O grande jogo de Billy Phelan (trecho)
Monday, February 22nd, 2010
Martin Daugherty, cinquenta anos e encarregado da marcação dos pontos, observou com atenção quando Billy Phelan, que vinha fazendo um jogo perfeito, adiantou-se com a arrogância de uma águia jovem e inexperiente até a máquina de devolução, recolheu a sua bola preta com furos só para dois dedos, jogou-a de uma mão para outra feito um malabarista e depois a equilibrou na palma da mão esquerda como se ela não tivesse peso. Billy esfregou a palma e os dedos da mão direita no cone oco de giz preso em cima do prato de latão no alto da prateleira de bolas, tirou o excesso dando um puxão na toalha. Postou-se de frente para os pinos e fez mira no ponto de sempre, na altura onde a madeira da pista mudava de cor, a sete tábuas da borda direita. E então, o que aos olhos de Martin era a mais pura expressão da energia sobre sapatos, ele avançou: pé esquerdo, pé direito, esquerdo-direito-esquerdo, e por fim a derrapagem, enquanto a mão direita se adiantava e depois voltava tudo para trás, fazendo o pêndulo, o pulso quebrando só um pouco no ponto mais recuado do arco. Seu braço, que para Martin era a mais pura expressão do controle em mangas de camisa, completou o balanço para a frente e soltou a bola, que saiu deslizando quase sem fazer barulho pela pista reluzente, passando exatamente em cima do ponto escuro da sétima tábua e descrevendo uma curva mínima no trajeto, curva que se acentuou ao se aproximar do alvo, e então a bola atingiu os pinos com toda a força justamente entre o primeiro pino e o de número três, derrubando todos os dez num festival de cambalhotas e rodopios.
“Boa, Billy”, disse o seu financiador, Morrie Berman, batendo palmas duas vezes. “Espalhou bem, espalhou bem.”
“A bola está trabalhando direitinho”, disse Billy.
Billy ficou parado, magro e com as pernas compridas, esperando que Bugs, o menino vesgo encarregado de arrumar os pinos, mandasse a sua bola de volta. Quando ela emergiu ruidosa do canal curvo de madeira, Billy a levantou, virou-se de frente para os pinos recém-arrumados na pista nove, avançou, arremessou a bola e fez mais um strike: agora eram oito seguidos.
Martin Daugherty anotou o strike na folha de pontos, que ainda não exibia nenhum número, só as oito marcas de strike: dava má sorte começar a fazer as contas enquanto o jogador ainda enfileirava strikes. Martin já cogitava que aquele jogo pudesse ser o assunto da sua próxima coluna, se Billy conseguisse ir até o fim. Sua ideia era dizer como certos homens chafurdam no lodo cotidiano de suas vidas até que, num lance, desprendem-se desta lama e se transformam. Aquilo em que se transformam, porém, não é resultado de um ato repentino, mas o ápice de tudo que zeram ao longo da vida: o triunfo do amadurecimento, o fim de algo sem forma, o início de uma coisa definida.
Assim começa “O grande jogo de Billy Phelan“, romance do escritor norte-americano William Kennedy, sobre o qual falei aqui anteontem.
Martin Daugherty, cinquenta anos e encarregado da marcação dos pontos, observou com atenção quando Billy Phelan, que vinha fazendo um jogo perfeito, adiantou-se com a arrogância de uma águia jovem e inexperiente até a máquina de devolução, recolheu a sua bola preta com furos só para dois dedos, jogou-a de uma mão para outra feito um malabarista e depois a equilibrou na palma da mão esquerda como se ela não tivesse peso. Billy esfregou a palma e os dedos da mão direita no cone oco de giz preso em cima do prato de latão no alto da prateleira de bolas, tirou o excesso dando um puxão na toalha. Postou-se de frente para os pinos e fez mira no ponto de sempre, na altura onde a madeira da pista mudava de cor, a sete tábuas da borda direita. E então, o que aos olhos de Martin era a mais pura expressão da energia sobre sapatos, ele avançou: pé esquerdo, pé direito, esquerdo-direito-esquerdo, e por fim a derrapagem, enquanto a mão direita se adiantava e depois voltava tudo para trás, fazendo o pêndulo, o pulso quebrando só um pouco no ponto mais recuado do arco. Seu braço, que para Martin era a mais pura expressão do controle em mangas de camisa, completou o balanço para a frente e soltou a bola, que saiu deslizando quase sem fazer barulho pela pista reluzente, passando exatamente em cima do ponto escuro da sétima tábua e descrevendo uma curva mínima no trajeto, curva que se acentuou ao se aproximar do alvo, e então a bola atingiu os pinos com toda a força justamente entre o primeiro pino e o de número três, derrubando todos os dez num festival de cambalhotas e rodopios.
No momento, estou lendo três livros ao mesmo tempo, se formos rigorosos. Se formos bonzinhos, estou lendo uns 6 ou 7, já não lembro. Um deles é “
“- Fui numa exposição de arte outro dia. Com uma dona aí. Só pra agradar e depois comer. Cada quadrinho custava entre 4 e 6 mil pratas. Tu acredita?
“Acreditava que seu grande erro fora ter ingressado no chamado serviço público, o que significara para ele nada menos que sua destruição sistemática - primeiro, a destruição intelectual e, por fim, também a destruição física. Quem entra para o serviço público, disse-nos ele, por qualquer razão que seja e em que cargo for, é destruído e aniquilado. (…) O serviço público aniquila todo aquele que nele ingressa. No Estado, pouco importa a que senhor se pretenda servir: será sempre o senhor errado.”
“O telefone ricocheteando pelas paredes do apartamento, muito súbito e sério, com o castigo deste seu grito estridente, que ele repete obstinado, e repete, acaba esmagando meus nervos. Minha mão para, atenta, e de minha boca entreaberta escorre um fio branco de pasta e baba, que a água da torneira carrega para o ralo da pia. É uma sangria, uma vida que se esvai para fora do tempo. Em geral o telefone não aborrece, instrumento de trabalho, mas domingo de manhã, quando estou escovando os dentes e tenho de fazer um bochecho rápido para ver quem, no mundo, já está acordado, sinto uma dor que me sobre pela coluna, dor fria que acaba com meu bom humor.”
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