Archive for the ‘Livros’ Category

A verdade (?) sobre os escritores

Sunday, April 4th, 2010

“(…) escritores tendem a ser piores de cama do que a média dos homens: mais broxas, mais ejaculadores precoces, além de mais inseguros, mais ciumentos, mentirosos, desleais, descuidados, caspentos, fedidos, barrigudos, egoístas, frios, estúpidos, babacas… Tudo aquilo que os homens em geral costumam ser, escritores têm tendência a ser um pouco mais.”

Trechinho legal de um dos contos de “Sobrescritos“, de Sérgio Rodrigues, que comecei a ler enquanto espero dar a hora da corrida de hoje.

No território da delicadeza, por Humberto Werneck

Tuesday, March 30th, 2010

* O texto abaixo, do jornalista e escritor Humberto Werneck, foi publicado originalmente no jornal Estado de Minas, em 7 de julho de 1991.

Há algo que me toca neste primeiro romance de Jaime Prado Gouvêa. Não é só a beleza da história, nem as delicadezas de que ela se tece, nem mesmo a dedicatória, que tem a generosidade adicional de me colocar ao lado de Murilo Rubião. Toca-me também, e muito, o que “O altar das montanhas de Minas” significa como fruto maduro numa trajetória de artista. Tenho saboreado o espanto de não poucos leitores diante da alta qualidade deste livro, como se tudo houvesse acontecido de uma hora para outra. Para mim não há surpresa. Tenho, afinal, 32 anos de Jaime Prado Gouvêa – o que significa que o acompanho desde o tempo em que ele celebrava paixões contrariadas com uma série de poemas ironicamente intitulados “As Corníadas”; desde o tempo em que, matando aula no Colégio Estadual, íamos descobrir na vadiagem do pátio que “Le Lac”, de Lamartine, não era aquele amontoado de palavras que dona Aline, a professora de francês, nos enfiava goela abaixo, depois de esvaziá-las de qualquer resquício de poesia.

O que quero dizer é que, por esses anos todos, pude testemunhar o desenvolvimento de uma obra que se constrói sem solavancos, como que obedecendo a um projeto obstinado – projeto cuja chave o autor parece ter dado no título de seu primeiro livro, “Areia tornando em pedra”, coletânea de contos publicada em 1970: um processo de solidificação. Numa leitura que ele talvez não autorizasse, vejo aí, também, o propósito de remar contra a corrente, numa espécie de radical subversão da geologia – não é a pedra que se faz areia, e sim o contrário.

Remar contra a corrente, em todo caso, é o que Jaime Prado Gouvêa vem fazendo desde que se descobriu escritor, lá no tempo das “Corníadas”, com uma determinação cabeçuda de que eu próprio recolhi amostras. O título do primeiro livro, por exemplo, me pareceu pouco feliz do ponto de vista comercial, e cheguei a fazer esse reparo num artigo. Não houve jeito de convencer Jaime a trocá-lo por outro mais convidativo. A história se repetiria vinte anos depois, quando ele me despachou de Belo Horizonte os originais de “O altar das montanhas de Minas”. Inutilmente argumentei que pouca gente se deixaria seduzir pelo verso pinçado na letra do hino de um congresso eucarístico perdido no tempo. Como no caso de “Areia tornando em pedra”, ele tinha posto o título que encerrava com mais exatidão a ideia do livro (disto não há dúvida), e nem quis conversa.

Tenho o maior respeito por sua integridade de artista, que o impediu de embarcar, como tantos outros, nas sucessivas marés literárias das últimas três décadas. Quem folhear seus quatro livros (com uma escala mais demorada, por favor, nos contos do irretocável “Fichas de vitrola”) vai verificar que Jaime Prado Gouvêa passou ao largo, por exemplo, de uma certa literatura “engajada” ou “participante” que andou provocando arrepios cívicos nos menos exigentes num bom pedaço das décadas de 60 e 70. Também não embarcou no realismo fantástico de carregação trazido na enxurrada do cacofônico boom da literatura hispano-americana. Não se deixou, por fim, contagiar pela facilidade do texto jornalístico, escola posta em moda graças a uma assimilação equivocada de Ernest Hemingway.

