Archive for February, 2010

Da falta de tempo para postar

Saturday, February 27th, 2010

Na verdade, não é nem tanto falta de tempo, mas sim forças para escrever. O cansaço é tão grande, o volume de coisas a fazer é tal que o tempo que me sobra de ócio eu uso justamente para… o ócio. Quem pensa que escrever é fácil e não dá trabalho nenhum, mesmo para um blog, está muito enganado. Ou não dá a devida atenção ao que escreve.

Como não quero deixar o blog sem posts, vou começar a republicar aqui alguns textos meus que saíram no site Argumento, quando de lá fui um arremedo de colunista, entre meados de 2006 e início de 2007. Encontrei os textos graças ao Web Archive, pois não tenho mais a maioria deles no meu computador.

(Acabei descobrindo por que não os tenho arquivados: enviava os textos no corpo do email.)

Isso não significa que o blog não será mais abastecido com posts inéditos. Tenho várias ideias anotadas em meu Moleskine de bolso. É só uma questão de tempo para desenvolvê-las (algumas necessitam de pesquisa).

O primeiro texto da Literando a ser republicado será sobre John Fante. Faço isso amanhã.

Na Brasileiros de fevereiro

Wednesday, February 24th, 2010

Está lá, no site da Brasileiros, a resenha que fiz do livro “Três Tristes Tigres”, de Guillermo Cabrera Infante, publicada na edição deste mês, de número 31. Não sei ainda se A revista já chegou às bancas de todo o país, mas creio que em São Paulo e no Rio de Janeiro ela já possa ser encontrada. Ao menos aqui na cidade já chegou. Se não chegou ainda na sua, em breve deve chegar. E se não chegar e quiser dizer aqui que não chegou, é só avisar. Quem puder dar esse feedback, agradeço. E Quem puder comprar a revista, agradeço mais ainda. Não que eu ganhe nada com a venda dela, mas é bom saber que ainda tem gente que faz questão de comprar a revista impressa.

Atualizado às 19:42.

O grande jogo de Billy Phelan (trecho)

Monday, February 22nd, 2010

Martin Daugherty, cinquenta anos e encarregado da marcação dos pontos, observou com atenção quando Billy Phelan, que vinha fazendo um jogo perfeito, adiantou-se com a arrogância de uma águia jovem e inexperiente até a máquina de devolução, recolheu a sua bola preta com furos só para dois dedos, jogou-a de uma mão para outra feito um malabarista e depois a equilibrou na palma da mão esquerda como se ela não tivesse peso. Billy esfregou a palma e os dedos da mão direita no cone oco de giz preso em cima do prato de latão no alto da prateleira de bolas, tirou o excesso dando um puxão na toalha. Postou-se de frente para os pinos e fez mira no ponto de sempre, na altura onde a madeira da pista mudava de cor, a sete tábuas da borda direita. E então, o que aos olhos de Martin era a mais pura expressão da energia sobre sapatos, ele avançou: pé esquerdo, pé direito, esquerdo-direito-esquerdo, e por ­fim a derrapagem, enquanto a mão direita se adiantava e depois voltava tudo para trás, fazendo o pêndulo, o pulso quebrando só um pouco no ponto mais recuado do arco. Seu braço, que para Martin era a mais pura expressão do controle em mangas de camisa, completou o balanço para a frente e soltou a bola, que saiu deslizando quase sem fazer barulho pela pista reluzente, passando exatamente em cima do ponto escuro da sétima tábua e descrevendo uma curva mínima no trajeto, curva que se acentuou ao se aproximar do alvo, e então a bola atingiu os pinos com toda a força justamente entre o primeiro pino e o de número três, derrubando todos os dez num festival de cambalhotas e rodopios.

“Boa, Billy”, disse o seu ­financiador, Morrie Berman, batendo palmas duas vezes. “Espalhou bem, espalhou bem.”

“A bola está trabalhando direitinho”, disse Billy.

