Em caso de felicidade”, segundo livro do escritor francês David Foenkinos publicado no Brasil, parte desse pressuposto. Numa das primeiras páginas o narrador diz: “Ninguém sabia o que fazer em caso de felicidade. Havia seguro de vida,seguro para veículos e para morte ocorrida dentro de algum veículo. Mas quem nos protegerá da felicidade?”.

Mas o livro não é nem pretende ser um tratado romanesco sobre a felicidade. Longe disso. Se existe uma coisa que David Foenkinos não é, é pretensioso. Ao menos não aparenta ser. Suas histórias são simples e têm como objetivo principal entreter o leitor – se provocar uma ou outra reflexão, um tanto melhor, um escritor não pode se isentar disso. Mas a impressão que se tem ao ler seus livros é a de que ele deseja fazer com que esqueçamos um pouco as numerosas notícias desagradáveis dos noticiários e tenhamos alguns momentos de diversão e riso.

Seu primeiro romance publicado aqui, “O potencial erótico de minha mulher”, segue este mesmo caminho. Sua história pode ser resumida assim: Hector, um homem viciado em colecionar o que quer que seja, depois de passar por uma crise e tentar cometer suicídio, recupera-se, volta a ter uma vida normal, apaixona-se e se casa. Sua vida correria normalmente não fosse por um motivo: ele passa a colecionar os momentos em que sua esposa limpa os vidros da casa. É de um acontecimento banal e improvável que o protagonista perde o equilíbrio e retoma sua “mania” de coleção.

É o que também acontece neste “Em caso de felicidade”. Os problemas de Jean-Jacques, protagonista do romance, têm início de maneira pouco comum. Ele, um homem casado, que tem um bom emprego e uma linda filha, curvou-se à rotina. “Permitiu” que seus dias se tornassem mecânicos e que a paixão dos tempos de namoro e início de casamento por sua esposa arrefecesse. A contratação de Sonia, uma nova e sensual estagiária, era tudo o que faltava para Jean-Jacques pensar em cometer adultério. E ele não havia pensado seriamente nisso até Sonia se colocar no limiar entre sua sala e a ante-sala, onde ela ficava. Foi ali, com ela ocupando o lugar que deveria ser da porta fechada, que Jean-Jacques decidiu tentar conquistá-la. “Sua maneira de não entrar na sala criava quase que um clima de adultério. Ela tinha com as portas uma relação das mais eróticas.”

Jean-Jacques não vê outra saída senão ter um caso extraconjugal com Sonia. Sua esposa, Claire, não demora a perceber certas atitudes diferentes no marido e concluir que é muito provável que ele esteja lhe traindo. Para confirmar e ter provas de suas suspeitas, contrata um detetive particular para segui-lo. Em pouco tempo o adultério de Jean-Jacques é confirmado e Claire o deixa, transformando a vida do casal e também a de seus pais – os de Jean-Jacques morreram já há alguns anos –, um casal à moda antiga que tem mais problemas adormecidos e segredos do que se pode suspeitar. A partida repentina de Claire deixa seu marido sem rumo, atinge em cheio sua mãe – que vê a filha tomando uma atitude que ela não teve coragem de tomar décadas atrás – e também seu pai, que é acometido por um medo enorme de ser abandonado pela esposa.

Sozinho, Jean-Jacques começa a pensar que a esposa estava lhe traindo, afinal, que motivo ela teria para deixá-lo? Mas isso porque ele não imagina que a esposa saivá do seu caso extraconjugal. É quando ele resolve colocar um detetive particular para investigar Claire. O que se vê a partir daí é uma comédia de erros, encontros e desencontros que só seria possível surgir da mente de Foenkinos. Uma história original, mas, talvez justamente por isso, nem tanto (em “O potencial erótico de minha mulher” ele diz “tudo que é original, é tudo menos original”), que termina de maneira se não surpreendente, ao menos pouco convencional.