Havia, aliás, naquele tempo, e ainda há, no Fla-Flu bocó das artes nacionais, um antagonismo a dividir adeptos de Hemingway e de F. Scott Fitzgerald. Jaime Prado Gouvêa não chegou ao extremo de reduzir o primeiro a um jornalista pautado pela imaginação, como houve quem fizesse – mas seu coração é intransigentemente fitzgeraldiano. Avesso ao preto-no-branco, ao chapado, ao unidimensional, ele pertence, de fato, a essa rarefeita linhagem dos que trabalham a filigrana, os meios-tons. Escritores que, por isso, dificilmente poderiam ser transpostos para outra linguagem que não a das palavras, sem que houvesse irremediável perda de substância. Por mais que se tenha tentado, e se tentou bastante, ninguém, até hoje, conseguiu levar ao cinema as delicadas nuances que fazem o melhor da obra de Scott Fitzgerald. Fico pensando no enorme desafio que seria tirar um bom filme, também, de “O altar das montanhas de Minas”, sem reduzi-lo a uma bela história e apenas isto.

Há poucos dias, num jornal de São Paulo, sentenciava um resenhista a propósito deste romance, depois de atravessá-lo com uma sensibilidade de cupim: “Jaime Prado Gouvêa até que escreve direitinho”. Pudesse a literatura brasileira ser feita de autores que escrevem assim tão direitinho.

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Mais sobre “O altar das montanhas de Minas”:

- Artigo de Sebastião Nunes no O Tempo
- Resenha de Duílio Gomes no Jornal do Brasil

Antes que recolham!

Friday, March 26th, 2010

Corram para a banca de revista mais próxima e comprem a Época Negócios deste mês de março. A matéria de capa é sobre as mudanças no mercado editorial causadas pelos e-readers. Matéria grande, fizeram entrevistas com gente muito boa (Jeff “Amazon” Bezos, Ruy “Estadão” Mesquita, Luiz “Cia das Letras” Schwarcz e outros). Esta edição, que comemora o aniversário de 3 anos da revista, teve como editores convidados o Pedro Moreira Salles (do Itaú/Unibanco) e Horácio Lafer Piva (ele eu não conhecia, mas pra ter sido convidado só pode ser muito competente). E tem mais coisas legais além da matéria de capa. Tem uma sobre arte contemporânea, por exemplo. Enfim, pelo que vi aqui - não li a revista inteira ainda, só alguns trechos -, o pessoal caprichou.

Explico o título do post: a revista pode começar a ser recolhida das bancas a qualquer momento pelas distribuidoras. Acho que vocês sabem como funciona o processo, mas não custa explicar: antes de a nova edição de uma revista chegar às bancas, a edição anterior é recolhida e (teoricamente) devolvida à sua respectiva editora. Como estamos no fim de março, pode ser que esta edição da Época Negócios seja recolhida nos próximos dias.

Além disso, há o risco de a revista acabar na banca, como parece ter sido o caso da Bravo! deste mês, que fui comprar e não encontrei em nenhuma das duas bancas que tem aqui perto.

Senna 50

Sunday, March 21st, 2010

Ayrton Senna da Silva, o maior piloto de Fórmula 1 de todos os tempos - só aceito discutir isso se a outra opção for Juan Manuel Fangio -, faria hoje 50 anos se estivesse vivo. Estão sendo feitas uma série de homenagens ao Ayrton, tanto off quanto on-line. Uma delas é do Instituto Ayrton Senna, que colocou no ar o site Senna 50, que está dialogando com redes sociais - Twitter, Facebook etc. - e prestando uma bela homenagem.

Já falei sobre o Ayrton aqui no blog, por ocasião dos 15 anos do trágico acidente que tirou sua vida, em Ímola. Contei como foi minha reação ao acidente e tudo o que veio depois, naquele 1º de maio, mas não me ocorreu algo que pensei dias atrás: sou fã do Ayrton, ele é um dos meus ídolos, mas, apesar de ter sua biografia há anos, ainda não a li.

