Archive for March, 2010

Os descaminhos da crítica literária brasileira

Wednesday, March 31st, 2010

* O texto abaixo, de minha autoria, foi publicado na edição de julho de 2009 do Suplemento Literário de Minas Gerais.

Passei dias e dias pensando em como escrever este texto. Meu objetivo era mostrar que a crítica literária brasileira está em crise. Depois, pensando melhor, cheguei à conclusão de que a situação não é tão desesperadora. Não há uma crise, mas sim uma proliferação de pessoas incompetentes e/ou interesseiras praticando a crítica literária, pessoas que não têm nenhum comprometimento com a literatura.

Quando digo “crítica literária” não me refiro apenas às análises de livros que encontramos em jornais e revistas. Coloco no mesmo balaio – e sei que vai haver quem proteste – blogs e sites que se dedicam a comentar literatura. Mas, se generalizo, não é senão porque, de uns tempos para cá, todo indivíduo que leu meia dúzia de clássicos tomou a liberdade de se dizer crítico literário.

Voltemos à “crise”. “Normalmente as resenhas são feitas no interesse dos editores e não no interesse do público”, diz Arthur Schopenhauer em “A arte de escrever“. Foi assim por um bom tempo, e, ainda que isso tenha diminuído bastante, continua sendo. Com uma pequena diferença: hoje o interesse é, quase sempre, pessoal: do próprio “crítico”. Não há mais, salvo raras exceções, críticos preocupados em expor sua verdadeira opinião sobre determinada obra. Hoje boa parte dos resenhistas utiliza critérios abomináveis quando vão escrever a respeito de algum livro: amizade (ou inimizade) que têm com o autor criticado e/ou ter um original na fila de espera da editora que publicou o livro a ser resenhado são dois exemplos.

Dessa forma, lemos críticas favoráveis a livros ruins e desfavoráveis a livros bons. É certo que uma resenha não tem mais o “poder” que tinha antes. Do final do século XIX até meados do século XX (talvez um pouco mais, até a década de 70), um crítico, a depender de quem ele fosse, poderia definir o destino de um livro. Mas não é porque hoje uma resenha não tem tal influência que podem os críticos utilizar seus textos para adubar anseios pessoais e profissionais.

No ensaio “O ideal do crítico“, Machado de Assis faz uma belíssima reflexão sobre a crítica literária. Mais que refletir, Machado mostra os caminhos que levam a uma crítica justa, coerente, sincera e independente: “A crítica útil e verdadeira será aquela que, em vez de modelar as suas sentenças por um interesse, quer seja o interesse do ódio, quer o da adulação ou da simpatia, procure reproduzir unicamente os juízos da sua consciência”. Críticos assim não têm muito espaço na imprensa, é verdade, e muitas vezes acabam desistindo da atividade, tamanhas são as dificuldades enfrentadas e as restrições que lhes são impostas. Recorro, mais uma vez, ao ensaio de Machado, para mostrar quão difícil pode ser a vida de um crítico correto: “Com tais princípios, eu compreendo que é difícil viver; mas a crítica não é uma profissão de rosas, e se o é, é-o somente no que respeita à satisfação íntima de dizer a verdade”.

Eis o que deveria guiar todo crítico: a satisfação íntima de dizer a verdade, seja ela qual for. Alguns certamente dirão que a verdade não existe, e invocarão a máxima utilizada pelos relativistas, que dizem que tudo é relativo. Deixo-lhes, então, um trecho do livro “O rio que saía do Éden”, de Richard Dawkins: “Aponte-me um relativista cultural a 10 quilômetros de distância e lhe mostrarei um hipócrita. [...] Se você estiver voando para um congresso internacional de antropólogos ou de críticos literários, a razão pela qual você provavelmente chegará lá – a razão pela qual você não se esborrachará em um campo cultivado – é que uma multidão de engenheiros ocidentais cientificamente treinados realizou os cálculos corretamente”.

