Archive for the ‘A vida como ela é’ Category

Os primeiros livros de 2010

Wednesday, January 27th, 2010

Daqui a pouco janeiro termina. Aproveito essa proximidade com o fim do mês para fazer um pequeno post citando alguns dos livros que recebi este mês e minhas primeiras impressões sobre eles. Talvez passe a fazer isso no fim de cada mês. Talvez.

De Martí a Fidel - A Revolução Cubana e a América Latina“, de Luiz Alberto Moniz Bandeira - Há anos que tenho um grande interesse pela História de Cuba, apesar de ter o que poderia ser batizado de “trauma de Che”, de tanto ver militantes estudantis revoltatos e sem noção vestidos com aquela velha e manjada camisa com a foto de Che Guevara. Cuba certamente não se resume a Che, bem como nem apenas de estudantes revoltados e sem noção é feita a militância estudantil - mas é uma pena que, neste último caso, apenas os revoltados se destaquem, e é uma pena Che ser praticamente o único lembrado quando se fala de Cuba - além de Fidel, claro. É desses estigmas que quero escapar. Por isso o interesse na História cubana.

Três Tristes Tigres“, de Guillermo Cabrera Infante - Recebi um dia depois do “De Martí a Fidel”, mas acabei lendo primeiro. Quem me recomendou sua leitura foi o Humberto Werneck, com quem compartilhei meu interesse por Cuba. Ele de pronto citou Cabrera Infante e uma série de autores que anotei num bloquinho de papel que estava ao meu alcance na hora. “TTT” é um livraço. Em breve mais palavras minhas sobre ele.

Moça com chapéu de palha“, de Menalton Braff - Foi com alegria que recebi o novo romance de Menalton. Comecei a ler pouco depois que o recebi e estou adorando, como já disse num post e também no Digestivo. Em pouco tempo escreverei mais sobre ele.

Trilogia “O império das Formigas”, de Bernard Werber - Sempre tive muita curiosidade sobre as formigas. Me admiro muito com a organização delas, aquela coisa de andarem em fila e se cruzarem e se chocarem, e se juntarem para carregar uma folha… É fascinante, como diria @oclebermachado. Essa trilogia é composta por três romances: “As formigas”, “O dia das formigas” e “A revolução das formigas”. Foi publicada originalmente há mais de 10 anos, na França, e só em 2008 veio dar as caras por aqui. Bom, antes tarde do que nunca. Até porque, se tivesse vindo antes, talvez eu nem tomasse conhecimento dos livros. Bernard Werber passou 15 anos estudando formigas para escrever seus livros. Ou seja: o cara não está para brincadeira. Comecei a ler aqui, só por ler mesmo, as primeiras páginas do primeiro livro e fui lendo, lendo… cheguei à página 22. Ok, começa na 11, mas mesmo assim. Nem percebi que já tinham se passado mais de 10 páginas. Vou deixá-los bem pertinho de mim, para sempre que tiver uma folguinha, ler um pouco. Ah, e quem tiver curiosidade, aproveita: o box com os três livros está quase de graça no Submarino (até o momento em que publico este post, ele custa 59,90 e está com frete grátis).

Além desses, recebi um outro livro que está para ser publicado e, por conta disso, não posso citá-lo agora. Li seu primeiro capítulo e achei soberbo. Preparem seus bolsos: parece ser um livro daqueles: imperdível.

Outros que chegaram por aqui e me surpreenderam foram “Museu de tudo“, de João Cabral de Melo Neto (que eu sinceramente achei que não fosse gostar) e “O iconoclasta“, de Gregory Berns, de um novo selo da editora Record, o Best Business. Fiquei tentado a reproduzir, aqui no blog, um poema que integra “Museu de tudo”, mas prefiro deixar a dica do livro e sugerir que, se vocês puderem, o folheiem na livraria (não deixem de ler os poemas da página 52 e 61). Sobre “O iconoclasta”, fica uma definição da palavra que dá título ao livro, e que inclusive está na capa dele: “Pessoa incomum que interpreta a realidade de maneira distinta e faz o que o senso comum julga inalcançável”.