E daí que isso me levou a pensar na paradoxal relação que alguns de nós tem com seus ídolos, com as pessoas que admiramos de uma maneira exagerada, ou mesmo com as pessoas que amamos. Muitas vezes nós “ignoramos” os defeitos e erros dessas pessoas simplesmente porque nossa admiração por elas nos faz “relevar” até mesmo suas más atitudes. Preferimos até desconhecer certas coisas, para que não haja o risco de uma decepção - ou decepções - ir minando a admiração que temos por elas.

Não posso afirmar que seja exatamente isto o que me fez não ler ainda a biografia do Ayrton. Até porque não sei se é esse o caso. Que o Ayrton tinha seus defeitos, todo mundo sabe. Afinal, ele é humano. Mas se esses defeitos são tão grandes a ponto de fazer um fã incondicional “ignorar” a biografia dele, não sei dizer. Assim como a dele, não li a biografia de Nelson Rodrigues, outro que admiro demais, apesar de tê-la também há alguns anos. Mas tendo a achar que seja este o motivo: não querer pagar pra ver - no caso, ler pra saber.

Meses atrás, um amigo me confessou estar um tanto desapontado com certas descobertas que vinha fazendo, sobre pessoas que ele vinha pesquisando para uma biografia. Ele me disse que chegou num ponto em que não conseguia mais ir adiante. Decidiu interromper o projeto por algum tempo e depois retornar a ele. Complicado, não?

Acho que existe em nós a vontade de manter determinadas pessoas ou mesmo determinados acontecimentos numa espécie de redoma, longe de imperfeições. Algo ingênuo e ilusório, já que a realidade e os fatos sempre dão um jeito de se colocarem diante de nós.

A edição que tenho da biografia do Ayrton não me permite sair com ela em mãos. É um pouco grande, além de eu querer mantê-la bem conservada por um looongo tempo. Saiu recentemente uma edição “de bolso” dela. Acho que vou comprar, pra poder andar com o livro e, finalmente, me dedicar a lê-lo.

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É quase revoltante o fato de não haver no mercado um DVD sobre o Ayrton feito por brasileiros. A rede Globo tem um acervo incrível de imagens do Ayrton, tem acesso livre a pessoas que conviveram com ele, tem dinheiro de sobra pra fazer um DVD triplo, quádruplo, sei lá, uma caixa com 10 discos só de imagens, entrevistas, corridas marcantes etc., e, sabe-se lá por que, simplesmente não faz isso. Tem também a editora Globo, que poderia publicar um livro com imagens do Senna, depoimentos sobre ele, as frases dele, enfim, mas não o faz. Fico me perguntando o motivo, mas não consigo pensar em nenhuma resposta.

A única coisa que sei é que o Brasil esquece muito fácil de tudo o que deveria lembrar. É por isso que a política continua do jeito que está. Collor fez o que fez e foi eleito senador. Arruda fez o que fez e foi eleitor governador. É tudo muito triste.

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Mas ao menos no ano passado saíram dois livros legais sobre o Ayrton: Ayrton Senna - Esporte Com Arte 2010 e Ayrton Senna - Uma Lenda A Toda Velocidade. E dá pra encontrar pelo menos 1 DVD à venda: An Official Tribute to Ayrton Senna.

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Vejam também:

- Post de Rafael Lopes sobre Senna
- Homenagens a Senna se estenderão ao longo de 2010

O futuro (incerto?) dos livros

Friday, March 19th, 2010

É o título da minha coluna que entrou no ar hoje, no Digestivo. Confiram lá!

Olho por olho, de Lucas Figueiredo

Wednesday, March 17th, 2010

O material abaixo foi publicado na revista Conhecimento Prático Literatura nº 26.

Todos os livros do jornalista mineiro Lucas Figueiredo são sobre temas espinhosos. Em “Morcegos Negros” (2000) ele se dedicou a pesquisar um dos capítulos mais vergonhosos da História recente do Brasil, a Era Collor. Depois, escreveu sobre o serviço secreto brasileiro, em “Ministério do Silêncio” (2005). Pouco tempo passou e Lucas decidiu destrinchar mais um fato recente da nossa História, o mensalão, no livro “O Operador - Como (e a mando de quem) Marcos Valério irrigou os cofres do PSDB e do PT ” (2006). E agora, em “Olho por olho“, o jornalista mineiro se debruçou sobre mais um período negro da História do Brasil: a ditadura.

