Archive for the ‘Contos’ Category

Desamarrando nós

Wednesday, August 5th, 2009

* Continho escrito há muito tempo, mais ou menos uns 6 anos.

O dia não avisou que estava vindo. Somente quando olhei para fora e vi o clarear do fim da madrugada foi que ouvi galos cantarem ao longe.

Não sei que motivo leva algumas pessoas a manter galos em casa numa cidade que se diz moderna. Sabia apenas que aquela seria minha última noite naquele lugar. Não dormi, mas acordei com vontade de mudar.

Apesar do cansaço do dia anterior, uma quarta-feira, estava muito disposto e não sentia necessidade de descansar. Pelo contrário. Não via a hora de poder sair de casa, ir ao escritório pedir demissão e à faculdade trancar a matrícula do curso de filosofia que estava na metade.

Depois, seria a hora de comunicar a meus pais que estaria saindo da cidade. O mais difícil a fazer.

Tinha plena consciência do que aconteceria. Ambos ficariam perplexos. Meu pai, irritadíssimo, perguntaria se eu estava louco e o que eu estava pensando da vida. Minha mãe começaria a chorar, olharia para o teto e perguntaria a Deus se foi para isso que havia me criado, o que fizera de errado e coisas desse tipo.

Enquanto eles faziam isso, eu iria até meu quarto buscar a mala que deixara pronta e diria a eles que ligaria assim que chegasse em algum lugar. Os nós que me mantinham ali seriam facilmente desamarrados.

Além do trabalho e da faculdade – os quais eram dispensáveis para mim naquele momento – havia os amigos e a família. Estes fariam falta, mas eu poderia carregá-los no coração e na mente para onde quer que eu fosse. O mesmo eu não poderia dizer do meu suposto amor. Deixá-la não seria muito difícil. Seria até um alívio para nós dois. Nossa relação de quase um ano estava desgastada havia muito. Precisaria vê-la com urgência. Ligaria marcando um encontro. Na rodoviária, talvez. Não seria tão difícil.

Ficaria surpresa com aquela imagem: eu, uma mala e, minutos depois, um ônibus. Não precisaria de muitas palavras. Diria que nossa relação estava muito complicada e que seria melhor terminarmos enquanto ainda existia respeito mútuo. Ela me faria algumas perguntas, eu as responderia, diria que estava “cheio de tudo e de todos”. E só. Lhe desejaria o melhor e prometeria mandar notícias em breve – uma pequena mentira não mata ninguém.

Deitado aqui, na minha cama, imagino se teria mesmo coragem de fazer tudo isso.

Mas a preguiça de levantar me faz seriamente pensar em finalmente dormir, mesmo com um belo dia nascendo lá fora…

E então chegamos ao fim

Sunday, July 26th, 2009

When you’re feeling really great, that’s the time to write a tragedy, and when you’re feeling really down, make a comedy.” (Billy Wilder)

Falar, agora, o que estou sentindo parece-me impossível. Não poderia dizer que há uma enorme dor em meu peito, ou que uma tristeza sem tamanho se abateu sobre mim. Tanto faz se por que seria constrangedor demais ou se por que seriam expressões insuficientes e vazias, ou se, pior, não traduzissem a realidade. Mas agora pareço ter encontrado as palavras certas: confusão e cansaço.

É assim que estou: confuso e cansado. Os últimos dias não foram fáceis, e o que aconteceu ontem foi mais difícil ainda. Depois de quase cinco anos juntos, dividindo alegrias e tristezas – bem mais alegrias, diga-se –, nossa história se encerrou. E, a maior das ironias, finalmente posso utilizar um título que gostei desde o momento em que o vi: “e então chegamos ao fim”.

