Na CP Literatura 29

March 25th, 2010

Já está nas bancas a revista Conhecimento Prático Literatura nº 29, cuja capa é dedicada a J.D. Salinger.

Nela, tem uma matéria minha sobre o escritor Menalton Braff. Na verdade, uma resenha de seu novo romance, o excelente “Moça com chapéu de palha“, além de uma entrevista com o autor.

Esta edição da CPL traz também um conto meu, chamado “Teto branco”. Trata-se de meu primeiro conto publicado em papel. Então, não percam tempo: comprem a revista e guardem com o maior carinho hehe Eu já comprei a minha.

Palavra, por Humberto Werneck

March 23rd, 2010

O texto abaixo, de Humberto Werneck, foi reproduzido pelo Artilharia Cultural, que merece aplausos pela reprodução. O texto é muito bom. Se foram eles que descobriram sua existência, os aplausos devem ser feitos de pé.

“Tomá-la como coisa viva, pulsante, não como vogais e consoantes sobre a folha de papel, tomá-la como vocais, soantes, não como pobre envoltório de informações cerebrais. Tomá-la nos olhos, na boca, nos ouvidos, na pele dos dedos e do corpo, para sentir antes de compreender. Considerá-la como fim, bem mais do que meio, como destino bem mais do que veículo. E, gostosa brincadeira, repeti-la, repeti-la à exaustão, até que à força da repetição o significado se esvaia, se desprenda, como a ostra de sua concha, e em seguida pescar, no aquário das sonoridades, do desenho que fazem, juntas, aquelas vogais e consoantes, uma nova ostra para aquela concha. Mais justa, exata e palatável que a primeira, certamente, a deslizar na língua em todos os sentidos. Quem sabe, trocar os habitantes de diversas conchas para que eles, em casa nova, se carreguem de energia como bateria a que se dá um novo sopro. Onde isso ou aquilo ficará melhor? Despir conteúdos cansados de seus invólucros, buscar para eles a vestimenta mais precisa na gôndola dos magazines verbais, no mar das palavras em situação dicionária (obrigado, poeta), e provar, prover, provocar, esgotar as mil possibilidades desse espelho em que se ajusta o foco da perfeição. Em nome do prazer, ignorar categorias – gramaticais, ortográficas, sintáticas, sexuais. Depois de inventariar as prateleiras, inventar, haute couture onde não há prêt-à-porter, onde não há o artigo, o substantivo, o adjetivo. Como quem descobre o som de uma temperatura, o tempero da temperatura na boca sorvendo o líquido não suficientemente frio: a cerveja meio quente não está morna, está môrna. Como os japoneses em São Paulo, tomar liberdades. Em todos os sentidos. Em todos os cinco, de preferência.”

Senna 50

March 21st, 2010

Ayrton Senna da Silva, o maior piloto de Fórmula 1 de todos os tempos - só aceito discutir isso se a outra opção for Juan Manuel Fangio -, faria hoje 50 anos se estivesse vivo. Estão sendo feitas uma série de homenagens ao Ayrton, tanto off quanto on-line. Uma delas é do Instituto Ayrton Senna, que colocou no ar o site Senna 50, que está dialogando com redes sociais - Twitter, Facebook etc. - e prestando uma bela homenagem.

Já falei sobre o Ayrton aqui no blog, por ocasião dos 15 anos do trágico acidente que tirou sua vida, em Ímola. Contei como foi minha reação ao acidente e tudo o que veio depois, naquele 1º de maio, mas não me ocorreu algo que pensei dias atrás: sou fã do Ayrton, ele é um dos meus ídolos, mas, apesar de ter sua biografia há anos, ainda não a li.

E daí que isso me levou a pensar na paradoxal relação que alguns de nós tem com seus ídolos, com as pessoas que admiramos de uma maneira exagerada, ou mesmo com as pessoas que amamos. Muitas vezes nós “ignoramos” os defeitos e erros dessas pessoas simplesmente porque nossa admiração por elas nos faz “relevar” até mesmo suas más atitudes. Preferimos até desconhecer certas coisas, para que não haja o risco de uma decepção - ou decepções - ir minando a admiração que temos por elas.

Não posso afirmar que seja exatamente isto o que me fez não ler ainda a biografia do Ayrton. Até porque não sei se é esse o caso. Que o Ayrton tinha seus defeitos, todo mundo sabe. Afinal, ele é humano. Mas se esses defeitos são tão grandes a ponto de fazer um fã incondicional “ignorar” a biografia dele, não sei dizer. Assim como a dele, não li a biografia de Nelson Rodrigues, outro que admiro demais, apesar de tê-la também há alguns anos. Mas tendo a achar que seja este o motivo: não querer pagar pra ver - no caso, ler pra saber.