Os espiões“, de Luis Fernando Verissimo e “A lógica do cisne negro“, de Nassim Nicholas Taleb eu já queria faz tempo. A primeira frase de “Os espiões” é perfeita: “Formei-me em letras e na bebida busco esquecer”. Li muito o Luis Fernando anos atrás, vários livros de crônicas dele, e achei geniais os textos do Analista de Bagé. Deste romance eu li as primeiras páginas e gostei muito. Em breve me dedico a ele. Já “A lógica do cisne negro” talvez demore um pouco mais de ser lido - mas pretendo fazer isso ainda neste primeiro semestre, junto com “O iconoclasta”. O que mais me atraiu no livro de Taleb são as citações que ele faz a escritores como Dostoiévski, Nabokov, Buzzati e uma série de outros. Como é um livro que requer um pouco mais de atenção e método, deixarei para ler quando tiver com um pouco mais de tempo. E ultimamente tempo é algo que eu estou negociando feito o mais sovina dos pães-duros deste mundo.

Lembrando os velhos tempos

Tuesday, January 26th, 2010

(Na verdade, não tão velhos assim.)

Nas últimas semanas houve a necessidade de, no trabalho, eu passar algumas horas do expediente em outro setor. Minha tarefa é por demais simples, mas voltei a fazer algo que não fazia há tempos: preencher dados de pessoas. A ficha é pequena, mas deu pra ter saudade da época em que eu fazia cartões de crédito e volta e meia acabava de preencher a proposta com mais um “chapa” na vida.

Hoje tive contato com um paraibano de nascença, mas que cedo veio para a Bahia (lembrando que tenho família na Paraíba). Faz muito tempo que ele não vai lá e acabou me pedindo notícias de sua terra natal. Houvesse tempo, certamente ficaríamos conversando bastante. Uma pena a ficha a ser preenchida ser tão curta.

Outra conversa animada tive com uma senhora que, ao se despedir, me desejou tudo de bom e, mais ainda, um feliz matrimônio - dizendo que homem usando aliança é a coisa mais linda do mundo. Disse também que um presidente como o Lula a gente não vai ter nunca mais. Perguntei-lhe se ele estava mesmo cuidando direitinho de sua terra, ela respondeu que sim. Num gracejo, eu lhe disse: “e ele que não cuide, que vou lá brigar com ele”.

Todas essas pessoas que hoje atendi são gente simples, em sua maioria lavradores. Gente que tem muita história pra contar e, mesmo sem estudo, muita educação para dar de exemplo. E tudo isso me fez ficar com mais saudade ainda da “minha” terrinha no interior da Paraíba.

Uma semana cheia

Friday, January 22nd, 2010

Esta semana eu pretendia terminar de ler um livro para fazer um post sobre ele aqui no blog, pretendia reproduzir uma das matérias minhas que saíram na Conhecimento Prático Literatura e pretendia, também, postar uma resenha do romance de Edney Silvestre, “Se eu fechar os olhos agora”, que acabou não saindo inteira na Brasileiros.

Mas aí a semana virou de cabeça pra baixo e eu simplesmente não pude fazer nada. Em contrapartida, recebi uma notícia extremamente boa, mas que só poderei divulgar daqui a alguns meses, além de outras notícias boas que poderei compartilhar com vocês em pouco tempo.

Aliás, esse tem sido meu maior problema ultimamente: tempo. Mas é isso mesmo, não estou nem reclamando muito. Até porque, se as coisas acontecem de maneira muito fácil, a gente acaba não dando valor.

A próxima semana será também um tanto complicada e cheia. Só prevejo alguma tranquilidade no início de fevereiro. Portanto, se eu deixar o blog um pouco de lado, não estranhem. E só pra lembrar: estou, sempre que posso, no Twitter, cujas atualizações aparecem aí do lado também. Qualquer coisa, é só chamar lá.

Mapas no colégio

Monday, January 18th, 2010

Hoje, folheando o livro “Laertevisão“, que chegou aqui ontem, Cassia lembrou daqueles mapas que a gente decalcava na escola - “a gente”, no caso, eu, ela e, provavelmente, você que está lendo este post. Acho que em folhas de papel manteiga, não vou lembrar o nome correto agora.