“Olho por olho” conta a história de dois livros importantíssimos para o entendimento dos anos de chumbo: “Brasil: Nunca Mais”, escrito pelos que eram contra o regime; e “O livro negro do terrorismo no Brasil”, escrito pelos militares, mais conhecido pelo codinome “Orvil”, que é a palavra “livro” ao contrário. Mais que um apelido, “Orvil” revela a intenção real do livro: não apenas mostrar a ditadura segundo o exército, mas sim desconstruir e derrubar o “Brasil: Nunca Mais”.

A maioria das pessoas que leu o “BNM” talvez não saiba que suas 312 páginas (número referente à 36ª edição do livro, editado pela editora Vozes desde 1985) são o resultado de uma condensação de quase 7 mil. Os responsáveis por essa tarefa foram o jornalista Ricardo Kotscho e o ex-preso político – torturado pelos militares – Frei Betto. O levantamento dessas 7 mil páginas de documentos foi feito através de uma operação chamada “Testemunhos Pró-Paz”, digna dos melhores roteiros de filmes de espionagem. Como foi organizada a operação, quem participou dela, quem a bancou financeiramente, quais os perigos que passaram os integrantes do projeto, tudo isso é narrado por Lucas Figueiredo. Que faz o mesmo com o “Orvil”, que, sem sua “versão final”, digamos assim, contava 919 páginas divididas em dois volumes. Mas quais foram os militares responsáveis por sua criação e execução?; qual motivo o deixou “engavetado” por tantos anos?; quem vetou sua divulgação? Tudo isso é esclarecido pelo jornalista mineiro.

Um livro revelador em todos os sentidos, “Olho por olho” é certamente uma das obras mais importantes lançadas nos últimos anos no Brasil, porque, além de contar a saga de dois dos mais importantes livros brasileiros de todos os tempos, ele também apresenta fatos históricos que precisam ser conhecidos e questionamentos que precisam de respostas.

Na entrevista a seguir, realizada via e-mail, Lucas Figueiredo, vencedor de três Prêmios Esso, fala sobre seu livro, sua inclinação para as reportagens de fôlego e sobre jornalismo e o fim dos jornais.

Quais foram as maiores dificuldades que você enfrentou durante a escritura de “Olho por olho”?
A maior dificuldade, sem dúvida, foi conseguir uma das quinze cópias artesanais do Orvil, o livro secreto que o Exército produziu entre 1985 e 1988 e que nunca foi publicado. Comecei minhas buscas pelo Orvil em 1998 e só obtive uma das 15 cópias, por intermédio de uma fonte militar, em 2007.

De onde vem sua predileção pelo jornalismo investigativo/político?
Não gosto muito desse termo “jornalismo investigativo”; prefiro “reportagem”, que é algo que se faz há séculos. Acho que, no Brasil, nós jornalistas temos o papel imenso de revelar as mazelas que nos atravancam. Meu fascínio é mostrar o que dá errado, com a esperança de que isso ajude a fazer o certo.

Nos últimos anos foram lançados muitos livros sobre os anos de chumbo no Brasil. Isso ocorre porque finalmente temos o distanciamento necessário para analisar friamente os fatos ou porque ainda há muito a ser dito sobre o assunto? Você acha que algum dia esse tema vai se esgotar?
Nos últimos anos, tem vindo à luz muita informação nova sobre o período, por isso a grande produção. Como a ditadura ainda tem grandes mistérios, como o destino dos 130 desaparecidos políticos, ainda temos campo para a publicação de centenas de obras. O interesse nunca irá se esgotar, porque esse foi um dos períodos mais trágicos do país.

