Archive for the ‘Retrato do blogueiro quando jovem’ Category

Dicas úteis para uma vida fútil, de Mark Twain

Tuesday, April 6th, 2010

* Texto publicado originalmente no blog Paralelos, lááá em 2006. Reproduzo aqui sem alteração alguma, de modo que algumas falhas do texto ficarão à mostra. Não tenho vergonha delas.

Quanto melhor o livro, mais complicado escrever sobre ele. Não sei se com os críticos é assim, mas comigo, mero “recomendador” de livros, é.

A responsabilidade é maior, creio eu. Um texto mal escrito pode espantar leitores, ao invés de fazer com que eles procurem a obra, se interessem por ela. Afinal, é essa a intenção de uma resenha: fazer com que o leitor procure o tal livro, folheie ele em alguma livraria, busque informações na internet, procure um amigo que tenha a obra para emprestar.

(Se seu amigo for como eu, desista. Ele inventará mil motivos para não emprestar o livro).

Ainda mais se ele for “Dicas úteis para uma vida fútil” (Relume Dumará, 224 págs.), de Mark Twain. Com o subtítulo de “um manual para a maldita raça humana” é um livro imperdível.

Poucos livros me impressionaram pelo projeto gráfico. Antes desse, só “O amor esquece de começar”, do Fabrício Carpinejar. Mas a Relume Dumará realmente teve um cuidado especial com esta obra de Twain. O livro é muito bonito, e muito bem acabado. Nota-se que houve um enorme cuidado em sua edição. A capa é bonita e o livro é recheado de fotos de Mark Twain, além de fac-símiles de manuscritos do autor e de páginas de jornais nos quais saíram seus textos.

Pegando o gancho, os textos reunidos em “Dicas úteis para uma vida fútil” são cartas, trechos de discursos de Mark Twain e escritos autobiográficos, como diz a orelha, e que eu prefiro chamar de crônicas.

Alguns desses textos são curtos, e posso até transcrever um inteiro aqui, como aperitivo:

“Desejo de Natal (publicado no New York World em 1890)
Ao editor do The World:
Meus calorosos votos e imensas esperanças natalinas de que todos nós (os da alta, os da baixa, os ricos, os pobres, os admirados, os desprezados, os amados, os odiados, os civilizados, os selvagens) possamos nos reunir em eterna paz e felicidade (exceto o sujeito que inventou o telefone).
Mark Twain
Hartford, 23 de dezembro.”

Em todos os textos há, no mínimo, a informação do ano em que ele foi publicado. Alguns têm a data exata, outros vêm acompanhados de uma pequena introdução, explicando como surgiu o tal escrito.

Mark Twain, ou Samuel Langhorne Clemens – seu nome de registro – não teve uma vida fácil – ficamos sabendo disso na introdução do livro. Mas nem por isso deixou de ser um homem bem humorado. Como quando dá dicas de como se comportar em um velório (“Não leve seu cachorro”), ou quando debocha de Benjamin Franklin (para depois se render a seus ensinamentos, que são passados de geração para geração nos Estados Unidos) e quando deixa um aviso ao próximo ladrão que tentar roubar sua casa, dizendo que “esta casa só tem baixelas de alumínio, agora e sempre” e pede “Por favor, feche a porta ao sair.”

Alguns dos textos presentes em “Dicas úteis para uma vida fútil” são inéditos. Outros, estavam fora de catálogo há décadas.

Eu, que não tinha lido nada ainda de Mark Twain, me diverti bastante com as palavras deste que é “a mais conhecida voz literária americana no mundo”, como diz a orelha do livro.

Desamarrando nós

Wednesday, August 5th, 2009

* Continho escrito há muito tempo, mais ou menos uns 6 anos.

O dia não avisou que estava vindo. Somente quando olhei para fora e vi o clarear do fim da madrugada foi que ouvi galos cantarem ao longe.

Não sei que motivo leva algumas pessoas a manter galos em casa numa cidade que se diz moderna. Sabia apenas que aquela seria minha última noite naquele lugar. Não dormi, mas acordei com vontade de mudar.

Apesar do cansaço do dia anterior, uma quarta-feira, estava muito disposto e não sentia necessidade de descansar. Pelo contrário. Não via a hora de poder sair de casa, ir ao escritório pedir demissão e à faculdade trancar a matrícula do curso de filosofia que estava na metade.

