Archive for the ‘Entrevistas’ Category

Olho por olho, de Lucas Figueiredo

Wednesday, March 17th, 2010

O material abaixo foi publicado na revista Conhecimento Prático Literatura nº 26.

Todos os livros do jornalista mineiro Lucas Figueiredo são sobre temas espinhosos. Em “Morcegos Negros” (2000) ele se dedicou a pesquisar um dos capítulos mais vergonhosos da História recente do Brasil, a Era Collor. Depois, escreveu sobre o serviço secreto brasileiro, em “Ministério do Silêncio” (2005). Pouco tempo passou e Lucas decidiu destrinchar mais um fato recente da nossa História, o mensalão, no livro “O Operador - Como (e a mando de quem) Marcos Valério irrigou os cofres do PSDB e do PT ” (2006). E agora, em “Olho por olho“, o jornalista mineiro se debruçou sobre mais um período negro da História do Brasil: a ditadura.

“Olho por olho” conta a história de dois livros importantíssimos para o entendimento dos anos de chumbo: “Brasil: Nunca Mais”, escrito pelos que eram contra o regime; e “O livro negro do terrorismo no Brasil”, escrito pelos militares, mais conhecido pelo codinome “Orvil”, que é a palavra “livro” ao contrário. Mais que um apelido, “Orvil” revela a intenção real do livro: não apenas mostrar a ditadura segundo o exército, mas sim desconstruir e derrubar o “Brasil: Nunca Mais”.

A maioria das pessoas que leu o “BNM” talvez não saiba que suas 312 páginas (número referente à 36ª edição do livro, editado pela editora Vozes desde 1985) são o resultado de uma condensação de quase 7 mil. Os responsáveis por essa tarefa foram o jornalista Ricardo Kotscho e o ex-preso político – torturado pelos militares – Frei Betto. O levantamento dessas 7 mil páginas de documentos foi feito através de uma operação chamada “Testemunhos Pró-Paz”, digna dos melhores roteiros de filmes de espionagem. Como foi organizada a operação, quem participou dela, quem a bancou financeiramente, quais os perigos que passaram os integrantes do projeto, tudo isso é narrado por Lucas Figueiredo. Que faz o mesmo com o “Orvil”, que, sem sua “versão final”, digamos assim, contava 919 páginas divididas em dois volumes. Mas quais foram os militares responsáveis por sua criação e execução?; qual motivo o deixou “engavetado” por tantos anos?; quem vetou sua divulgação? Tudo isso é esclarecido pelo jornalista mineiro.

Um livro revelador em todos os sentidos, “Olho por olho” é certamente uma das obras mais importantes lançadas nos últimos anos no Brasil, porque, além de contar a saga de dois dos mais importantes livros brasileiros de todos os tempos, ele também apresenta fatos históricos que precisam ser conhecidos e questionamentos que precisam de respostas.

Na entrevista a seguir, realizada via e-mail, Lucas Figueiredo, vencedor de três Prêmios Esso, fala sobre seu livro, sua inclinação para as reportagens de fôlego e sobre jornalismo e o fim dos jornais.

Quais foram as maiores dificuldades que você enfrentou durante a escritura de “Olho por olho”?
A maior dificuldade, sem dúvida, foi conseguir uma das quinze cópias artesanais do Orvil, o livro secreto que o Exército produziu entre 1985 e 1988 e que nunca foi publicado. Comecei minhas buscas pelo Orvil em 1998 e só obtive uma das 15 cópias, por intermédio de uma fonte militar, em 2007.

De onde vem sua predileção pelo jornalismo investigativo/político?
Não gosto muito desse termo “jornalismo investigativo”; prefiro “reportagem”, que é algo que se faz há séculos. Acho que, no Brasil, nós jornalistas temos o papel imenso de revelar as mazelas que nos atravancam. Meu fascínio é mostrar o que dá errado, com a esperança de que isso ajude a fazer o certo.

Nos últimos anos foram lançados muitos livros sobre os anos de chumbo no Brasil. Isso ocorre porque finalmente temos o distanciamento necessário para analisar friamente os fatos ou porque ainda há muito a ser dito sobre o assunto? Você acha que algum dia esse tema vai se esgotar?
Nos últimos anos, tem vindo à luz muita informação nova sobre o período, por isso a grande produção. Como a ditadura ainda tem grandes mistérios, como o destino dos 130 desaparecidos políticos, ainda temos campo para a publicação de centenas de obras. O interesse nunca irá se esgotar, porque esse foi um dos períodos mais trágicos do país.