No meio de toda essa comédia romântica, algumas frases do narrador são dignas de nota e grifo, como “Há pessoas formidáveis que encontramos no momento errado em nossa vida” ou “O que estimula todos os nossos avanços tecnológicos é o adultério: criou-se a internet, o celular, criaram-se as mensagens por telefone unicamente para que todos os casais possam viver com facilidade as suas vidas paralelas. (…) Está tão minado o terreno da fidelidade que a questão, para os casais, não mais é saber se o outro o trai mas sim com quem o outro o trai.”.

Brincando com o meio corporativo, quando diz que, após os atentados de 11 de setembro os chefões das empresas, até então acomodados nos últimos andares dos grandes edifícios, resolveram ocupar os primeiros andares e deixarem o topo para a “arraia-miúda”, e com as situações vividas por qualquer casal, como aquele terrível momento em que se está jantando com a parceira e surge do nada um vendedor de flores – ela quer que você compre as flores ou achará brega você fazer isso? –, além de fazer constantes referências ao cinema – principalmente a “Asas do desejo”, de Wim Wenders – David Foenkinos dá à literatura uma bela, tocante e divertida obra que vai de encontro à sisudez, à seriedade e às pretensões exacerbadas dos jovens escritores contemporâneos. Pode-se dizer que “Em caso de felicidade” proporciona, por que não, bons momentos de felicidade, e boas lembranças também. É um livro para ter sempre por perto, e reler sempre que ela, a felicidade, estiver nos dando uns dias de folga.

Impressões da Bienal do Livro Bahia

Tuesday, April 28th, 2009

Cássia escreveu um belo post sobre nossas idas à Bienal do Livro Bahia. Em breve escrevo um também.

Espalhem este vídeo

Monday, April 27th, 2009

***

Esse aí é o Luiz Carlos Prates, jornalista da RBS de Santa Catarina. Fiquei sabendo dele e do vídeo através da lista de discussão do Digestivo.

Sobre as passagens, vocês sabem, né? Mais uma pouca vergonha patrocinada por senadores e deputados.

E eu me pergunto: o que aconteceria se nenhum brasileiro - repito: NENHUM BRASILEIRO - declarasse o imposto de renda?

Vocês entenderam? Vou repetir: o que aconteceria se nenhum brasileiro fizesse sua declaração de imposto de renda? Imagino que esta seria uma excelente maneira de protestar contra essas palhaçadas todas que os políticos fazem. Se não temos saco para ir às ruas ou fazer faixas e camisas para protestar, podemos muito bem deixar de fazer algo fundamental para o país, como votar ou, no caso da minha sugestão, não declarar o imposto de renda.

Leite derramado

Monday, April 27th, 2009

Terminei hoje de manhã a leitura de “Leite derramado“, que bastou ser citado aqui para gerar dois comentários.

Quem estiver pensando em comprar o livro, pode ir sem medo. Ele é muito superior a “Budapeste”, que na minha opinião é um livro muito ruim.

“Leite derramado” é o oposto. Com a escolha certeira do protagonista-narrador, um homem com mais de 100 anos, à beira da morte e já meio delirante, Chico Buarque pôde dar vazão de maneira livre e envolvente à sua criatividade. Ele abandona o tom por vezes exagerado e inverossímil de “Budapeste”, que em muitas passagens chega a ser ridículo de tão improvável, e assume uma narrativa mais sóbria e “verdadeira”, no sentido de que você visualiza e acredita no que está lendo.

(Não que a literatura deva se restringir ao real, ao possível, mas por mais que o autor esteja escrevendo um conto de fadas ou uma ficção científica, ele precisa ter certos “limites”. Não se pode simplesmente colocar uma vaca voando fora de um contexto no qual seja possível existir a tal vaca voando. Mas enfim, isso é uma outra história.)

É certo que alguns trechos de “Leite derramado” parecem ser delírios do narrador e se aproximam do sonho, mas isso nem de longe compromete a qualidade do livro, muito pelo contrário: é justamente nesses momentos que o autor demonstra ter domínio absoluto do seu trabalho. São, para mim, as melhores passagens do livro.

