Archive for the ‘Livros’ Category

Pergunte ao Bandini

Monday, March 1st, 2010

* Texto publicado em junho de 2006, na minha extinta coluna Literando, no site Argumento.

E, por favor, sem trocadilhos infames com a marca de macarrão [Brandini], como anda fazendo um amigo meu.

Bandini, Arturo Bandini, é o alter-ego do escritor norte-americano John Fante (1909-1983), personagem de quatro romances do autor: “O caminho de Los Angeles“, “Espere a primavera, Bandini”, “Pergunte ao pó” (recém-adaptado para o cinema) e “Sonhos de Bunker Hill”. Os três primeiros foram publicados no Brasil pela José Olympio Editora. O último saiu pela L&PM, em edição pocket.

Cheguei à literatura de John Fante por causa de Charles Bukowski (1920-1994), que decidiu ser escritor depois de ler “Pergunte ao pó”.

Mas então. Às pressas escrevo este texto, em uma maldita madrugada insone, tendo à minha frente o romance “O caminho de Los Angeles” (que ganhei de minha namorada neste último dia 12 de junho), tendo como motivação a estréia do filme “Pergunte ao pó”. Um estalo tardio em minha mente (em todos os sentidos). Minhas boas ideias surgem com um “delay” que ainda não sei explicar.

Pois comecei a ler “O caminho de Los Angeles” (colocando-o à frente de um sem número de leituras atrasadas), e fiquei surpreso. Não achei que o livro fosse tão bom e tão agradável. E olha que ainda estou no começo.

Resolvi, então, fazer essa recomendação e deixar aqui um trechinho do livro.

Opa! Faltou eu dizer que Arturo Bandini é um descendente de italianos que mora nos Estados Unidos com a família e sonha em ser um escritor de sucesso. No romance “O caminho de Los Angeles” acompanhamos um Bandini extremamente ácido e sarcástico em suas andanças e vivências ainda no Colorado, antes de se mudar para a cidade dos anjos.

Peguei meu livro de Nietzsche debaixo do balcão e parti para a porta. Nietzsche! O que sabia ele sobre Friedrich Nietzsche? Embolou a nota de dez dólares e a jogou sobre mim.

- Seu salário de três dias, seu ladrão!

Encolhi os ombros. Nietzsche num lugar destes!

- Estou indo embora – falei. Não fique excitado.

- Saia daqui!

Estava a uns bons quinze metros de distância.

- Escute – falei. Estou vibrando por sair daqui. Estou cansado de sua baboseira, de sua hipocrisia elefantina. Queria abandonar este emprego absurdo já há uma semana. Portanto, vá direto para o inferno, seu carcamano de merda!

Parei de correr quando cheguei à biblioteca.

Na Brasileiros de fevereiro

Wednesday, February 24th, 2010

Está lá, no site da Brasileiros, a resenha que fiz do livro “Três Tristes Tigres”, de Guillermo Cabrera Infante, publicada na edição deste mês, de número 31. Não sei ainda se A revista já chegou às bancas de todo o país, mas creio que em São Paulo e no Rio de Janeiro ela já possa ser encontrada. Ao menos aqui na cidade já chegou. Se não chegou ainda na sua, em breve deve chegar. E se não chegar e quiser dizer aqui que não chegou, é só avisar. Quem puder dar esse feedback, agradeço. E Quem puder comprar a revista, agradeço mais ainda. Não que eu ganhe nada com a venda dela, mas é bom saber que ainda tem gente que faz questão de comprar a revista impressa.

Atualizado às 19:42.