Billy ­ficou parado, magro e com as pernas compridas, esperando que Bugs, o menino vesgo encarregado de arrumar os pinos, mandasse a sua bola de volta. Quando ela emergiu ruidosa do canal curvo de madeira, Billy a levantou, virou-se de frente para os pinos recém-arrumados na pista nove, avançou, arremessou a bola e fez mais um strike: agora eram oito seguidos.

Martin Daugherty anotou o strike na folha de pontos, que ainda não exibia nenhum número, só as oito marcas de strike: dava má sorte começar a fazer as contas enquanto o jogador ainda enfi­leirava strikes. Martin já cogitava que aquele jogo pudesse ser o assunto da sua próxima coluna, se Billy conseguisse ir até o fi­m. Sua ideia era dizer como certos homens chafurdam no lodo cotidiano de suas vidas até que, num lance, desprendem-se desta lama e se transformam. Aquilo em que se transformam, porém, não é resultado de um ato repentino, mas o ápice de tudo que ­zeram ao longo da vida: o triunfo do amadurecimento, o fi­m de algo sem forma, o início de uma coisa de­finida.

Assim começa “O grande jogo de Billy Phelan“, romance do escritor norte-americano William Kennedy, sobre o qual falei aqui anteontem.

Fante e a juventude (ou A Síndrome de Bandini)

Sunday, February 21st, 2010

Hoje, ao acordar, tive uma quase visão do paraíso. Do meu lado, em cima de uma das pilhas de livros que ficam no tapete ao pé da cama, um pacote da editora Record. Dentro, dois livros: “A balada do café triste“, de Carson McCullers, e “O vinho da juventude“, de John Fante.

Sobre “A balada…” nada direi, por enquanto - até porque nada sei dele, ainda -, a não ser que é traduzido por Caio Fernando Abreu, autor da nota introdutória que acompanha o livro. E que, tal qual “O vinho da juventude”, trata-se de uma reedição.

Gostaria mesmo é de falar um pouco sobre “O vinho da juventude”. Nem sei se realmente posso divulgar isso aqui, mas acho que não fará mal a ninguém: sei da edição deste livro há pelo menos mais de dois anos, e desde então espero ansiosamente por sua publicação. Por que demorou tanto a sair, já que estava tudo pronto (tradução, revisão etc.), eu não sei. Mas, quando finalmente vi o título na pré-venda do site da Livraria Cultura, fiquei radiante. E hoje, quando vi que acordei do lado dele, vocês podem imaginar minha felicidade.

Porque Fante é um autor que, apesar de eu ter lido pouco - apenas “Sonhos de Bunker Hill” e “Pergunte ao pó”, por enquanto - me marcou muito. Fui às lágrimas nos dois livros que li. E, no caso de “Espere a primavera, Bandini”, fiquei tão bobo com o começo do livro que preferi colocá-lo de lado anos atrás, deixando para lê-lo quando estivesse mais maduro. Porque, na época, eu começava a apresentar sinais do que costumo chamar de “Síndrome de Bandini”.

Quem já leu os livros protagonizados por este impagável personagem sabe muito bem do que estou falando. O ar arrogante de Bandini, sua extrema autoconfiança - mas também a sensação de fracasso que às vezes pela qual às vezes é tomado - e sua infantilidade eram características que eu via também em mim. Mas, é óbvio, eu via aquilo de uma maneira boa, não como algo prejudicial. Eu era Arturo Bandini, em carne, ossos e coração.

Foi justamente por isso, por estar me embriagando de alguém que não sou - coisa semelhante aconteceu em relação a “O encontro marcado”, de Fernando Sabino -, que resolvi não prosseguir lendo Fante - ao menos não enquanto não me curasse da “Síndrome”.

O tempo passou e fiquei curado da Síndrome de Bandini. Talvez até demais, visto que uma certa arrogância que eu possuía foi quase totalmente reduzida a pó. O mesmo pó a que Fante nos aconselha questionar. Autoconfiança e infantilidades persistem, mas controladas, reservadas apenas aos momentos - e pessoas - apropriados. Estamos sempre em busca do equilíbrio, não? Mas acho que determinados arroubos ególatras são sempre bem-vindos, principalmente quando não são levados a sério demais. É uma pena que muitas pessoas não entendam isso, porque era algo que eu adorava fazer. (Hum… Não, eu não deixei de fazer.)

