Archive for the ‘Resenhas’ Category

Dicas úteis para uma vida fútil, de Mark Twain

Tuesday, April 6th, 2010

* Texto publicado originalmente no blog Paralelos, lááá em 2006. Reproduzo aqui sem alteração alguma, de modo que algumas falhas do texto ficarão à mostra. Não tenho vergonha delas.

Quanto melhor o livro, mais complicado escrever sobre ele. Não sei se com os críticos é assim, mas comigo, mero “recomendador” de livros, é.

A responsabilidade é maior, creio eu. Um texto mal escrito pode espantar leitores, ao invés de fazer com que eles procurem a obra, se interessem por ela. Afinal, é essa a intenção de uma resenha: fazer com que o leitor procure o tal livro, folheie ele em alguma livraria, busque informações na internet, procure um amigo que tenha a obra para emprestar.

(Se seu amigo for como eu, desista. Ele inventará mil motivos para não emprestar o livro).

Ainda mais se ele for “Dicas úteis para uma vida fútil” (Relume Dumará, 224 págs.), de Mark Twain. Com o subtítulo de “um manual para a maldita raça humana” é um livro imperdível.

Poucos livros me impressionaram pelo projeto gráfico. Antes desse, só “O amor esquece de começar”, do Fabrício Carpinejar. Mas a Relume Dumará realmente teve um cuidado especial com esta obra de Twain. O livro é muito bonito, e muito bem acabado. Nota-se que houve um enorme cuidado em sua edição. A capa é bonita e o livro é recheado de fotos de Mark Twain, além de fac-símiles de manuscritos do autor e de páginas de jornais nos quais saíram seus textos.

Pegando o gancho, os textos reunidos em “Dicas úteis para uma vida fútil” são cartas, trechos de discursos de Mark Twain e escritos autobiográficos, como diz a orelha, e que eu prefiro chamar de crônicas.

Alguns desses textos são curtos, e posso até transcrever um inteiro aqui, como aperitivo:

“Desejo de Natal (publicado no New York World em 1890)
Ao editor do The World:
Meus calorosos votos e imensas esperanças natalinas de que todos nós (os da alta, os da baixa, os ricos, os pobres, os admirados, os desprezados, os amados, os odiados, os civilizados, os selvagens) possamos nos reunir em eterna paz e felicidade (exceto o sujeito que inventou o telefone).
Mark Twain
Hartford, 23 de dezembro.”

Em todos os textos há, no mínimo, a informação do ano em que ele foi publicado. Alguns têm a data exata, outros vêm acompanhados de uma pequena introdução, explicando como surgiu o tal escrito.

Mark Twain, ou Samuel Langhorne Clemens – seu nome de registro – não teve uma vida fácil – ficamos sabendo disso na introdução do livro. Mas nem por isso deixou de ser um homem bem humorado. Como quando dá dicas de como se comportar em um velório (“Não leve seu cachorro”), ou quando debocha de Benjamin Franklin (para depois se render a seus ensinamentos, que são passados de geração para geração nos Estados Unidos) e quando deixa um aviso ao próximo ladrão que tentar roubar sua casa, dizendo que “esta casa só tem baixelas de alumínio, agora e sempre” e pede “Por favor, feche a porta ao sair.”

Alguns dos textos presentes em “Dicas úteis para uma vida fútil” são inéditos. Outros, estavam fora de catálogo há décadas.

Eu, que não tinha lido nada ainda de Mark Twain, me diverti bastante com as palavras deste que é “a mais conhecida voz literária americana no mundo”, como diz a orelha do livro.

Resenha de O grande jogo de Billy Phelan

Friday, April 2nd, 2010

É o que vocês vão encontrar hoje, na minha coluna no Digestivo. Confiram lá!

No território da delicadeza, por Humberto Werneck

Tuesday, March 30th, 2010

* O texto abaixo, do jornalista e escritor Humberto Werneck, foi publicado originalmente no jornal Estado de Minas, em 7 de julho de 1991.