O grande jogo de Billy Phelan (trecho)

Monday, February 22nd, 2010

Martin Daugherty, cinquenta anos e encarregado da marcação dos pontos, observou com atenção quando Billy Phelan, que vinha fazendo um jogo perfeito, adiantou-se com a arrogância de uma águia jovem e inexperiente até a máquina de devolução, recolheu a sua bola preta com furos só para dois dedos, jogou-a de uma mão para outra feito um malabarista e depois a equilibrou na palma da mão esquerda como se ela não tivesse peso. Billy esfregou a palma e os dedos da mão direita no cone oco de giz preso em cima do prato de latão no alto da prateleira de bolas, tirou o excesso dando um puxão na toalha. Postou-se de frente para os pinos e fez mira no ponto de sempre, na altura onde a madeira da pista mudava de cor, a sete tábuas da borda direita. E então, o que aos olhos de Martin era a mais pura expressão da energia sobre sapatos, ele avançou: pé esquerdo, pé direito, esquerdo-direito-esquerdo, e por ­fim a derrapagem, enquanto a mão direita se adiantava e depois voltava tudo para trás, fazendo o pêndulo, o pulso quebrando só um pouco no ponto mais recuado do arco. Seu braço, que para Martin era a mais pura expressão do controle em mangas de camisa, completou o balanço para a frente e soltou a bola, que saiu deslizando quase sem fazer barulho pela pista reluzente, passando exatamente em cima do ponto escuro da sétima tábua e descrevendo uma curva mínima no trajeto, curva que se acentuou ao se aproximar do alvo, e então a bola atingiu os pinos com toda a força justamente entre o primeiro pino e o de número três, derrubando todos os dez num festival de cambalhotas e rodopios.

“Boa, Billy”, disse o seu ­financiador, Morrie Berman, batendo palmas duas vezes. “Espalhou bem, espalhou bem.”

“A bola está trabalhando direitinho”, disse Billy.

Billy ­ficou parado, magro e com as pernas compridas, esperando que Bugs, o menino vesgo encarregado de arrumar os pinos, mandasse a sua bola de volta. Quando ela emergiu ruidosa do canal curvo de madeira, Billy a levantou, virou-se de frente para os pinos recém-arrumados na pista nove, avançou, arremessou a bola e fez mais um strike: agora eram oito seguidos.

Martin Daugherty anotou o strike na folha de pontos, que ainda não exibia nenhum número, só as oito marcas de strike: dava má sorte começar a fazer as contas enquanto o jogador ainda enfi­leirava strikes. Martin já cogitava que aquele jogo pudesse ser o assunto da sua próxima coluna, se Billy conseguisse ir até o fi­m. Sua ideia era dizer como certos homens chafurdam no lodo cotidiano de suas vidas até que, num lance, desprendem-se desta lama e se transformam. Aquilo em que se transformam, porém, não é resultado de um ato repentino, mas o ápice de tudo que ­fizeram ao longo da vida: o triunfo do amadurecimento, o fi­m de algo sem forma, o início de uma coisa de­finida.

Assim começa “O grande jogo de Billy Phelan“, romance do escritor norte-americano William Kennedy, sobre o qual falei aqui anteontem.

Fante e a juventude (ou A Síndrome de Bandini)

Sunday, February 21st, 2010

Hoje, ao acordar, tive uma quase visão do paraíso. Do meu lado, em cima de uma das pilhas de livros que ficam no tapete ao pé da cama, um pacote da editora Record. Dentro, dois livros: “A balada do café triste“, de Carson McCullers, e “O vinho da juventude“, de John Fante.

Sobre “A balada…” nada direi, por enquanto - até porque nada sei dele, ainda -, a não ser que é traduzido por Caio Fernando Abreu, autor da nota introdutória que acompanha o livro. E que, tal qual “O vinho da juventude”, trata-se de uma reedição.

Gostaria mesmo é de falar um pouco sobre “O vinho da juventude”. Nem sei se realmente posso divulgar isso aqui, mas acho que não fará mal a ninguém: sei da edição deste livro há pelo menos mais de dois anos, e desde então espero ansiosamente por sua publicação. Por que demorou tanto a sair, já que estava tudo pronto (tradução, revisão etc.), eu não sei. Mas, quando finalmente vi o título na pré-venda do site da Livraria Cultura, fiquei radiante. E hoje, quando vi que acordei do lado dele, vocês podem imaginar minha felicidade.