Me parece que, durante o ensino médio, a História Contemporânea do Brasil não tem a atenção que merece. Fala-se muito sobre “Descobrimento” e pouco sobre a Ditadura, na minha opinião. E isso resulta em jovens que mal sabem que, durante anos, nosso país foi governado por militares, por exemplo. Você concorda? Isso não prejudica o desenvolvimento da nação e o entendimento da nossa situação social e política?
O problema é que nas escolas, em geral, a história é ensinada de forma mecânica, sem atrativos. Por isso os jornalistas têm um papel importante nesse campo, ou seja, não apenas levar informação histórica de qualidade ao público, mas também tornar a própria História uma coisa atraente. Aposto que muitos brasileiros aprenderam muito sobre Getúlio Vargas lendo os livros de Fernando Morais, muito sobre a ditadura lendo Elio Gaspari, e sobre o “Descobrimento” lendo Eduardo Bueno.

Mudando um pouco de assunto: recentemente o STF derrubou a exigência de diploma em jornalismo para se atuar na área. Naturalmente, houve muita reclamação por parte dos estudantes de jornalismo e também de jornalistas. Na sua opinião as reclamações são justas ou o STF agiu corretamente ao colocar um fim na exigência do diploma? O jornalismo ganhou ou perdeu com isso?
Acho que o jornalismo ganha com o fim da exigência do diploma. Nunca entendi porque um filósofo, um advogado, um historiador não poderiam ser também bons jornalistas. Tenho um amigo formado em matemática que é um dos melhores e mais corretos repórteres que já conheci. O que o diploma escondia era uma reserva de mercado.

Ainda sobre jornalismo: quase todos os dias alguém fala em fim dos jornais e até no fim do próprio jornalismo. O que você acha disso? Os jornais - e o jornalismo - vão mesmo acabar? O destino de reportagens como as suas será, mesmo, os livros? Ou haverá espaço para reportagens longas nos jornais e revistas? Você arrisca alguma espécie de previsão?
Muitos jornais vão acabar e os que sobreviverem terão de fazer grandes mudanças por questões financeiras, ou seja, terão de “encolher”. O que é uma pena, porque os jornais, com as reportagens, têm tido grande importância na história recente do país. Se a reportagem migrar para outro suporte, não vejo problema. Mas até agora a internet não tem rendido o suficiente para os portais terem jornalistas de qualidade fazendo reportagens. Nenhum portal brasileiro tem, por exemplo, um correspondente na Venezuela, na China, em Buenos Aires ou em Washington, como os jornais. Acho que passaremos por um período nebuloso, no qual teremos menos reportagens, ou seja, menos informação de qualidade. Mas acho que isso pode ser corrigido no futuro.

O que faz um bom jornalista? Uma graduação na área é mesmo necessária ou uma boa bagagem de leituras e, mais que isso, “correr atrás” dos fatos resolve? Quais os conselhos que você daria a um estudante de jornalismo ou a quem está dando os primeiros passos na profissão?
Primeiro, uma boa formação humanista. Toneladas de leitura: imprescindível!!! Por último, leitura de um bom jornal, pelo menos, da primeira a ultima página, incluindo editoriais e cartas ao leitor. As dicas: vá para a rua, não tenha preguiça, cheque seus dados obstinadamente!

Você já está pensando (ou trabalhando) num próximo livro? Se sim, pode revelar qual o assunto e quando pretende publicar?
Neste momento, estou lançando “Olho por olho”. Mas também estou trabalhando em outro livro, que deve ser publicado no segundo semestre do ano que vem. O assunto, por enquanto, é segredo…

CP Filosofia, CampiDigital e Melhores discos de 2009

Saturday, March 6th, 2010

Pessoal, está nas bancas a revista Conhecimento Prático Filosofia nº 22, Karl Marx na capa, que traz uma resenha minha dos três livrinhos que compõem a coleção “Sobre o que nos perguntam os grandes filósofos”, de Leszek Kolakowski. O texto pode ser lido no site da revista, mas quem puder comprar, é bom, né? Até porque o visual da matéria ficou bem bonitão.

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Foi publicada hoje uma entrevista comigo no site do CampiDigital, um evento que vai rolar em Salvador, no dia 20 deste mês. A conversa foi sobre minha experiência com o Digestivo Cultural e como as mídias sociais podem interferir no jornalismo feito na internet. Ficou bem legal, confiram lá!