Há algo que me toca neste primeiro romance de Jaime Prado Gouvêa. Não é só a beleza da história, nem as delicadezas de que ela se tece, nem mesmo a dedicatória, que tem a generosidade adicional de me colocar ao lado de Murilo Rubião. Toca-me também, e muito, o que “O altar das montanhas de Minas” significa como fruto maduro numa trajetória de artista. Tenho saboreado o espanto de não poucos leitores diante da alta qualidade deste livro, como se tudo houvesse acontecido de uma hora para outra. Para mim não há surpresa. Tenho, afinal, 32 anos de Jaime Prado Gouvêa – o que significa que o acompanho desde o tempo em que ele celebrava paixões contrariadas com uma série de poemas ironicamente intitulados “As Corníadas”; desde o tempo em que, matando aula no Colégio Estadual, íamos descobrir na vadiagem do pátio que “Le Lac”, de Lamartine, não era aquele amontoado de palavras que dona Aline, a professora de francês, nos enfiava goela abaixo, depois de esvaziá-las de qualquer resquício de poesia.

O que quero dizer é que, por esses anos todos, pude testemunhar o desenvolvimento de uma obra que se constrói sem solavancos, como que obedecendo a um projeto obstinado – projeto cuja chave o autor parece ter dado no título de seu primeiro livro, “Areia tornando em pedra”, coletânea de contos publicada em 1970: um processo de solidificação. Numa leitura que ele talvez não autorizasse, vejo aí, também, o propósito de remar contra a corrente, numa espécie de radical subversão da geologia – não é a pedra que se faz areia, e sim o contrário.

Remar contra a corrente, em todo caso, é o que Jaime Prado Gouvêa vem fazendo desde que se descobriu escritor, lá no tempo das “Corníadas”, com uma determinação cabeçuda de que eu próprio recolhi amostras. O título do primeiro livro, por exemplo, me pareceu pouco feliz do ponto de vista comercial, e cheguei a fazer esse reparo num artigo. Não houve jeito de convencer Jaime a trocá-lo por outro mais convidativo. A história se repetiria vinte anos depois, quando ele me despachou de Belo Horizonte os originais de “O altar das montanhas de Minas”. Inutilmente argumentei que pouca gente se deixaria seduzir pelo verso pinçado na letra do hino de um congresso eucarístico perdido no tempo. Como no caso de “Areia tornando em pedra”, ele tinha posto o título que encerrava com mais exatidão a ideia do livro (disto não há dúvida), e nem quis conversa.

Tenho o maior respeito por sua integridade de artista, que o impediu de embarcar, como tantos outros, nas sucessivas marés literárias das últimas três décadas. Quem folhear seus quatro livros (com uma escala mais demorada, por favor, nos contos do irretocável “Fichas de vitrola”) vai verificar que Jaime Prado Gouvêa passou ao largo, por exemplo, de uma certa literatura “engajada” ou “participante” que andou provocando arrepios cívicos nos menos exigentes num bom pedaço das décadas de 60 e 70. Também não embarcou no realismo fantástico de carregação trazido na enxurrada do cacofônico boom da literatura hispano-americana. Não se deixou, por fim, contagiar pela facilidade do texto jornalístico, escola posta em moda graças a uma assimilação equivocada de Ernest Hemingway.

Havia, aliás, naquele tempo, e ainda há, no Fla-Flu bocó das artes nacionais, um antagonismo a dividir adeptos de Hemingway e de F. Scott Fitzgerald. Jaime Prado Gouvêa não chegou ao extremo de reduzir o primeiro a um jornalista pautado pela imaginação, como houve quem fizesse – mas seu coração é intransigentemente fitzgeraldiano. Avesso ao preto-no-branco, ao chapado, ao unidimensional, ele pertence, de fato, a essa rarefeita linhagem dos que trabalham a filigrana, os meios-tons. Escritores que, por isso, dificilmente poderiam ser transpostos para outra linguagem que não a das palavras, sem que houvesse irremediável perda de substância. Por mais que se tenha tentado, e se tentou bastante, ninguém, até hoje, conseguiu levar ao cinema as delicadas nuances que fazem o melhor da obra de Scott Fitzgerald. Fico pensando no enorme desafio que seria tirar um bom filme, também, de “O altar das montanhas de Minas”, sem reduzi-lo a uma bela história e apenas isto.

Há poucos dias, num jornal de São Paulo, sentenciava um resenhista a propósito deste romance, depois de atravessá-lo com uma sensibilidade de cupim: “Jaime Prado Gouvêa até que escreve direitinho”. Pudesse a literatura brasileira ser feita de autores que escrevem assim tão direitinho.