Posso então, finalmente, voltar a ler Bandini. Revisitar as obras já lidas e ler as que ainda faltam. Mais que ler Bandini, ler o Fante deste novo “O vinho da juventude”, e também “1933 foi um ano ruim”. Nunca é tarde para correr atrás do tempo perdido. A não ser que você esteja impossibilitado de fazer isso por motivos graves demais.

Nos próximos dias republicarei aqui no blog a resenha que escrevi de “Sonhos de Bunker Hill”. A de “Pergunte ao pó” está aqui.

Fica a dica, também, deste texto de Eric Nepomuceno, publicado no Estadão de hoje, mais sobre Fante que sobre “O vinho da juventude”. Vale muito a pena ler.

O grande livro de William Kennedy

Saturday, February 20th, 2010

Ou um dos grandes livros de William Kennedy, já que foi com “Ironweed”, e não com “O grande jogo de Billy Phelan“, que ele ganhou o Pulitzer de 1984.

Falar, agora, de “Billy Phelan” - que é como estou chamando o romance, afinal, sou já quase íntimo dele - é um tanto perigoso, porque estou chegando agora na metade e tenho pretensão de resenhá-lo em breve. Portanto, vou falar o mínimo possível. Este post é só uma indicação superficial de leitura, para o caso de alguém aí passar por uma livraria e poder folheá-lo.

Aliás, não vou falar nada. Apenas indicar, para quem se interessar, que leia o que saiu sobre o autor e o livro nos jornais e sites brasileiros nas últimas semanas (eu não li, para não me influenciar, mas saíram resenhas na Bravo!, no Estadão, no O Globo, acho que na Folha também, além de várias entrevistas com o autor), e também um texto do Daniel Piza que figura na quarta capa do romance (que não tem orelhas). O livro é de capa dura e nela há uns altos relevos em formato triangular que deixam a edição ainda mais especial e bonita.

Quem tiver Twitter e blog pode, também, começar uma campanha para a Flip trazer o Kennedy para o Brasil, em agosto. Capaz de já o terem convidado e tudo, mas nunca se sabe. Dentro de alguns meses sai “Ironweed” por aqui, e, depois, “Velhos esqueletos”.

Ah, e quase ia me esquecendo: segunda-feira postarei aqui no blog as duas primeiras páginas do livro. Até lá.

Cock&Bull (isto não é uma resenha)

Saturday, February 20th, 2010

Peguei agora há pouco meu exemplar de “Cock&Bull”, de Will Self, pra folhear, e me dei conta de duas coisas: uma é que tenho um marcador de página da CosacNaify feito exclusivamente para a Flip de 2007. A outra é que há, ao fim do livro, uma entrevista com o autor, feita pelo tradutor do livro, Hamilton dos Santos.

Depois que acabou a mesa do Self com o Jim Dodge, ia rolar uma sessão de autógrafos com os dois. Eu tinha esquecido meu “Fup”, do Dodge, aqui em casa, e resolvi comprar outro lá, para pegar um autógrafo dele. Como livro nunca é demais, resolvi comprar também “Cock&Bull”, para pegar também um autógrafo do Self.

“Fup” eu havia lido antes de ir para a Flip, mas “Cock&Bull” eu até hoje não li. Talvez tenha chegado a hora…

Eu te amo, cara

Tuesday, February 16th, 2010

Gosto de comédias românticas. Na verdade, gosto de comédias de um modo geral. Algumas românticas são bem bobinhas, mas outras são realmente muito boas. “Um lugar chamado Notting Hill”, por exemplo. É um filmaço. Ou “Os queridinhos da América”, que é bem legal. Deixe-me ver outro… Bom, de cabeça agora não lembro, mas tem mais.