Depois, seria a hora de comunicar a meus pais que estaria saindo da cidade. O mais difícil a fazer.

Tinha plena consciência do que aconteceria. Ambos ficariam perplexos. Meu pai, irritadíssimo, perguntaria se eu estava louco e o que eu estava pensando da vida. Minha mãe começaria a chorar, olharia para o teto e perguntaria a Deus se foi para isso que havia me criado, o que fizera de errado e coisas desse tipo.

Enquanto eles faziam isso, eu iria até meu quarto buscar a mala que deixara pronta e diria a eles que ligaria assim que chegasse em algum lugar. Os nós que me mantinham ali seriam facilmente desamarrados.

Além do trabalho e da faculdade – os quais eram dispensáveis para mim naquele momento – havia os amigos e a família. Estes fariam falta, mas eu poderia carregá-los no coração e na mente para onde quer que eu fosse. O mesmo eu não poderia dizer do meu suposto amor. Deixá-la não seria muito difícil. Seria até um alívio para nós dois. Nossa relação de quase um ano estava desgastada havia muito. Precisaria vê-la com urgência. Ligaria marcando um encontro. Na rodoviária, talvez. Não seria tão difícil.

Ficaria surpresa com aquela imagem: eu, uma mala e, minutos depois, um ônibus. Não precisaria de muitas palavras. Diria que nossa relação estava muito complicada e que seria melhor terminarmos enquanto ainda existia respeito mútuo. Ela me faria algumas perguntas, eu as responderia, diria que estava “cheio de tudo e de todos”. E só. Lhe desejaria o melhor e prometeria mandar notícias em breve – uma pequena mentira não mata ninguém.

Deitado aqui, na minha cama, imagino se teria mesmo coragem de fazer tudo isso.

Mas a preguiça de levantar me faz seriamente pensar em finalmente dormir, mesmo com um belo dia nascendo lá fora…

Da distância

Monday, August 3rd, 2009

* Texto escrito há bem uns 6 anos e publicado em algum dos blogs outros que tive. Republicado aqui atendendo ao pedido de uma antiga leitora.

Distância. Qual a definição de distância? Calma, isso não é um apontamento de Física (matéria pela qual tenho um enorme sentimento de frustração e ódio – só para ser um pouco dramático). Segundo o “Aurélio”, distância é: “1. Espaço entre duas coisas ou pessoas… 4. Separação.” Pois bem. Consultado o pai dos burros, eis aqui o problema: seria a distância razão para o término de uma relação entre duas pessoas?

Não espere que eu responda a essa pergunta. O máximo que posso fazer é expressar minha opinião – sincera – a respeito.

Não. A meu ver distância não é motivo para o fim de um relacionamento. Uma traição é um motivo. Uma outra pessoa (sem traição, no caso) é um motivo. Uma decepção também é um motivo. Mas distância, essa eu não consigo encaixar numa “lista de razões para fins de relacionamentos”. Sé é uma distância de 50 ou 500 quilômetros, isso não importa. Eu sempre acreditei numa coisa mais forte, que acaba por transformar uma distância de 5 mil km, numa de 5 centésimos de segundo, que é o tempo que o cérebro leva para lembrar de uma cena, de uma imagem (quer dizer, não sei o tempo que o cérebro leva para realizar tal ação, apenas ilustrei a coisa com um espaço desprezível de tempo). Não preciso de carro, não preciso de avião. Guardo em minha mente fatos, imagens, pessoas. Quando quero revê-las, coloco esta coisa que se localiza acima de meu pescoço para funcionar e… zás! Não acaba com a saudade, mas ao menos é um consolo.

Visitando novamente o “Aurélio”, busco a definição de consolo: “consolação”. Me dirijo para “consolação” e acabo por terminar com “consolar”: “…2. Dar sensação agradável a. p.3.conformar-se.” Ainda não fechei o “Aurélio”, estou agora na letra “A”. “A” de “amor”: “1. Sentimento que predispõe alguém a desejar o bem de outrem… 5. Afeição, amizade, simpatia…” Se isso é amor, eu a amava. Talvez ainda a ame, visto que quero o bem dela. Mas ela já passou – agora estou sozinho. Em busca de um consolo.

Eu, eu mesmo e eu de novo

Wednesday, July 29th, 2009

* Publicado no meu primeiro blog em 08 de julho de 2004. De lá pra cá mudei um tanto, mas não muito.