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E foi publicado ontem, no Digestivo, meu texto sobre os melhores discos de 2009 - na minha opinião, claro. Corram pra ver!

Entrevista no blog 2+

Saturday, February 6th, 2010

Há alguns dias foi publicada, no blog do Caderno2+, do jornal A Tarde, uma entrevista que concedi ao jornalista Breno Fernandes. Na verdade, a entrevista seria para o Julio, mas ele não poderia responder em tempo hábil, e passou a peteca pra mim.

O resultado está aqui.

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Falando em entrevistas, fiz um Formspring pra mim. Para quem não conhece, é uma espécie de questionário no qual qualquer pessoa pode postar uma pergunta para o usuário responder - se ele quiser responder, claro. Eis o endereço do meu, para o caso de alguém querer fazer perguntas ou ler as que já estão lá: http://www.formspring.me/entretantos

Na Conhecimento Prático Literatura 28

Wednesday, February 3rd, 2010

Já está nas bancas - ao menos nas daqui da cidade - a revista Conhecimento Prático Literatura número 28, com Oscar Wilde na capa.

Desta vez colaborei com uma entrevista com o escritor Antonio Carlos Viana. O gancho foi o lançamento ainda recente do seu livro de contos “Cine Privê“. Uma das perguntas e um pouco da introdução sobre o livro ficou de fora, e vou reproduzir aqui no blog primeiro a pergunta, logo abaixo, e nos próximos dias a introdução, falando um pouco sobre o livro.

Nesta mesma edição, entrevistas com Michel Laub e Cristiana Guerra, numa matéria sobre literatura na internet, matérias sobre Jostein Gaarder, Oscar Wilde, uma outra sobre “Ana Terra” e “Um certo capitão Rodrigo, de Erico Verissimo, e muito mais. Quem puder comprar, compre!

E agora, a pergunta/resposta que ficou de fora:

O senhor tem lido os novos autores brasileiros? Se sim, como vê a produção atual?
Sim, leio muito a produção literária brasileira atual. A literatura não para, e nunca se publicou tantos autores novos como hoje, por aqui. É uma pena que os estudos literários dos nossos cursos de letras ainda ignorem essa produção. No máximo chegam a Rubem Fonseca, quando há autores muito bons surgindo e que merecem atenção. A poesia, sobretudo, está cada vez mais refinada. Agora mesmo estou lendo “Cinemateca”, de Eucanaã Ferraz, e a gente vê ali um trabalho incansável com a linguagem. Há também Paulo Henriques Britto, Dora Ribeiro, Cláudia Roquette-Pinto. Na prosa temos um Alberto Mussa, uma Adriana Lunardi, Rodrigo Lacerda, gente nova que escreve muito bem. Há muitos outros, mas não dá para citar um a um, a lista é grande.

Entrevista sobre blogs

Sunday, December 20th, 2009

O tal formspring.me está (que, pelo que entendi, é um local no qual as pessoas podem te fazer as mais variadas perguntas - e você tem que respondê-las, claro) fazendo o maior sucesso no Twitter. Há pouco twittei que não faço um troço desses para mim porque seria vergonhoso: ninguém me perguntaria nada. Isso me fez lembrar que já respondi a umas duas ou três entrevistas por email, por conta do meu trabalho como editor-assistente do Digestivo. Se conseguir encontrar todas, vou publicá-las aqui aos poucos. Segue abaixo a primeira que encontrei, cedida a José Carlos Moutinho, da Universidade Estácio de Sá, do Rio de Janeiro.

1. Como o você avalia o fenômeno blog (resultante de weblog - web + log), que surgiu em 1997 e não para de crescer, chegando a ser chamada pelos pesquisadores de blogsfera. Como o você vê a importância desse espaço dentro da cibercultura e da cultural de massa em geral?

Os blogs são importantíssimos para a democratização da informação e para o desenvolvimento da mídia. Hoje existem blogueiros que são formadores de opinião - poucos, é verdade, mas existem. Eles estão à frente de muitos jornalistas e articulistas de grandes veículos e possuem uma grande influência sobre a blogosfera brasileira. Talvez a ferramenta blog seja a maior revolução que a internet nos trouxe. No Brasil, ainda não foi explorada de maneira ampla - vide o grande número de blogs sem conteúdo relevante. Mas acredito que estamos no caminho certo e que a blogosfera brasileira evoluirá muito ainda.