E aí eu perguntei a ela - e também a mim mesmo: por que é que mandavam a gente fazer aquilo? Qual a importância daquele decalcar de mapas em nossas vidas, hoje? Geografia é um assunto importantíssimo, claro, mas pra quê aquele negócio de ficar copiando os mapas? Pra fixar em nossas cabeças que a Bahia fica acima da região Sudeste? Que Roraima, Amapá e Rondônia ficam lá em cima?

É uma pena eu não me lembrar agora, mas recentemente li um artigo ou entrevista de alguém dizendo que - ah, lembrei, foi o André Forastieri, texto indicado pelo Diogo Salles - a escola não nos ensina coisas práticas e importantes, como planejamento financeiro ou relacionamento interpessoal (que é algo que pode e deve ser ensinado, na minha opinião, dentro das aulas de Moral e Cívica, que deveria voltar a ser uma matéria obrigatória até pelo menos a oitava série - ou seja, até a última série antes de se começar o antigo ensino de segundo grau). Em vez disso, a escola nos ensina coisas que, no mais das vezes, só utilizamos para passar num vestibular.

E aí, quando chegamos na faculdade, a coisa se repete: grades curriculares enormes, que muitas vezes poderiam ser enxugadas em no mínimo 1 semestre, quiçá até 1 ano. Um curso de Letras como o que eu faço não tem razão de durar 4 anos. Não há, em momento algum do curso, uma bifurcação para você escolher entre linguística ou literatura. Tentam fazer uma grade equilibrada, mas no fim a literatura sempre sai deficiente. Peguei 4 Teoria da Literatura obrigatórias, e 1 optativa. Mas Língua Portuguesa são 8, sem contar a Metodologia do Ensino de Língua Portuguesa, exclusivamente para ensinar como se ensinar a LP. Já Metodologia para o Ensino de Literatura, não há.

Se fosse um curso de Russo, tudo bem. Aliás, 4 anos seria até pouco, coloca mais 1 aí na conta. Mas Letras Vernáculas?

Bom, melhor eu parar de escrever ou isto aqui vai virar um muro de lamentações.

***

Ah, sim: o “Laertevisão” é superdivertido. Não li todo, mas dei uma folheada e ri bastante com algumas tirinhas. Ele é em formato de álbum, capa dura, aquela folha meio de plástico - eu esqueço o nome certo das coisas, às vezes -, é bem legal mesmo.

Making of da resenha de Vidas Novas

Thursday, January 14th, 2010

É muito difícil eu recusar um trabalho. Ainda mais quando se trata de uma resenha de livro. Recentemente, o Daniel Lopes, do Amálgama, perguntou se eu não poderia resenhar um livro para o blog. Eu quase digo que não, mas aceitei porque, além de gostar do Daniel e do Amálgama, sou casca grossa. Só digo “não” quando realmente não tenho sequer como tentar executar a tarefa. Mesmo com muita coisa a fazer, escrevi a resenha que o Daniel pediu dentro do prazo que ele me deu.

Então, quando a Brasileiros me perguntou se eu poderia resenhar o “Vidas Novas“, de Ingo Schulze, eu não pensei duas vezes: mal li o release encaminhado e já fui logo dizendo sim.

Eu já conhecia o autor. Sabia que um ano antes havia sido publicado um livro dele aqui - “Celular“, de contos, também pela Cosac Naify -, mas não sabia do outro, “Historias simples Da Alemanha Oriental”, também de contos, publicado pela editora Lacerda. Cheguei a reservar “Celular” para mim, na livraria daqui, mas acabei não comprando. E acabei me arrependendo depois, porque procurei o livro para comprar, depois de saber que iria resenhar “Vidas Novas”, e não o encontrei.

(Uma curiosidade: apesar de “Celular” ter sido publicado aqui em 2008, “Vidas Novas” foi publicado antes dele, na Alemanha.)