O intrigante – eu quase escrevo “engraçado”, mas não há nada de engraçado aqui – é que não houve um motivo específico para a nossa separação. Da mesma forma que nos aproximamos – de maneira involuntária, eu diria –, um conquistando o outro aos poucos, fomos nos afastando. Fico me perguntando se não seria melhor haver um outro, ou uma outra, que tivesse nos separado. Ao menos seria uma razão, algo concreto. Eis o motivo da minha confusão. E também do cansaço: na ânsia de tentar compreender o que realmente aconteceu, passei a última noite em claro – outro clichê – lendo e-mails que trocamos, nossas últimas conversas virtuais e tentando lembrar dos últimos contatos por telefone e, claro, dos nossos últimos encontros.

Tentei, também, lembrar de algo que eu teria feito que pudesse originar essa indiferença que passou a nos dominar. Não sei se feliz ou infelizmente, minha memória – que ultimamente anda fraca/falha, é verdade – nada revelou. Já a dela, eu não sei. E, apesar de, agora, querer saber, daqui a alguns dias nada mais me importará. Além do que, não haverá mais conversas, não se termina algo para se continuar uma outra coisa. Isso não entra em minha cabeça. Se não demos certo juntos, por que haveríamos de dar certo separados?

Não posso negar que ela ainda ocupa boa parte de meus pensamentos. Mas agora não em devaneios sobre o futuro ou ternas lembranças. Apenas me questiono se ela estaria em casa, sentindo-se também atordoada pelo fato de não mais sermos, ou se está por aí, em alguma festa, ou se saiu com alguma amiga, ou se simplesmente deitou-se e foi dormir o sono dos (in)justos.

Mas também não posso negar que a ideia de que, depois de tantos anos, finalmente poderei voltar a não apenas olhar e desejar outras mulheres, mas também abordá-las, e quem sabe levá-las para a cama, me seduz. Durante o tempo que passamos juntos, nunca deixei de admirar e olhar para outras, mas o respeito que tinha por ela – e continuo tendo, claro, apesar de agora querê-la bem longe de mim – e minha obstinação em ser fiel – o que me deixa com a consciência tranquila, afinal, ninguém poderá me recriminar, dizer que eu a traí e que por isso ela me abandonou etc. – me impedia de um olhar mais demorado, ou até mesmo de um flerte brincalhão, sem intenção alguma de ser nada mais que um flerte.

Agora que chegamos ao fim, estou livre para fazer o que eu bem entender. Inclusive ficar sozinho com essa enorme dor em meu peito e essa tristeza sem tamanho que se abateu sobre mim.

Entrevista exclusiva com Rubem Fonseca

Saturday, May 23rd, 2009

É do conhecimento de todos que transitam pelo meio literário que Rubem Fonseca, um dos maiores escritores do nosso país, não concede entrevistas há anos. Recluso, o autor também raramente permite que seja fotografado.

Portanto, não é necessário dizer o quão difícil foi conseguir a entrevista com Rubem Fonseca que você lerá a seguir. Os contatos para a realização dela começaram no dia 30 de abril, assim que eu soube do rompimento entre Fonseca e a Companhia das Letras. Obviamente, não posso revelar como consegui chegar até o autor, mas o fato é que consegui entrevistá-lo no dia 21 de maio, em um local escolhido por ele, no Rio de Janeiro.

Desnecessário dizer que esta entrevista me custou muito. Tempo, dinheiro e paciência. Primeiro, com os telefonemas que precisaram ser feitos para Rio de Janeiro e São Paulo, a fim de conversar com pessoas que pudessem convencer o autor a conceder esta entrevista. Depois, a viagem para o Rio de Janeiro e todos os gastos referentes a ela. Por fim, a espera paciente e angustiante pelo retorno, felizmente positivo, do autor. Que me atendeu com a maior boa vontade, aliás.

O assunto da entrevista foi, claro, o rompimento dele com a editora Companhia das Letras. Mas não apenas isso, óbvio.