Porque Fante é um autor que, apesar de eu ter lido pouco - apenas “Sonhos de Bunker Hill” e “Pergunte ao pó”, por enquanto - me marcou muito. Fui às lágrimas nos dois livros que li. E, no caso de “Espere a primavera, Bandini”, fiquei tão bobo com o começo do livro que preferi colocá-lo de lado anos atrás, deixando para lê-lo quando estivesse mais maduro. Porque, na época, eu começava a apresentar sinais do que costumo chamar de “Síndrome de Bandini”.

Quem já leu os livros protagonizados por este impagável personagem sabe muito bem do que estou falando. O ar arrogante de Bandini, sua extrema autoconfiança - mas também a sensação de fracasso que às vezes pela qual às vezes é tomado - e sua infantilidade eram características que eu via também em mim. Mas, é óbvio, eu via aquilo de uma maneira boa, não como algo prejudicial. Eu era Arturo Bandini, em carne, ossos e coração.

Foi justamente por isso, por estar me embriagando de alguém que não sou - coisa semelhante aconteceu em relação a “O encontro marcado”, de Fernando Sabino -, que resolvi não prosseguir lendo Fante - ao menos não enquanto não me curasse da “Síndrome”.

O tempo passou e fiquei curado da Síndrome de Bandini. Talvez até demais, visto que uma certa arrogância que eu possuía foi quase totalmente reduzida a pó. O mesmo pó a que Fante nos aconselha questionar. Autoconfiança e infantilidades persistem, mas controladas, reservadas apenas aos momentos - e pessoas - apropriados. Estamos sempre em busca do equilíbrio, não? Mas acho que determinados arroubos ególatras são sempre bem-vindos, principalmente quando não são levados a sério demais. É uma pena que muitas pessoas não entendam isso, porque era algo que eu adorava fazer. (Hum… Não, eu não deixei de fazer.)

Posso então, finalmente, voltar a ler Bandini. Revisitar as obras já lidas e ler as que ainda faltam. Mais que ler Bandini, ler o Fante deste novo “O vinho da juventude”, e também “1933 foi um ano ruim”. Nunca é tarde para correr atrás do tempo perdido. A não ser que você esteja impossibilitado de fazer isso por motivos graves demais.

Nos próximos dias republicarei aqui no blog a resenha que escrevi de “Sonhos de Bunker Hill”. A de “Pergunte ao pó” está aqui.

Fica a dica, também, deste texto de Eric Nepomuceno, publicado no Estadão de hoje, mais sobre Fante que sobre “O vinho da juventude”. Vale muito a pena ler.

O grande livro de William Kennedy

Saturday, February 20th, 2010

Ou um dos grandes livros de William Kennedy, já que foi com “Ironweed”, e não com “O grande jogo de Billy Phelan“, que ele ganhou o Pulitzer de 1984.

Falar, agora, de “Billy Phelan” - que é como estou chamando o romance, afinal, sou já quase íntimo dele - é um tanto perigoso, porque estou chegando agora na metade e tenho pretensão de resenhá-lo em breve. Portanto, vou falar o mínimo possível. Este post é só uma indicação superficial de leitura, para o caso de alguém aí passar por uma livraria e poder folheá-lo.

Aliás, não vou falar nada. Apenas indicar, para quem se interessar, que leia o que saiu sobre o autor e o livro nos jornais e sites brasileiros nas últimas semanas (eu não li, para não me influenciar, mas saíram resenhas na Bravo!, no Estadão, no O Globo, acho que na Folha também, além de várias entrevistas com o autor), e também um texto do Daniel Piza que figura na quarta capa do romance (que não tem orelhas). O livro é de capa dura e nela há uns altos relevos em formato triangular que deixam a edição ainda mais especial e bonita.

Quem tiver Twitter e blog pode, também, começar uma campanha para a Flip trazer o Kennedy para o Brasil, em agosto. Capaz de já o terem convidado e tudo, mas nunca se sabe. Dentro de alguns meses sai “Ironweed” por aqui, e, depois, “Velhos esqueletos”.

Ah, e quase ia me esquecendo: segunda-feira postarei aqui no blog as duas primeiras páginas do livro. Até lá.