Nos últimos tempos não tenho visto mais filmes desse gênero porque as últimas que vi por aí não me atraíram. “A proposta”, com Sandra Bullock, por exemplo, que fez o maior sucesso, não criei coragem ainda para ver. Até porque o par dela no filme, Ryan Reynolds, é quem vai dar vida ao Lanterna Verde no cinema. Aí fico receoso de ir ver o Lanterna e ficar lembrando dele com a Bullock em alguma cena engraçada. Isso me faria rir no meio do filme do grande Lanterna Verde, o maior de todos os super-heróis, e isso não seria nada legal.

Enfim. Semanas atrás vi o trailer de “Eu te amo, cara”, acho que no DVD de “G.I. Joe”, e fiquei interessado em ver o filme. Que chegou na locadora daqui de perto semana retrasada. Com esses dias de carnaval, acabei alugando o filme para assistir, o que aconteceu ontem.

O legal de “Eu te amo, cara” é que é um filme voltado mais para o público masculino. A história é a seguinte: logo no início do filme, Peter Klaven, interpretado por Paul Rudd, pede sua namorada, Zooey (Rashida Jones), em casamento. Em seguida ela liga para suas amigas, para contar a boa notícia - inclusive causando um certo desconforto a Peter: elas não sabem que Zooey está falando do viva-voz, com o noivo ao lado, e começam a falar sobre a primeira vez dos dois e outros detalhes mais íntimos. Mas ele acaba não comentando nada e leva numa boa. Ao chegarem em casa, ela pergunta se ele não vai ligar para nenhum amigo, para contar a notícia. Ele desconversa e diz que pode ligar para seus “amigos” depois. Mas a verdade é que Peter não tem amigos.

As amizades que ele possui são de mulheres. E aí começa um problema: Peter precisará de um amigo para ser seu padrinho de casamento. Ou seja: ele vai ter que fazer amigos, e aí está a graça do filme.

Seu irmão, que é gay, e sua mãe, começam a lhe ajudar, dando dicas de como fazer amizades e arrumando “encontros masculinos” para Peter. O problema é que esses caras não fazem o tipo de Peter: um é um torcedor fanático de futebol, o outro é… gay!, e acaba beijando Peter no fim de um “encontro”. Ele tenta também, sem sucesso, se aproximar do marido de uma das amigas de Zooey - mas acaba vomitando na cara dele.

E então, de forma totalmente espontânea e casual, Peter conhece Sydney (Jason Segel), com quem começa uma boa amizade. Tão boa que, em certo ponto, vai começar a atrapalhar seu relacionamento com Zooey.

Como estamos falando de uma comédia romântica, o final é feliz. Não sem antes Peter e Sydney também “entrarem em crise”. É uma pena não poder comentar com maiores detalhes uma situação do filme, quando Sydney pede uma boa grana emprestada a Peter. Ele empresta o dinheiro, confiando que o amigo devolverá a quantia, mas não comenta com Zooey - além do fato de o empréstimo ocorrer às vésperas do casamento, num momento em que eles precisam, e muito, de dinheiro.

E também não sem antes abordar outros temas caros a todos nós, como a questão da autoconfiança - um problema que Peter tem -, das convenções sociais e das conversas entre mulheres, que, segundo o filme, contam TUDO umas para as outras. Não que isso incomode aos homens, mas… será que contar TUDO, até mesmo as maiores intimidades - vejam, estou falando, mesmo, das MAIORES INTIMIDADES de um casal -, é mesmo necessário?

O resultado é um filme engraçado, divertido, mas também um tanto sério, porque nos faz pensar em nossas vidas, e em nossos amigos. Afinal, todo mundo deve ter um amigo como Sydney, o solteirão boa vida que vê todos os seus antigos “brothers” crescerem, casarem, terem filhos, enquanto ele continua meio que “parado no tempo”, sempre “curtindo a vida adoidado”. Algum dia ele precisará entender que é preciso também seguir em frente, “passar de fase”, digamos assim. Ou não?