Estão circulando muitos boatos sobre sua saída da Companhia das Letras. Um deles é o de que o senhor estaria aborrecido com uma possível tradução do livro “La literatura nazi en America”, de Roberto Bolaño, que cita o senhor em um trecho (“Um dia pensou, enquanto esperava com o carro em um descampado, que não seria má ideia sequestrar e fazer alguma coisa a Fonseca. Contou para os seus chefes e estes o ouviram. Mas a ideia não se concretizou. Incluir Fonseca no coração de um verdadeiro romance nublou e iluminou os sonhos de Couto.”). Essa hipótese tem algum fundamento?

Na verdade, eu nem sei quem é Roberto Bolaño. Quem é ele, Rafael?

O senhor me desculpe, mas eu nunca li nada dele. Até tenho um livro, mas não li ainda. Sei apenas que se trata de um autor bastante festejado entre literatos e mesmo entre escritores consagrados latino-americanos.

Hum… Enfim. Isso não passa de um boato. Sequer conheço esse tal Bolaño. Mas se é tão festejado assim, vou comprar algo dele para ler. Você me indica algum?

Olha, seu Rubem, falam muito bem de um romance chamado “Os detetives selvagens”, mas, como lhe disse, não conheço. Eu tenho um chamado “A pista de gelo”, que é bem curtinho. O outro é enorme.

Obrigado. Vou encomendar esse que você tem. Assim não perco tanto tempo lendo. Ah, e por favor, pare de me chamar de senhor. Sem essas formalidades, tudo bem?

Tudo bem, seu… digo, Rubem. Tudo bem, Rubem. Bom, se sua saída da editora não foi por causa dessa história do Bolaño, foi por quê, afinal?

Olha, Rafael, vou ser sincero com você. Nem eu mesmo sei o motivo. Apenas acordei um dia, olhei para a prateleira na qual guardo os meus livros, olhei para uma outra prateleira, na qual guardo os livros do Nelson, e decidi sair. Você já viu os livros do Nelson lançados pela Agir? Aliás, você é um Rodrigues! Você é parente do Nelson?

Não, não, quem dera eu ser parente do Nelson. Mas, sim, eu tenho alguns livros dele lançados pela Agir, são lindos mesmo.

Então, eu quero que meus livros sejam assim, também. Bonitos, encorpados, com aquele negócio meio áspero nas capas… Poxa, são edições muito bonitas, mesmo. Não que as da Companhia das Letras sejam ruins ou feias, muito pelo contrário. Mas estão muito dentro do padrão. Além disso, há outros motivos, os quais não gostaria de abordar aqui.

O senhor, digo, você poderia dizer por quê?

Rafael, eu resolvi atender seu pedido porque me falaram muito bem de você. Mas uma das coisas que me disseram é que você é um romântico, um deslumbrado, um ingênuo. Me desculpe dizer isso assim, no meio da entrevista, eu só ia lhe falar isso mais tarde. A questão é que há, entre editores e escritores, mais coisas do que sonha a nossa vã filosofia…

É, posso até imaginar quem lhe disse tais coisas a meu respeito, mas acredite: estou aprendendo. Aos poucos, mas estou.

Espero mesmo que sim. Porque senão… já era. Bom, você sabe. Conversaremos sobre isso mais tarde.

Tudo bem. Mas, enfim, quer dizer que os motivos que o levaram a sair da Companhia das Letras não vão mesmo ser revelados?

Exato. Não quero mais falar sobre esse assunto. Acho que, para bom entendedor, meia resposta basta.

Vamos mudar de assunto, então. Eu recebi o seu penúltimo livro, “Ela e outras mulheres”, e confesso que não consegui ler mais do que dois contos. Seu último livro, “O romance morreu”, também não me agradou muito, li pouca coisa dele. O senhor desistiu da literatura?