2. Você acredita que o “Digestivo Cultural”, dentro do que se propõe, está contribuindo para a democratização da informação, ser fonte de informação e romper as barreiras da mídia convencional?

Com certeza. O Digestivo Cultural é um site - ou uma revista eletrônica, fica a critério do leitor - que disponibiliza, gratuitamente, todos os dias, textos relevantes e de qualidade sobre literatura, cinema, música, artes… enfim, uma série de temas pertinentes, dentro do jornalismo cultural. O Digestivo tem credibilidade e independência, qualidades que poucos veículos - sejam eles impressos ou virtuais - têm, hoje, no Brasil.

3. Pela sua experiência, como você avalia a importância dos blogs no mundo contemporâneo e quais sugestões gostaria de lançar aos blogueiros e ao público em geral sobre o bom aproveitamento dessa ferramenta cibernética, notadamente quanto a qualidade da informação e respeito ao material produzido?

É mais ou menos o que disse na primeira resposta. O blog é a maior revolução que a internet proporcionou, acredito. É uma grande maravilha. Os blogueiros brasileiros - me refiro àqueles que desejam ser levados a sério, que desejam que seus blogs sejam levados a sério - só precisam aproveitar melhor todas as oportunidades que essa ferramenta oferece, e, também, entender que um blog pode, sim, influenciar pessoas. É uma vergonha termos, no Brasil, blogs nos quais o conteúdo são apenas vídeos engraçados do YouTube. Enquanto nos EUA blogueiros cobriram as eleições presidenciais de perto e se organizaram em torno da campanha de Barack Obama, aqui os blogs mais visitados estão postando e repostando vídeos bizarros. Mas, como disse, acredito na evolução da blogosfera brasileira.

Entrevista com Hélio Campos Mello, da revista Brasileiros

Tuesday, July 7th, 2009

* Postado originalmente no O Leitor, mas devido ao número astronômico (pra não dizer o contrário) de visitas lá, resolvi postar aqui também.

Conheci a revista Brasileiros totalmente por acaso. Foi em fevereiro deste ano, pela internet, e a matéria de capa da revista era sobre Muricy Ramalho, uma das pessoas que mais admiro. Além de ser espontâneo e verdadeiro, Muricy é, assim como eu, são-paulino. Comprei a edição (de número 19) e fui direto na matéria sobre o ex-técnico do São Paulo, que foi entrevistado por Ricardo Kotscho (também são-paulino), Fernando Figueiredo Mello e Hélio Campos Mello, sendo este último diretor de redação e idealizador/fundador da Brasileiros.

Para mim não havia outra saída a não ser gostar da matéria – e da revista. A coisa aumentou de grau quando, depois de enviar uma tentativa de colaboração para lá, me enviaram um e-mail solicitando uma foto minha e uma rápida biografia, para colocarem na página de colaboradores da então próxima edição, a de número 20, que além de ter uma ótima matéria de capa com a socióloga, educadora e cientista política Maria Victoria Benevides, traz também homenagens a várias mulheres (representando todas as brasileiras) e uma reportagem sobre o médico Aziz Miguel Filho, que paga pra trabalhar, além de outras boas matérias.

Por ser um tanto diferente das revistas com as quais estava acostumado, semanais engajadas em alguma corrente política e mensais insossas, a Brasileiros tinha tudo para se tornar um xodó meu. Gosto de bons textos, com personagens inusitados e até mesmo improváveis. Além disso, a Brasileiros dá destaque a certas coisas que o restante da imprensa deixa passar em branco. Não apenas pessoas que tentam fazer deste Brasil um lugar melhor, mas também livros, discos, enfim, produtos culturais que as revistonas e os jornalões esquecem de divulgar ou criticar. Com a minha matéria publicada, então, vocês podem imaginar: virou mesmo mais um xodó entre os tantos que tenho. Agora a acompanho todo mês, comprando nas bancas, e em breve me torno assinante.

A Brasileiros teve sua edição de número 1 publicada em julho de 2007. Ela faz, portanto, 2 anos neste mês. Quer dizer, ela é um pouco mais velha que isso. Digamos que ela tenha nascido uma pouco antes mas só foi registrada em cartório no mês de julho. Por isso não é do signo de Câncer, casa do zodíaco à qual pertenço. Essa foi uma das coisas que o já citado Hélio Campos Mello “falou”, na entrevista que ele me concedeu por e-mail e que vocês leem a seguir. Detalhe: em determinado momento, Hélio faz uma observação sobre o fato de estar sendo espontâneo e também sobre não ter ainda se acostumado com a acentuação do novo computador. Quando imaginei a entrevista, pensei mesmo em algo bem próximo de uma conversa. Por isso resolvi manter a observação.