Mas enfim. O caso é que aceitei a resenha e o livro nem publicado havia sido. Eu teria de lê-lo no computador. Quando abri o PDF, vi que o livro tinha 300 e tantas páginas. E pensei “ah, que moleza, leio num tapa”. O negócio é que, quando fui mesmo começar a ler - eu só tinha mesmo aberto o PDF pra ver quantas páginas tinha -, horas depois, percebi que, na verdade, o livro tinha quase 800. O Reader me enganou: realmente eram 300 e tantas “folhas”, mas em cada folha havia duas páginas do livro. “Tudo bem”, pensei, “não vamos nos desesperar. Dividindo a quantidade de páginas pela quantidade de dias que tenho até o deadline, são 70 páginas por dia”. Coloquei a faca nos dentes e fui pra cima do Schulze.

Mas aí aconteceram alguns imprevistos e a
conta acima precisou ser refeita. Ainda mais porque a data da viagem para São Paulo estava chegando. Das duas, uma: ou eu dava um jeito de ler o livro durante a viagem, ou eu teria de conseguir uma extensão do deadline. Mas eu detesto pedir extensão de deadline. Às vezes não tem outra saída e tenho de pedir, mas não gosto de fazer isso.

Então tentei, primeiro, ver se meu celular aceitava PDFs. Procurei aplicativos que permitissem abrir PDFs no aparelho, cheguei a baixar dois, mas não deu certo. Na verdade, se bem me lembro, os programas valiam para outro modelo da LG, não para o meu. Mas como estava meio desesperado, tentei colocar o aplicativo na marra hehe

Pensei então em comprar um tablet da Nokia que eu vinha namorando há algum tempo, mas do qual havia perdido o interesse por conta de ele não servir como telefone. Eu não tinha dinheiro para comprá-lo, iria gastar durante a viagem, mas não tinha mais como desistir da resenha - além do mais, como eu disse, sou casca grossa. Eu não iria desistir da resenha.

Como diz uma letra do Renato Russo - acho -, quem espera sempre alcança (eu prefiro a minha versão dela, “quem espera nada alcança”, mas tudo bem). O fato é que, dias depois, milagrosamente o monitor do PC do meu irmão queimou, foi pro espaço, e imediatamente pensei: “ele pode ficar com o meu monitor, eu compro um notebook, levo pra Sampa e posso ler o livro durante a viagem. Rafael, você é um gênio!”. A coisa não foi tão simples assim, mas acabou acontecendo, e comprei o netbook que agora é meu parceirão de trabalho.

Li o livro na ida, li o livro na pousada - e quase me tranco no banheiro com o netbook, para não incomodar o sono de Cassia; afinal, a luz tinha que ficar acesa, mas ela não me deixou ler no banheiro -, li o livro no metrô - já com ele em papel, depois de pegar meu exemplar na sede da Brasileiros. Na volta, ainda no avião, arquitetei a resenha, e voltando de Salvador pra cá, no carro da empresa de traslado, escrevi o texto, no Moleskine.

Tive um lampejo que, no momento, achei ser o ideal: fazer a resenha em forma de carta, me dirigindo aos leitores da revista. Ia ser assim, mas depois os editores acharam que o formato de carta ficou ingênuo demais - e realmente ficou. Sem contar que toda a coisa da carta me obrigava a deixar de lado informações essenciais sobre o livro. É que eu começava dizendo:

“Há quanto tempo você não recebe ou envia uma carta? Sim, uma escrita à mão, envelopada e enviada pelo correio? Imagino que isso não aconteça há muito tempo. Nesses dias de internet, os e-mails substituíram as missivas, e hoje digitamos apressados mensagens que serão lidas de maneira ainda mais apressada e respondidas de forma ainda mais… “. Aí, no final, eu me despedia, dizendo que ia colocar a carta no correio etc. Ou seja: pelo menos dois parágrafos de blablablá.