Cock&Bull (isto não é uma resenha)

Saturday, February 20th, 2010

Peguei agora há pouco meu exemplar de “Cock&Bull”, de Will Self, pra folhear, e me dei conta de duas coisas: uma é que tenho um marcador de página da CosacNaify feito exclusivamente para a Flip de 2007. A outra é que há, ao fim do livro, uma entrevista com o autor, feita pelo tradutor do livro, Hamilton dos Santos.

Depois que acabou a mesa do Self com o Jim Dodge, ia rolar uma sessão de autógrafos com os dois. Eu tinha esquecido meu “Fup”, do Dodge, aqui em casa, e resolvi comprar outro lá, para pegar um autógrafo dele. Como livro nunca é demais, resolvi comprar também “Cock&Bull”, para pegar também um autógrafo do Self.

“Fup” eu havia lido antes de ir para a Flip, mas “Cock&Bull” eu até hoje não li. Talvez tenha chegado a hora…

Da graça de ler

Monday, February 15th, 2010

* O post abaixo foi publicado originalmente no que seria meu outro blog, o O Leitor, mas que por motivos de falta de tempo foi temporariamente abortado. A republicação aqui - com algumas pequenas alterações - se dá pelo fato de a Veja desta semana trazer uma entrevista com o escritor Nick Hornby, citado no post, e que estou lendo novamente neste momento - ainda o seu “Frenesi Polissilábico”.

Tenho o hábito de ler vários livros ao mesmo tempo. Não recomendo isso a ninguém, porque chega a ser um tanto esquizofrênico, e se o leitor não ficar bem atento, pode confundir uma obra com outra. Quantas e quantas vezes não me peguei lembrando de uma cena de um outro livro, e não do que estava em minhas mãos no momento?

Por outro lado, é uma espécie de termômetro. Começar vários livros diferentes ao mesmo tempo te dá a oportunidade de saber como você realmente está. (Por favor, não levem isto a sério, é apenas uma pseudoteoria minha.) Exemplo: você começa a ler um romance existencialista, um livro de contos bem-humorado e um outro de crônicas sobre livros. Se você terminar mais rápido o romance, é sinal de que você não está muito bem psicologicamente, digamos, mesmo que não se dê conta disso. Se o livro de contos bem-humorados acabar primeiro, é sinal de que você está bem; podes não estar bem, bem, mas está bem. E se o escolhido for o terceiro, com as crônicas literárias, é sinal de que você está procurando justamente uma orientação sobre o que ler, e que você está num momento bem zen, na minha opinião. Afinal, não está mal, nem bem. Apenas está. E isso é até legal, sabia?

Mas enfim.

No momento, estou lendo três livros ao mesmo tempo, se formos rigorosos. Se formos bonzinhos, estou lendo uns 6 ou 7, já não lembro. Um deles é “Frenesi Polissilábico“, de Nick Hornby. Comecei a ler pelo meio dele e só depois de dois artigos é que fui ler a introdução. Nela, encontrei o seguinte trecho:

“E por favor, pelo amor de Deus, parem de fazer pouco caso daqueles que estão lendo e curtindo um livro - ‘O Código Da Vinci’, por exemplo. Para início de conversa, ninguém sabe que tipo de esforço isso representa para o leitor. Pode ser o primeiro romance adulto que a pessoa esteja lendo na íntegra; pode ser o livro que finalmente revele o propósito e a alegria de ler para alguém que até então estava confuso pela atração que os livros exercem sobre os outros. E, de qualquer forma, ler por diversão é o que todos nós gostaríamos de fazer. Não quero dizer que todos deveríamos estar lendo romances água-com-açúcar ou suspenses baratos (embora, caso seja essa a sua praia, por mim tudo bem, pois vou lhe contar um segredo: nada de mau lhe acontecerá se você não ler os clássicos ou os romances que ganharam o Booker Prize deste ano; e, mais importante, nada de bom lhe acontecerá caso você os leia); estou simplesmente dizendo que virar páginas não deve ser como caminhar num pântano com lama até a cintura. Livros são para ser lidos, e se você achar que não dá pé, provavelmente a culpa não é de sua incapacidade: às vezes, os ‘bons’ livros podem ser bem ruinzinhos.”

