Archive for the ‘Repostando’ Category

Terra, sangue e lágrimas

Sunday, December 16th, 2007

* Publicado no 3 Vozes, em 15/07/2005

Lembro que costumava brincar bastante quando criança. Tive bonecos de uma porção de heróis, pistolas espaciais, espadas do Lion dos ThunderCats e do He-Man também.

Cinto do Kamen Rider, máscara do Jaspion, enfim, um monte dessas coisas.

Jogava bola com os amigos, saía para andar de bicicleta. Atividades essas que regularmente me deixavam com marcas e machucados. Não faço idéia de quantas vezes cheguei em casa sujo de terra, sangue e lágrimas.

Mas era bom. Não precisava levar nada a sério. O colégio era fácil demais. (Relendo essa última frase e pensando melhor nela, me sinto no dever de tecer o seguinte comentário: talvez o colégio não fosse fácil demais. Acho mesmo é que eu fui perdendo a inteligência que herdei com o passar dos anos. De excelente em tudo, tornei-me um medíocre. Mas, enfim, a lamentação é outra.) Eu era mais bonito. Namorei duas irmãs ao mesmo tempo. Eu, com seis ou sete anos de idade, era um tarado. E nunca me dei conta disso. Ninguém deu. Nenhum garoto de seis ou sete anos é um tarado. No máximo ele é “danadinho”.

Eu ia pra escola de manhã, fazia meus deveres à tarde e ficava até à noite brincando, vendo tv, recebendo paparicos.

Sempre vinha alguém visitar. Sempre alguém trazia presentes. Sempre havia amigos para aprontar por aí.

Hoje as responsabilidades aí estão. Faculdade, trabalho, contas a pagar. Dar exemplo aos irmãos mais novos. Ser um homem decente. Me esforço para honrar minhas obrigações, mas, em certos momentos, tudo o que gostaria de fazer era sentar no meu velho quarto – que não existe mais – e montar o meu lego – que também não existe mais.

Talvez eu não exista mais.

Mas isso é apenas um detalhe. O que eu gostaria mesmo é de não levar as coisas tão a sério. De não PRECISAR levar as coisas tão a sério. Mas o fato é que não há mais escapatória.

Estou ficando velho e não há como escapar do tempo.

Ou vai, ou racha

Saturday, November 3rd, 2007

“Se você vai sair dessa maldita cidade, pelo amor de Deus escreva alguma coisa capaz de realmente tirá-lo daí. Escreva algo que rompa sua ligação com ela de forma imediata, que o ajude a se livrar da amargura que você com certeza deve ter guardado contra todos esses canalhas baratos, cheios de superioridade.”

Conselho de John O’Hara, um dos maiores escritores norte-americanos, ao colega de pena Walter Farquhar, de quem nunca ouvi falar.

O trecho acima é parte do prefácio escrito por John Updike, outro escritor dos grandes, e foi retirado da edição do romance “Encontro em Samarra”, de John O’Hara, publicada pela Ediouro.

Pretensões literárias

Thursday, July 26th, 2007

* Publicado em 23 de março de 2007 no “antigo” Entretantos.

Eu sempre fui um tanto quanto retraído. Nunca fui de contar vantagem ou de sair divulgando uma ou outra conquista que tive aqui e ali.

Ultimamente tenho mudado um pouco isso. Contra a minha vontade, pra ser sincero. Se eu pudesse permanecer incógnito e fazer tudo o que tenho feito, seria perfeito. Mas o rumo das coisas me obriga a deixar um pouco de lado a timidez e divulgar o que ando fazendo.

Acho que foi no fim de 2005 que comecei a mandar algumas mensagens para minha lista no Orkut, divulgando o 3 Vozes, blog meu, do Thiago e do Dudu. Tínhamos sido o blog da semana do Jornal do Brasil, e depois disso me senti um pouco mais à vontade para divulgar o endereço. A idéia era expandir o blog, angariar mais leitores. Infelizmente a idéia não deu certo. O blog hoje encontra-se adormecido. Acordará no tempo certo.

Mas a questão aqui não é especificamente o 3 Vozes. A questão aqui é o “se expor”. Eu não gosto de me expor e faço o máximo para que isso não aconteça. Ao menos não de maneira desordenada e gratuita.

Aí você vem e me diz: “mas Rafael, você, escrevendo isso, já está se expondo”. Concordo. Só que estou falando de um outro tipo de exposição. A exposição de mim mesmo, nos posts aqui do blog, são apenas fagulhas de minha personalidade e absolutamente nada de minha vida. Se vocês observarem bem, aqui não há posts com detalhes de minha vida pessoal ou profissional. Eu evito falar de minha namorada, por exemplo. Agora eu a citei e deixei o link para o blog dela, só. Vai ser muito difícil vocês verem aqui algo além disso. (more…)

Playboy? Eu não…

Wednesday, June 20th, 2007

Pensei numa revista com esse título: “Playboy? Eu não”. Porque a Playboy é realmente para playboys. Caras que têm muito dinheiro de sobra. Que podem comprar camisas de 300 reais, ternos de 1.000 e sapatos de 500. Ou ainda carros e motos de valores astronômicos. Sem contar que a revista paga altos cachês para as modelos de capa. Agora tudo é na base dos milhões de reais.

A minha revista seria diferente.

Na seção “Moda”, fotos de modelos de All Star de no máximo 70 reais e sandálias Havaianas. Sapatos sociais da C&A ou alguma outra loja de departamento. E não mais que 79,90.

Camisas? Lisas, por 14,90. Camisas sociais não ultrapassariam o módico precinho de 50 pilas. Mais que isso é um susto e sair correndo da loja.

Carros e motos? Não teríamos por quê ter uma seção dessas. O público leitor de minha revista anda de busão. Principalmente o editor dela - eu -, que tem larga experiência no assunto.

No lugar dessa seção, teríamos uma chamada “Busão” ou, quem sabe, um nome mais poético “As histórias maravilhosas do busão nosso de cada dia”. E lá muitas dicas de como se espremer na porta do ônibus sem se machucar, ou de como utilizar o colega passageiro como apoio para não cair. E a melhor dica de todas: como não se envolver com nada ao limitado redor do interior do ônibus: basta sentar, abrir logo um livro e ler - ou fingir que está lendo.

Nossas modelos - rá!, modelos! - seriam mulheres que abordariamos na rua - sim, eu teria uma equipe, ora bolas! -, perguntando: “quer 10zinho pra tirar umas fotos?”, se ela fosse muito bonita. Pra não dizer que somos pobretões e casquinhas, esse 10zinho seria 10 mil pilas. Já é uma boa, não? Pras medianas, cinquinho já seria bom demais. E cada uma ganharia um milhão transgênico, devidamente plantado e colhido no terreno de um integrante maconheiro da equipe de redação da revista.

Ah, e teríamos uma bela seção de livros, cds e dvds, e de como encontrar coisa boa a derreáu (pra quem não sacou, 10 reáu).

Nisso eu sou especialista.

* Postado originalmente no http://rafaelrodrigues.org