O argumento “tudo é relativo”, se é que se pode dizer que isso é um argumento, é divertido quando utilizado em algumas ocasiões (é uma excelente maneira de se irritar uma pessoa, aliás). Mas existem discussões nas quais essa frase não deve ser utilizada jamais. E alguns desses casos estão justamente dentro da literatura.

Existem obras que simplesmente são ruins. Podem ressuscitar George Orwell, um dos maiores críticos literários da história, colocar uma arma em sua cabeça e obrigá-lo a escrever uma resenha favorável sobre uma obra desprezível. Podem fazer um clone de Schopenhauer e torturá-lo para que escreva uma resenha elogiando uma obra de péssimo gosto. Muitos leitores seriam ludibriados, certamente. Afinal, Orwell e Schopenhauer estão acima de qualquer suspeita (mesmo tendo, ambos, errado em alguns julgamentos, como ocorre com todo crítico). Mas, ainda que sejam eles a elogiarem uma obra menor, tal livro não terá sua essência pobre e de baixa qualidade alterada. O pior que pode acontecer, se feita tal inversão de julgamentos, é justamente o leitor levar gato por lebre: comprar um livro ruim pensando que é bom, ou deixar de comprar um livro bom porque alguém o classificou como ruim. Pior ainda: o leitor pode começar a duvidar de sua própria capacidade de discernimento – ainda que a grande maioria dos leitores não tenha tal qualidade –, ou seja, ele pode deixar de folhear livros nas livrarias – em busca de alguma obra que lhe agrade – e, em vez disso, guiar-se apenas pelas listas de “mais vendidos”, que, salvo raras exceções, são compostas por obras irrelevantes. Prova disso é a quantidade de pessoas engabeladas pelos pseudocríticos e por essas listas de “mais vendidos” que existem por aí.

Mas por que obras ruins são publicadas, então? Ao contrário do que desejava Schopenhauer (”a grande maioria dos livros é ruim e não deveria ter sido escrita”), não é possível simplesmente ignorar as tais obras menores. Muitas delas são necessárias para sustentar o mercado editorial. No fim das contas, são os livros ruins que mais vendem. Essa talvez seja a única virtude deles, e é mesmo uma posição honrosa, desde que seus autores não tenham arroubos de arrogância e prepotência, achando-se os mais novos cânones literários.

Infelizmente, a camaradagem, o apadrinhamento, a inimizade são fatores que sempre estiveram presentes na literatura e sempre vão estar. Na verdade, tais características são visíveis em qualquer área da sociedade. É assim na política, é assim no trabalho. Tendemos a ser condescendentes com aqueles que estimamos e intolerantes com aqueles pelos quais não temos estima alguma. O que fazer, então, a respeito disso? Admitir e contentar-se com a situação? De forma alguma. Citando Cícero, Machado diz, ainda no seu “O ideal do crítico”: “É levantando as estátuas do teu inimigo que tu consolidas as tuas próprias estátuas”. Esse deve ser o pensamento de todo crítico: elogiar até os inimigos, se eles de fato merecerem. E criticar até mesmo os melhores amigos, se realmente não houver qualidade em suas obras.

No fim das contas, trata-se de uma questão de caráter. Somerset Maugham, nas suas “Confissões“, diz: “o grande crítico deve ser um grande homem”. Da mesma forma que, nas palavras de J.M. Coetzee, “o padrão ao qual todo romancista sério deve aspirar, mesmo sem a menor chance de chegar lá” é “o padrão do mestre Tolstói de um lado e do mestre Doistoiévski do outro”, o crítico sério deve almejar chegar a um patamar em que sua credibilidade seja ululante, sua honestidade um cartão de visitas e que sua sinceridade esteja estampada em cada texto que escrever.

No território da delicadeza, por Humberto Werneck

Tuesday, March 30th, 2010

* O texto abaixo, do jornalista e escritor Humberto Werneck, foi publicado originalmente no jornal Estado de Minas, em 7 de julho de 1991.