Confesso que já fiz pouco caso de best-sellers, continuo fazendo e vou fazer sempre, acredito. Mas porque gosto de ser chato. Na verdade, sei que os best-sellers são o sustento do mercado literário. E os admiro. Sério, de verdade. Assim como os livros de autoajuda. Não fossem eles, não sei o que seria das editoras.

***

Ontem assisti à entrevista que a escritora Thalita Rebouças concedeu a Edney Silvestre. Autora de livros para adolescentes, Thalita é uma das poucas escritoras brasileiras que podem viver exclusivamente de literatura. Isso, no Brasil, é algo raro. E alguém que consiga isso merece todos os aplausos. Mais que isso: é digno de observação e atenção. Afinal, esse alguém pode ter muito a ensinar. E Thalita tem, sim, bastante para ensinar. Se por um lado escritores como J.D. Salinger, Rubem Fonseca e Dalton Trevisan são reclusos e mesmo assim mantêm uma carreira de sucesso, Thalita prova que às vezes o escritor precisa é colocar a boca no mundo e “aparecer”, mesmo. Ou ele faz isso ou será mais um entre os milhares escritores desconhecidos que existem por aí.

***

O que me levou a relacionar Hornby e Thalita foi o fato de ambos terem opiniões parecidas e eu tê-las conhecido no espaço de 24 horas. Thalita afirma que séries como “Harry Potter” fizeram os jovens ler mais. Livros como “O Código Da Vinci” fazem adultos lerem mais - o que Dan Brown vendeu e continua vendendo não é brincadeira…, vide seu novo livro, “O símbolo perdido”, que só no dia de lançamento nos Estados Unidos vendeu 1 milhão de exemplares (veja a notícia completa clicando aqui e depois em “Saiu na imprensa”).

Sou da opinião de que nem todos os que começam a ler best-sellers passam a ler melhor. Mas acredito que elas leem mais. E isso já é um bom começo, não?

O imitador de vozes, de Thomas Bernhard

Monday, February 15th, 2010

Curtos, absolutamente bem escritos e em sua maioria trágicos. Assim são os contos de “O imitador de vozes“, do escritor holandês de nascença mas austríaco de criação (e, consequentemente, de escrita) Thomas Bernhard.

O leitor interessado em literatura estrangeira quase certamente já ouviu falar em outros livros de Bernhard, como “O náufrago”, “Origem” ou “Extinção”, todos editados pela Companhia das Letras. Além desses, há livros do autor editados pela Rocco, como “Perturbação” e “Árvores abatidas”, mas estes são mais difíceis de encontrar em livrarias. Com alguma sorte, é possível encontrá-los em sebos.

À primeira vista, o que mais chama a atenção em “O imitador de vozes” é a forma como ele é escrito. Pode-se dizer que a linguagem é formal, talvez até um tanto rebuscada - sem qualquer pedantismo, é bom que se diga. Algumas passagens são tão exemplarmente bem escritas que o admirador da língua pode se ver lendo duas, três, quatro vezes o mesmo trecho, de tão belo. É importante mencionar, portanto, o excelente trabalho do tradutor da edição brasileira, Sergio Tellaroli.

Aparentemente, o narrador de todos os contos é a mesma pessoa, um jornalista. Austríaco, assim como Bernhard. Como dito no primeiro parágrafo do post, a maioria dos contos é trágica, mas há em muitos deles algo de cômico ou mesmo de fantástico - ou uma mistura dos gêneros, como no conto “Pisa e Veneza”, no qual os prefeitos de ambas cidades decidem trocar, na calada da noite, a torre de Pisa pelo campanário de Veneza, mas o plano é descoberto e ambos são internados em manicômios: “naturalmente, o prefeito de Pisa no manicômio de Pisa e o prefeito de Veneza no manicômio de Veneza”. Esse conto, aliás, pode ser uma alusão aos políticos megalomaníacos que prometem - e às vezes até tentam fazer - obras impossíveis ou completamente desnecessárias.