Rafael, ninguém havia me dito coisa parecida antes assim, pessoalmente. Não sei se isso é coragem sua ou se você simplesmente está out of your mind… Mas, tudo bem, vou lhe dizer o que aconteceu. “Ela e outras mulheres” saiu sem orelha, como você mesmo pôde ver. E foi um erro. Aqueles contos, e isso eu vou lhe dizer em primeira mão, foram escritos por mim quando jovem, bem mais jovem que você, por exemplo, e permaneceram inéditos até o dia em que, separando algumas coisas para jogar fora, encontrei-os, completamente cobertos de poeira. Nesse dia, fui premiado com belas recordações de um tempo que, infelizmente (ou felizmente, vai saber), não volta mais. E decidi que eu tinha de publicar aquelas histórias. Inclusive, foi uma atitude muito bonita da Companhia das Letras publicar aquele livro. Mas, realmente, ninguém entendeu que todos os contos têm, pelo menos, o dobro da sua idade, Rafael.

Entendo. Mas e “O romance morreu”?

Bom, este foi um livro que praticamente fui forçado a publicar. Muita gente reclamava de que não conseguia encontrar meus textos no Portal Literal, ou de que era uma droga lê-los no computador, ou de que estavam gastando muito papel imprimindo-os. Foi um livro publicado para aqueles que me acompanham no Portal.

Mas o romance morreu mesmo?

Ah, que é isso, Rafael! Está vendo? Você é mesmo ingênuo. Óbvio que o romance não morreu. O título do livro é uma piada.

E o texto que o senhor escreveu, que inclusive dá título ao livro?

Ora, é o restante da piada! Rafael, estou com um romance para ser publicado ainda este ano, já pela Agir. E estou escrevendo outro. O romance não morreu, nem vai morrer. Outro que disse isso também, e foi muito mal-interpretado, foi o querido Fernando Sabino. Será que as pessoas não conseguem mais entender uma troça? Jesus Cristo! É como essa história do “politicamente correto”. É tão ridículo… Olha minha meia. Ela é afrocolorida? Ora, vá… Isso me irrita, sabe? Ah, e você me chamou de senhor de novo.

Perdão, Rubem.

Ah, tudo bem.

Bom, e os autores contemporâneos? Você os tem acompanhado?

Sim, sim. Tenho lido muita coisa boa, inclusive. O Bernardo Carvalho, por exemplo. Que escritor talentoso! Outro livro do qual gostei muito foi o “Mãos de cavalo”, do Daniel Galera, com quem tive o prazer de conviver quando fomos juntos a Israel. Li também os contos de Ronaldo Correia de Brito, um autor estupendo. Tenho lido outros autores também, mas se eu for falar de todos vamos passar dias aqui.

E os que vivem dizendo ser influenciados por sua obra?

Esses eu li também, mas, francamente, quanta porcaria! Sempre que aparece algum desses “filhos” alguém liga me avisando e acaba me enviando o mais novo livro de um desses autores. Eu leio, tento enxergar alguma coisa da minha obra ali, mas não encontro nada! Quer dizer, até encontro, mas tudo muito solto, sem nexo, gratuito. Nos meus livros nada é gratuito. Minhas histórias são escritas baseadas em coisas que vi e conheço, sei que são exatamente daquele jeito. Mas esses escritores que se dizem influenciados por mim só escrevem desse jeito porque sabem que, ao mencionarem meu nome na orelha do livro, vão garantir alguns leitores.

Não seria porque esses leitores estão carentes do bom e velho Rubem Fonseca?

Pode até ser. E novos livros virão, como lhe disse, porque agora estou com as baterias renovadas. Mas o bom e velho Fonseca quer mesmo é sombra e água fresca.

* Desnecessário dizer que esta “entrevista” não foi feita. Mas poderia ter sido.

Uma cerveja com Obama

Sunday, May 10th, 2009

- Ih, galera, ó quem tá chegando ali…

- Putz, fala sério! O cara veio mesmo!

