Eu te amo, cara

February 16th, 2010

Gosto de comédias românticas. Na verdade, gosto de comédias de um modo geral. Algumas românticas são bem bobinhas, mas outras são realmente muito boas. “Um lugar chamado Notting Hill”, por exemplo. É um filmaço. Ou “Os queridinhos da América”, que é bem legal. Deixe-me ver outro… Bom, de cabeça agora não lembro, mas tem mais.

Nos últimos tempos não tenho visto mais filmes desse gênero porque as últimas que vi por aí não me atraíram. “A proposta”, com Sandra Bullock, por exemplo, que fez o maior sucesso, não criei coragem ainda para ver. Até porque o par dela no filme, Ryan Reynolds, é quem vai dar vida ao Lanterna Verde no cinema. Aí fico receoso de ir ver o Lanterna e ficar lembrando dele com a Bullock em alguma cena engraçada. Isso me faria rir no meio do filme do grande Lanterna Verde, o maior de todos os super-heróis, e isso não seria nada legal.

Enfim. Semanas atrás vi o trailer de “Eu te amo, cara”, acho que no DVD de “G.I. Joe”, e fiquei interessado em ver o filme. Que chegou na locadora daqui de perto semana retrasada. Com esses dias de carnaval, acabei alugando o filme para assistir, o que aconteceu ontem.

O legal de “Eu te amo, cara” é que é um filme voltado mais para o público masculino. A história é a seguinte: logo no início do filme, Peter Klaven, interpretado por Paul Rudd, pede sua namorada, Zooey (Rashida Jones), em casamento. Em seguida ela liga para suas amigas, para contar a boa notícia - inclusive causando um certo desconforto a Peter: elas não sabem que Zooey está falando do viva-voz, com o noivo ao lado, e começam a falar sobre a primeira vez dos dois e outros detalhes mais íntimos. Mas ele acaba não comentando nada e leva numa boa. Ao chegarem em casa, ela pergunta se ele não vai ligar para nenhum amigo, para contar a notícia. Ele desconversa e diz que pode ligar para seus “amigos” depois. Mas a verdade é que Peter não tem amigos.

As amizades que ele possui são de mulheres. E aí começa um problema: Peter precisará de um amigo para ser seu padrinho de casamento. Ou seja: ele vai ter que fazer amigos, e aí está a graça do filme.

Seu irmão, que é gay, e sua mãe, começam a lhe ajudar, dando dicas de como fazer amizades e arrumando “encontros masculinos” para Peter. O problema é que esses caras não fazem o tipo de Peter: um é um torcedor fanático de futebol, o outro é… gay!, e acaba beijando Peter no fim de um “encontro”. Ele tenta também, sem sucesso, se aproximar do marido de uma das amigas de Zooey - mas acaba vomitando na cara dele.

E então, de forma totalmente espontânea e casual, Peter conhece Sydney (Jason Segel), com quem começa uma boa amizade. Tão boa que, em certo ponto, vai começar a atrapalhar seu relacionamento com Zooey.

Como estamos falando de uma comédia romântica, o final é feliz. Não sem antes Peter e Sydney também “entrarem em crise”. É uma pena não poder comentar com maiores detalhes uma situação do filme, quando Sydney pede uma boa grana emprestada a Peter. Ele empresta o dinheiro, confiando que o amigo devolverá a quantia, mas não comenta com Zooey - além do fato de o empréstimo ocorrer às vésperas do casamento, num momento em que eles precisam, e muito, de dinheiro.

E também não sem antes abordar outros temas caros a todos nós, como a questão da autoconfiança - um problema que Peter tem -, das convenções sociais e das conversas entre mulheres, que, segundo o filme, contam TUDO umas para as outras. Não que isso incomode aos homens, mas… será que contar TUDO, até mesmo as maiores intimidades - vejam, estou falando, mesmo, das MAIORES INTIMIDADES de um casal -, é mesmo necessário?