Por mais absurdas que algumas das histórias pareçam ser, elas sempre têm alguma conexão com a realidade. O conto que dá título ao livro, por exemplo, e que pode ser lido na capa mesmo, é sobre um imitador de vozes que consegue imitar diversas pessoas. Mas ao pedirem para que ele imite sua própria voz, ele diz “que aquilo não sabia fazer”. É uma metáfora perfeita para a perda de identidade, algo que vem acontecendo com mais frequência nesses tempos do “celebritismo supersônico”, digamos assim. Depois de alcançada a fama e a fortuna, o sujeito pode se perder no meio de tanto deslumbre. Vejam o caso de Adriano, hoje atacante do Flamengo, que além dos problemas pessoais que teve enquanto estava na Itália - morte do pai e outras coisas -, aparentemente não tinha mais o que conquistar, afinal, era o “imperador da Itália”. Ficou tão desnorteado que parou por um tempo com o futebol, voltou para o Brasil, visitou amigos no morro onde foi criado e, depois de “reencontrar a alegria de viver”, foi jogar no Flamengo, seu time do coração.

Como os contos são curtos, o leitor fica tentado a ler o livro de uma vez só, mas não recomendo fazer isso. Minha sugestão, caso alguém se interesse pela obra e resolva adquiri-la, é ler um determinado número de páginas por dia, intercalando este livro com outro. É que o leitor pode “cansar” do formato das histórias. Que são excelentes e agradáveis de serem lidas, mas algumas delas requerem uma maior atenção e, como dito anteiormente, algumas releituras. Daí a necessidade de uma parada para reflexão, deixar o livro um pouco de lado, e voltar à leitura no dia seguinte ou dois dias depois. Mas, claro, é só uma sugestão.

Depois de lido “O imitador de vozes” e de ter lido um pouco sobre o autor, ficou a vontade de ler mais livros dele. Infelizmente, suas obras são um tanto caras, e no momento não poderei comprar nenhuma. Mas com certeza lerei mais livros de Thomas Bernhard. Esta primeira experiência foi muitíssimo proveitosa.

***

Post relacionado:Serviço público“.

Cine Privê, de Antonio Carlos Viana

Tuesday, February 9th, 2010

* Quem acompanha o blog já sabe: na revista Conhecimento Prático Literatura nº 28 foi publicada uma entrevista que fiz com o escritor Antonio Carlos Viana, por ocasião da publicação recente do seu livro “Cine Privê”. Como a entrevista já pode ser lida no site da revista, e como houve alguns cortes na introdução que fiz para ela, resolvi publicá-la - a introdução - aqui no blog. A diferença é pouca, mas ainda assim aí vai.

Pode-se dizer que o contista sergipano Antonio Carlos Viana escreve sobre o inevitável e o inusitado da vida. Mas também sobre o risível, o ridículo, o irremediável. Sua prosa é rápida, simples, calculada, o autor não se perde em devaneios ou tergiversações. Seus contos são breves, porém fortes, impactantes.

“Cine privê”, seu terceiro – e mais recente – livro de contos, é uma obra de rara qualidade e simplicidade. Não obstante a diversidade e as virtudes da literatura brasileira contemporânea, poucos são os escritores que conseguem realizar obras tão coesas e harmoniosas. E tão sóbrias. Há, nos contos de “Cine privê”, temas e situações que os autores mais jovens adoram abordar em seus livros, como sexo e violência gratuita. Mas Viana os aborda por outros prismas: sexo se transformar em sensualidade; e violência em crueldade. O que falta à maioria dos nossos escritores – talvez pela idade ou pela inexperiência, ou mesmo pelo pouco talento – sobra em Antônio Carlos Viana: classe.