Me parece que, durante o ensino médio, a História Contemporânea do Brasil não tem a atenção que merece. Fala-se muito sobre “Descobrimento” e pouco sobre a Ditadura, na minha opinião. E isso resulta em jovens que mal sabem que, durante anos, nosso país foi governado por militares, por exemplo. Você concorda? Isso não prejudica o desenvolvimento da nação e o entendimento da nossa situação social e política?
O problema é que nas escolas, em geral, a história é ensinada de forma mecânica, sem atrativos. Por isso os jornalistas têm um papel importante nesse campo, ou seja, não apenas levar informação histórica de qualidade ao público, mas também tornar a própria História uma coisa atraente. Aposto que muitos brasileiros aprenderam muito sobre Getúlio Vargas lendo os livros de Fernando Morais, muito sobre a ditadura lendo Elio Gaspari, e sobre o “Descobrimento” lendo Eduardo Bueno.

Mudando um pouco de assunto: recentemente o STF derrubou a exigência de diploma em jornalismo para se atuar na área. Naturalmente, houve muita reclamação por parte dos estudantes de jornalismo e também de jornalistas. Na sua opinião as reclamações são justas ou o STF agiu corretamente ao colocar um fim na exigência do diploma? O jornalismo ganhou ou perdeu com isso?
Acho que o jornalismo ganha com o fim da exigência do diploma. Nunca entendi porque um filósofo, um advogado, um historiador não poderiam ser também bons jornalistas. Tenho um amigo formado em matemática que é um dos melhores e mais corretos repórteres que já conheci. O que o diploma escondia era uma reserva de mercado.

Ainda sobre jornalismo: quase todos os dias alguém fala em fim dos jornais e até no fim do próprio jornalismo. O que você acha disso? Os jornais - e o jornalismo - vão mesmo acabar? O destino de reportagens como as suas será, mesmo, os livros? Ou haverá espaço para reportagens longas nos jornais e revistas? Você arrisca alguma espécie de previsão?
Muitos jornais vão acabar e os que sobreviverem terão de fazer grandes mudanças por questões financeiras, ou seja, terão de “encolher”. O que é uma pena, porque os jornais, com as reportagens, têm tido grande importância na história recente do país. Se a reportagem migrar para outro suporte, não vejo problema. Mas até agora a internet não tem rendido o suficiente para os portais terem jornalistas de qualidade fazendo reportagens. Nenhum portal brasileiro tem, por exemplo, um correspondente na Venezuela, na China, em Buenos Aires ou em Washington, como os jornais. Acho que passaremos por um período nebuloso, no qual teremos menos reportagens, ou seja, menos informação de qualidade. Mas acho que isso pode ser corrigido no futuro.

O que faz um bom jornalista? Uma graduação na área é mesmo necessária ou uma boa bagagem de leituras e, mais que isso, “correr atrás” dos fatos resolve? Quais os conselhos que você daria a um estudante de jornalismo ou a quem está dando os primeiros passos na profissão?
Primeiro, uma boa formação humanista. Toneladas de leitura: imprescindível!!! Por último, leitura de um bom jornal, pelo menos, da primeira a ultima página, incluindo editoriais e cartas ao leitor. As dicas: vá para a rua, não tenha preguiça, cheque seus dados obstinadamente!

Você já está pensando (ou trabalhando) num próximo livro? Se sim, pode revelar qual o assunto e quando pretende publicar?
Neste momento, estou lançando “Olho por olho”. Mas também estou trabalhando em outro livro, que deve ser publicado no segundo semestre do ano que vem. O assunto, por enquanto, é segredo…

Se eu fechar os olhos agora, de Edney Silvestre

Tuesday, March 16th, 2010

Em dezembro de 2009 foi publicada, na revista Brasileiros, uma entrevista que fiz com o Edney Silvestre, sobre seu primeiro romance. Além da entrevista eu havia feito uma resenha do livro, que foi parcialmente utilizada na introdução à entrevista. O texto na íntegra você lê abaixo.

O início de “Se eu fechar os olhos agora”, romance do jornalista e escritor Edney Silvestre, dá ao leitor, primeiro, a impressão de estar diante de um livro infanto-juvenil, por apresentar os dois protagonistas, Eduardo e Paulo, garotos de 12 anos de idade, no momento em que fazem mais uma de suas travessuras, matando aula para nadar em um lago; depois, o livro dá uma guinada, e o leitor se vê enredado em uma trama policial: os garotos encontram, nas imediações do lago, uma mulher morta a facadas. Mas, na verdade, e apesar de haver em “Se eu fechar os olhos agora” uma espécie de aura juvenil e de uma investigação ocupar grande parte do livro, o que se tem diante dos olhos é um romance de formação.