O resultado é um filme engraçado, divertido, mas também um tanto sério, porque nos faz pensar em nossas vidas, e em nossos amigos. Afinal, todo mundo deve ter um amigo como Sydney, o solteirão boa vida que vê todos os seus antigos “brothers” crescerem, casarem, terem filhos, enquanto ele continua meio que “parado no tempo”, sempre “curtindo a vida adoidado”. Algum dia ele precisará entender que é preciso também seguir em frente, “passar de fase”, digamos assim. Ou não?

Da graça de ler

February 15th, 2010

* O post abaixo foi publicado originalmente no que seria meu outro blog, o O Leitor, mas que por motivos de falta de tempo foi temporariamente abortado. A republicação aqui - com algumas pequenas alterações - se dá pelo fato de a Veja desta semana trazer uma entrevista com o escritor Nick Hornby, citado no post, e que estou lendo novamente neste momento - ainda o seu “Frenesi Polissilábico”.

Tenho o hábito de ler vários livros ao mesmo tempo. Não recomendo isso a ninguém, porque chega a ser um tanto esquizofrênico, e se o leitor não ficar bem atento, pode confundir uma obra com outra. Quantas e quantas vezes não me peguei lembrando de uma cena de um outro livro, e não do que estava em minhas mãos no momento?

Por outro lado, é uma espécie de termômetro. Começar vários livros diferentes ao mesmo tempo te dá a oportunidade de saber como você realmente está. (Por favor, não levem isto a sério, é apenas uma pseudoteoria minha.) Exemplo: você começa a ler um romance existencialista, um livro de contos bem-humorado e um outro de crônicas sobre livros. Se você terminar mais rápido o romance, é sinal de que você não está muito bem psicologicamente, digamos, mesmo que não se dê conta disso. Se o livro de contos bem-humorados acabar primeiro, é sinal de que você está bem; podes não estar bem, bem, mas está bem. E se o escolhido for o terceiro, com as crônicas literárias, é sinal de que você está procurando justamente uma orientação sobre o que ler, e que você está num momento bem zen, na minha opinião. Afinal, não está mal, nem bem. Apenas está. E isso é até legal, sabia?

Mas enfim.

No momento, estou lendo três livros ao mesmo tempo, se formos rigorosos. Se formos bonzinhos, estou lendo uns 6 ou 7, já não lembro. Um deles é “Frenesi Polissilábico“, de Nick Hornby. Comecei a ler pelo meio dele e só depois de dois artigos é que fui ler a introdução. Nela, encontrei o seguinte trecho:

“E por favor, pelo amor de Deus, parem de fazer pouco caso daqueles que estão lendo e curtindo um livro - ‘O Código Da Vinci’, por exemplo. Para início de conversa, ninguém sabe que tipo de esforço isso representa para o leitor. Pode ser o primeiro romance adulto que a pessoa esteja lendo na íntegra; pode ser o livro que finalmente revele o propósito e a alegria de ler para alguém que até então estava confuso pela atração que os livros exercem sobre os outros. E, de qualquer forma, ler por diversão é o que todos nós gostaríamos de fazer. Não quero dizer que todos deveríamos estar lendo romances água-com-açúcar ou suspenses baratos (embora, caso seja essa a sua praia, por mim tudo bem, pois vou lhe contar um segredo: nada de mau lhe acontecerá se você não ler os clássicos ou os romances que ganharam o Booker Prize deste ano; e, mais importante, nada de bom lhe acontecerá caso você os leia); estou simplesmente dizendo que virar páginas não deve ser como caminhar num pântano com lama até a cintura. Livros são para ser lidos, e se você achar que não dá pé, provavelmente a culpa não é de sua incapacidade: às vezes, os ‘bons’ livros podem ser bem ruinzinhos.”

Confesso que já fiz pouco caso de best-sellers, continuo fazendo e vou fazer sempre, acredito. Mas porque gosto de ser chato. Na verdade, sei que os best-sellers são o sustento do mercado literário. E os admiro. Sério, de verdade. Assim como os livros de autoajuda. Não fossem eles, não sei o que seria das editoras.