Há algo que me toca neste primeiro romance de Jaime Prado Gouvêa. Não é só a beleza da história, nem as delicadezas de que ela se tece, nem mesmo a dedicatória, que tem a generosidade adicional de me colocar ao lado de Murilo Rubião. Toca-me também, e muito, o que “O altar das montanhas de Minas” significa como fruto maduro numa trajetória de artista. Tenho saboreado o espanto de não poucos leitores diante da alta qualidade deste livro, como se tudo houvesse acontecido de uma hora para outra. Para mim não há surpresa. Tenho, afinal, 32 anos de Jaime Prado Gouvêa – o que significa que o acompanho desde o tempo em que ele celebrava paixões contrariadas com uma série de poemas ironicamente intitulados “As Corníadas”; desde o tempo em que, matando aula no Colégio Estadual, íamos descobrir na vadiagem do pátio que “Le Lac”, de Lamartine, não era aquele amontoado de palavras que dona Aline, a professora de francês, nos enfiava goela abaixo, depois de esvaziá-las de qualquer resquício de poesia.

O que quero dizer é que, por esses anos todos, pude testemunhar o desenvolvimento de uma obra que se constrói sem solavancos, como que obedecendo a um projeto obstinado – projeto cuja chave o autor parece ter dado no título de seu primeiro livro, “Areia tornando em pedra”, coletânea de contos publicada em 1970: um processo de solidificação. Numa leitura que ele talvez não autorizasse, vejo aí, também, o propósito de remar contra a corrente, numa espécie de radical subversão da geologia – não é a pedra que se faz areia, e sim o contrário.

Remar contra a corrente, em todo caso, é o que Jaime Prado Gouvêa vem fazendo desde que se descobriu escritor, lá no tempo das “Corníadas”, com uma determinação cabeçuda de que eu próprio recolhi amostras. O título do primeiro livro, por exemplo, me pareceu pouco feliz do ponto de vista comercial, e cheguei a fazer esse reparo num artigo. Não houve jeito de convencer Jaime a trocá-lo por outro mais convidativo. A história se repetiria vinte anos depois, quando ele me despachou de Belo Horizonte os originais de “O altar das montanhas de Minas”. Inutilmente argumentei que pouca gente se deixaria seduzir pelo verso pinçado na letra do hino de um congresso eucarístico perdido no tempo. Como no caso de “Areia tornando em pedra”, ele tinha posto o título que encerrava com mais exatidão a ideia do livro (disto não há dúvida), e nem quis conversa.

Tenho o maior respeito por sua integridade de artista, que o impediu de embarcar, como tantos outros, nas sucessivas marés literárias das últimas três décadas. Quem folhear seus quatro livros (com uma escala mais demorada, por favor, nos contos do irretocável “Fichas de vitrola”) vai verificar que Jaime Prado Gouvêa passou ao largo, por exemplo, de uma certa literatura “engajada” ou “participante” que andou provocando arrepios cívicos nos menos exigentes num bom pedaço das décadas de 60 e 70. Também não embarcou no realismo fantástico de carregação trazido na enxurrada do cacofônico boom da literatura hispano-americana. Não se deixou, por fim, contagiar pela facilidade do texto jornalístico, escola posta em moda graças a uma assimilação equivocada de Ernest Hemingway.

Havia, aliás, naquele tempo, e ainda há, no Fla-Flu bocó das artes nacionais, um antagonismo a dividir adeptos de Hemingway e de F. Scott Fitzgerald. Jaime Prado Gouvêa não chegou ao extremo de reduzir o primeiro a um jornalista pautado pela imaginação, como houve quem fizesse – mas seu coração é intransigentemente fitzgeraldiano. Avesso ao preto-no-branco, ao chapado, ao unidimensional, ele pertence, de fato, a essa rarefeita linhagem dos que trabalham a filigrana, os meios-tons. Escritores que, por isso, dificilmente poderiam ser transpostos para outra linguagem que não a das palavras, sem que houvesse irremediável perda de substância. Por mais que se tenha tentado, e se tentou bastante, ninguém, até hoje, conseguiu levar ao cinema as delicadas nuances que fazem o melhor da obra de Scott Fitzgerald. Fico pensando no enorme desafio que seria tirar um bom filme, também, de “O altar das montanhas de Minas”, sem reduzi-lo a uma bela história e apenas isto.