Barack Obama, muito sério e sob forte escolta, caminhava em direção aos seus novos amigos, que o esperavam numa mesa de bar. O ar grave de seu rosto não condizia com aquele encontro agendado há meses. O combinado era “tomar uma” e esquecer, por alguns minutos, os problemas dos EUA e do resto do mundo. Obama já era esperado há bem uns trinta minutos, e alguns dos presentes já não acreditavam que ele comparecesse. Mas ele veio.

- Falaê, Russeín! - “Russeín” é o apelido de Obama entre os amigos.

- Alô, pessoal, como vão? - disse Obama, ao mesmo tempo em que ia cumprimentando a todos. Diferente do encontro anterior, ele não fez a brincadeira do “passa o cartão e digita a senha”. Os cumprimentos foram solenes, diplomáticos. Aquela seriedade finalmente foi percebida pelos amigos, que de repente se demonstraram apreensivos, preocupados.

- Que que houve, Obama? Cê tá sério, rapaz. Contaí!

- Caras, me desculpem. Não poderei ficar muito tempo com vocês. Algo terrível está para acontecer, por isso me atrasei.

- Putz! Que que houve, Obama? Fala logo!

Obama respirou fundo, tomou um gole da cerveja que lhe havia sido servida, respirou fundo de novo, olhou ao seu redor, pediu para os amigos se aproximarem do centro da mesa e falou:

- Por favor, não contem a ninguém o que vou lhes dizer agora, mas os Estados Unidos acabou de sofrer um ataque. Nosso espaço aéreo está fechado e nem mesmo eu posso voltar para lá agora, porque nosso pessoal teme não estar detectando aviões inimigos se aproximando de Washington. Daqui a 30 minutos estarei partindo para o Canadá e é muito provável que uma guerra esteja por começar.

As faces dos rapazes rapidamente traduziram seus sentimentos: o pânico estava prestes a dominá-los, mas eles não poderiam se exaltar, afinal, todos os olhares do bar estavam dirigidos para aquela mesa. Sendo o mais discreto possível, um deles falou:

- Peraí, Obama, peraí. Cê não tá falando sério, tá? Puta que pariu!

Obama estava ainda mais sério do que antes. Tamborilando a mesa, disse:

- Você acha que eu iria brincar com uma coisa dessas? Você sabe o que é isto aqui? - Ele levantou um pouco a maleta que estava carregando e da qual só agora eles se davam conta. - Vocês sabem o que é isto aqui, certo?

Todos sabiam. Era a famosa pasta de guerra de Obama. Dentro dela, uma série de documentos e algumas ferramentas eletrônicas. Entre elas, o famoso botão vermelho.

- Caras, basta um telefonema. Um telefonema só e eu uso o botão.

Todos se entreolharam. Obama estava mesmo falando sério. Neste momento, o celular de Obama tocou. Ele atendeu.

- Ok, John, ok, eu entendo. Sim, agora. Já!

Obama colocou a maleta sobre a mesa, abriu-a e disse aos seus amigos:

- Caras, desculpem ter de fazer isso aqui, na frente de vocês.

Feito estátuas estavam, feito estátuas continuaram. Obama estava prestes a apertar o botão. O mundo iria entrar em guerra.

Seus pensamentos foram interrompidos por um barulho de nariz sendo assoado. Como se estivessem sonhando, despertaram, e viram Obama assoando o nariz mais uma vez.

- Desculpem, caras, sei que é falta de educação, mas estou meio gripado. - Depois disso, gargalhou.

Os amigos ainda estavam sob efeito das declarações anteriores. Mas ao verem que Obama não parava de gargalhar e que ele já havia fechado a maleta, “acordaram”.

- Porra, Obama! Tá de sacanagem?

Obama mal podia se conter, e entre gargalhadas e batidas na mesa, dizia:

- Vocês precisavam ver a cara de vocês! - Mais gargalhadas.

- Caraca, Obama! Não brinca com isso, cara, não brinca, pelo amor de Deus!

Obama continuava rindo.