A grande maioria dos personagens dos contos de “Cine privê” vive em situações precárias. São pessoas que estão prestes a perder seu lar (“Santana Quemo-Quemo”), que são reféns de um subemprego (“Cine privê”), ou que precisam andar quilômetros para enterrar um morto (“Nós, a maré e o morto”), por exemplo. Mas há também histórias de personagens que descobrem seu primeiro amor (“Eliazar, Eliazar”) ou sua sexualidade “Esperanza”; e há, ainda, histórias engraçadas, mas não felizes (“Tina e as forças cósmicas”), e contos sutis e delicados (“Quando meu pai voltou”).

Apontado por muitos como um dos mestres do conto contemporâneo – suas obras anteriores (“Aberto está o inferno” e “O meio do mundo e outros contos”) são elogiadíssimas –, Antonio Carlos Viana, apesar de utilizar em suas histórias personagens pobres e sofridos, diz não ser um escritor engajado. E mesmo que em alguns contos trágicos ou tristes haja uma ponta de esperança, o autor não se diz otimista, mas sim um “pessimista em último grau”. Na entrevista a seguir, realizada por e-mail, Antonio Carlos Viana fala sobre sua carreira, sobre “Cine privê” e sobre a literatura brasileira contemporânea.

Pequenos fantasmas, de Humberto Werneck

Thursday, February 4th, 2010

Em abril de 2005 o jornalista Humberto Werneck imprimiu, em uma tiragem curtinha, de 500 exemplares, seu único livro de ficção até o momento: “Pequenos fantasmas”, de contos. O livro também é curto, tem 117 páginas. Nele, estão 10 histórias curtas que Humberto escreveu ali entre seus 20 e 20 e poucos anos. Apenas um dos contos, o último, intitulado “A invasão”, foi escrito depois dos 30, numa “brevíssima recaída”, como diz o autor.

Quase três anos depois, em fevereiro de 2008, recebi o “Pequenos fantasmas” nº 489, devidamente assinado e com dedicatória do autor. Pensei que iria cair no livro de imediato, mas não foi o que aconteceu. Na época eu estava - como sempre estou - com uma montanha de leituras pendentes, sendo uma delas do livro “Fichas de vitrola & outros contos”, de Jaime Prado Gouvêa, amigo de infância de Humberto. Pensei comigo: “não posso ler o livro do Humberto antes do livro do Jaime, seria uma grande sacanagem com o Jaime”. Então fiz um acerto comigo mesmo: só leria “Pequenos fantasmas” depois de ler “Fichas de vitrola”.

Há alguns meses não apenas li, mas resenhei o livro do Jaime e fiz uma pequena entrevista com ele - o material foi publicado no Digestivo. Era a ocasião então de encarar o livro do Humberto. Mas não foi o que aconteceu. Por uma série de fatores, não pude fazer isso. Na verdade, devo confessar, havia de minha parte um certo receio. Algo que de certa forma me fez demorar de ler o “Fichas de vitrola”. O receio de os livros não serem bons. Porque a minha expectativa era enorme, tanto para um caso quanto para o outro. Eu queria que os livros fossem bons. Quando leio livros de amigos ou pessoas que admiro e respeito, tenho essa coisas de desejar que a obra tenha muita qualidade. E aí, se ela não tem, fica aquela ponta de decepção. Além disso, há o risco de a pessoa perguntar: “o que você achou do meu livro?”. Se você não gostar e dizer que não gostou, há uma grande chance de a pessoa simplesmente deixar de falar com você, ficar ressentida, essas coisas. Falo porque sei: já aconteceu comigo.

Resultado: só vim ler o “Pequenos fantasmas” agora, há menos de uma semana. E eis que me deparo com um belo livro.

Os dois primeiros contos, “Menino no quintal” e “Vagalume”, lembram um pouco o Fernando Sabino do início de “O encontro marcado”. Eis os inícios de ambos, respectivamente: “Grudado no muro, braços envolvendo os joelhos, o olhar fincado no minuto que pingava da torneira - o menino quieto, se pensando. Horas e horas longe de tudo. O quintal o que era?”; “Os vagalumes moravam perto da noite, na beira do rio. Pelas seis horas brotavam da neblina e picotavam a sombra num vôo luminoso. O menino havia de esperar, encolhido na moita, para ter o vagalume maior de todos”.