Há poucos dias, num jornal de São Paulo, sentenciava um resenhista a propósito deste romance, depois de atravessá-lo com uma sensibilidade de cupim: “Jaime Prado Gouvêa até que escreve direitinho”. Pudesse a literatura brasileira ser feita de autores que escrevem assim tão direitinho.

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Mais sobre “O altar das montanhas de Minas”:

- Artigo de Sebastião Nunes no O Tempo
- Resenha de Duílio Gomes no Jornal do Brasil

Armando Nogueira

Monday, March 29th, 2010

Somente há alguns anos pude ter algum contato com o trabalho do jornalista Armando Nogueira, que faleceu hoje pela manhã. Na época tínhamos TV a cabo e eu acompanhava bastante o SporTV, canal no qual Nogueira volta e meia aparecia como convidado especial de algum programa, sempre em participações brilhantes.

Era enriquecedor vê-lo em ação. Não raro lembrava de alguma história futebolesca deliciosa, ou dalgum “causo” dos bastidores do jornalismo. Lembro dele contando histórias maravilhosas envolvendo Nelson Rodrigues e Otto Lara Resende, por exemplo.

Fiquei tão admirado pelo Armando que fui procurar na internet algum livro dele, ou sobre ele, para ler. E cheguei a encontrar, mas acabei não comprando, sabe-se lá por quê. Pensei, ainda, em tentar contactá-lo, quem sabe conversar com ele por email, entrevistá-lo, conhecê-lo, escrever um perfil do grande Armando Nogueira. Mas as limitações geográficas e financeiras, que me impediriam de fazer o que eu realmente gostaria, que era conhecê-lo pessoalmente, acabaram por me fazer desistir até mesmo de tentar um contato virtual.

E hoje Armando Nogueira se foi. Com ele, boa parte da memória brasileira vai junto. A velha guarda vai indo embora, e infelizmente a juventude não está sabendo preservar o legado desses monstros que participaram de momentos decisivos da história do Brasil. Armando, por exemplo, eu li em algum lugar, desafiou a cúpula da rede Globo uma certa vez, o que acabou de custando, de certa forma, o emprego: foi afastado de suas funções e aposentado.

Um exemplo de seriedade e comprometimento difícil de encontrar hoje. Em qualquer lugar.

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Uma bela entrevista com Armando Nogueira, no jornal Plástico Bolha, que descobri hoje.

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Hoje seria postado aqui um texto de outro grande jornalista, o Humberto Werneck. Por motivos óbvios, o texto será postado amanhã.

Fiz um Tumblr

Sunday, March 28th, 2010

Acabei me rendendo ao Tumblr, depois de passar meses (ou anos, sei lá) ignorando a ferramenta.

Estou gostando bastante de lá. É bem mais simples e rápido de postar. Além do mais, estou adorando não precisar colocar títulos nos posts.

Este blog aqui deve começar a ter uma outra “cara”. A conferir.

Aí vai o endereço do meu Tumblr, que não é “entretantos” também por já ter alguém usando esse nome.

http://sobretudo.tumblr.com/

Ah, e só pra criar expectativa: amanhã vou reproduzir aqui um texto do jornalista e escritor Humberto Werneck.

Antes que recolham!

Friday, March 26th, 2010

Corram para a banca de revista mais próxima e comprem a Época Negócios deste mês de março. A matéria de capa é sobre as mudanças no mercado editorial causadas pelos e-readers. Matéria grande, fizeram entrevistas com gente muito boa (Jeff “Amazon” Bezos, Ruy “Estadão” Mesquita, Luiz “Cia das Letras” Schwarcz e outros). Esta edição, que comemora o aniversário de 3 anos da revista, teve como editores convidados o Pedro Moreira Salles (do Itaú/Unibanco) e Horácio Lafer Piva (ele eu não conhecia, mas pra ter sido convidado só pode ser muito competente). E tem mais coisas legais além da matéria de capa. Tem uma sobre arte contemporânea, por exemplo. Enfim, pelo que vi aqui - não li a revista inteira ainda, só alguns trechos -, o pessoal caprichou.