- Ai, ai, minha barriga tá doendo! - E ria mais ainda, o peralta do Obama.

***

Esse é o Obama.

Sangue, óculos e livros

Thursday, April 9th, 2009

Anteontem, esperando a seringada que iria levar alguns MLs do meu sangue, o técnico de laboratório diz, no meio de uma conversa sobre não lembro que assunto:

“Pior do que está não pode ficar.”

Ao que respondo:

“Não diga isso, não diga isso…”

***

Ontem, no oftalmologista, recebo a notícia de que voltarei a usar óculos. Na verdade, eu até queria. À noite tem sido uma droga sair, porque o vento bate no rosto e irrita os olhos. Um óculos pode ajudar a diminuir o impacto invisível nas minhas pupilas.

Ao sair do consultório, com ambas dilatadas, pensei que faria tal qual Russell Crowe em “O Gladiador”, macho até não mais poder - só escorrega naquele finalzinho fresquinho mas até legal -, e voltaria para casa andando, enfrentando o sol a pino que atingia meus belos olhos castanhos. Mas, claro, não sou um gladiador e me escondi numa galeria, esperando meu velho pai me salvar do sol “cegante”.

***

Se vocês não comprarem meus livros na Estante Virtual, terei de declarar falência pessoal (rimou!). Hoje chegaram uns que eu havia encomendado porque tinha feito algumas vendas por lá. Mas acontece que não se pode contar com algo que não se tem, e os compradores desistiram de comprar - vejam só que mundo, meu Deus! Os compradores desistiram de comprar! Onde é que isso vai parar? Os vendedores vão desistir de vender? E depois, o quê? O fim?

Mas enfim. Foram uns livros pockets que estavam por R$ 9,90 na Saraiva (eu avisei a vocês, eu avisei…). Então, hoje à tarde, estava deitado com Balzac e suas “Ilusões perdidas”, Eduardo Galeano e o seu “Livro dos abraços”, além de Flaubert acompanhado de sua “Madame Bovary” e, claro, o velho Fitz, com o seu “Os belos e malditos”.

Foi então que descobri, depois de alguns minutos: não preciso ler todos esses livros. Basta deitar perto deles e absorver seu conteúdo, por osmose. Hoje, depois de passar alguns minutos rodeado por eles, levantei e simplesmente tudo ficou claro para mim: sou o mais novo gênio literário do século, algo ali entre Scott Fitzgerald e Balzac, com toques de Flaubert e, claro, um pouco da verve latina via Eduardo Galeano. Agora ninguém me segura.

Conto no blog Paralelos

Sunday, February 15th, 2009

Vi aqui um conto velhinho, inédito, resolvi reler, dar uma corrigida e publicar no blog Paralelos.

Como se pudéssemos

Monday, December 3rd, 2007

Meu corpo contra o teu. A fricção de nossas peles. Sinto o teu calor. Sinto os teus calores.
Minha boca sobre a tua. Depois em teu pescoço, em teus ouvidos. Eu não falo nada. Só respiro.
E ouço o teu ofegar.
Minhas mãos percorrem cada pedaço teu. Te sinto sólida e líquida. Sublime.
Meus lábios agora em teus seios. E descem, rumo a teus lábios. Me perco.
Meu corpo contra o teu. (Re)início. O calor aumenta.
A velocidade, o ritmo, a força. Maiores. E a tua respiração ainda mais forte. Te ouço. Sons que não preciso definir.
Ao fim, nos abraçamos.
Como se pudéssemos…

A luz que vem de fora

Thursday, November 29th, 2007

Sei que não sou perfeito. Ninguém é. Todos têm seus defeitos, e isso é normal. O meu é não querer conviver sob o mesmo teto com ninguém. Quando um homem e uma mulher resolvem morar juntos, vêm à tona detalhes que antes eram escondidos - propositalmente ou não. Isso não é uma desculpa de alguém que não quer se comprometer com alguém. É a mais pura verdade.