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Mais sobre “O altar das montanhas de Minas”:

- Artigo de Sebastião Nunes no O Tempo
- Resenha de Duílio Gomes no Jornal do Brasil

Na CP Literatura 29

Thursday, March 25th, 2010

Já está nas bancas a revista Conhecimento Prático Literatura nº 29, cuja capa é dedicada a J.D. Salinger.

Nela, tem uma matéria minha sobre o escritor Menalton Braff. Na verdade, uma resenha de seu novo romance, o excelente “Moça com chapéu de palha“, além de uma entrevista com o autor.

Esta edição da CPL traz também um conto meu, chamado “Teto branco”. Trata-se de meu primeiro conto publicado em papel. Então, não percam tempo: comprem a revista e guardem com o maior carinho hehe Eu já comprei a minha.

Olho por olho, de Lucas Figueiredo

Wednesday, March 17th, 2010

O material abaixo foi publicado na revista Conhecimento Prático Literatura nº 26.

Todos os livros do jornalista mineiro Lucas Figueiredo são sobre temas espinhosos. Em “Morcegos Negros” (2000) ele se dedicou a pesquisar um dos capítulos mais vergonhosos da História recente do Brasil, a Era Collor. Depois, escreveu sobre o serviço secreto brasileiro, em “Ministério do Silêncio” (2005). Pouco tempo passou e Lucas decidiu destrinchar mais um fato recente da nossa História, o mensalão, no livro “O Operador - Como (e a mando de quem) Marcos Valério irrigou os cofres do PSDB e do PT ” (2006). E agora, em “Olho por olho“, o jornalista mineiro se debruçou sobre mais um período negro da História do Brasil: a ditadura.

“Olho por olho” conta a história de dois livros importantíssimos para o entendimento dos anos de chumbo: “Brasil: Nunca Mais”, escrito pelos que eram contra o regime; e “O livro negro do terrorismo no Brasil”, escrito pelos militares, mais conhecido pelo codinome “Orvil”, que é a palavra “livro” ao contrário. Mais que um apelido, “Orvil” revela a intenção real do livro: não apenas mostrar a ditadura segundo o exército, mas sim desconstruir e derrubar o “Brasil: Nunca Mais”.

A maioria das pessoas que leu o “BNM” talvez não saiba que suas 312 páginas (número referente à 36ª edição do livro, editado pela editora Vozes desde 1985) são o resultado de uma condensação de quase 7 mil. Os responsáveis por essa tarefa foram o jornalista Ricardo Kotscho e o ex-preso político – torturado pelos militares – Frei Betto. O levantamento dessas 7 mil páginas de documentos foi feito através de uma operação chamada “Testemunhos Pró-Paz”, digna dos melhores roteiros de filmes de espionagem. Como foi organizada a operação, quem participou dela, quem a bancou financeiramente, quais os perigos que passaram os integrantes do projeto, tudo isso é narrado por Lucas Figueiredo. Que faz o mesmo com o “Orvil”, que, sem sua “versão final”, digamos assim, contava 919 páginas divididas em dois volumes. Mas quais foram os militares responsáveis por sua criação e execução?; qual motivo o deixou “engavetado” por tantos anos?; quem vetou sua divulgação? Tudo isso é esclarecido pelo jornalista mineiro.

Um livro revelador em todos os sentidos, “Olho por olho” é certamente uma das obras mais importantes lançadas nos últimos anos no Brasil, porque, além de contar a saga de dois dos mais importantes livros brasileiros de todos os tempos, ele também apresenta fatos históricos que precisam ser conhecidos e questionamentos que precisam de respostas.

Na entrevista a seguir, realizada via e-mail, Lucas Figueiredo, vencedor de três Prêmios Esso, fala sobre seu livro, sua inclinação para as reportagens de fôlego e sobre jornalismo e o fim dos jornais.

Quais foram as maiores dificuldades que você enfrentou durante a escritura de “Olho por olho”?
A maior dificuldade, sem dúvida, foi conseguir uma das quinze cópias artesanais do Orvil, o livro secreto que o Exército produziu entre 1985 e 1988 e que nunca foi publicado. Comecei minhas buscas pelo Orvil em 1998 e só obtive uma das 15 cópias, por intermédio de uma fonte militar, em 2007.

De onde vem sua predileção pelo jornalismo investigativo/político?
Não gosto muito desse termo “jornalismo investigativo”; prefiro “reportagem”, que é algo que se faz há séculos. Acho que, no Brasil, nós jornalistas temos o papel imenso de revelar as mazelas que nos atravancam. Meu fascínio é mostrar o que dá errado, com a esperança de que isso ajude a fazer o certo.