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Ontem assisti à entrevista que a escritora Thalita Rebouças concedeu a Edney Silvestre. Autora de livros para adolescentes, Thalita é uma das poucas escritoras brasileiras que podem viver exclusivamente de literatura. Isso, no Brasil, é algo raro. E alguém que consiga isso merece todos os aplausos. Mais que isso: é digno de observação e atenção. Afinal, esse alguém pode ter muito a ensinar. E Thalita tem, sim, bastante para ensinar. Se por um lado escritores como J.D. Salinger, Rubem Fonseca e Dalton Trevisan são reclusos e mesmo assim mantêm uma carreira de sucesso, Thalita prova que às vezes o escritor precisa é colocar a boca no mundo e “aparecer”, mesmo. Ou ele faz isso ou será mais um entre os milhares escritores desconhecidos que existem por aí.

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O que me levou a relacionar Hornby e Thalita foi o fato de ambos terem opiniões parecidas e eu tê-las conhecido no espaço de 24 horas. Thalita afirma que séries como “Harry Potter” fizeram os jovens ler mais. Livros como “O Código Da Vinci” fazem adultos lerem mais - o que Dan Brown vendeu e continua vendendo não é brincadeira…, vide seu novo livro, “O símbolo perdido”, que só no dia de lançamento nos Estados Unidos vendeu 1 milhão de exemplares (veja a notícia completa clicando aqui e depois em “Saiu na imprensa”).

Sou da opinião de que nem todos os que começam a ler best-sellers passam a ler melhor. Mas acredito que elas leem mais. E isso já é um bom começo, não?

O imitador de vozes, de Thomas Bernhard

February 15th, 2010

Curtos, absolutamente bem escritos e em sua maioria trágicos. Assim são os contos de “O imitador de vozes“, do escritor holandês de nascença mas austríaco de criação (e, consequentemente, de escrita) Thomas Bernhard.

O leitor interessado em literatura estrangeira quase certamente já ouviu falar em outros livros de Bernhard, como “O náufrago”, “Origem” ou “Extinção”, todos editados pela Companhia das Letras. Além desses, há livros do autor editados pela Rocco, como “Perturbação” e “Árvores abatidas”, mas estes são mais difíceis de encontrar em livrarias. Com alguma sorte, é possível encontrá-los em sebos.

À primeira vista, o que mais chama a atenção em “O imitador de vozes” é a forma como ele é escrito. Pode-se dizer que a linguagem é formal, talvez até um tanto rebuscada - sem qualquer pedantismo, é bom que se diga. Algumas passagens são tão exemplarmente bem escritas que o admirador da língua pode se ver lendo duas, três, quatro vezes o mesmo trecho, de tão belo. É importante mencionar, portanto, o excelente trabalho do tradutor da edição brasileira, Sergio Tellaroli.

Aparentemente, o narrador de todos os contos é a mesma pessoa, um jornalista. Austríaco, assim como Bernhard. Como dito no primeiro parágrafo do post, a maioria dos contos é trágica, mas há em muitos deles algo de cômico ou mesmo de fantástico - ou uma mistura dos gêneros, como no conto “Pisa e Veneza”, no qual os prefeitos de ambas cidades decidem trocar, na calada da noite, a torre de Pisa pelo campanário de Veneza, mas o plano é descoberto e ambos são internados em manicômios: “naturalmente, o prefeito de Pisa no manicômio de Pisa e o prefeito de Veneza no manicômio de Veneza”. Esse conto, aliás, pode ser uma alusão aos políticos megalomaníacos que prometem - e às vezes até tentam fazer - obras impossíveis ou completamente desnecessárias.

Por mais absurdas que algumas das histórias pareçam ser, elas sempre têm alguma conexão com a realidade. O conto que dá título ao livro, por exemplo, e que pode ser lido na capa mesmo, é sobre um imitador de vozes que consegue imitar diversas pessoas. Mas ao pedirem para que ele imite sua própria voz, ele diz “que aquilo não sabia fazer”. É uma metáfora perfeita para a perda de identidade, algo que vem acontecendo com mais frequência nesses tempos do “celebritismo supersônico”, digamos assim. Depois de alcançada a fama e a fortuna, o sujeito pode se perder no meio de tanto deslumbre. Vejam o caso de Adriano, hoje atacante do Flamengo, que além dos problemas pessoais que teve enquanto estava na Itália - morte do pai e outras coisas -, aparentemente não tinha mais o que conquistar, afinal, era o “imperador da Itália”. Ficou tão desnorteado que parou por um tempo com o futebol, voltou para o Brasil, visitou amigos no morro onde foi criado e, depois de “reencontrar a alegria de viver”, foi jogar no Flamengo, seu time do coração.