Eu até tentei. Mas não deu certo. Aconteceu assim:

Um belo dia, resolvemos morar juntos. Isso foi em julho. O casamento seria realizado em dezembro do ano seguinte. Nos primeiros meses convivendo juntos tudo correu bem. Mas, aos poucos, os detalhes tão pequenos de nós dois, com o perdão da citação deveras piegas, mostraram-se maiores do que a paciência para aturar as nossas particularidades, digamos assim.

O meu acordar tarde nos fins de semana a incomodava, pois ela preferia sair cedo para resolver as pendências de casa. Meu sono, que só se apresentava altas horas da madrugada, também não a agradava. Ela não conseguia dormir tranqüila sabendo que eu estava na sala vendo tv. Coisas.

Dela vinha a rigidez e a cobrança, pois queria que eu me adequasse às convenções sociais. As besteiras que tentei toda a vida resistir, tais como fazer a barba, cortar periodicamente o cabelo, comparecer a comemorações e reuniões de amigos, entre outras coisas que não gostava de fazer. A mim me bastava ficar em casa, fazer o deve ser feito quando se pode fazer, sem pressa, sem horários marcados. Podem me chamar de anarquista, mas não chega a tanto.

O reflexo do que nós somos pode ser visto no que fazemos. Ela, professora de colégio, eu, escritor. Para ela, sou o típico aluno irresponsável. Me disse isso uma vez. Ou várias vezes, já nem sei mais.

E o reflexo de todas essas coisinhas que começaram a virar motivo de antológicas discussões, pôde ser visto em uma manhã, que aparentava ser como qualquer outra. Ela sairia cedo de casa, e eu ficaria deitado até perto do meio-dia, como sempre.

Na noite anterior, tínhamos discutido mais uma vez. Eu deixara pra fazer, em cima da hora, uma compra que ela pedira há dias. A demora não a prejudicou em nada, mas, mesmo assim, ela não deixou de reclamar. De nada adiantou dizer que ela estava fazendo tempestade em copo d’água e que nada do que estava falando tinha lógica, pois tudo estava comprado e ela não precisava de nada antes daquele dia. Ela retrucou dizendo que eu poderia não ter achado os produtos. O que ela ouviu foi o seguinte: “se eu não achasse, eu iria até no inferno comprar isso, pra você não me encher o saco”.

E fui dormir. No quarto, é claro. O sofá é para os fracos.

Na já citada manhã seguinte, ela não foi para o colégio. Ficou meio-deitada, encostada na cabeceira da cama.

Se a conheço bem, ela ficou roendo as unhas por um bom tempo. E depois de quase comer os próprios dedos, abraçou as pernas e ficou olhando para a janela aberta e descortinada. Isso para forçar o meu acordar. A luz vinda de lá sempre me incomodou.

Depois de acordar e passar algum tempo fingindo estar dormindo, olhei as horas e estranhei-a ainda ali, ao meu lado. Perguntei o que houve e por que ela não saíra para trabalhar.

Disse-me que, enquanto eu estava dormindo, ficara acordada ouvindo o rádio, e perguntou-se, apenas uma vez, o que eu poderia estar sonhando. Depois percebeu que, para ela, a resposta já não importava. Ela simplesmente não se importava mais comigo, com o que eu pensava ou com o que eu sonhava. E então concluiu: já que tudo havia se tornado um inferno, era melhor colocar um fim na nossa história. Caso contrário, ela perderia o controle de si mesma. Estava a um passo disso, disse ela.

Eu, acordado daquela maneira, com a luz do sol a incomodar meus olhos, não tive reação. Pensei até estar sonhando. Ela percebeu isso e perguntou se eu a estava ouvindo. Perguntou se eu havia esquecido o que acontecera.

Era agosto. Três meses nos separavam do nosso casamento. Três meses para o passo final.