Explico o título do post: a revista pode começar a ser recolhida das bancas a qualquer momento pelas distribuidoras. Acho que vocês sabem como funciona o processo, mas não custa explicar: antes de a nova edição de uma revista chegar às bancas, a edição anterior é recolhida e (teoricamente) devolvida à sua respectiva editora. Como estamos no fim de março, pode ser que esta edição da Época Negócios seja recolhida nos próximos dias.

Além disso, há o risco de a revista acabar na banca, como parece ter sido o caso da Bravo! deste mês, que fui comprar e não encontrei em nenhuma das duas bancas que tem aqui perto.

Na CP Literatura 29

Thursday, March 25th, 2010

Já está nas bancas a revista Conhecimento Prático Literatura nº 29, cuja capa é dedicada a J.D. Salinger.

Nela, tem uma matéria minha sobre o escritor Menalton Braff. Na verdade, uma resenha de seu novo romance, o excelente “Moça com chapéu de palha“, além de uma entrevista com o autor.

Esta edição da CPL traz também um conto meu, chamado “Teto branco”. Trata-se de meu primeiro conto publicado em papel. Então, não percam tempo: comprem a revista e guardem com o maior carinho hehe Eu já comprei a minha.

Palavra, por Humberto Werneck

Tuesday, March 23rd, 2010

O texto abaixo, de Humberto Werneck, foi reproduzido pelo Artilharia Cultural, que merece aplausos pela reprodução. O texto é muito bom. Se foram eles que descobriram sua existência, os aplausos devem ser feitos de pé.

“Tomá-la como coisa viva, pulsante, não como vogais e consoantes sobre a folha de papel, tomá-la como vocais, soantes, não como pobre envoltório de informações cerebrais. Tomá-la nos olhos, na boca, nos ouvidos, na pele dos dedos e do corpo, para sentir antes de compreender. Considerá-la como fim, bem mais do que meio, como destino bem mais do que veículo. E, gostosa brincadeira, repeti-la, repeti-la à exaustão, até que à força da repetição o significado se esvaia, se desprenda, como a ostra de sua concha, e em seguida pescar, no aquário das sonoridades, do desenho que fazem, juntas, aquelas vogais e consoantes, uma nova ostra para aquela concha. Mais justa, exata e palatável que a primeira, certamente, a deslizar na língua em todos os sentidos. Quem sabe, trocar os habitantes de diversas conchas para que eles, em casa nova, se carreguem de energia como bateria a que se dá um novo sopro. Onde isso ou aquilo ficará melhor? Despir conteúdos cansados de seus invólucros, buscar para eles a vestimenta mais precisa na gôndola dos magazines verbais, no mar das palavras em situação dicionária (obrigado, poeta), e provar, prover, provocar, esgotar as mil possibilidades desse espelho em que se ajusta o foco da perfeição. Em nome do prazer, ignorar categorias – gramaticais, ortográficas, sintáticas, sexuais. Depois de inventariar as prateleiras, inventar, haute couture onde não há prêt-à-porter, onde não há o artigo, o substantivo, o adjetivo. Como quem descobre o som de uma temperatura, o tempero da temperatura na boca sorvendo o líquido não suficientemente frio: a cerveja meio quente não está morna, está môrna. Como os japoneses em São Paulo, tomar liberdades. Em todos os sentidos. Em todos os cinco, de preferência.”

Senna 50

Sunday, March 21st, 2010

Ayrton Senna da Silva, o maior piloto de Fórmula 1 de todos os tempos - só aceito discutir isso se a outra opção for Juan Manuel Fangio -, faria hoje 50 anos se estivesse vivo. Estão sendo feitas uma série de homenagens ao Ayrton, tanto off quanto on-line. Uma delas é do Instituto Ayrton Senna, que colocou no ar o site Senna 50, que está dialogando com redes sociais - Twitter, Facebook etc. - e prestando uma bela homenagem.