Já em casa, refiz o texto inteiro, com um cuidado danado (detalhe: antes de tudo isso, até o Marcelo Backes, tradutor do livro, eu consultei, por email), de modo que não ficasse um texto com muitos detalhes, mas que também não ficasse muito preso ao aspecto histórico dele; ou seja, que abordasse também, e de forma equivalente, a questão inventiva - ou, melhor dizendo, literária - da obra. Tentei balancear isso porque o livro é tão importante em relação a seu valor histórico, por retratar um período tão sombrio da Alemanha, quanto em relação a seu valor ficcional e sua forma, por nos apresentar um personagem tão complexo como é o protagonista, num formato “antigo” e hoje tão pouco utilizado, que é o das cartas. A versão final da resenha está lá, na Brasileiros deste mês, ocupando duas páginas da revista.

“Vidas Novas” é mesmo um livro diferenciado. Tanto que até a leitura dele - e o desenvolver de uma resenha sobre ele, no meu caso - rende um texto. Como digo na resenha, já há quem o considere um clássico, uma obra-prima. Estou com eles e não abro.

P.S.: Esta capa listradinha na verdade não é a capa do livro, mas sim a sobrecapa. A capa é cor de abóbora, lindíssima.

Eu na Brasileiros de janeiro

Wednesday, January 13th, 2010

Já pode ser lida no site da revista Brasileiros a minha resenha do romanção “Vidas Novas”, de Ingo Schulze, que figura na edição deste mês de janeiro - cuja capa está uma beleza de tão linda. Hoje estou passando aqui apenas para deixar o link para o texto; amanhã pretendo postar aqui uma espécie de “making of” dele, por sugestão de Cassia, já que esta resenha, nas palavras dela, foi escrita “em circunstâncias inimagináveis”

A palavra é…: respeito

Tuesday, January 12th, 2010

Quem escreve – tanto faz se em um grande jornal ou se em um blog pouco acessado –, precisa estar preparado para qualquer tipo de reação do leitor, seja ela um elogio ou uma crítica. Elogios, quando em demasia, podem ser prejudiciais, pois o autor corre o risco de se deixar levar por eles e achar que chegou a seu ápice criativo – ou à unanimidade. As críticas, quando construtivas, devem ser levadas em conta, porque ninguém é perfeito e quem escreve sabe que sempre há o que ser melhorado. Quando são destrutivas, devem ser ignoradas: não vale a pena perder tempo com esse tipo de crítica, porque muitas vezes são feitas por pessoas movidas pela inveja ou pelo simples prazer de destratar os outros.

Com a minha penúltima coluna publicada no Digestivo, tive a intenção de mostrar como certas pessoas parecem sair de casa e irem a lojas apenas para destratar um funcionário, descarregando suas angústias e frustrações em cima de algum pobre inocente. Mas a maioria dos comentários que ela gerou foi ocasionada por conta de um detalhe, na minha opinião, ridículo e irrelevante: o fato de alguns livros da livraria serem lacrados.

Eu até esperava alguns comentários revoltados, mas não a respeito dos livros lacrados, e sim a respeito dos “elogios” que fiz ao protagonista do texto – afinal, eu o chamo de “idiota” e “imbecil”. E eis que justamente o fato mais bobo do texto se tornou pivô de comentários emocionados, pessoas defendendo os livros lacrados, como se eles estivessem sendo sufocados pelos plásticos que os revestem. Pior: como se eu tivesse dito que todos os livros da livraria estavam lacrados.

***

Por mais de quatro anos trabalhei num shopping aqui na cidade. Primeiro, trabalhei numa loja de departamentos; depois, numa empresa de cartão de crédito, cujo atendimento fica dentro de um hipermercado; e, por último, na livraria. Gostei de trabalhar em todos esses lugares, mas algo que sempre me incomodava era a ignorância de certas pessoas – na maioria dos casos, pessoas de muitas posses e diplomas.

Essa gente pensa que vendedores ou atendentes de lojas, principalmente se trabalham em shoppings, não estudam ou não têm perspectiva alguma de vida. Esquecem-se de que vendedores e atendentes trabalham para pagar os custos de suas faculdades, que muitas vezes são cursadas com muito sacrifício, ou para garantir o sustento de sua casa, ou de seus filhos. Pensam que vendedores e atendentes são máquinas que devem fazer todas as suas vontades.