Confesso a vocês que o comprei com muito receio, mas digo-lhes que vale cada centavo gasto. Não entrem na onda de que ele é um tratado sobre a desigualdade social, ou que o título é uma metáfora para entender a vida e a morte etc. etc. etc. “Leite Derramado” é um romance que conta uma história e ponto. O título se refere a certa questão do enredo e ponto. Quando comecei a lê-lo, lembrei logo de dois livros que li recentemente: o excelente “Elza, a garota”, de Sérgio Rodrigues, porque tem também um narrador de idade bem avançada, o nonagenário Xerxes; e “Homem Comum”, de Philip Roth, um livro estupendo dentro do que se propõe a ser e como ser (um livro comum, que retrata os anseios de um homem comum; não é uma obra-prima porque Roth não quis).

Enfim, não escrevo mais porque em breve será publicada uma resenha minha do livro, só não sei quando exatamente.

***

Em tempo: o livro saiu com duas capas, uma laranja e outra branca. Achei a branca bem mais bonita.

Por que você bloga?

Sunday, April 26th, 2009

Foi a pergunta que Dudu Oliva fez a mim e a outros blogueiros. O resultado disso está sendo publicado no blog que leva este título. Confiram lá!

O ciúme

Saturday, April 25th, 2009

“Com o tempo aprendi que o ciúme é um sentimento para proclamar de peito aberto, no instante mesmo de sua origem. Porque ao nascer, ele é realmente um sentimento cortês, deve ser logo oferecido à mulher como uma rosa. Senão, no instante seguinte ele se fecha em repolho, e dentro dele todo o mal fermenta.”

Trecho de “Leite Derramado“, de Chico Buarque, que estou lendo e, surpreendentemente, gostando.

Boa Bienal

Friday, April 24th, 2009

Fomos só três dias à Bienal do Livro Bahia, mas todos os três dias foram excepcionais.

No primeiro, cumprimentamos Alberto Mussa, simpaticíssimo e atencioso pra caramba.

No segundo, fizemos uma pequena entrevista e depois conversamos com Zuenir Ventura (em tempo: não é todo dia que você ouve um Zuenir Ventura dizer, pra você, “você tem razão”, “sim, concordo com você”).

No terceiro, rimos às pampas com Ronaldo Correia de Brito, uma pessoa adorável e super bem-humorada.

E é claro que compramos alguns livros - bem menos que nas bienais anteriores, é verdade. Em breve escrevo algo maior sobre a Bienal e coloco a lista de livros adquiridos aqui.

Mais Mussa

Tuesday, April 21st, 2009

Quando uma banda começa a trabalhar num novo álbum, muitas canções são compostas e às vezes até gravadas, mas nem todas entram no disco. Não que elas não tenham qualidade, muitas vezes canções boas são “eliminadas” por conta de outras 11 terem uma proximidade maior entre elas, por exemplo.

O mesmo acontece na literatura, num livro de contos, por exemplo. Ou mesmo num romance, quando o autor precisa cortar determinados trechos ou mesmo o editor sugere o corte. E no jornalismo também ocorre isso. Por um motivo ou por outro, algumas matérias são publicadas com alguns cortes, mas às vezes acontece de o que ficou de fora poder contribuir para um melhor entendimento da parte que foi publicada.

Tudo isso para dizer que está no Digestivo Cultural o restante da entrevista que fiz com Alberto Mussa (se você acompanha o blog sabe que no mês passado saiu uma matéria minha na revista Brasileiros, justamente sobre um livro de Mussa). Confiram lá!

Retroceder nunca, render-se jamais

Sunday, April 19th, 2009

O título do post é o mesmo de um filme que assisti há muitos e muitos anos, já nem lembro direito dele, mas seu nome ficou em minha mente porque trata-se de uma espécie de mantra que uso.

A não ser que não haja mesmo outra saída, sou terminantemente contra desistir de algo ou de alguém. Isso pode ser aplicado a diversos fatores de nossas vidas. Se me permitem um exemplo, minha ida à Flip em 2007 pode ilustrar isso. Na época eu estava trabalhando no shopping aqui da cidade e já havia deixado de ir à edição de 2005 por um pouco de medo. Em 2005 seria uma viagem apressada, de última hora, ia dormir de favor etc., então não seria legal. Já em 2007 a coisa foi um pouco diferente. Eu poderia alugar um quarto e, além da Flip, a viagem tinha outras motivações, como conhecer pessoalmente o pessoal do Digestivo, por exemplo. Mas havia um problema: o emprego no shopping.