Nos últimos anos foram lançados muitos livros sobre os anos de chumbo no Brasil. Isso ocorre porque finalmente temos o distanciamento necessário para analisar friamente os fatos ou porque ainda há muito a ser dito sobre o assunto? Você acha que algum dia esse tema vai se esgotar?
Nos últimos anos, tem vindo à luz muita informação nova sobre o período, por isso a grande produção. Como a ditadura ainda tem grandes mistérios, como o destino dos 130 desaparecidos políticos, ainda temos campo para a publicação de centenas de obras. O interesse nunca irá se esgotar, porque esse foi um dos períodos mais trágicos do país.

Me parece que, durante o ensino médio, a História Contemporânea do Brasil não tem a atenção que merece. Fala-se muito sobre “Descobrimento” e pouco sobre a Ditadura, na minha opinião. E isso resulta em jovens que mal sabem que, durante anos, nosso país foi governado por militares, por exemplo. Você concorda? Isso não prejudica o desenvolvimento da nação e o entendimento da nossa situação social e política?
O problema é que nas escolas, em geral, a história é ensinada de forma mecânica, sem atrativos. Por isso os jornalistas têm um papel importante nesse campo, ou seja, não apenas levar informação histórica de qualidade ao público, mas também tornar a própria História uma coisa atraente. Aposto que muitos brasileiros aprenderam muito sobre Getúlio Vargas lendo os livros de Fernando Morais, muito sobre a ditadura lendo Elio Gaspari, e sobre o “Descobrimento” lendo Eduardo Bueno.

Mudando um pouco de assunto: recentemente o STF derrubou a exigência de diploma em jornalismo para se atuar na área. Naturalmente, houve muita reclamação por parte dos estudantes de jornalismo e também de jornalistas. Na sua opinião as reclamações são justas ou o STF agiu corretamente ao colocar um fim na exigência do diploma? O jornalismo ganhou ou perdeu com isso?
Acho que o jornalismo ganha com o fim da exigência do diploma. Nunca entendi porque um filósofo, um advogado, um historiador não poderiam ser também bons jornalistas. Tenho um amigo formado em matemática que é um dos melhores e mais corretos repórteres que já conheci. O que o diploma escondia era uma reserva de mercado.

Ainda sobre jornalismo: quase todos os dias alguém fala em fim dos jornais e até no fim do próprio jornalismo. O que você acha disso? Os jornais - e o jornalismo - vão mesmo acabar? O destino de reportagens como as suas será, mesmo, os livros? Ou haverá espaço para reportagens longas nos jornais e revistas? Você arrisca alguma espécie de previsão?
Muitos jornais vão acabar e os que sobreviverem terão de fazer grandes mudanças por questões financeiras, ou seja, terão de “encolher”. O que é uma pena, porque os jornais, com as reportagens, têm tido grande importância na história recente do país. Se a reportagem migrar para outro suporte, não vejo problema. Mas até agora a internet não tem rendido o suficiente para os portais terem jornalistas de qualidade fazendo reportagens. Nenhum portal brasileiro tem, por exemplo, um correspondente na Venezuela, na China, em Buenos Aires ou em Washington, como os jornais. Acho que passaremos por um período nebuloso, no qual teremos menos reportagens, ou seja, menos informação de qualidade. Mas acho que isso pode ser corrigido no futuro.

O que faz um bom jornalista? Uma graduação na área é mesmo necessária ou uma boa bagagem de leituras e, mais que isso, “correr atrás” dos fatos resolve? Quais os conselhos que você daria a um estudante de jornalismo ou a quem está dando os primeiros passos na profissão?
Primeiro, uma boa formação humanista. Toneladas de leitura: imprescindível!!! Por último, leitura de um bom jornal, pelo menos, da primeira a ultima página, incluindo editoriais e cartas ao leitor. As dicas: vá para a rua, não tenha preguiça, cheque seus dados obstinadamente!

Você já está pensando (ou trabalhando) num próximo livro? Se sim, pode revelar qual o assunto e quando pretende publicar?
Neste momento, estou lançando “Olho por olho”. Mas também estou trabalhando em outro livro, que deve ser publicado no segundo semestre do ano que vem. O assunto, por enquanto, é segredo…

Se eu fechar os olhos agora, de Edney Silvestre

Tuesday, March 16th, 2010

Em dezembro de 2009 foi publicada, na revista Brasileiros, uma entrevista que fiz com o Edney Silvestre, sobre seu primeiro romance. Além da entrevista eu havia feito uma resenha do livro, que foi parcialmente utilizada na introdução à entrevista. O texto na íntegra você lê abaixo.