Como os contos são curtos, o leitor fica tentado a ler o livro de uma vez só, mas não recomendo fazer isso. Minha sugestão, caso alguém se interesse pela obra e resolva adquiri-la, é ler um determinado número de páginas por dia, intercalando este livro com outro. É que o leitor pode “cansar” do formato das histórias. Que são excelentes e agradáveis de serem lidas, mas algumas delas requerem uma maior atenção e, como dito anteiormente, algumas releituras. Daí a necessidade de uma parada para reflexão, deixar o livro um pouco de lado, e voltar à leitura no dia seguinte ou dois dias depois. Mas, claro, é só uma sugestão.

Depois de lido “O imitador de vozes” e de ter lido um pouco sobre o autor, ficou a vontade de ler mais livros dele. Infelizmente, suas obras são um tanto caras, e no momento não poderei comprar nenhuma. Mas com certeza lerei mais livros de Thomas Bernhard. Esta primeira experiência foi muitíssimo proveitosa.

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Post relacionado:Serviço público“.

Cine Privê, de Antonio Carlos Viana

February 9th, 2010

* Quem acompanha o blog já sabe: na revista Conhecimento Prático Literatura nº 28 foi publicada uma entrevista que fiz com o escritor Antonio Carlos Viana, por ocasião da publicação recente do seu livro “Cine Privê”. Como a entrevista já pode ser lida no site da revista, e como houve alguns cortes na introdução que fiz para ela, resolvi publicá-la - a introdução - aqui no blog. A diferença é pouca, mas ainda assim aí vai.

Pode-se dizer que o contista sergipano Antonio Carlos Viana escreve sobre o inevitável e o inusitado da vida. Mas também sobre o risível, o ridículo, o irremediável. Sua prosa é rápida, simples, calculada, o autor não se perde em devaneios ou tergiversações. Seus contos são breves, porém fortes, impactantes.

“Cine privê”, seu terceiro – e mais recente – livro de contos, é uma obra de rara qualidade e simplicidade. Não obstante a diversidade e as virtudes da literatura brasileira contemporânea, poucos são os escritores que conseguem realizar obras tão coesas e harmoniosas. E tão sóbrias. Há, nos contos de “Cine privê”, temas e situações que os autores mais jovens adoram abordar em seus livros, como sexo e violência gratuita. Mas Viana os aborda por outros prismas: sexo se transformar em sensualidade; e violência em crueldade. O que falta à maioria dos nossos escritores – talvez pela idade ou pela inexperiência, ou mesmo pelo pouco talento – sobra em Antônio Carlos Viana: classe.

A grande maioria dos personagens dos contos de “Cine privê” vive em situações precárias. São pessoas que estão prestes a perder seu lar (“Santana Quemo-Quemo”), que são reféns de um subemprego (“Cine privê”), ou que precisam andar quilômetros para enterrar um morto (“Nós, a maré e o morto”), por exemplo. Mas há também histórias de personagens que descobrem seu primeiro amor (“Eliazar, Eliazar”) ou sua sexualidade “Esperanza”; e há, ainda, histórias engraçadas, mas não felizes (“Tina e as forças cósmicas”), e contos sutis e delicados (“Quando meu pai voltou”).

Apontado por muitos como um dos mestres do conto contemporâneo – suas obras anteriores (“Aberto está o inferno” e “O meio do mundo e outros contos”) são elogiadíssimas –, Antonio Carlos Viana, apesar de utilizar em suas histórias personagens pobres e sofridos, diz não ser um escritor engajado. E mesmo que em alguns contos trágicos ou tristes haja uma ponta de esperança, o autor não se diz otimista, mas sim um “pessimista em último grau”. Na entrevista a seguir, realizada por e-mail, Antonio Carlos Viana fala sobre sua carreira, sobre “Cine privê” e sobre a literatura brasileira contemporânea.