Tais fatos ocorrem porque o brasileiro tem na mente aquela frase cujo autor é, com certeza, um mentecapto: “o cliente tem sempre razão”. É óbvio que as empresas fazem de tudo para agradar aos clientes, mas nem sempre eles têm razão. Certa feita, um desses mentecaptos apareceu, imediatamente depois da micareta aqui da cidade, para trocar um sapato furado, que ele comprara poucas semanas antes. Avaliamos o calçado e chegamos à conclusão de que o indivíduo havia furado o sapato em suas estripulias na avenida, como ele mesmo admitiu ao fim de toda a discussão. Mas, até ele perceber que não iríamos mesmo fazer a troca, sustentou a versão de que o sapato havia “furado sozinho”.

Na livraria, lembro de uma vez em que uma garota me perguntou sobre um livro de Direito. Ela queria que eu lhe indicasse um livro sobre determinado assunto, e que ele fosse de fácil compreensão. Lhe informei que não entendo nada do assunto e perguntei se ela não tinha algo mais específico, uma indicação de autor, por exemplo. Ela respondeu que não, e disse algo do tipo “Mas como você não sabe? Você não trabalha aqui?”. Ou seja: eu, como atendente de livraria, deveria ser um profundo conhecedor de Direito. Isso, aliás, era muito comum acontecer lá: o cliente chegar na livraria sem saber exatamente o que quer e nós termos que nos virar para descobrir. Em certos casos, não há nada de mais, como uma vez em que até nos divertimos tentando descobrir um livro de capa vermelha que o cliente tinha visto na vitrine não se sabe quando. Mas volta e meia apareciam professores universitários querendo que nós indicássemos livros técnicos para eles, sendo que eles é que deveriam saber o que exatamente estavam procurando.

Me prolonguei falando sobre o que os atendentes e vendedores passam mas não esqueci da questão dos livros lacrados. Deixei para o final porque minhas palavras sobre o assunto serão poucas, somente à guisa de esclarecimento: ao contrário do que muita gente parece ter pensado, não sou a favor de livros lacrados, e muito menos todos os livros da livraria na qual trabalhei são lacrados. Alguns livros, isto sim, são lacrados, por simples questão de preservação deles, ou por eles terem chegado lacrados na livraria. Às vezes acontecia de haver um único exemplar de determinado título e de ele estar lacrado, mas abri-lo era só uma questão de o cliente solicitar a qualquer vendedor. Quando há educação e respeito, tudo se torna mais fácil.

Aliás, esta é a palavra-chave daquele texto – e deste também: respeito. As pessoas hoje não se respeitam mais. Recentemente, no dia 24 de dezembro, fui a um hipermercado com dois amigos. Ao adentrarmos o estacionamento, presenciamos uma discussão breve porém áspera entre dois motoristas. Apressado que estava, um deles não percebeu que o outro tinha um obstáculo à sua frente – não lembro se um carrinho de supermercado ou mesmo se um terceiro automóvel – e não podia seguir adiante até o obstáculo sair do caminho. O que estava atrás começou a gritar e xingar o que estava à frente, que por sua vez se irritou e mandou o que estava atrás “passar por cima”. Como disse, era véspera de Natal. Discussões como essas estão cada vez mais terminando em tragédias, e comentamos entre nós que, se um deles tivesse uma arma escondida no carro, é muito provável que suas respectivas famílias tivessem um Natal nada agradável.

Parece que, tanto na internet quanto no dia a dia, as pessoas têm cada vez menos respeito em relação ao próximo. Se respeitássemos mais uns aos outros, se tentássemos compreender e entender melhor a situação do outro, se nos colocássemos no lugar do outro, o mundo seria bem melhor. Mas, claro, fazer tudo isso dá muito trabalho, e ninguém tem tempo nem cabeça pra essas coisas, não é mesmo?

Aconteceu de novo

Monday, January 11th, 2010

Fui descoberto mais uma vez. Hoje, no trabalho, uma garota me perguntou se não sou eu que tem um blog. Desconfiado e tímido que sou, respondi que “depende”. Só admiti ser o autor dos posts deste blog depois de ela explicar a coisa toda: ela é amiga da Amábile, que em 2008 me interpelou na livraria, quando eu lá trabalhava.