O início de “Se eu fechar os olhos agora”, romance do jornalista e escritor Edney Silvestre, dá ao leitor, primeiro, a impressão de estar diante de um livro infanto-juvenil, por apresentar os dois protagonistas, Eduardo e Paulo, garotos de 12 anos de idade, no momento em que fazem mais uma de suas travessuras, matando aula para nadar em um lago; depois, o livro dá uma guinada, e o leitor se vê enredado em uma trama policial: os garotos encontram, nas imediações do lago, uma mulher morta a facadas. Mas, na verdade, e apesar de haver em “Se eu fechar os olhos agora” uma espécie de aura juvenil e de uma investigação ocupar grande parte do livro, o que se tem diante dos olhos é um romance de formação.

Ambientado na década de 1960, em Valença, pequena cidade fluminense – terra natal do autor –, “Se eu fechar os olhos agora” é o primeiro livro de ficção de Edney Silvestre, que tem várias outras obras publicadas – de crônicas e coletâneas de entrevistas. Um dos personagens, já adulto, é a voz que dá início ao livro: “Se eu fechar os olhos agora, ainda posso sentir o sangue dela grudado nos meus dedos. E era assim: grudava nos meus dedos como tinha grudado nos louros cabelos dela, na testa alta, nas sobrancelhas arqueadas e nos cílios negros, nas pálpebras, na face, no pescoço, nos braços, na blusa branca rasgada e nos botões que não tinham sido arrancados, no sutiã cortado ao meio, no seio direito, na ponta do bico do seio direito”. Este trecho, que é o primeiro parágrafo do romance, revela uma das características da prosa de Edney: a descrição. E não se trata apenas de descrever um ambiente, uma cena, mas principalmente os sentimentos dos personagens, o que eles pensam em momentos cruciais do livro. Detalhes muito importantes para entender melhor cada um dos protagonistas da história, que se atém, principalmente, ao misterioso assassinato, mas que, paralelamente, acompanha os garotos no processo de perda da inocência e iniciação no mundo adulto – naquela época se envelhecia mais cedo…

Depois de encontrarem a morta, avisarem a polícia, serem considerados suspeitos e, finalmente, liberados, os garotos se recusam a crer na “versão oficial dos fatos” – de que ela foi morta pelo marido supostamente traído. E passam a conversar sobre o crime, tentar entender o fato, levantar outras teorias para explicá-lo. Em seguida, vão até a casa do casal, para quem sabe encontrar ma pista que os leve a esclarecer a situação e, talvez, descobrir a verdadeira razão pela qual a mulher foi morta – além de, claro, descobrir quem é o verdadeiro assassino. É quando descobrem que não são os únicos a desconfiar da versão de crime passional: na mesma noite em que eles invadem a propriedade, uma outra pessoa faz o mesmo. Quem é esse outro “detetive” os garotos descobrem fácil, seguindo-o rumo ao seu lar, um asilo para idosos. Este senhor, a quem conhecemos melhor no decorrer do romance, serve como espécie de consciência dos meninos. Inexperientes em tudo, não conseguiriam jamais entender aquele crime sozinhos. Com a ajuda do velho Ubiratan, o que antes parecia ser uma brincadeira de criança, sem perspectiva alguma de chegar a um desfecho, a uma conclusão, se torna uma empreitada séria e perigosa, repleta de reviravoltas e que em certos momentos causa vertigem no leitor.

Apesar de estreante na ficção, Edney Silvestre tem como trunfo uma carreira sólida no jornalismo e uma bagagem literária invejável – tanto que é ele o apresentador/entrevistador do programa Espaço Aberto Literatura, do canal de TV a cabo GloboNews –, coisas que certamente lhe ajudaram no desenvolver do romance. Principalmente no que se refere à linguagem, à forma. A história, apesar de emaranhada, não se torna em momento algum confusa. A leitura é ágil e provoca uma enorme ansiedade de saber o que vai acontecer na próxima página. É admirável também a ambição do autor. Não parece que Edney Silvestre escreveu o livro apenas para ser publicado e ser premiado com a pecha de escritor. A impressão é que ele tentou escrever um romance diferenciado, marcante, relevante. E conseguiu não apenas isso, mas também produzir uma obra de inegável qualidade, beleza e força. É o mínimo que se pode esperar de um escritor, seja ele quem for.