Entrevista no blog 2+

February 6th, 2010

Há alguns dias foi publicada, no blog do Caderno2+, do jornal A Tarde, uma entrevista que concedi ao jornalista Breno Fernandes. Na verdade, a entrevista seria para o Julio, mas ele não poderia responder em tempo hábil, e passou a peteca pra mim.

O resultado está aqui.

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Falando em entrevistas, fiz um Formspring pra mim. Para quem não conhece, é uma espécie de questionário no qual qualquer pessoa pode postar uma pergunta para o usuário responder - se ele quiser responder, claro. Eis o endereço do meu, para o caso de alguém querer fazer perguntas ou ler as que já estão lá: http://www.formspring.me/entretantos

Pequenos fantasmas, de Humberto Werneck

February 4th, 2010

Em abril de 2005 o jornalista Humberto Werneck imprimiu, em uma tiragem curtinha, de 500 exemplares, seu único livro de ficção até o momento: “Pequenos fantasmas”, de contos. O livro também é curto, tem 117 páginas. Nele, estão 10 histórias curtas que Humberto escreveu ali entre seus 20 e 20 e poucos anos. Apenas um dos contos, o último, intitulado “A invasão”, foi escrito depois dos 30, numa “brevíssima recaída”, como diz o autor.

Quase três anos depois, em fevereiro de 2008, recebi o “Pequenos fantasmas” nº 489, devidamente assinado e com dedicatória do autor. Pensei que iria cair no livro de imediato, mas não foi o que aconteceu. Na época eu estava - como sempre estou - com uma montanha de leituras pendentes, sendo uma delas do livro “Fichas de vitrola & outros contos”, de Jaime Prado Gouvêa, amigo de infância de Humberto. Pensei comigo: “não posso ler o livro do Humberto antes do livro do Jaime, seria uma grande sacanagem com o Jaime”. Então fiz um acerto comigo mesmo: só leria “Pequenos fantasmas” depois de ler “Fichas de vitrola”.

Há alguns meses não apenas li, mas resenhei o livro do Jaime e fiz uma pequena entrevista com ele - o material foi publicado no Digestivo. Era a ocasião então de encarar o livro do Humberto. Mas não foi o que aconteceu. Por uma série de fatores, não pude fazer isso. Na verdade, devo confessar, havia de minha parte um certo receio. Algo que de certa forma me fez demorar de ler o “Fichas de vitrola”. O receio de os livros não serem bons. Porque a minha expectativa era enorme, tanto para um caso quanto para o outro. Eu queria que os livros fossem bons. Quando leio livros de amigos ou pessoas que admiro e respeito, tenho essa coisas de desejar que a obra tenha muita qualidade. E aí, se ela não tem, fica aquela ponta de decepção. Além disso, há o risco de a pessoa perguntar: “o que você achou do meu livro?”. Se você não gostar e dizer que não gostou, há uma grande chance de a pessoa simplesmente deixar de falar com você, ficar ressentida, essas coisas. Falo porque sei: já aconteceu comigo.

Resultado: só vim ler o “Pequenos fantasmas” agora, há menos de uma semana. E eis que me deparo com um belo livro.

Os dois primeiros contos, “Menino no quintal” e “Vagalume”, lembram um pouco o Fernando Sabino do início de “O encontro marcado”. Eis os inícios de ambos, respectivamente: “Grudado no muro, braços envolvendo os joelhos, o olhar fincado no minuto que pingava da torneira - o menino quieto, se pensando. Horas e horas longe de tudo. O quintal o que era?”; “Os vagalumes moravam perto da noite, na beira do rio. Pelas seis horas brotavam da neblina e picotavam a sombra num vôo luminoso. O menino havia de esperar, encolhido na moita, para ter o vagalume maior de todos”.