Já falei sobre o Ayrton aqui no blog, por ocasião dos 15 anos do trágico acidente que tirou sua vida, em Ímola. Contei como foi minha reação ao acidente e tudo o que veio depois, naquele 1º de maio, mas não me ocorreu algo que pensei dias atrás: sou fã do Ayrton, ele é um dos meus ídolos, mas, apesar de ter sua biografia há anos, ainda não a li.

E daí que isso me levou a pensar na paradoxal relação que alguns de nós tem com seus ídolos, com as pessoas que admiramos de uma maneira exagerada, ou mesmo com as pessoas que amamos. Muitas vezes nós “ignoramos” os defeitos e erros dessas pessoas simplesmente porque nossa admiração por elas nos faz “relevar” até mesmo suas más atitudes. Preferimos até desconhecer certas coisas, para que não haja o risco de uma decepção - ou decepções - ir minando a admiração que temos por elas.

Não posso afirmar que seja exatamente isto o que me fez não ler ainda a biografia do Ayrton. Até porque não sei se é esse o caso. Que o Ayrton tinha seus defeitos, todo mundo sabe. Afinal, ele é humano. Mas se esses defeitos são tão grandes a ponto de fazer um fã incondicional “ignorar” a biografia dele, não sei dizer. Assim como a dele, não li a biografia de Nelson Rodrigues, outro que admiro demais, apesar de tê-la também há alguns anos. Mas tendo a achar que seja este o motivo: não querer pagar pra ver - no caso, ler pra saber.

Meses atrás, um amigo me confessou estar um tanto desapontado com certas descobertas que vinha fazendo, sobre pessoas que ele vinha pesquisando para uma biografia. Ele me disse que chegou num ponto em que não conseguia mais ir adiante. Decidiu interromper o projeto por algum tempo e depois retornar a ele. Complicado, não?

Acho que existe em nós a vontade de manter determinadas pessoas ou mesmo determinados acontecimentos numa espécie de redoma, longe de imperfeições. Algo ingênuo e ilusório, já que a realidade e os fatos sempre dão um jeito de se colocarem diante de nós.

A edição que tenho da biografia do Ayrton não me permite sair com ela em mãos. É um pouco grande, além de eu querer mantê-la bem conservada por um looongo tempo. Saiu recentemente uma edição “de bolso” dela. Acho que vou comprar, pra poder andar com o livro e, finalmente, me dedicar a lê-lo.

***

É quase revoltante o fato de não haver no mercado um DVD sobre o Ayrton feito por brasileiros. A rede Globo tem um acervo incrível de imagens do Ayrton, tem acesso livre a pessoas que conviveram com ele, tem dinheiro de sobra pra fazer um DVD triplo, quádruplo, sei lá, uma caixa com 10 discos só de imagens, entrevistas, corridas marcantes etc., e, sabe-se lá por que, simplesmente não faz isso. Tem também a editora Globo, que poderia publicar um livro com imagens do Senna, depoimentos sobre ele, as frases dele, enfim, mas não o faz. Fico me perguntando o motivo, mas não consigo pensar em nenhuma resposta.

A única coisa que sei é que o Brasil esquece muito fácil de tudo o que deveria lembrar. É por isso que a política continua do jeito que está. Collor fez o que fez e foi eleito senador. Arruda fez o que fez e foi eleitor governador. É tudo muito triste.

***

Mas ao menos no ano passado saíram dois livros legais sobre o Ayrton: Ayrton Senna - Esporte Com Arte 2010 e Ayrton Senna - Uma Lenda A Toda Velocidade. E dá pra encontrar pelo menos 1 DVD à venda: An Official Tribute to Ayrton Senna.

***

Vejam também:

- Post de Rafael Lopes sobre Senna
- Homenagens a Senna se estenderão ao longo de 2010

O futuro (incerto?) dos livros

Friday, March 19th, 2010

É o título da minha coluna que entrou no ar hoje, no Digestivo. Confiram lá!