CP Filosofia, CampiDigital e Melhores discos de 2009

Saturday, March 6th, 2010

Pessoal, está nas bancas a revista Conhecimento Prático Filosofia nº 22, Karl Marx na capa, que traz uma resenha minha dos três livrinhos que compõem a coleção “Sobre o que nos perguntam os grandes filósofos”, de Leszek Kolakowski. O texto pode ser lido no site da revista, mas quem puder comprar, é bom, né? Até porque o visual da matéria ficou bem bonitão.

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Foi publicada hoje uma entrevista comigo no site do CampiDigital, um evento que vai rolar em Salvador, no dia 20 deste mês. A conversa foi sobre minha experiência com o Digestivo Cultural e como as mídias sociais podem interferir no jornalismo feito na internet. Ficou bem legal, confiram lá!

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E foi publicado ontem, no Digestivo, meu texto sobre os melhores discos de 2009 - na minha opinião, claro. Corram pra ver!

Na Brasileiros de fevereiro

Wednesday, February 24th, 2010

Está lá, no site da Brasileiros, a resenha que fiz do livro “Três Tristes Tigres”, de Guillermo Cabrera Infante, publicada na edição deste mês, de número 31. Não sei ainda se A revista já chegou às bancas de todo o país, mas creio que em São Paulo e no Rio de Janeiro ela já possa ser encontrada. Ao menos aqui na cidade já chegou. Se não chegou ainda na sua, em breve deve chegar. E se não chegar e quiser dizer aqui que não chegou, é só avisar. Quem puder dar esse feedback, agradeço. E Quem puder comprar a revista, agradeço mais ainda. Não que eu ganhe nada com a venda dela, mas é bom saber que ainda tem gente que faz questão de comprar a revista impressa.

Atualizado às 19:42.

O imitador de vozes, de Thomas Bernhard

Monday, February 15th, 2010

Curtos, absolutamente bem escritos e em sua maioria trágicos. Assim são os contos de “O imitador de vozes“, do escritor holandês de nascença mas austríaco de criação (e, consequentemente, de escrita) Thomas Bernhard.

O leitor interessado em literatura estrangeira quase certamente já ouviu falar em outros livros de Bernhard, como “O náufrago”, “Origem” ou “Extinção”, todos editados pela Companhia das Letras. Além desses, há livros do autor editados pela Rocco, como “Perturbação” e “Árvores abatidas”, mas estes são mais difíceis de encontrar em livrarias. Com alguma sorte, é possível encontrá-los em sebos.

À primeira vista, o que mais chama a atenção em “O imitador de vozes” é a forma como ele é escrito. Pode-se dizer que a linguagem é formal, talvez até um tanto rebuscada - sem qualquer pedantismo, é bom que se diga. Algumas passagens são tão exemplarmente bem escritas que o admirador da língua pode se ver lendo duas, três, quatro vezes o mesmo trecho, de tão belo. É importante mencionar, portanto, o excelente trabalho do tradutor da edição brasileira, Sergio Tellaroli.

Aparentemente, o narrador de todos os contos é a mesma pessoa, um jornalista. Austríaco, assim como Bernhard. Como dito no primeiro parágrafo do post, a maioria dos contos é trágica, mas há em muitos deles algo de cômico ou mesmo de fantástico - ou uma mistura dos gêneros, como no conto “Pisa e Veneza”, no qual os prefeitos de ambas cidades decidem trocar, na calada da noite, a torre de Pisa pelo campanário de Veneza, mas o plano é descoberto e ambos são internados em manicômios: “naturalmente, o prefeito de Pisa no manicômio de Pisa e o prefeito de Veneza no manicômio de Veneza”. Esse conto, aliás, pode ser uma alusão aos políticos megalomaníacos que prometem - e às vezes até tentam fazer - obras impossíveis ou completamente desnecessárias.