Da graça de ler

Monday, February 15th, 2010

* O post abaixo foi publicado originalmente no que seria meu outro blog, o O Leitor, mas que por motivos de falta de tempo foi temporariamente abortado. A republicação aqui - com algumas pequenas alterações - se dá pelo fato de a Veja desta semana trazer uma entrevista com o escritor Nick Hornby, citado no post, e que estou lendo novamente neste momento - ainda o seu “Frenesi Polissilábico”.

Tenho o hábito de ler vários livros ao mesmo tempo. Não recomendo isso a ninguém, porque chega a ser um tanto esquizofrênico, e se o leitor não ficar bem atento, pode confundir uma obra com outra. Quantas e quantas vezes não me peguei lembrando de uma cena de um outro livro, e não do que estava em minhas mãos no momento?

Por outro lado, é uma espécie de termômetro. Começar vários livros diferentes ao mesmo tempo te dá a oportunidade de saber como você realmente está. (Por favor, não levem isto a sério, é apenas uma pseudoteoria minha.) Exemplo: você começa a ler um romance existencialista, um livro de contos bem-humorado e um outro de crônicas sobre livros. Se você terminar mais rápido o romance, é sinal de que você não está muito bem psicologicamente, digamos, mesmo que não se dê conta disso. Se o livro de contos bem-humorados acabar primeiro, é sinal de que você está bem; podes não estar bem, bem, mas está bem. E se o escolhido for o terceiro, com as crônicas literárias, é sinal de que você está procurando justamente uma orientação sobre o que ler, e que você está num momento bem zen, na minha opinião. Afinal, não está mal, nem bem. Apenas está. E isso é até legal, sabia?

Mas enfim.

No momento, estou lendo três livros ao mesmo tempo, se formos rigorosos. Se formos bonzinhos, estou lendo uns 6 ou 7, já não lembro. Um deles é “Frenesi Polissilábico“, de Nick Hornby. Comecei a ler pelo meio dele e só depois de dois artigos é que fui ler a introdução. Nela, encontrei o seguinte trecho:

“E por favor, pelo amor de Deus, parem de fazer pouco caso daqueles que estão lendo e curtindo um livro - ‘O Código Da Vinci’, por exemplo. Para início de conversa, ninguém sabe que tipo de esforço isso representa para o leitor. Pode ser o primeiro romance adulto que a pessoa esteja lendo na íntegra; pode ser o livro que finalmente revele o propósito e a alegria de ler para alguém que até então estava confuso pela atração que os livros exercem sobre os outros. E, de qualquer forma, ler por diversão é o que todos nós gostaríamos de fazer. Não quero dizer que todos deveríamos estar lendo romances água-com-açúcar ou suspenses baratos (embora, caso seja essa a sua praia, por mim tudo bem, pois vou lhe contar um segredo: nada de mau lhe acontecerá se você não ler os clássicos ou os romances que ganharam o Booker Prize deste ano; e, mais importante, nada de bom lhe acontecerá caso você os leia); estou simplesmente dizendo que virar páginas não deve ser como caminhar num pântano com lama até a cintura. Livros são para ser lidos, e se você achar que não dá pé, provavelmente a culpa não é de sua incapacidade: às vezes, os ‘bons’ livros podem ser bem ruinzinhos.”

Confesso que já fiz pouco caso de best-sellers, continuo fazendo e vou fazer sempre, acredito. Mas porque gosto de ser chato. Na verdade, sei que os best-sellers são o sustento do mercado literário. E os admiro. Sério, de verdade. Assim como os livros de autoajuda. Não fossem eles, não sei o que seria das editoras.

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Ontem assisti à entrevista que a escritora Thalita Rebouças concedeu a Edney Silvestre. Autora de livros para adolescentes, Thalita é uma das poucas escritoras brasileiras que podem viver exclusivamente de literatura. Isso, no Brasil, é algo raro. E alguém que consiga isso merece todos os aplausos. Mais que isso: é digno de observação e atenção. Afinal, esse alguém pode ter muito a ensinar. E Thalita tem, sim, bastante para ensinar. Se por um lado escritores como J.D. Salinger, Rubem Fonseca e Dalton Trevisan são reclusos e mesmo assim mantêm uma carreira de sucesso, Thalita prova que às vezes o escritor precisa é colocar a boca no mundo e “aparecer”, mesmo. Ou ele faz isso ou será mais um entre os milhares escritores desconhecidos que existem por aí.

