Archive for the ‘Crônicas’ Category

Uma cerveja com Obama

Sunday, May 10th, 2009

- Ih, galera, ó quem tá chegando ali…

- Putz, fala sério! O cara veio mesmo!

Barack Obama, muito sério e sob forte escolta, caminhava em direção aos seus novos amigos, que o esperavam numa mesa de bar. O ar grave de seu rosto não condizia com aquele encontro agendado há meses. O combinado era “tomar uma” e esquecer, por alguns minutos, os problemas dos EUA e do resto do mundo. Obama já era esperado há bem uns trinta minutos, e alguns dos presentes já não acreditavam que ele comparecesse. Mas ele veio.

- Falaê, Russeín! - “Russeín” é o apelido de Obama entre os amigos.

- Alô, pessoal, como vão? - disse Obama, ao mesmo tempo em que ia cumprimentando a todos. Diferente do encontro anterior, ele não fez a brincadeira do “passa o cartão e digita a senha”. Os cumprimentos foram solenes, diplomáticos. Aquela seriedade finalmente foi percebida pelos amigos, que de repente se demonstraram apreensivos, preocupados.

- Que que houve, Obama? Cê tá sério, rapaz. Contaí!

- Caras, me desculpem. Não poderei ficar muito tempo com vocês. Algo terrível está para acontecer, por isso me atrasei.

- Putz! Que que houve, Obama? Fala logo!

Obama respirou fundo, tomou um gole da cerveja que lhe havia sido servida, respirou fundo de novo, olhou ao seu redor, pediu para os amigos se aproximarem do centro da mesa e falou:

- Por favor, não contem a ninguém o que vou lhes dizer agora, mas os Estados Unidos acabou de sofrer um ataque. Nosso espaço aéreo está fechado e nem mesmo eu posso voltar para lá agora, porque nosso pessoal teme não estar detectando aviões inimigos se aproximando de Washington. Daqui a 30 minutos estarei partindo para o Canadá e é muito provável que uma guerra esteja por começar.

As faces dos rapazes rapidamente traduziram seus sentimentos: o pânico estava prestes a dominá-los, mas eles não poderiam se exaltar, afinal, todos os olhares do bar estavam dirigidos para aquela mesa. Sendo o mais discreto possível, um deles falou:

- Peraí, Obama, peraí. Cê não tá falando sério, tá? Puta que pariu!

Obama estava ainda mais sério do que antes. Tamborilando a mesa, disse:

- Você acha que eu iria brincar com uma coisa dessas? Você sabe o que é isto aqui? - Ele levantou um pouco a maleta que estava carregando e da qual só agora eles se davam conta. - Vocês sabem o que é isto aqui, certo?

Todos sabiam. Era a famosa pasta de guerra de Obama. Dentro dela, uma série de documentos e algumas ferramentas eletrônicas. Entre elas, o famoso botão vermelho.

- Caras, basta um telefonema. Um telefonema só e eu uso o botão.

Todos se entreolharam. Obama estava mesmo falando sério. Neste momento, o celular de Obama tocou. Ele atendeu.

- Ok, John, ok, eu entendo. Sim, agora. Já!

Obama colocou a maleta sobre a mesa, abriu-a e disse aos seus amigos:

- Caras, desculpem ter de fazer isso aqui, na frente de vocês.

Feito estátuas estavam, feito estátuas continuaram. Obama estava prestes a apertar o botão. O mundo iria entrar em guerra.

Seus pensamentos foram interrompidos por um barulho de nariz sendo assoado. Como se estivessem sonhando, despertaram, e viram Obama assoando o nariz mais uma vez.

- Desculpem, caras, sei que é falta de educação, mas estou meio gripado. - Depois disso, gargalhou.

Os amigos ainda estavam sob efeito das declarações anteriores. Mas ao verem que Obama não parava de gargalhar e que ele já havia fechado a maleta, “acordaram”.

- Porra, Obama! Tá de sacanagem?

Obama mal podia se conter, e entre gargalhadas e batidas na mesa, dizia:

- Vocês precisavam ver a cara de vocês! - Mais gargalhadas.

- Caraca, Obama! Não brinca com isso, cara, não brinca, pelo amor de Deus!

Obama continuava rindo.

- Ai, ai, minha barriga tá doendo! - E ria mais ainda, o peralta do Obama.

***

Esse é o Obama.

Mais um no Blog da Feira

Friday, August 1st, 2008

Saiu hoje mais um texto meu no Blog da Feira: “A literatura e seus efeitos“, já publicado no Digestivo. Quem ainda não leu, fique à vontade.

Sinais dos tempos?