A infância, aliás, é também tema presente no terceiro conto, “Oito anos”, no qual um garoto é acordado por sua tia no meio da madrugada. O garotinho levanta sonolento, fica sem saber o porquê de acordar àquela hora, mas aos poucos vai sendo revelado, para o leitor, o motivo. Ele, Dudu, fica sabendo depois, já perto do fim da história. O conto termina com a reação inusitada, porém sincera, do garoto.

A partir daí os protagonistas envelhecem. Em “Acontecimento de família”, um pai sofre com a vergonha de saber - não só ele, mas toda a vizinhança - que sua filha não é mais virgem; o protagonista de “O condenado” é um homem atormentado por uma culpa que o deixa refém de si mesmo e de seus medos; “Febre aos 39 graus” narra um instante na vida de um homem que, depois de anos de fidelidade à esposa, se rende à pressão dos amigos e sai para uma farra - e então se rende aos encantos de uma moça…; em “Quarta-feira” vemos um condenado - este de verdade, porque está na cadeia - não querer enxergar o óbvio: está perdendo sua esposa para outro (ou para a sua ausência); “Do terceiro andar” tem como protagonista o bedel de um colégio interno para meninas, Boaventura Mendes, que tem como prazer assistir às aulas de ginástica das garotas; a morte de um homem e seus desdobramentos - velório, enterro e tudo o que eles acarretam - é o mote de “O doloroso dever”, penúltimo conto do livro; que termina com o fantástico em todos os sentidos “A invasão”, cujo enredo é o seguinte: depois de passar anos morando em hotéis, um homem decide, depois de aposentar-se, ir morar em uma casa. Ao começar a mobiliá-la, coisas estranhas acontecem, como ele receber móveis exatamente iguais aos que desejava e que iria pedir, mas sem tê-los encomendado.

Escritos de maneira peculiar, um tanto quanto rebuscada, mas não muito, e sem pedantismo, os contos de “Pequenos fantasmas” têm uma doçura, uma leveza e um amargor indeléveis e inconfundíveis. Quem conhece os livros, as matérias e as crônicas de Humberto Werneck percebe que ali pelos seus 20 e poucos anos ele já possuía o que muitos autores levam uma vida inteira procurando e não encontram: estilo.

Na nota introdutória ao livro, Humberto explica que seu título seria “Primeiros movimentos”, caso não tivesse o autor retirado seu original da fila de publicação da Imprensa Publicações, órgão do governo de Minas Gerais também responsável pela edição do Suplemento Literário de Minas Gerais, onde Humberto trabalhou durante algum tempo (importante dizer que um dos maiores incentivadores de Humberto foi ninguém mais ninguém menos que o escritor Murilo Rubião). Mas um livro pronto e não publicado incomoda - talvez seja esse o maior tormento de um escritor, maior ainda que o de querer escrever uma obra e não conseguir. Na introdução, Humberto diz: “A passagem dos anos não atenuou a desconfortável sensação de que, tendo escrito, faltara completar o gesto, publicando aqueles contos de juventude, até como forma de livrar-se deles - para evitar que, na gaveta, ou mesmo rasgados, virassem fantasmas, pequenos fantasmas.”.

É bem provável que, hoje, as 500 cópias de “Pequenos fantasmas” estejam devidamente bem guardadas pelos seus 500 (ou 499, caso o autor tenha ficado com uma delas) leitores. É envaidecedor poder dizer que sou um dos felizardos, e certamente assim pensam todos os que foram agraciados com esta honraria, a de ter um exemplar desta pequena joia literária. Mas é um tanto frustrante saber que esses contos não serão lidos por um público maior, que este pequeno grande livro - acho que já usei esta expressão em alguma outra resenha, mas enfim - não poderá ser encontrado em livrarias. Fica aqui publicamente expresso meu desejo de que Humberto Werneck solte mais de seus fantasmas por aí - se ele assim o desejar, claro. E, caso isso aconteça, não se assustem: o único assombrado por esses fantasmas era o autor.

Na Conhecimento Prático Literatura 28

February 3rd, 2010

Já está nas bancas - ao menos nas daqui da cidade - a revista Conhecimento Prático Literatura número 28, com Oscar Wilde na capa.