Ambientado na década de 1960, em Valença, pequena cidade fluminense – terra natal do autor –, “Se eu fechar os olhos agora” é o primeiro livro de ficção de Edney Silvestre, que tem várias outras obras publicadas – de crônicas e coletâneas de entrevistas. Um dos personagens, já adulto, é a voz que dá início ao livro: “Se eu fechar os olhos agora, ainda posso sentir o sangue dela grudado nos meus dedos. E era assim: grudava nos meus dedos como tinha grudado nos louros cabelos dela, na testa alta, nas sobrancelhas arqueadas e nos cílios negros, nas pálpebras, na face, no pescoço, nos braços, na blusa branca rasgada e nos botões que não tinham sido arrancados, no sutiã cortado ao meio, no seio direito, na ponta do bico do seio direito”. Este trecho, que é o primeiro parágrafo do romance, revela uma das características da prosa de Edney: a descrição. E não se trata apenas de descrever um ambiente, uma cena, mas principalmente os sentimentos dos personagens, o que eles pensam em momentos cruciais do livro. Detalhes muito importantes para entender melhor cada um dos protagonistas da história, que se atém, principalmente, ao misterioso assassinato, mas que, paralelamente, acompanha os garotos no processo de perda da inocência e iniciação no mundo adulto – naquela época se envelhecia mais cedo…

Depois de encontrarem a morta, avisarem a polícia, serem considerados suspeitos e, finalmente, liberados, os garotos se recusam a crer na “versão oficial dos fatos” – de que ela foi morta pelo marido supostamente traído. E passam a conversar sobre o crime, tentar entender o fato, levantar outras teorias para explicá-lo. Em seguida, vão até a casa do casal, para quem sabe encontrar ma pista que os leve a esclarecer a situação e, talvez, descobrir a verdadeira razão pela qual a mulher foi morta – além de, claro, descobrir quem é o verdadeiro assassino. É quando descobrem que não são os únicos a desconfiar da versão de crime passional: na mesma noite em que eles invadem a propriedade, uma outra pessoa faz o mesmo. Quem é esse outro “detetive” os garotos descobrem fácil, seguindo-o rumo ao seu lar, um asilo para idosos. Este senhor, a quem conhecemos melhor no decorrer do romance, serve como espécie de consciência dos meninos. Inexperientes em tudo, não conseguiriam jamais entender aquele crime sozinhos. Com a ajuda do velho Ubiratan, o que antes parecia ser uma brincadeira de criança, sem perspectiva alguma de chegar a um desfecho, a uma conclusão, se torna uma empreitada séria e perigosa, repleta de reviravoltas e que em certos momentos causa vertigem no leitor.

Apesar de estreante na ficção, Edney Silvestre tem como trunfo uma carreira sólida no jornalismo e uma bagagem literária invejável – tanto que é ele o apresentador/entrevistador do programa Espaço Aberto Literatura, do canal de TV a cabo GloboNews –, coisas que certamente lhe ajudaram no desenvolver do romance. Principalmente no que se refere à linguagem, à forma. A história, apesar de emaranhada, não se torna em momento algum confusa. A leitura é ágil e provoca uma enorme ansiedade de saber o que vai acontecer na próxima página. É admirável também a ambição do autor. Não parece que Edney Silvestre escreveu o livro apenas para ser publicado e ser premiado com a pecha de escritor. A impressão é que ele tentou escrever um romance diferenciado, marcante, relevante. E conseguiu não apenas isso, mas também produzir uma obra de inegável qualidade, beleza e força. É o mínimo que se pode esperar de um escritor, seja ele quem for.

Sob o céu de Samarcanda, de Ruy Espinheira Filho

Friday, March 12th, 2010

Um amigo recentemente me perguntou se eu tenho lido poesia. Eu disse que não e ele, que sempre me dá bons conselhos, disse que eu não deixasse de ler versos, que arrumasse um tempo para eles.