***

O que me levou a relacionar Hornby e Thalita foi o fato de ambos terem opiniões parecidas e eu tê-las conhecido no espaço de 24 horas. Thalita afirma que séries como “Harry Potter” fizeram os jovens ler mais. Livros como “O Código Da Vinci” fazem adultos lerem mais - o que Dan Brown vendeu e continua vendendo não é brincadeira…, vide seu novo livro, “O símbolo perdido”, que só no dia de lançamento nos Estados Unidos vendeu 1 milhão de exemplares (veja a notícia completa clicando aqui e depois em “Saiu na imprensa”).

Sou da opinião de que nem todos os que começam a ler best-sellers passam a ler melhor. Mas acredito que elas leem mais. E isso já é um bom começo, não?

O imitador de vozes, de Thomas Bernhard

Monday, February 15th, 2010

Curtos, absolutamente bem escritos e em sua maioria trágicos. Assim são os contos de “O imitador de vozes“, do escritor holandês de nascença mas austríaco de criação (e, consequentemente, de escrita) Thomas Bernhard.

O leitor interessado em literatura estrangeira quase certamente já ouviu falar em outros livros de Bernhard, como “O náufrago”, “Origem” ou “Extinção”, todos editados pela Companhia das Letras. Além desses, há livros do autor editados pela Rocco, como “Perturbação” e “Árvores abatidas”, mas estes são mais difíceis de encontrar em livrarias. Com alguma sorte, é possível encontrá-los em sebos.

À primeira vista, o que mais chama a atenção em “O imitador de vozes” é a forma como ele é escrito. Pode-se dizer que a linguagem é formal, talvez até um tanto rebuscada - sem qualquer pedantismo, é bom que se diga. Algumas passagens são tão exemplarmente bem escritas que o admirador da língua pode se ver lendo duas, três, quatro vezes o mesmo trecho, de tão belo. É importante mencionar, portanto, o excelente trabalho do tradutor da edição brasileira, Sergio Tellaroli.

Aparentemente, o narrador de todos os contos é a mesma pessoa, um jornalista. Austríaco, assim como Bernhard. Como dito no primeiro parágrafo do post, a maioria dos contos é trágica, mas há em muitos deles algo de cômico ou mesmo de fantástico - ou uma mistura dos gêneros, como no conto “Pisa e Veneza”, no qual os prefeitos de ambas cidades decidem trocar, na calada da noite, a torre de Pisa pelo campanário de Veneza, mas o plano é descoberto e ambos são internados em manicômios: “naturalmente, o prefeito de Pisa no manicômio de Pisa e o prefeito de Veneza no manicômio de Veneza”. Esse conto, aliás, pode ser uma alusão aos políticos megalomaníacos que prometem - e às vezes até tentam fazer - obras impossíveis ou completamente desnecessárias.

Por mais absurdas que algumas das histórias pareçam ser, elas sempre têm alguma conexão com a realidade. O conto que dá título ao livro, por exemplo, e que pode ser lido na capa mesmo, é sobre um imitador de vozes que consegue imitar diversas pessoas. Mas ao pedirem para que ele imite sua própria voz, ele diz “que aquilo não sabia fazer”. É uma metáfora perfeita para a perda de identidade, algo que vem acontecendo com mais frequência nesses tempos do “celebritismo supersônico”, digamos assim. Depois de alcançada a fama e a fortuna, o sujeito pode se perder no meio de tanto deslumbre. Vejam o caso de Adriano, hoje atacante do Flamengo, que além dos problemas pessoais que teve enquanto estava na Itália - morte do pai e outras coisas -, aparentemente não tinha mais o que conquistar, afinal, era o “imperador da Itália”. Ficou tão desnorteado que parou por um tempo com o futebol, voltou para o Brasil, visitou amigos no morro onde foi criado e, depois de “reencontrar a alegria de viver”, foi jogar no Flamengo, seu time do coração.