Desta vez colaborei com uma entrevista com o escritor Antonio Carlos Viana. O gancho foi o lançamento ainda recente do seu livro de contos “Cine Privê“. Uma das perguntas e um pouco da introdução sobre o livro ficou de fora, e vou reproduzir aqui no blog primeiro a pergunta, logo abaixo, e nos próximos dias a introdução, falando um pouco sobre o livro.

Nesta mesma edição, entrevistas com Michel Laub e Cristiana Guerra, numa matéria sobre literatura na internet, matérias sobre Jostein Gaarder, Oscar Wilde, uma outra sobre “Ana Terra” e “Um certo capitão Rodrigo, de Erico Verissimo, e muito mais. Quem puder comprar, compre!

E agora, a pergunta/resposta que ficou de fora:

O senhor tem lido os novos autores brasileiros? Se sim, como vê a produção atual?
Sim, leio muito a produção literária brasileira atual. A literatura não para, e nunca se publicou tantos autores novos como hoje, por aqui. É uma pena que os estudos literários dos nossos cursos de letras ainda ignorem essa produção. No máximo chegam a Rubem Fonseca, quando há autores muito bons surgindo e que merecem atenção. A poesia, sobretudo, está cada vez mais refinada. Agora mesmo estou lendo “Cinemateca”, de Eucanaã Ferraz, e a gente vê ali um trabalho incansável com a linguagem. Há também Paulo Henriques Britto, Dora Ribeiro, Cláudia Roquette-Pinto. Na prosa temos um Alberto Mussa, uma Adriana Lunardi, Rodrigo Lacerda, gente nova que escreve muito bem. Há muitos outros, mas não dá para citar um a um, a lista é grande.

Edney Silvestre entrevista Ingo Schulze

January 31st, 2010

Excelente esta entrevista que o Edney Silvestre fez com o escritor alemão Ingo Schulze, autor de “Vidas Novas”, que resenhei para a Brasileiros deste mês que acaba hoje. Não deixem de ver!

O olhar cingido (trecho)

January 29th, 2010

“- Fui numa exposição de arte outro dia. Com uma dona aí. Só pra agradar e depois comer. Cada quadrinho custava entre 4 e 6 mil pratas. Tu acredita?

- Acredito. Está vendo aquele ali?

Caminharam juntos até o outro lado da sala.

- É uma marina do Guinard. Paguei 50 mil dólares por ele.

- Bonitinho. Lembra Paquetá. Passei umas férias lá uma vez.”

Trecho do romance “O olhar cingido“, de Flávio Braga, lançado na semana passada pela editora Record, e que chegou hoje por aqui. Comecei a ler só pra descansar um pouco, ia ler as primeiras páginas apenas. Nessa brincadeira, cheguei na página 58. O início mesmo não é muito bom - nota: não disse que o início é ruim, disse que não é MUITO bom -, mas o romance vai crescendo e, quando você percebe, já foi envolvido pela história.

Em breve digito outro trechinho, uma piada engraçadíssima contada por um personagem.

Os primeiros livros de 2010

January 27th, 2010

Daqui a pouco janeiro termina. Aproveito essa proximidade com o fim do mês para fazer um pequeno post citando alguns dos livros que recebi este mês e minhas primeiras impressões sobre eles. Talvez passe a fazer isso no fim de cada mês. Talvez.

De Martí a Fidel - A Revolução Cubana e a América Latina“, de Luiz Alberto Moniz Bandeira - Há anos que tenho um grande interesse pela História de Cuba, apesar de ter o que poderia ser batizado de “trauma de Che”, de tanto ver militantes estudantis revoltatos e sem noção vestidos com aquela velha e manjada camisa com a foto de Che Guevara. Cuba certamente não se resume a Che, bem como nem apenas de estudantes revoltados e sem noção é feita a militância estudantil - mas é uma pena que, neste último caso, apenas os revoltados se destaquem, e é uma pena Che ser praticamente o único lembrado quando se fala de Cuba - além de Fidel, claro. É desses estigmas que quero escapar. Por isso o interesse na História cubana.