Hélio, você passou por algumas das maiores redações do país (Veja, Estadão, IstoÉ). Me desculpe fazer a pergunta desta maneira, mas por que em vez de continuar trabalhando para outros veículos você resolveu criar o seu? Não seria trocar dores de cabeça eventuais por uma enxaqueca, no sentido de que tanto as responsabilidades quanto o trabalho são bem maiores?

Acho que fazer a Brasileiros é fechar um ciclo e iniciar outro. O primeiro – e longo – ciclo foi uma caminhada que teve seu inicio na década de 70 no Jornal da Tarde e O Estado de São Paulo, com Murilo Felisberto e Miguel Jorge, na Veja, com Mino Carta, em alguns estúdios de fotografia, no jornal Última Hora, com Samuel Weiner – todos esse lugares/empregos exclusivamente como fotógrafo, que é a minha formação. Esse ciclo continuou em 76 na IstoÉ, de novo com Mino Carta, até 1980, aí já como editor de fotografia, além de fotógrafo/ fotojornalista. Passei um tempo em Nova York, fotografando para Veja e Visão, até voltar a trabalhar com Mino Carta, na Senhor, semanal da Editora Três. Lá fui fotojornalista, editor de fotografia, secretário de redação, tradutor da The Economist e fechador das colunas de Claudio Abramo e Raymundo Faoro. Em 1988 participei da verdadeira revolução editorial feita pela Agência Estado, sob o comando do Rodrigo Mesquita, no Grupo Estado. Como diretor, lá fiquei até 1993 e participei da transição tecnológica que informatizou redação, fotografia e também na implantação da informação em tempo real, principalmente a econômica, um pouco antes do advento da internet como ferramenta de rotina, como hoje a usamos. De quebra cobri a invasão americana ao Panamá, em busca do general Noriega, em 1989, e a Guerra do Golfo em 1990/1991. Nessa última, como uma espécie de cereja no bolo, ou, melhor, tâmara nessa torta quase indigesta, eu e meu companheiro de trabalho naquele momento, William Waack, fomos presos e assim ficamos por uma semana em mãos de tropas do outrora temido Saddam Hussein.

O final desse ciclo se dá na IstoÉ, para onde voltei em 1993. Foram 13 anos nos quais trabalhei como fotógrafo, redator-chefe, diretor de planejamento e diretor de redação. Me lembro, com carinho, que conseguimos nesse período 10 prêmios Esso. Mas, como em um casamento, houve mútuo cansaço, e, finalmente, a separação aconteceu em fevereiro de 2006. A IstoÉ ficou lá e eu saí em busca de novos caminhos. Seria um ano sabático para decidir o que fazer não fosse por três matérias especiais que eu e meu amigo Ricardo Kotscho fizemos para o jornal O Globo e uma consultoria que prestei mensalmente para uma agência de publicidade. Mas no que de sabático deu para aproveitar, eu e minha mulher – e hoje minha sócia –, Patricia Elena Rousseaux, viajamos e conversamos muito. E foi olhando em direção a África, com muito vento na cara, numa praia da Bahia, que chegamos, nós dois, ao formato e ao nome da Brasileiros. E aí começa um novo ciclo. Que podemos até chamá-lo, parodiando um pedaço de sua pergunta: “Por que ter uma boa dor de cabeça se podemos ter uma tremenda enxaqueca?”. Como você pode, perceber perdemos o sono – graças às contas para pagar – mas não perdemos o humor.

Você poderia definir, em algumas palavras, a Brasileiros?

A Brasileiros é a realização do conjunto de velhos sonhos com o exorcismo de alguns pesadelos. Como exemplo, eu sempre quis trabalhar em uma revista que tivesse espaços generosos para boas reportagens, como a Realidade, a Vanity Fair, a National Geographic. Ao mesmo tempo, a arrogância do jornalismo sempre frequentou alguns maus sonhos que tive, assim como também o fato de não poder demonstrar gostar do país que vivemos sem ser confundido com ufanista boboca e, portanto, não ter vergonhas em falar de suas coisas boas. Isso sem ter medo em falar de suas misérias e mazelas. Outro de meus sonhos é poder exercer o lado lúdico do jornalismo, que é sair para ver as coisas, falar com as pessoas, e depois ter uma revista onde editar – com prazer – o resultado dessas experiências. Com belas aberturas, belos textos e belas fotos. Enfim, desfrutar do prazer dessa profissão que pode proporcionar muito prazer.