Thursday, May 15th, 2008

Há algum tempo falei sobre como foi difícil escrever a resenha de “Sobre Alice“. Fiquei devendo postar um texto que nasceu de uma das tentativas frustradas de iniciar a resenha. Pois agora o posto. De novidade nele, só os últimos dois parágrafos, que redigi agora há pouco.

É difícil falar de amor. Prova disso é a infinidade de músicas, poesias e comédias românticas produzidas até hoje. Afinal, o que é mais fácil: elaborar você mesmo um texto romântico para a sua bem-amada ou simplesmente dedicar a ela uma letra do U2?

Mas ainda há quem consiga ser original, romântico e sincero ao falar de amor. Há centenas, milhares de homens românticos que o fazem. Isso só não é público e notório porque, com toda a razão do mundo, as mulheres amadas por esses homens fazem de tudo para não espalhar por aí que seus namorados, noivos e maridos são uns “fofos”, uns amores. Isso atrai a concorrência.

***

Na época do ginásio, era difícil um amigo meu admitir que estava apaixonado por alguma garota. Eles sempre desconversavam, diziam que não era bem assim, que só queriam curtir, essas coisas. Os que continuam solteiros até hoje provaram ser realmente solteirões convictos, mas boa parte deles não demorou a sofrer por amor.

Por ser um cara considerado romântico – e sou mesmo, ou tento ser – meus amigos vinham chorar as mágoas dos amores não correspondidos em meus ombros. Isso bem distante da vista dos outros, é claro. Até porque, algumas vezes, eles literalmente choravam. É como diz aquele velho ditado: “os brutos também amam”.

Algumas situações chegavam a ser engraçadas, se não fossem realmente tristes. Mas éramos novos ainda, achávamos que aquelas paixões juvenis que tivemos seriam para o resto da vida. Mas a vida, para nós, estava só começando. As paixões e os amores – no meu caso muitas vezes não correspondidos – iam e vinham. Com facilidade e dor extremas.

***

Naquela época – falando assim até parece que faz muito tempo… – as garotas procuravam rapazes sérios, responsáveis, para namorar, mas se queixavam de que era muito difícil encontrar alguém que quisesse ter um relacionamento firme. Hoje, pelo que percebo, acontece justamente o contrário: são os rapazes que se queixam de que não está nada fácil encontrar uma garota a fim de engatar um namoro. As mulheres resolveram engrossar? Virar o jogo? Ou é só impressão minha? Mulheres, se pronunciem!

Para quem escrevo, afinal?

Sunday, September 2nd, 2007

O Digestivo Cultural está fora do ar já faz alguns dias. Não quero nem comentar o impacto que isso tem em todos os que participam do site. Não é uma tragédia na vida de nenhum dos colaboradores, mas todos ficam sentidos com o fato. Mais ainda o Julio, editor do site, e eu, editor-assistente, que tanto suamos para colocar a casa em ordem nas últimas semanas. Corremos tanto e, no final, não adiantou nada. Os leitores não podem ler os textos que revisamos e programamos com uma antecedência de mais de uma semana. Uma pena.

E estou mais sentido ainda porque meu texto que sairia na sexta-feira, dia 31, me custou no mínimo duas semanas de reflexões. Acho que nunca tive tanto cuidado com um texto. Não é lá uma maravilha de texto, mas é um bom texto, e eu queria muito que ele tivesse saído no site do jeitinho que eu imaginava.

O pior é que eu não quero publicá-lo aqui. Modéstia à parte, meu esforço e meu texto merecem um melhor reconhecimento e um maior número de leitores.

Esse egoísmo me fez pensar na pergunta-título deste post: para quem escrevo, afinal?

Vivo dizendo que escrevo para mim, não para os leitores (os poucos que tenho). Certo, tudo bem. Assim penso sobre minha ficção. Não minhas colunas e resenhas. Estes textos, sim, escrevo pensando no leitor, em como conquistá-lo com meus argumentos, ou em como deixá-lo puto da vida com uma frase ou outra. Já aqui, no meu bloguinho, escrevo para mim mesmo, às vezes até sem me importar muito com o que estou escrevendo. Isso já me trouxe uma ou duas pequenas dores de cabeças, mas toma-se um Tylenol e segue-se em frente.

Aliás, não é egoísmo: é vaidade.

Estou pensando no que fazer com o texto. Enviei-o (tá certo isso?) a um editor, vamos ver o que dá. Ele estará disponível no Digestivo, quando o site voltar ao ar, claro. Mas vou tentar outros caminhos.

Um ex-post

Sunday, May 13th, 2007

Era uma vez um texto. Dentro de algum tempo vocês o lerão.

Playboy? Eu não.

Saturday, April 28th, 2007

Pensei numa revista com esse título: “Playboy? Eu não”. Porque a Playboy é realmente para playboys. Caras que têm muito dinheiro de sobra. Que podem comprar camisas de 300 reais, ternos de 1.000 e sapatos de 500. Ou ainda carros e motos de valores astronômicos. Sem contar que a revista paga altos cachês para as modelos de capa. Agora tudo é na base dos milhões de reais.