A Flip acontece em julho, e eu não teria completado nem mesmo 7 meses de empresa. Ou seja: para ir à Parati, eu teria de largar o emprego. E eu precisava do emprego. A única saída seria conseguir um adiantamento de férias. Conseguir um atestado médico, sugestão que um colega me deu, era fora de cogitação, jamais faria isso. Caso não conseguisse 10 dias de férias adiantados, eu teria de sair da empresa e depois pensar no que fazer da vida. Decidido a não perder aquela Flip, conversei com meu supervisor sobre a situação e ele me disse ser muito difícil conseguir um adiantamento, visto que eu tinha pouco mais de 4 meses de empresa quando conversamos. Mas, mesmo assim, ele tentou. E, incrivelmente, conseguiu. As vantagens de ser um bom funcionário e uma boa pessoa…

Mas a questão é que, conseguisse ou não aquele adiantamento, eu não iria voltar atrás. Quando conversei com ele, já tinha o quarto reservado e já estava mais que decidido a ir à Flip. Não haveria volta, eu não iria retroceder.

Hoje, assistindo ao jogo entre São Paulo e Corinthians, lembrei do filme. Porque o São Paulo, meu time do coração, precisava vencer o jogo para chegar à final do campeonato paulista. A partida era no estádio do Morumbi, casa do tricolor, e estava quase lotado de são paulinos. O time tem qualidade e poderia, sim, vencer o Corinthians. O primeiro tempo acabou empatado em zero a zero e esperava-se que o São Paulo voltasse para o segundo tempo decidido a vencer o jogo. Não obstante uma bola na trave aos 40 segundos do segundo tempo, o que se viu na metade final do jogo foi um time apático e entregue à eliminação. Um time displiscente - alguns erros individuais foram grotestos, e de grupo também: chegou ao ponto de ninguém gritar “ladrão” quando um jogador adversário chegava para roubar a bola dos pés de um são paulino. Se não me engano, aos vinte minutos o Corinthians já havia feito 2 gols e aí o São Paulo só fez mesmo evitar tomar um terceiro para não sair de campo goleado.

O problema é que havia muito tempo e grandes possibilidades de o time virar o jogo. Ou ao menos lutar para não sair de campo derrotado. Bastava mais raça, ser mais aguerrido. Lembro de um jogo entre Grêmio e Fluminense em 2006 que mostra bem isso.

Aos 23 minutos do segundo tempo o placar era de 2 a 0 para o tricolor gaúcho. Poucos minutos depois, com 1 jogador a menos, o Grêmio cedia o empate ao tricolor carioca. Mais alguns instantes e o Fluminense virava o jogo para 4 a 2. E também perdia um jogador por expulsão. O jogo agora era 10 contra 10.

Uma parte da torcida gaúcha já deixava o estádio, a outra que ficava vaiava o então técnico Mano Menezes. Faltando 2 minutos para acabar o jogo, que ia até os 49, o Grêmio faz dois gols e fecha a conta em 4 a 4.

Ou seja: o Grêmio não se entregou em minuto nenhum. Conseguiu, se não virar o jogo, ao menos ter uma das maiores reações que já vi no futebol.

A lição que se tira disso tudo é que não se pode entrar num jogo se não for para ganhar. Além de, claro, lutar até o último minuto. E isso deve ser aplicado no nosso dia a dia, na nossa vida. Se você vai fazer alguma coisa, que faça bem feito. Se tentou fazer algo e não conseguiu, tente de novo. Se é algo que você quer muito, de coração - e se é algo bom, claro - tente e tente e tente. Tente até morrer. Morra tentando, mas não desista. Afinal, se você crê em Deus, Ele te deu uma vida, e não é de bom tom desperdiçá-la. Caso não creia, bom, você tem uma vida, e não é de bom tom desperdiçá-la.