A infância, aliás, é também tema presente no terceiro conto, “Oito anos”, no qual um garoto é acordado por sua tia no meio da madrugada. O garotinho levanta sonolento, fica sem saber o porquê de acordar àquela hora, mas aos poucos vai sendo revelado, para o leitor, o motivo. Ele, Dudu, fica sabendo depois, já perto do fim da história. O conto termina com a reação inusitada, porém sincera, do garoto.

A partir daí os protagonistas envelhecem. Em “Acontecimento de família”, um pai sofre com a vergonha de saber - não só ele, mas toda a vizinhança - que sua filha não é mais virgem; o protagonista de “O condenado” é um homem atormentado por uma culpa que o deixa refém de si mesmo e de seus medos; “Febre aos 39 graus” narra um instante na vida de um homem que, depois de anos de fidelidade à esposa, se rende à pressão dos amigos e sai para uma farra - e então se rende aos encantos de uma moça…; em “Quarta-feira” vemos um condenado - este de verdade, porque está na cadeia - não querer enxergar o óbvio: está perdendo sua esposa para outro (ou para a sua ausência); “Do terceiro andar” tem como protagonista o bedel de um colégio interno para meninas, Boaventura Mendes, que tem como prazer assistir às aulas de ginástica das garotas; a morte de um homem e seus desdobramentos - velório, enterro e tudo o que eles acarretam - é o mote de “O doloroso dever”, penúltimo conto do livro; que termina com o fantástico em todos os sentidos “A invasão”, cujo enredo é o seguinte: depois de passar anos morando em hotéis, um homem decide, depois de aposentar-se, ir morar em uma casa. Ao começar a mobiliá-la, coisas estranhas acontecem, como ele receber móveis exatamente iguais aos que desejava e que iria pedir, mas sem tê-los encomendado.

Escritos de maneira peculiar, um tanto quanto rebuscada, mas não muito, e sem pedantismo, os contos de “Pequenos fantasmas” têm uma doçura, uma leveza e um amargor indeléveis e inconfundíveis. Quem conhece os livros, as matérias e as crônicas de Humberto Werneck percebe que ali pelos seus 20 e poucos anos ele já possuía o que muitos autores levam uma vida inteira procurando e não encontram: estilo.

Na nota introdutória ao livro, Humberto explica que seu título seria “Primeiros movimentos”, caso não tivesse o autor retirado seu original da fila de publicação da Imprensa Publicações, órgão do governo de Minas Gerais também responsável pela edição do Suplemento Literário de Minas Gerais, onde Humberto trabalhou durante algum tempo (importante dizer que um dos maiores incentivadores de Humberto foi ninguém mais ninguém menos que o escritor Murilo Rubião). Mas um livro pronto e não publicado incomoda - talvez seja esse o maior tormento de um escritor, maior ainda que o de querer escrever uma obra e não conseguir. Na introdução, Humberto diz: “A passagem dos anos não atenuou a desconfortável sensação de que, tendo escrito, faltara completar o gesto, publicando aqueles contos de juventude, até como forma de livrar-se deles - para evitar que, na gaveta, ou mesmo rasgados, virassem fantasmas, pequenos fantasmas.”.

É bem provável que, hoje, as 500 cópias de “Pequenos fantasmas” estejam devidamente bem guardadas pelos seus 500 (ou 499, caso o autor tenha ficado com uma delas) leitores. É envaidecedor poder dizer que sou um dos felizardos, e certamente assim pensam todos os que foram agraciados com esta honraria, a de ter um exemplar desta pequena joia literária. Mas é um tanto frustrante saber que esses contos não serão lidos por um público maior, que este pequeno grande livro - acho que já usei esta expressão em alguma outra resenha, mas enfim - não poderá ser encontrado em livrarias. Fica aqui publicamente expresso meu desejo de que Humberto Werneck solte mais de seus fantasmas por aí - se ele assim o desejar, claro. E, caso isso aconteça, não se assustem: o único assombrado por esses fantasmas era o autor.