A minha revista seria diferente.

Na seção “Moda”, fotos de tênis All Star de no máximo 70 reais e sandálias Havaianas. Sapatos sociais da C&A ou alguma outra loja de departamento. E não mais que 79,90.

Camisas? Lisas, por 14,90. Camisas sociais não ultrapassariam o módico precinho de 50 pilas. Mais que isso é um susto e sair correndo da loja.

Carros e motos? Não teríamos por quê ter uma seção dessas. O público leitor de minha revista anda de busão. Principalmente o editor dela - eu -, que tem larga experiência no assunto.

No lugar dessa seção, teríamos uma chamada “Busão” ou, quem sabe, um nome mais poético “As histórias maravilhosas do busão nosso de cada dia”. E lá muitas dicas de como se espremer na porta do ônibus sem se machucar, ou de como utilizar o colega passageiro como apoio para não cair. E a melhor dica de todas: como não se envolver com nada ao seu redor no interior do ônibus: basta sentar (se conseguir um lugar para sentar, claro), abrir um livro e ler - ou fingir que está lendo.

Nossas modelos - rá!, modelos! - seriam mulheres que abordariamos na rua - sim, eu teria uma equipe, ora bolas! -, perguntando: “quer 100zinho pra tirar umas fotos?”, se ela fosse muito bonita. Já é uma boa, não? Pras medianas, cinqüentinha já seria bom demais. E cada uma ganharia um milhão transgênico, devidamente plantado e colhido no terreno de um integrante maconheiro da equipe de redação da revista. E, pelo preço, não seria nú artístico, óbvio. Só umas fotos mais ou menos sensuais, de biquini (na beira de uma piscina de plástico no quintal aqui de casa), camisa de malha branca molhada (devidamente molhada com uma mangueira ou no chuveiro mesmo), essas coisas.

Ah, e teríamos uma bela (bela, não: belíssima, sensacional) seção de livros, cds e dvds (toda ela editada por mim, com alguns pitacos de amigos convidados), e de como encontrar coisa boa a derreáu (pra quem não sacou, 10 reais).

Nisso eu sou especialista.

O outro lado

Thursday, March 29th, 2007

* postado em 02/12/2006, no antigo Entretantos.O mundo nunca foi, não é e nunca vai ser o mundo perfeito que muita gente quer e imagina que possa vir a ser.

A maioria das pessoas foi, é e sempre será ignorante, mal-educada e fútil.

O lucro foi, é e sempre será o objetivo de todo e qualquer ser humano. A ambição é inerente à nossa espécie. Raros são aqueles que não têm metas maiores a alcançar. E coitados deles, pois são atropelados por todos os outros.

Os filhos foram, são e sempre serão rebeldes sem causa, e só aprenderão as lições da vida quando algo de muito grave com eles acontecer. E quando isso ocorrer, é muito provável que eles estejam sozinhos no mundo, sem os pais, e afastados do que antigamente chamavam de família. E só então vai perceber que, na verdade, nunca souberam o que o termo “família” significava. Raros são os filhos que dão valor a seus pais.

A maioria dos pais foi, é e sempre será impaciente e muito pouco compreensiva no que concerne às vontades e sonhos dos filhos, justamente dos filhos que são pacientes e compreensivos com eles. É incrível. Mas a culpa disso não é dos pais: é do mundo, cada vez mais cruel e insuportável, por culpa das pessoas que não têm a mínima preocupação em serem pessoas melhores. Os pais preferem, portanto, que os filhos não sonhem, que não se iludam com o mundo, pois não receberão boas novas em troca. Apenas sonhos despedaçados.

Tudo hoje gira em torno de apenas duas coisas: dinheiro e satisfação pessoal. Dane-se o próximo. Dane-se um “bom dia”. Dane-se um jogar o papel do chiclete no lixo. Dane-se uma gentileza, um ato de respeito ou de carinho. Dane-se tudo, danem-se todos. Eu, eu, eu. É só o que importa: eu. E mais nada.

É por essas e por muitas outras coisas que o mundo está do jeito que está, e vai piorar, e muito, nos próximos anos.

Não podemos ficar nessa de “cada um que se cuide e salve-se quem puder”. Todos temos nossa parcela de culpa, todos podemos ajudar de alguma forma.

Você não paga pra dar um “bom dia” ao carteiro. Você não paga pra ajudar uma senhora que passa carregando peso ou pedindo uma informação. Você não paga pra dar lugar a um idoso no ônibus, trem ou metrô.

Você não vai morrer se deixar pra jogar o papel do chocolate alguns metros adiante, numa lata de lixo. Você não morre se tiver um pouco mais de paciência com todos os que te cercam.