Confesso que só conheci a Brasileiros este ano. Aliás, minto: já a conhecia, mas só em fevereiro comprei e li uma edição da revista. E, mesmo assim, porque aquele número tem o Muricy Ramalho - de quem sou fã incondicional - na capa. Foi então que descobri o quão boa é a Brasileiros - e não estou aqui puxando o seu saco - e agora acompanho a revista todo mês. A pergunta, finalmente, é: por que, na sua opinião, o espaço para revistas como a Brasileiros - e outras como piauí, Rolling Stone e Trip - é ainda um tanto restrito, no Brasil? Apesar disso, os leitores parecem estar dando mais atenção a essas publicações - ou não?

(Tá tudo muito caudaloso, Rafael, fique à vontade para cortar o que precisar e, por favor, estou de computador novo – agora é um Mac – e os acentos são as maiores vítimas.) Acho que há um início de cansaço com relação à imprensa da maneira como ela é feita, quando feita de uma maneira pasteurizada, burocratizada, excessivamente modulada. E essas três revistas que você citou estão ocupando esse espaço, cada uma à sua maneira, porque são revistas muito diferentes entre si.

Mudando um pouco de assunto: o que você achou da decisão do STF de derrubar a obrigatoriedade do diploma de jornalismo para exercer a profissão de jornalista?

Eu sempre lutei, luto e lutarei pela busca de algo não muito palpável, que é o bom senso. Em relação à exigência do diploma, acho falta de bom senso proibir indivíduos talentosos, que possam agregar conhecimento, informação, cultura, de publicar seus trabalhos em jornais ou revistas. Assim como acho falta de bom senso e excesso de oportunismo mal-intencionado se aproveitar da não exigência do diploma para contratar, a preços aviltantes e aviltados, mão de obra desqualificada.

Todos os dias alguém fala em fim dos jornais - na verdade, da mídia impressa - e até em fim do jornalismo. Porque jornais estão sendo fechados, as tiragens estão caindo etc. O que você acha disso? Os jornais, as revistas e o jornalismo vão mesmo acabar? (Acredito que a Brasileiros é a sua melhor resposta para essa pergunta, mas gostaria de ler algumas palavras suas sobre o assunto.)

A meu ver, estamos passando por uma reorganização do mercado. Os jornais e as revista semanais perdem espaço. A informação eletrônica ganha e ganha em cima das semanais e dos jornais. Com isso reabre-se um espaço para as mensais de qualidade. É aí que entra a Brasileiros. São revistas feitas com mais cuidado, mas que não podem perder a temperatura. São as revistas que duram mais que os dois, três dias que duram as semanais. Elas não dependem dos furos, elemento cada vez mais indispensável para vender as semanais. Dependem de uma pauta, de bons textos, boas fotos, acabamento primoroso. A Brasileiros é uma revista que busca suprir uma necessidade que eu chamo de fetiche da leitura. É algo como o prazer de entrar em uma boa papelaria e sentir o cheiro do grafite e do papel. A Brasileiros pretende fornecer, além de um conteúdo o mais perto do excelente possível, também esse prazer táctil e de olfato.

Voltando ao aniversário da Brasileiros: ela, assim como eu, nasceu em julho, e agora completa dois anos de existência. Pode parecer uma pergunta boba, mas como a própria revista tem uma página dedicada à astrologia, pergunto: a Brasileiros tem signo? Se sim, qual? (Se não, fica a sugestão: fazer um mapa astral da Brasileiros!)

A Brasileiros é de Gêmeos (a revista foi pensada e gestada durante 2006 e no começo de 2007; a empresa foi registrada em maio de 2007; no mesmo maio saiu o número zero e, finalmente, em julho de 2007, saiu o número 1, com a capa sobre preconceito). A coluna de astrologia desta edição de dois anos é dedicada a isso.

O que os leitores da Brasileiros podem aguardar para os próximos anos, além da continuidade do belo trabalho que vocês vêm desenvolvendo? Já foi cogitado lançar as melhores reportagens em livro ou essa ideia não passa por sua cabeça (ou já passou e foi embora)?

A Brasileiros, como editora, tem algumas publicações sendo desenhadas e manobrando para serem lançadas. Um livro também está nos planos.

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Revista Brasileiros