Por mais absurdas que algumas das histórias pareçam ser, elas sempre têm alguma conexão com a realidade. O conto que dá título ao livro, por exemplo, e que pode ser lido na capa mesmo, é sobre um imitador de vozes que consegue imitar diversas pessoas. Mas ao pedirem para que ele imite sua própria voz, ele diz “que aquilo não sabia fazer”. É uma metáfora perfeita para a perda de identidade, algo que vem acontecendo com mais frequência nesses tempos do “celebritismo supersônico”, digamos assim. Depois de alcançada a fama e a fortuna, o sujeito pode se perder no meio de tanto deslumbre. Vejam o caso de Adriano, hoje atacante do Flamengo, que além dos problemas pessoais que teve enquanto estava na Itália - morte do pai e outras coisas -, aparentemente não tinha mais o que conquistar, afinal, era o “imperador da Itália”. Ficou tão desnorteado que parou por um tempo com o futebol, voltou para o Brasil, visitou amigos no morro onde foi criado e, depois de “reencontrar a alegria de viver”, foi jogar no Flamengo, seu time do coração.

Como os contos são curtos, o leitor fica tentado a ler o livro de uma vez só, mas não recomendo fazer isso. Minha sugestão, caso alguém se interesse pela obra e resolva adquiri-la, é ler um determinado número de páginas por dia, intercalando este livro com outro. É que o leitor pode “cansar” do formato das histórias. Que são excelentes e agradáveis de serem lidas, mas algumas delas requerem uma maior atenção e, como dito anteiormente, algumas releituras. Daí a necessidade de uma parada para reflexão, deixar o livro um pouco de lado, e voltar à leitura no dia seguinte ou dois dias depois. Mas, claro, é só uma sugestão.

Depois de lido “O imitador de vozes” e de ter lido um pouco sobre o autor, ficou a vontade de ler mais livros dele. Infelizmente, suas obras são um tanto caras, e no momento não poderei comprar nenhuma. Mas com certeza lerei mais livros de Thomas Bernhard. Esta primeira experiência foi muitíssimo proveitosa.

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Post relacionado:Serviço público“.

Pequenos fantasmas, de Humberto Werneck

Thursday, February 4th, 2010

Em abril de 2005 o jornalista Humberto Werneck imprimiu, em uma tiragem curtinha, de 500 exemplares, seu único livro de ficção até o momento: “Pequenos fantasmas”, de contos. O livro também é curto, tem 117 páginas. Nele, estão 10 histórias curtas que Humberto escreveu ali entre seus 20 e 20 e poucos anos. Apenas um dos contos, o último, intitulado “A invasão”, foi escrito depois dos 30, numa “brevíssima recaída”, como diz o autor.

Quase três anos depois, em fevereiro de 2008, recebi o “Pequenos fantasmas” nº 489, devidamente assinado e com dedicatória do autor. Pensei que iria cair no livro de imediato, mas não foi o que aconteceu. Na época eu estava - como sempre estou - com uma montanha de leituras pendentes, sendo uma delas do livro “Fichas de vitrola & outros contos”, de Jaime Prado Gouvêa, amigo de infância de Humberto. Pensei comigo: “não posso ler o livro do Humberto antes do livro do Jaime, seria uma grande sacanagem com o Jaime”. Então fiz um acerto comigo mesmo: só leria “Pequenos fantasmas” depois de ler “Fichas de vitrola”.

Há alguns meses não apenas li, mas resenhei o livro do Jaime e fiz uma pequena entrevista com ele - o material foi publicado no Digestivo. Era a ocasião então de encarar o livro do Humberto. Mas não foi o que aconteceu. Por uma série de fatores, não pude fazer isso. Na verdade, devo confessar, havia de minha parte um certo receio. Algo que de certa forma me fez demorar de ler o “Fichas de vitrola”. O receio de os livros não serem bons. Porque a minha expectativa era enorme, tanto para um caso quanto para o outro. Eu queria que os livros fossem bons. Quando leio livros de amigos ou pessoas que admiro e respeito, tenho essa coisas de desejar que a obra tenha muita qualidade. E aí, se ela não tem, fica aquela ponta de decepção. Além disso, há o risco de a pessoa perguntar: “o que você achou do meu livro?”. Se você não gostar e dizer que não gostou, há uma grande chance de a pessoa simplesmente deixar de falar com você, ficar ressentida, essas coisas. Falo porque sei: já aconteceu comigo.

Resultado: só vim ler o “Pequenos fantasmas” agora, há menos de uma semana. E eis que me deparo com um belo livro.