Muita gente por aí tem uma vida pior que a sua, que a minha, e nem por isso fazem de suas vidas um mar de lamentações. Trata-se apenas de uma questão de paciência, boa vontade e esperança, que anda faltando em muita gente.

Esperança. Por incrível que pareça, e apesar de tudo que está escrito acima, eu ainda tenho um pouco.

Um homem sem objetivos não é nada

Thursday, March 22nd, 2007

 E eu digo “homem” no sentido mais amplo da palavra, no sentido de “ser humano”.

Todo homem deve almejar algo. Por mais simples que seja esse algo. Ter um objetivo claro e persegui-lo é uma das coisas que mais admiro numa pessoa.

Digo isso inspirado pelo Romário, que está prestes a marcar seu milésimo gol. Antes de chegar nessa contagem regressiva ele foi duramente criticado, alvo de piadas e do desprezo de muita gente que agora o endeusa. Romário é, talvez, o melhor atacante que vi jogar - posso falar da década de 90 pra cá - e por mais que já tenho feito e dito muita besteira, hoje é um exemplo para qualquer um, acredito eu.

Os cabelos brancos e a idade ensinaram a Romário algo que ninguém pode ensinar a ninguém. Não é a bronca do pai nem o conselho do irmão. É o tempo que nos faz aprender.

A busca pelo milésimo gol levou Romário, que já foi eleito melhor jogador do mundo e jogou em times como o PSV (da Holanda) e Barcelona (de onde, mané?), a jogar em um time inexpressivo da liga de futebol norte-americana e a um time menos expressivo ainda, da Austrália. (more…)

Ser legal é legal

Wednesday, February 7th, 2007

Procuro ser o mais gentil possível com quem quer que seja. Menos com quem não merece gentilezas, é claro. Mas ainda assim procuro sempre ser agradável. Em casos extremos demonstro um ar cansado, sem ser de enfado, só pra mostrar ao outro que não sou nenhuma máquina. E isso às vezes funciona.

Mas o que funciona mesmo é ser gentil. E o melhor é ser sem pensar em recompensa, ser agradável gratuitamente, sem esperar nada em troca. Quase sempre há um bom retorno, mais cedo ou mais tarde.

Sábado à noite atendi uma cliente muito simpática. Ela foi fazer o cartão da empresa, e como já era tarde, só teríamos a resposta no dia seguinte. Como ela não poderia ir lá no domingo, pedi que ela ligasse de casa ou que aparecesse por lá na segunda, pra saber se o cartão tinha sido aprovado. Ela fez questão de só saber o resultado na terça, comigo.

E ontem também um cara muito gente fina, que tentou mês passado fazer o cartão e não foi aprovado, retornou à loja. Como estava muito cheio e ele tem um problema de tempo, sugeri que viesse no domingo próximo. Ele perguntou se eu estaria trabalhando, mas estarei de folga. Ele então disse que viria outro dia, pra fazer o cartão comigo.

Muito legal esse tipo de coisa. E pra ser legal não tem receita. É só ser. Andar de bem com a vida, sem reclamar de barriga cheia. E se for reclamar de barriga vazia, ou seja, com razão, o melhor mesmo é usar a garganta pra outras coisas.

É correr atrás, minha gente. Correr atrás. Misturei um pouco as coisas, mas acho que vocês entenderam a mensagem principal.

Plano de leitura

Thursday, January 18th, 2007

* Texto publicado originalmente na extinta coluna Literando, que eu mantinha no site Argumento, em 29 de junho de 2006.

Sempre que compro ou recebo um livro, seja ele um romance, uma coletânea de contos ou crônicas ou poesias, a primeira “coisa” que faço é verificar como o livro é dividido.

Se for um romance, vejo quantos capítulos ele tem, e qual a média de páginas de cada um. O mesmo com as coletâneas de contos, crônicas ou poemas. Depois disso traço um plano de leitura, digamos assim. Lerei “X” capítulos (ou contos ou crônicas ou poesias) por dia e em “Y” dias finalizarei a leitura.

Mas como as coisas quase nunca saem como planejado, muitas vezes eu me enrolo todo. Ou não. Por exemplo.

Dia 15 de abril desse ano, que foi um sábado, recebi o livro (via sedex, por isso chegou no sábado) “Amigos e vinhos, mulheres à parte” (Rocco, 379 págs.), romance do escritor americano Rex Pickett. Como esse texto não se trata de uma resenha, direi apenas que o livro é muito bom, e deu origem ao filme “Sideways - Entre umas e outras“, ganhador do Oscar de melhor roteiro adaptado. Se você não assistiu ao filme nem leu o livro, não sabe o que está perdendo. Mas enfim. (more…)