Três Tristes Tigres“, de Guillermo Cabrera Infante - Recebi um dia depois do “De Martí a Fidel”, mas acabei lendo primeiro. Quem me recomendou sua leitura foi o Humberto Werneck, com quem compartilhei meu interesse por Cuba. Ele de pronto citou Cabrera Infante e uma série de autores que anotei num bloquinho de papel que estava ao meu alcance na hora. “TTT” é um livraço. Em breve mais palavras minhas sobre ele.

Moça com chapéu de palha“, de Menalton Braff - Foi com alegria que recebi o novo romance de Menalton. Comecei a ler pouco depois que o recebi e estou adorando, como já disse num post e também no Digestivo. Em pouco tempo escreverei mais sobre ele.

Trilogia “O império das Formigas”, de Bernard Werber - Sempre tive muita curiosidade sobre as formigas. Me admiro muito com a organização delas, aquela coisa de andarem em fila e se cruzarem e se chocarem, e se juntarem para carregar uma folha… É fascinante, como diria @oclebermachado. Essa trilogia é composta por três romances: “As formigas”, “O dia das formigas” e “A revolução das formigas”. Foi publicada originalmente há mais de 10 anos, na França, e só em 2008 veio dar as caras por aqui. Bom, antes tarde do que nunca. Até porque, se tivesse vindo antes, talvez eu nem tomasse conhecimento dos livros. Bernard Werber passou 15 anos estudando formigas para escrever seus livros. Ou seja: o cara não está para brincadeira. Comecei a ler aqui, só por ler mesmo, as primeiras páginas do primeiro livro e fui lendo, lendo… cheguei à página 22. Ok, começa na 11, mas mesmo assim. Nem percebi que já tinham se passado mais de 10 páginas. Vou deixá-los bem pertinho de mim, para sempre que tiver uma folguinha, ler um pouco. Ah, e quem tiver curiosidade, aproveita: o box com os três livros está quase de graça no Submarino (até o momento em que publico este post, ele custa 59,90 e está com frete grátis).

Além desses, recebi um outro livro que está para ser publicado e, por conta disso, não posso citá-lo agora. Li seu primeiro capítulo e achei soberbo. Preparem seus bolsos: parece ser um livro daqueles: imperdível.

Outros que chegaram por aqui e me surpreenderam foram “Museu de tudo“, de João Cabral de Melo Neto (que eu sinceramente achei que não fosse gostar) e “O iconoclasta“, de Gregory Berns, de um novo selo da editora Record, o Best Business. Fiquei tentado a reproduzir, aqui no blog, um poema que integra “Museu de tudo”, mas prefiro deixar a dica do livro e sugerir que, se vocês puderem, o folheiem na livraria (não deixem de ler os poemas da página 52 e 61). Sobre “O iconoclasta”, fica uma definição da palavra que dá título ao livro, e que inclusive está na capa dele: “Pessoa incomum que interpreta a realidade de maneira distinta e faz o que o senso comum julga inalcançável”.

Os espiões“, de Luis Fernando Verissimo e “A lógica do cisne negro“, de Nassim Nicholas Taleb eu já queria faz tempo. A primeira frase de “Os espiões” é perfeita: “Formei-me em letras e na bebida busco esquecer”. Li muito o Luis Fernando anos atrás, vários livros de crônicas dele, e achei geniais os textos do Analista de Bagé. Deste romance eu li as primeiras páginas e gostei muito. Em breve me dedico a ele. Já “A lógica do cisne negro” talvez demore um pouco mais de ser lido - mas pretendo fazer isso ainda neste primeiro semestre, junto com “O iconoclasta”. O que mais me atraiu no livro de Taleb são as citações que ele faz a escritores como Dostoiévski, Nabokov, Buzzati e uma série de outros. Como é um livro que requer um pouco mais de atenção e método, deixarei para ler quando tiver com um pouco mais de tempo. E ultimamente tempo é algo que eu estou negociando feito o mais sovina dos pães-duros deste mundo.