Os dois primeiros contos, “Menino no quintal” e “Vagalume”, lembram um pouco o Fernando Sabino do início de “O encontro marcado”. Eis os inícios de ambos, respectivamente: “Grudado no muro, braços envolvendo os joelhos, o olhar fincado no minuto que pingava da torneira - o menino quieto, se pensando. Horas e horas longe de tudo. O quintal o que era?”; “Os vagalumes moravam perto da noite, na beira do rio. Pelas seis horas brotavam da neblina e picotavam a sombra num vôo luminoso. O menino havia de esperar, encolhido na moita, para ter o vagalume maior de todos”.

A infância, aliás, é também tema presente no terceiro conto, “Oito anos”, no qual um garoto é acordado por sua tia no meio da madrugada. O garotinho levanta sonolento, fica sem saber o porquê de acordar àquela hora, mas aos poucos vai sendo revelado, para o leitor, o motivo. Ele, Dudu, fica sabendo depois, já perto do fim da história. O conto termina com a reação inusitada, porém sincera, do garoto.

A partir daí os protagonistas envelhecem. Em “Acontecimento de família”, um pai sofre com a vergonha de saber - não só ele, mas toda a vizinhança - que sua filha não é mais virgem; o protagonista de “O condenado” é um homem atormentado por uma culpa que o deixa refém de si mesmo e de seus medos; “Febre aos 39 graus” narra um instante na vida de um homem que, depois de anos de fidelidade à esposa, se rende à pressão dos amigos e sai para uma farra - e então se rende aos encantos de uma moça…; em “Quarta-feira” vemos um condenado - este de verdade, porque está na cadeia - não querer enxergar o óbvio: está perdendo sua esposa para outro (ou para a sua ausência); “Do terceiro andar” tem como protagonista o bedel de um colégio interno para meninas, Boaventura Mendes, que tem como prazer assistir às aulas de ginástica das garotas; a morte de um homem e seus desdobramentos - velório, enterro e tudo o que eles acarretam - é o mote de “O doloroso dever”, penúltimo conto do livro; que termina com o fantástico em todos os sentidos “A invasão”, cujo enredo é o seguinte: depois de passar anos morando em hotéis, um homem decide, depois de aposentar-se, ir morar em uma casa. Ao começar a mobiliá-la, coisas estranhas acontecem, como ele receber móveis exatamente iguais aos que desejava e que iria pedir, mas sem tê-los encomendado.

Escritos de maneira peculiar, um tanto quanto rebuscada, mas não muito, e sem pedantismo, os contos de “Pequenos fantasmas” têm uma doçura, uma leveza e um amargor indeléveis e inconfundíveis. Quem conhece os livros, as matérias e as crônicas de Humberto Werneck percebe que ali pelos seus 20 e poucos anos ele já possuía o que muitos autores levam uma vida inteira procurando e não encontram: estilo.

Na nota introdutória ao livro, Humberto explica que seu título seria “Primeiros movimentos”, caso não tivesse o autor retirado seu original da fila de publicação da Imprensa Publicações, órgão do governo de Minas Gerais também responsável pela edição do Suplemento Literário de Minas Gerais, onde Humberto trabalhou durante algum tempo (importante dizer que um dos maiores incentivadores de Humberto foi ninguém mais ninguém menos que o escritor Murilo Rubião). Mas um livro pronto e não publicado incomoda - talvez seja esse o maior tormento de um escritor, maior ainda que o de querer escrever uma obra e não conseguir. Na introdução, Humberto diz: “A passagem dos anos não atenuou a desconfortável sensação de que, tendo escrito, faltara completar o gesto, publicando aqueles contos de juventude, até como forma de livrar-se deles - para evitar que, na gaveta, ou mesmo rasgados, virassem fantasmas, pequenos fantasmas.”.

É bem provável que, hoje, as 500 cópias de “Pequenos fantasmas” estejam devidamente bem guardadas pelos seus 500 (ou 499, caso o autor tenha ficado com uma delas) leitores. É envaidecedor poder dizer que sou um dos felizardos, e certamente assim pensam todos os que foram agraciados com esta honraria, a de ter um exemplar desta pequena joia literária. Mas é um tanto frustrante saber que esses contos não serão lidos por um público maior, que este pequeno grande livro - acho que já usei esta expressão em alguma outra resenha, mas enfim - não poderá ser encontrado em livrarias. Fica aqui publicamente expresso meu desejo de que Humberto Werneck solte mais de seus fantasmas por aí - se ele assim o desejar, claro. E, caso isso aconteça, não se assustem: o único assombrado por esses fantasmas era o autor.