Isso coincidiu com a notícia do lançamento de “Sob o céu de Samarcanda“, de Ruy Espinheira Filho. Pensei, então, em unir o útil - o conselho - ao agradável - literatura - e voltar a ler poesia justamente com o novo livro do Ruy. Comprei-o há alguns dias e de fato li alguns poemas - destaque para o “Manuscrito encontrado entre os papéis do poeta, em envelope lacrado que ele, infelizmente, nunca chegou a abrir” (p.129), uma homenagem a Mário de Andrade -, mas não pude me dedicar exclusivamente a livro por conta de obrigações outras.

Farei isso em breve. Mas enquanto não me livro - olha só, um trocadilho! - de algumas leituras (veja bem… não estou reclamando delas, mas queria mesmo poder estar somente com o “Samarcanda”) sigo lendo alguns poemas, folheando o livro, me maravilhando com a poesia de Ruy.

Pra quem ficar curioso sobre o autor e o livro, aí vão dois links: um com minha resenha de “De paixões e de vampiros”, romance de Ruy publicado em 2008, e outro para uma matéria que o pessoal do Saraiva Conteúdo fez sobre o autor, com direito a um vídeo com trechos da entrevista que fizeram com ele.

Lançamento: Sobrescritos, de Sérgio Rodrigues

Friday, March 5th, 2010

O sempre infalível Sérgio Rodrigues - de quem infelizmente não sou parente - está lançando livro novo. Trata-se de “Sobrescritos - 40 histórias de escritores, excretores e outros insensatos”, pela Arquipélago Editorial, a mesma editora de “O Pai dos burros”, de Humberto Werneck.

Segue abaixo o release que recebi por email.

Caros amigos,

A Arquipélago Editorial acaba de lançar SOBRESCRITOS - 40 histórias de escritores, excretores e outros insensatos, novo livro do escritor e jornalista Sérgio Rodrigues, autor de As sementes de Flowerville (Objetiva) e de Elza, a garota (Nova Fronteira), entre outros. Sobrescritos é uma coletânea dos melhores contos publicados por Sérgio em seu Todoprosa, um dos sites sobre literatura mais lidos e comentados do país.

No link abaixo, assista ao teaser do livro, uma animação produzida por Leon Vilhena, com narração do próprio Sérgio Rodrigues. O texto é o conto “Virtual”, que encerra o volume:

http://www.youtube.com/watch?v=TvpaJvH0yWo

O lançamento de Sobrescritos, no Rio de Janeiro, será na próxima quarta-feira, dia 10 de março, às 19h, na Livraria Travessa de Ipanema (Rua Visconde de Pirajá, 572 (veja o convite abaixo).

Nas livrarias: O altar das montanhas de Minas

Monday, March 1st, 2010

Chegou às livrarias - ou está chegando, a depender da rapidez ou demora dos distribuidores - o romance “O altar das montanhas de Minas“, de Jaime Prado Gouvêa. Publicado originalmente em 1991, pela editora Siciliano, o livro volta em nova edição pela editora Record.

Pouco posso falar sobre o livro no momento, porque já escrevi sua resenha - que em breve será publicada em algum lugar - e nela falei bastante sobre ele. Mas aqui posso acrescentar o seguinte: quem é mineiro, vai se identificar mais ainda com o romance; quem já foi a Ouro Preto alguma vez, vai se sentir “em casa” lendo o livro; e quem não é mineiro e nem foi a Ouro Preto, vai querer ir a Minas assim que terminar de ler.

O romance tem sua carga trágica, mas há também momentos engraçadíssimos. Os diálogos, trechos que causam uma das maiores dificuldades para escritores, são quase perfeitos. Prova de que Jaime teve o maior cuidado com sua obra.

Enfim. Recomendo desde já a leitura de “O altar das montanhas de Minas”. É um livraço. Do mesmo autor eu resenhei “Fichas de vitrola & outros contos”, e fiz uma entrevista com o Jaime, está lá no Digestivo (quem acompanha o blog tá cansado de saber disso, mas não custa relembrar).