O rádio ainda tocava e eu mal via seu rosto, tão incomodado que estava com a luz forte vinda lá de fora. Ela sabia de cor as palavras que eu poderia dizer ali, naquele momento. Todas as promessas que um homem alquebrado como eu poderia lhe fazer.

Eu também sabia disso. Mas sabia que o melhor a fazer era levantar, arrumar minhas coisas, abrir a porta e ir embora.

Mas, então, o dia

Wednesday, October 17th, 2007

Quando te conheci, quis de alguma forma me transformar em você. Pensava ser possível absorver tua essência observando tuas ações, lendo tuas palavras e ouvindo teus conselhos. Quem sabe, até, herdaria tua postura e teus trejeitos, que tanto admirava.

E por pouco isso não aconteceu. Você, em excesso, deixou-me embriagado. Tuas palavras, teus conselhos, tuas idéias, teus tudo grudaram em mim, deixaram-me tal como uma cópia tua, e eu já não era mais eu. Eu era você, e sequer me dei conta da mudança em mim.

Chegou a ser engraçado. Conversar com você era como se estivesse falando com um outro eu. E eu sabia todas as tuas palavras seguintes, pois já até pensava igual a ti. Foste não uma paixão, um amor, mas uma obsessão, uma doença. Fui um parasita em você. Não sentiste?

Mas, então, o dia. O dia em que talvez algum sino ou estalar de dedos tenha feito acordar meu eu de um profundo dormir. Meu profundo mergulhar em teu eu. Não, não foi um sino ou estalar de dedos. Foram palavras, palavras tuas, ditas para mim, ou para outro, já não sei, mas que chegaram a meus ouvidos (ou foram meus olhos que as viram?). Letras ouvidas por mim ditas por teus dedos? Talvez. E… não importa.

Importa que acordei, e me vi no espelho. Reencontrei a mim mesmo, pele nova, barba e cabelo grandes, necessitários de corte e tratamento. Eu era eu novamente. Porém, não mais cópia de ti, não mais refém de tuas palavras.

As mesmas palavras que um dia me encantaram e fizeram mudar de mim para ti, fizeram-me perceber que eu me basto a mim mesmo, e que tuas idéias só valem para ti quando a ti te convêm. Assim: tuas opiniões e palavras dependem de onde e com quem estás. Não sabes o valor de uma verdade ou de uma palavra concreta, palavra-viga, palavra-sustentação.

Não quero minhas palavras flexíveis, como papel toalha ao vento. Quero-as como árvores, porque fixas, enraizadas, mesmo que regadas por tantos e diferentes outros. Quando for o tempo, que sejam derrubadas (até por mim mesmo) e que dêem nascença a papéis, por onde outros possam escrever palavras mais fortes e verdadeiras que as tuas.

Cigarettes and alcohol

Wednesday, May 16th, 2007

Ela me deu a notícia de que estava grávida e eu fiquei sem reação. É lugar-comum, mas é verdade. Ou então demonstrei estar chocado, não sei. Não deu pra ver a minha cara naquela hora. Mas deve ter sido isso, pois ela foi logo dizendo que eu não precisava assumir nada, que ela cuidaria do bebê sozinha, essas coisas. Você vê isso em novelas e filmes, não na vida real. Era o que eu achava até então.

E eu disse que não, não era bem assim. Precisávamos conversar a respeito. Acho que nesse momento, ela pensou que eu fosse propor um aborto. Longe de mim, apesar de eu ser a favor. Mas não iria pedir para ela matar o meu filho. É o que se vê em filmes e novelas também.

Ficamos de resolver isso depois. Dei-lhe um beijo na testa e ela foi para casa. Eu voltei para o shopping.

Comprei um chope, voltei para a mesa em que estávamos e acendi um cigarro. A vida é mesmo engraçada. Eu sempre busquei neles a resolução para os meus problemas. Mas o álcool que em pouco começa a fazer algum efeito e a fumaça que agora aquece meus pulmões não resolvem nada.