Archive for the ‘Os dias de R.’ Category

Sobre escrever um romance

Sunday, March 29th, 2009

Engana-se quem pensa que escrever um romance é coisa fácil de se fazer. Não basta ter uma boa ideia, sentar na cadeira e escrever. É preciso muito trabalho, bastante disciplina e uma dose cavalar de paciência.

Porque às vezes acontece de você ter a grande ideia, sentar na cadeira diante do computador ou com uma caneta e um caderno em mãos, e começar a escrevê-la. Mas à medida que você vai desenvolvendo a história, você começa a perceber que há alguns furos. Depois nota que determinado personagem não tem, vamos ser sinceros, serventia alguma, e precisa eliminá-lo. Mas ele interagiu com outros personagens, falando algumas bobagens, e aí você precisa reescrever tudo.

Mas o pior não é isso. O pior é quando você precisa mudar a voz da narrativa. Um exemplo: você começou a escrever sua história em primeira pessoa (”Eu acordei de manhã, calcei as sandálias e blablabla”). Mas em determinado ponto você quer dizer alguma coisa, mas essa coisa não pode ser dita pelo narrador, porque ele não sabe que tal coisa aconteceu. Então você precisa meter um narrador onisciente no meio, porque seu protagonista não sabe de tudo, ele está narrando os fatos à medida que eles vão acontecendo. E aí, das duas uma: ou você muda tudo desde o início, ou começa a intercalar as falas do seu protagonista com capítulos narrados pelo tal onisciente. Tá, não é o pior de tudo, mas dá um trabalho dos diabos.

O pior, na verdade, é quando acontece o seguinte: certo dia você senta para continuar a história e simplesmente nada vem à sua mente. Você fica parado olhando para o documento em branco do Word ou para a folha de caderno vazia durante meia hora e nada acontece. Mas aí você começa a pensar em outras coisas e, de repente, um lampejo. Você começa a digitar ou escrever freneticamente. Em poucos minutos você tem três páginas do Word com o começo de uma outra história. Algo totalmente diferente do que você vinha trabalhando.

No dia seguinte, você volta a tentar escrever, continuar qualquer uma das duas histórias, mas está travado (ou travada), e não consegue progresso algum.

Meses se passam, você sempre pensando naqueles materiais que tem guardado. Num belo dia, andando pela sua cidade, você vê uma coisa acontecendo ou alguém que conheceu há algum tempo e então acontece. Você consegue ligar as duas histórias. Desde o começo elas tinham uma ligação, mas você não havia percebido. Será um tanto trabalhoso uni-las, porque certas arestas precisarão ser aparadas e você precisará abrir mão de certos fatos da vida do seu protagonista.

Mas isso não importa. Você tem um romance em mãos. E você vai escrevê-lo.

Boa sorte.

São questões demais, R.

Tuesday, June 10th, 2008

Consta que R. escrevia um diário. Um quase diário, na verdade. O que acontecia era que R., quando em situações extremas – de amor, ódio, conflitos existenciais ou antes de tomar decisões importantes –, escrevia. Era assim que R. externava seus sentimentos, mesmo que apenas para uma folha de papel. Começou escrevendo letras de músicas. Depois, sob efeito de poetas franceses, R. passou a escrever poemas. Mais adiante, influenciado por escritores ingleses, R. começou a escrever contos. Durante essa fase, R. também leu muitos escritores brasileiros. Foi quando percebeu que poderia, ao mesmo tempo, escrever contos e arquitetar um romance. O romance nada mais seria que os contos organizados, já que os contos de R. tinham um único protagonista: um jovem sem nome, que na maioria das vezes era o próprio R.

O texto abaixo, por exemplo, é um desabafo do protagonista do romance de R. Ou seja: é um desabafo do próprio R.