Nessas horas eu sempre fico sem graça e tento desconversar. Tudo bem que tenho blog, Twitter, Orkut, Facebook, minha foto está no Twitter e tudo, mas sempre preferi ficar nos bastidores, escondido atrás de minhas palavras. Sei que é algo que preciso mudar, afinal, se quero um dia publicar um livro e ter uma boa carreira de escritor, precisarei mostrar minha cara por aí. Estou tentando deixar de lado essa timidez, muito embora não seja fácil. Espero que, aos poucos, isso vá passando.

Estou até pensando em fazer uns videoposts, via Twitcam. Alguém teria alguma coisa contra ou sugestão a fazer?

Matéria sobre Fernando Sabino

Friday, January 8th, 2010

Foi publicada, na revista Conhecimento Prático Literatura nº 27, uma matéria minha sobre Fernando Sabino. Coloquei alguns trechos dela no A Falta Que Ele Faz. Quem quiser ler, é só ir lá!

A matéria não está disponível no site da revista. Entonces, quem quiser ler, vai ter que comprar. Mas pô, comprem! Tá bem legal a revista, e minha matéria ficou bem boa, modéstia à parte ;)

A turma do fundão (do ônibus)

Thursday, January 7th, 2010

Voltei a trabalhar aqui na cidade hoje. Ou seja: voltei a pegar ônibus.

E justo hoje, um calor dos diabos, ele demorou de passar e, quando chegou, estava cheio. Tanto que fiquei do lado de cá da catraca, esperando o pessoal se organizar do outro lado. Mas não se organizaram e tampouco se comoviam com o fato de eu estar do lado de cá, doido para passar pro lado de lá - da catraca, que fique bem claro.

Mas abriu uma brechinha e acabei passando. Fiquei num aperto danado, mas fui para o lado de lá da catraca. O problema é que ficar em pé num ônibus lotado é sempre um problema, tanto na frente quanto no verso. No caso dos homens do sexo masculino, há dois perigos: ou fica-se quase encostado nas partes baixas traseiras de alguém - um perigo enorme, no caso de esse alguém ser mulher (corre-se o risco de apanhar), e um perigo maior ainda, se o alguém for um homem do sexo feminino (corre-se o risco de o indivíduo gostar da situação); ou fica-se postado de costas na frente de um homem do sexo masculino (graças a Deus, nunca passei por isso).

E lá estava eu, cercado de mulheres, sem ter pra onde ir. Em outros tempos, em uma outra situação e em um outro lugar, isso seria uma maravilha. Mas era um ônibus, sou noivo e esse negócio de escândalos por causa de assédio sexual virou moda de uns tempos pra cá. Eu realmente fico preocupado.

Com algum esforço, dei um jeito de me postar entre duas mulheres - ser magro tem suas vantagens. Enquanto esperava pacientemente o ponto de minha descida, olhava para fora do ônibus, vendo as coisas passar. Mas pouco depois mais gente entrou no ônibus, ninguém desceu e quem entrou queria passar pro lado (agora) de cá da catraca.

(cá da catraca - cá da catraca - cada catraca - cadacatra ca)

Se a situação já não era boa, ficou ainda pior. Resolvi verificar se o pessoal lá de trás estava cooperando, porque às vezes o pessoal do fundão não ajuda - vide as salas de aula. E aí foi que vi: além de os companheiros do fundão não se apertarem lá atrás, ainda por cima deixavam pelo menos um assento vago. Sim, um assento vago, livre, sem ninguém sentado nele.

Fico me perguntando o que leva uma pessoa em sã consciência, num ônibus lotado, não sentar em uma cadeira vaga. Certo, olhei de longe. Mas quais seriam as probabilidades de ter, sei lá, vômito no assento? Era um banco com dois lugares, e um estava preenchido. Ou seja: duvido que houvesse algo impedindo que alguém majestosamente repousasse seu rotundo traseiro naquele assento.

Enfim. Coisas que nem Freud explica.