Olho por olho, de Lucas Figueiredo

Wednesday, March 17th, 2010

O material abaixo foi publicado na revista Conhecimento Prático Literatura nº 26.

Todos os livros do jornalista mineiro Lucas Figueiredo são sobre temas espinhosos. Em “Morcegos Negros” (2000) ele se dedicou a pesquisar um dos capítulos mais vergonhosos da História recente do Brasil, a Era Collor. Depois, escreveu sobre o serviço secreto brasileiro, em “Ministério do Silêncio” (2005). Pouco tempo passou e Lucas decidiu destrinchar mais um fato recente da nossa História, o mensalão, no livro “O Operador - Como (e a mando de quem) Marcos Valério irrigou os cofres do PSDB e do PT ” (2006). E agora, em “Olho por olho“, o jornalista mineiro se debruçou sobre mais um período negro da História do Brasil: a ditadura.

“Olho por olho” conta a história de dois livros importantíssimos para o entendimento dos anos de chumbo: “Brasil: Nunca Mais”, escrito pelos que eram contra o regime; e “O livro negro do terrorismo no Brasil”, escrito pelos militares, mais conhecido pelo codinome “Orvil”, que é a palavra “livro” ao contrário. Mais que um apelido, “Orvil” revela a intenção real do livro: não apenas mostrar a ditadura segundo o exército, mas sim desconstruir e derrubar o “Brasil: Nunca Mais”.

A maioria das pessoas que leu o “BNM” talvez não saiba que suas 312 páginas (número referente à 36ª edição do livro, editado pela editora Vozes desde 1985) são o resultado de uma condensação de quase 7 mil. Os responsáveis por essa tarefa foram o jornalista Ricardo Kotscho e o ex-preso político – torturado pelos militares – Frei Betto. O levantamento dessas 7 mil páginas de documentos foi feito através de uma operação chamada “Testemunhos Pró-Paz”, digna dos melhores roteiros de filmes de espionagem. Como foi organizada a operação, quem participou dela, quem a bancou financeiramente, quais os perigos que passaram os integrantes do projeto, tudo isso é narrado por Lucas Figueiredo. Que faz o mesmo com o “Orvil”, que, sem sua “versão final”, digamos assim, contava 919 páginas divididas em dois volumes. Mas quais foram os militares responsáveis por sua criação e execução?; qual motivo o deixou “engavetado” por tantos anos?; quem vetou sua divulgação? Tudo isso é esclarecido pelo jornalista mineiro.

Um livro revelador em todos os sentidos, “Olho por olho” é certamente uma das obras mais importantes lançadas nos últimos anos no Brasil, porque, além de contar a saga de dois dos mais importantes livros brasileiros de todos os tempos, ele também apresenta fatos históricos que precisam ser conhecidos e questionamentos que precisam de respostas.

Na entrevista a seguir, realizada via e-mail, Lucas Figueiredo, vencedor de três Prêmios Esso, fala sobre seu livro, sua inclinação para as reportagens de fôlego e sobre jornalismo e o fim dos jornais.

Quais foram as maiores dificuldades que você enfrentou durante a escritura de “Olho por olho”?
A maior dificuldade, sem dúvida, foi conseguir uma das quinze cópias artesanais do Orvil, o livro secreto que o Exército produziu entre 1985 e 1988 e que nunca foi publicado. Comecei minhas buscas pelo Orvil em 1998 e só obtive uma das 15 cópias, por intermédio de uma fonte militar, em 2007.

De onde vem sua predileção pelo jornalismo investigativo/político?
Não gosto muito desse termo “jornalismo investigativo”; prefiro “reportagem”, que é algo que se faz há séculos. Acho que, no Brasil, nós jornalistas temos o papel imenso de revelar as mazelas que nos atravancam. Meu fascínio é mostrar o que dá errado, com a esperança de que isso ajude a fazer o certo.