Quanto mais penso, mais fico confuso. De que adianta pensar, se soluções não aparecem? Pra quê perguntar, se não vou obter respostas? E as perguntas são tantas… É como falar sozinho, gritar diante de um abismo. Não há respostas, só o eco das palavras. Um ecoar que parece não ter fim.

Mas por que isso? Por que as respostas não aparecem? Por quê? Será que não existem? Mas se existem perguntas, obrigatoriamente deve haver respostas. Ou não? Supondo que não, para que servem as perguntas? Se não há uma coisa, não deveria haver outra, certo? Errado, eu sei. É só desespero.

Existem doenças que não têm cura. Ou será que têm e somente ainda não descobriram? Mas pessoas morrem de doenças sem cura e cientistas morrem procurando a cura para essas doenças. Será que pessoas morrem por não encontrar respostas para as suas perguntas? Será que vou morrer perguntando? E será que, depois de morrer, encontrarei alguma resposta? E se eu não encontrar, o que acontece? Continuarei perguntando, durante a eternidade? Isto é, se a eternidade existir. Se não, só morro, e nada mais. Nada mais?

Se eu morrer e não houver um pós-morte, minhas dúvidas cessam, óbvio. Mas será que elas não ficam de herança? Será que, depois que alguém morre, uma outra pessoa pode assumir seus questionamentos? Isso já não acontece? Sim, acontece. Mas não estou falando de questionamentos morais, filosóficos e sociais. Me refiro a questionamentos do tipo: “não seria melhor fazer as pazes com meu pai?”.

Sinceramente, não sei. Como disse um filósofo, só sei que nada sei. Quero saber, mas não consigo encontrar o caminho correto para descobrir, aprender, solucionar. Se há problema, há solução. Se não há solução, solucionado está. Mas como saberei se o que dizem ser a solução é mesmo a solução? Sempre dizem que há outras saídas, outras alternativas. Mas será que elas existem mesmo quando enxergamos apenas uma única? O que fazer para enxergar e descobrir outras maneiras?

Às vezes aconselham esquecer, parar de perguntar, deixar as coisas acontecerem. Mas não creio que tudo se resolva sozinho, ou “com o tempo”. Em determinados momentos – na maioria deles – se não houver uma ação, não haverá reação. Portanto, não haverá solução. Parado está, parado continuará. Para descobrir respostas, é necessário movimentos. Não movimentos simulados, a simulação não ajuda. Dissimulação também não. É necessário agir, investigar, tentar, percorrer caminhos, arriscar. Mas quem quer correr riscos? O melhor, dizem todos, ou quase todos, é o seguro, o certo, o que conhecemos. O desconhecido é sempre rejeitado, deixado de lado, em segundo plano, como última alternativa. Mas não poderia a última alternativa ser justamente a correta?

Não sei. E quanto mais eu penso, mais fico confuso.

Carta a S.

Wednesday, February 6th, 2008

S., estou pensando muito no que você disse. Sei que não é essa a sua intenção, mas me veio à cabeça algumas reflexões sobre o suicídio. Aliás, reflexões, não. Apenas algumas lembranças do que já ouvi dizer por aí. Uma vez alguém falou que o suicida é um covarde, pois tirar a própria vida é a saída mais fácil para se livrar dos problemas, sejam eles quais forem. Não acho isso. Minha opinião é a seguinte: para cometer suicídio, o indivíduo precisa ter uma coragem enorme, até porque corre o risco de não obter sucesso, o que é bem pior. É capaz de a pessoa ficar deprimida, depois de se dar conta que nem se matar conseguiu…

Mas, e agora cairei em contradição, o suicídio parece mesmo uma saída fácil, apesar do que eu disse acima. Afinal, ir embora e deixar tudo para trás é uma fuga. E a fuga, S., alguém já disse (dizem coisas demais, as pessoas, não?), é um ato de covardia, sim. Você pode me dizer que, em alguns momentos, não há mais forças para seguir em frente. E te digo o seguinte: há momentos em que você acha que não há mais forças, em que tudo parece perdido. Mas, se você parar um pouco, respirar fundo, lembrar de onde você veio, quem você é e para onde você quer ir, verá que você é maior que todos os problemas que surgem em tua vida.