Como os contos são curtos, o leitor fica tentado a ler o livro de uma vez só, mas não recomendo fazer isso. Minha sugestão, caso alguém se interesse pela obra e resolva adquiri-la, é ler um determinado número de páginas por dia, intercalando este livro com outro. É que o leitor pode “cansar” do formato das histórias. Que são excelentes e agradáveis de serem lidas, mas algumas delas requerem uma maior atenção e, como dito anteiormente, algumas releituras. Daí a necessidade de uma parada para reflexão, deixar o livro um pouco de lado, e voltar à leitura no dia seguinte ou dois dias depois. Mas, claro, é só uma sugestão.

Depois de lido “O imitador de vozes” e de ter lido um pouco sobre o autor, ficou a vontade de ler mais livros dele. Infelizmente, suas obras são um tanto caras, e no momento não poderei comprar nenhuma. Mas com certeza lerei mais livros de Thomas Bernhard. Esta primeira experiência foi muitíssimo proveitosa.

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Post relacionado:Serviço público“.

Cine Privê, de Antonio Carlos Viana

Tuesday, February 9th, 2010

* Quem acompanha o blog já sabe: na revista Conhecimento Prático Literatura nº 28 foi publicada uma entrevista que fiz com o escritor Antonio Carlos Viana, por ocasião da publicação recente do seu livro “Cine Privê”. Como a entrevista já pode ser lida no site da revista, e como houve alguns cortes na introdução que fiz para ela, resolvi publicá-la - a introdução - aqui no blog. A diferença é pouca, mas ainda assim aí vai.

Pode-se dizer que o contista sergipano Antonio Carlos Viana escreve sobre o inevitável e o inusitado da vida. Mas também sobre o risível, o ridículo, o irremediável. Sua prosa é rápida, simples, calculada, o autor não se perde em devaneios ou tergiversações. Seus contos são breves, porém fortes, impactantes.

“Cine privê”, seu terceiro – e mais recente – livro de contos, é uma obra de rara qualidade e simplicidade. Não obstante a diversidade e as virtudes da literatura brasileira contemporânea, poucos são os escritores que conseguem realizar obras tão coesas e harmoniosas. E tão sóbrias. Há, nos contos de “Cine privê”, temas e situações que os autores mais jovens adoram abordar em seus livros, como sexo e violência gratuita. Mas Viana os aborda por outros prismas: sexo se transformar em sensualidade; e violência em crueldade. O que falta à maioria dos nossos escritores – talvez pela idade ou pela inexperiência, ou mesmo pelo pouco talento – sobra em Antônio Carlos Viana: classe.

A grande maioria dos personagens dos contos de “Cine privê” vive em situações precárias. São pessoas que estão prestes a perder seu lar (“Santana Quemo-Quemo”), que são reféns de um subemprego (“Cine privê”), ou que precisam andar quilômetros para enterrar um morto (“Nós, a maré e o morto”), por exemplo. Mas há também histórias de personagens que descobrem seu primeiro amor (“Eliazar, Eliazar”) ou sua sexualidade “Esperanza”; e há, ainda, histórias engraçadas, mas não felizes (“Tina e as forças cósmicas”), e contos sutis e delicados (“Quando meu pai voltou”).

Apontado por muitos como um dos mestres do conto contemporâneo – suas obras anteriores (“Aberto está o inferno” e “O meio do mundo e outros contos”) são elogiadíssimas –, Antonio Carlos Viana, apesar de utilizar em suas histórias personagens pobres e sofridos, diz não ser um escritor engajado. E mesmo que em alguns contos trágicos ou tristes haja uma ponta de esperança, o autor não se diz otimista, mas sim um “pessimista em último grau”. Na entrevista a seguir, realizada por e-mail, Antonio Carlos Viana fala sobre sua carreira, sobre “Cine privê” e sobre a literatura brasileira contemporânea.