Nos últimos anos foram lançados muitos livros sobre os anos de chumbo no Brasil. Isso ocorre porque finalmente temos o distanciamento necessário para analisar friamente os fatos ou porque ainda há muito a ser dito sobre o assunto? Você acha que algum dia esse tema vai se esgotar?
Nos últimos anos, tem vindo à luz muita informação nova sobre o período, por isso a grande produção. Como a ditadura ainda tem grandes mistérios, como o destino dos 130 desaparecidos políticos, ainda temos campo para a publicação de centenas de obras. O interesse nunca irá se esgotar, porque esse foi um dos períodos mais trágicos do país.

Me parece que, durante o ensino médio, a História Contemporânea do Brasil não tem a atenção que merece. Fala-se muito sobre “Descobrimento” e pouco sobre a Ditadura, na minha opinião. E isso resulta em jovens que mal sabem que, durante anos, nosso país foi governado por militares, por exemplo. Você concorda? Isso não prejudica o desenvolvimento da nação e o entendimento da nossa situação social e política?
O problema é que nas escolas, em geral, a história é ensinada de forma mecânica, sem atrativos. Por isso os jornalistas têm um papel importante nesse campo, ou seja, não apenas levar informação histórica de qualidade ao público, mas também tornar a própria História uma coisa atraente. Aposto que muitos brasileiros aprenderam muito sobre Getúlio Vargas lendo os livros de Fernando Morais, muito sobre a ditadura lendo Elio Gaspari, e sobre o “Descobrimento” lendo Eduardo Bueno.

Mudando um pouco de assunto: recentemente o STF derrubou a exigência de diploma em jornalismo para se atuar na área. Naturalmente, houve muita reclamação por parte dos estudantes de jornalismo e também de jornalistas. Na sua opinião as reclamações são justas ou o STF agiu corretamente ao colocar um fim na exigência do diploma? O jornalismo ganhou ou perdeu com isso?
Acho que o jornalismo ganha com o fim da exigência do diploma. Nunca entendi porque um filósofo, um advogado, um historiador não poderiam ser também bons jornalistas. Tenho um amigo formado em matemática que é um dos melhores e mais corretos repórteres que já conheci. O que o diploma escondia era uma reserva de mercado.

Ainda sobre jornalismo: quase todos os dias alguém fala em fim dos jornais e até no fim do próprio jornalismo. O que você acha disso? Os jornais - e o jornalismo - vão mesmo acabar? O destino de reportagens como as suas será, mesmo, os livros? Ou haverá espaço para reportagens longas nos jornais e revistas? Você arrisca alguma espécie de previsão?
Muitos jornais vão acabar e os que sobreviverem terão de fazer grandes mudanças por questões financeiras, ou seja, terão de “encolher”. O que é uma pena, porque os jornais, com as reportagens, têm tido grande importância na história recente do país. Se a reportagem migrar para outro suporte, não vejo problema. Mas até agora a internet não tem rendido o suficiente para os portais terem jornalistas de qualidade fazendo reportagens. Nenhum portal brasileiro tem, por exemplo, um correspondente na Venezuela, na China, em Buenos Aires ou em Washington, como os jornais. Acho que passaremos por um período nebuloso, no qual teremos menos reportagens, ou seja, menos informação de qualidade. Mas acho que isso pode ser corrigido no futuro.

O que faz um bom jornalista? Uma graduação na área é mesmo necessária ou uma boa bagagem de leituras e, mais que isso, “correr atrás” dos fatos resolve? Quais os conselhos que você daria a um estudante de jornalismo ou a quem está dando os primeiros passos na profissão?
Primeiro, uma boa formação humanista. Toneladas de leitura: imprescindível!!! Por último, leitura de um bom jornal, pelo menos, da primeira a ultima página, incluindo editoriais e cartas ao leitor. As dicas: vá para a rua, não tenha preguiça, cheque seus dados obstinadamente!

Você já está pensando (ou trabalhando) num próximo livro? Se sim, pode revelar qual o assunto e quando pretende publicar?
Neste momento, estou lançando “Olho por olho”. Mas também estou trabalhando em outro livro, que deve ser publicado no segundo semestre do ano que vem. O assunto, por enquanto, é segredo…