Não olhe ao seu redor, S.. Não se compare com quem está à tua volta. Vê o sofrimento do teu irmão, na rua. Vê a dificuldade que tem o deficiente. Vê o que eles precisam suportar e superar. Depois, encare você mesma no espelho. É difícil, eu sei. Você vai me dizer que cada um tem seus próprios fantasmas. E eu não quero, de forma alguma, minimizar teus percalços. Mas, por favor, me entenda: o que quero dizer é que você tem condições de superar tudo o aconteceu contigo e o que está acontecendo agora. Você tem tudo para trilhar um belo caminho e precisa ser mais egoísta, pensar mais em você mesma e não se deixar abalar tanto pelos outros. Você precisa se amar mais, S.. Esqueça os amores que passaram por tua vida. Se eles não ficaram, é porque não deveriam mesmo ficar. Tudo na vida é aprendizado. Tire as lições necessárias dos seus sofreres, mas não os fique remoendo, cultivando. Sofrer é bom. Mas esquecer - ou não lembrar - também é bom. Nenhum sentimento é eterno, S.. Até o amor, com o tempo, deixa de ser amor. Ao menos o amor que conhecemos agora. O tempo passa, envelhecemos, e o amor se torna uma combinação de outros sentimentos: respeito e carinho.

Então, S., eu te peço: tenta esquecer o que passou. Pense em você e continua teu caminho. Não se dê por vencida. Você não pode se dar por vencida. Você não pode dar aos outros a oportunidade de te verem desistir. Você tem que voltar a ser você, S.. Ou, se necessário for, deixar de ser você. E se transformar em uma outra, mais ambiciosa, mais forte e mais egoísta.

Espero que você me entenda. Eu só quero o teu bem, S.

Com os sinceros sentimentos do teu amigo de sempre,
R.

Os dias de R.

Thursday, November 15th, 2007

Eram 11 horas da manhã quando R. acordou. Ao olhar para o celular, do lado da cama, e ver a hora, disse: “Merda. Minha mãe nem pra me chamar”. E levantou.

De ceroulas e sem camisa, R. calçou as sandálias. Cambaleante e com certa dificuldade para manter os olhos abertos, foi em direção ao banheiro. Olhou para o espelho e viu, com algum esforço, um rosto cansado, olhos apertados, vermelhos. Lavou o rosto, ligou seu micro-computador (que fica num projeto inacabado de escritório) e voltou para o quarto. Vestiu uma bermuda e uma camiseta para preparar seu desjejum. Não poderia fazê-lo de ceroulas.

Uma xícara de café e um pão com manteiga, apenas. Vai almoçar em poucos minutos, não precisa nem pode comer mais que isso, ou então perde o apetite para o almoço. Com o desjejum em mãos, volta para o quase-escritório. Checa seus emails, mas não recebe nada de muito importante. R. tem afazeres virtuais. Depois de cumpri-los, R. toma banho e almoça, pois precisa ir para o trabalho.

O trabalho consome aproximadamente 11 horas do dia de R.. Ele começa a se preparar pouco depois do meio-dia e chega em casa por volta das 22:30. É quando R. novamente checa seus emails, dá continuidade às suas obrigações virtuais, toma banho, café, lê um pouco e deita, já por volta das duas horas da madrugada.

Assim é a rotina de R., exceto nos seus dias de folga. R. tem direito a uma folga por semana, sendo um domingo a cada quinze dias e um dia de semana a cada quinze dias. Nas folgas, R. dorme mais tarde, acorda no mesmo horário de sempre (por volta das 11 horas da manhã), toma café, almoça, faz suas obrigações virtuais, dorme um pouco durante a tarde e à noite vê tevê e lê.

Assim são os dias de R., sempre iguais.