Aquela conversa séria: adiar o quanto for possí­vel. As roupas que seriam levadas para a viagem seriam separadas apenas poucas horas antes da saí­da. A mãe diz:

- Tem uma semana que eu venho falando com esse menino! Assim eu não aguento.

Arrumar o quarto? Minha bagunça é organizada até demais. Se arrumar é pior - não acho nada.

- Que dia é hoje?
- Hoje? Segunda. Vence quando?
- Quarta.
- Quarta eu pago, pode deixar.

Compromissos marcados: vou se puder, a depender do humor.

- Te ligo amanhã!

Eu não ligando, deve haver um retorno. Não havendo, bem, não era importante.

- Rapaz, o teu CD está comigo até hoje! Amanhã trago aqui.

Um “amanhã” que pode durar uma semana - ou mais.

Os prazos que me determinam são cumpridos, mas errar é humano, ninguém é de ferro:

- Não, professora, o que aconteceu é que não entendi bem a tarefa. Lhe procurei pela universidade mas não a encontrei. Prometo que trago na próxima aula.

Assim sou eu, e assim vou levando minha vida. Levo um puxão de orelha aqui e ali. Os amigos comentam, dizem que estou sumido. Mas, se não me ligam, eu vou ligar?

Se eu não fosse assim, seria outro. E em algum lugar do mundo algum outro seria assim, sendo, portanto, eu.

Charles Bukowski, um grande escritor

Thursday, May 21st, 2009

* Postado no meu primeiro blog em 20 de julho de 2004. Eu estava começando a ler Bukowski. Não posso precisar qual livro, mas tenho quase certeza de que me refiro ao volume de contos “Numa fria”, pois é o único livro dele que tenho sem a data de compra anotada. De lá pra cá li inteiro apenas outro livro do velho safado, “O capitão saiu para o almoço e os marinheiros tomaram conta do navio”, apesar de ter comprado vários outros títulos. Dos romances li alguns trechos; das coletâneas de contos, algumas histórias isoladas. A quem se interessar, recomendo veementemente, além dos dois já citados, “Fabulário geral do delírio cotidiano”, de contos, que contém pelo menos duas obras-primas.

Charles Bukowski é um daqueles escritores que chamam de “maldito”. Escreve sobre bêbados, drogados, a escória da humanidade. Em alguns de seus contos, a sensação que se tem ao lê-los, é de forte náusea, de nojo. Quase dá pra sentir o cheiro de vômito e mijo que ele relata.

Nos contos de Bukowski “A morte não fede. Só os vivos fedem, só os agonizantes fedem, só os podres fedem. A morte não fede”. As mulheres peidam, e matar não é algo anormal.

A leitura flui de maneira tal que você mal começou a ler um conto, e já está no fim de um outro. Isso não significa que é um escritor fácil. Muitas vezes não se sabe o que Buk quis dizer com seu escrito. É necessário uma segunda leitura, quem sabe até uma terceira. E ainda assim há o risco de não se entender a mensagem. Se é que existe alguma.

Um grande escritor, enfim. E eu estou adorando.

Há quase sete anos

Sunday, May 17th, 2009

Fuçando aqui e ali, consegui ter acesso a alguns posts do meu primeiro blog, inaugurado em 31 de agosto de 2002.

Como em breve completarei sete anos na blogosfera brasileira (passando por Terra, Uol, Blogspot, Wordpress e finalmente com um domínio próprio) e como encontrei alguns textos aproveitáveis no primeiro blog, resolvi republicá-los nos próximos meses numa categoria chamada “Retrato do blogueiro quando jovem”.

É óbvio que esses sete anos não são nada de mais e não significam nada, para vocês. Mas para mim significam muito. Nada mais justo que tirar alguns posts do limbo e dar a eles uma casa nova.

E vou logo avisando: não esperem grande coisa.

Pra começar, um miniconto sem título de julho de 2004:

Não tivesse Eduarda a ideia absurda de saltar daquele prédio, eu ainda estaria vivo.

“Se você se jogar eu também me jogo.”

“Se joga então que eu quero ver.”

E eu me joguei.

Quando, lá de cima, ela me viu espatifado no chão sendo engolido por uma poça de sangue, virou as costas e foi para o apartamento ver tv.