Meses atrás, um amigo me confessou estar um tanto desapontado com certas descobertas que vinha fazendo, sobre pessoas que ele vinha pesquisando para uma biografia. Ele me disse que chegou num ponto em que não conseguia mais ir adiante. Decidiu interromper o projeto por algum tempo e depois retornar a ele. Complicado, não?

Acho que existe em nós a vontade de manter determinadas pessoas ou mesmo determinados acontecimentos numa espécie de redoma, longe de imperfeições. Algo ingênuo e ilusório, já que a realidade e os fatos sempre dão um jeito de se colocarem diante de nós.

A edição que tenho da biografia do Ayrton não me permite sair com ela em mãos. É um pouco grande, além de eu querer mantê-la bem conservada por um looongo tempo. Saiu recentemente uma edição “de bolso” dela. Acho que vou comprar, pra poder andar com o livro e, finalmente, me dedicar a lê-lo.

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É quase revoltante o fato de não haver no mercado um DVD sobre o Ayrton feito por brasileiros. A rede Globo tem um acervo incrível de imagens do Ayrton, tem acesso livre a pessoas que conviveram com ele, tem dinheiro de sobra pra fazer um DVD triplo, quádruplo, sei lá, uma caixa com 10 discos só de imagens, entrevistas, corridas marcantes etc., e, sabe-se lá por que, simplesmente não faz isso. Tem também a editora Globo, que poderia publicar um livro com imagens do Senna, depoimentos sobre ele, as frases dele, enfim, mas não o faz. Fico me perguntando o motivo, mas não consigo pensar em nenhuma resposta.

A única coisa que sei é que o Brasil esquece muito fácil de tudo o que deveria lembrar. É por isso que a política continua do jeito que está. Collor fez o que fez e foi eleito senador. Arruda fez o que fez e foi eleitor governador. É tudo muito triste.

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Mas ao menos no ano passado saíram dois livros legais sobre o Ayrton: Ayrton Senna - Esporte Com Arte 2010 e Ayrton Senna - Uma Lenda A Toda Velocidade. E dá pra encontrar pelo menos 1 DVD à venda: An Official Tribute to Ayrton Senna.

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Vejam também:

- Post de Rafael Lopes sobre Senna
- Homenagens a Senna se estenderão ao longo de 2010

O futuro (incerto?) dos livros

March 19th, 2010

É o título da minha coluna que entrou no ar hoje, no Digestivo. Confiram lá!

Olho por olho, de Lucas Figueiredo

March 17th, 2010

O material abaixo foi publicado na revista Conhecimento Prático Literatura nº 26.

Todos os livros do jornalista mineiro Lucas Figueiredo são sobre temas espinhosos. Em “Morcegos Negros” (2000) ele se dedicou a pesquisar um dos capítulos mais vergonhosos da História recente do Brasil, a Era Collor. Depois, escreveu sobre o serviço secreto brasileiro, em “Ministério do Silêncio” (2005). Pouco tempo passou e Lucas decidiu destrinchar mais um fato recente da nossa História, o mensalão, no livro “O Operador - Como (e a mando de quem) Marcos Valério irrigou os cofres do PSDB e do PT ” (2006). E agora, em “Olho por olho“, o jornalista mineiro se debruçou sobre mais um período negro da História do Brasil: a ditadura.

“Olho por olho” conta a história de dois livros importantíssimos para o entendimento dos anos de chumbo: “Brasil: Nunca Mais”, escrito pelos que eram contra o regime; e “O livro negro do terrorismo no Brasil”, escrito pelos militares, mais conhecido pelo codinome “Orvil”, que é a palavra “livro” ao contrário. Mais que um apelido, “Orvil” revela a intenção real do livro: não apenas mostrar a ditadura segundo o exército, mas sim desconstruir e derrubar o “Brasil: Nunca Mais”.

A maioria das pessoas que leu o “BNM” talvez não saiba que suas 312 páginas (número referente à 36ª edição do livro, editado pela editora Vozes desde 1985) são o resultado de uma condensação de quase 7 mil. Os responsáveis por essa tarefa foram o jornalista Ricardo Kotscho e o ex-preso político – torturado pelos militares – Frei Betto. O levantamento dessas 7 mil páginas de documentos foi feito através de uma operação chamada “Testemunhos Pró-Paz”, digna dos melhores roteiros de filmes de espionagem. Como foi organizada a operação, quem participou dela, quem a bancou financeiramente, quais os perigos que passaram os integrantes do projeto, tudo isso é narrado por Lucas Figueiredo. Que faz o mesmo com o “Orvil”, que, sem sua “versão final”, digamos assim, contava 919 páginas divididas em dois volumes. Mas quais foram os militares responsáveis por sua criação e execução?; qual motivo o deixou “engavetado” por tantos anos?; quem vetou sua divulgação? Tudo isso é esclarecido pelo jornalista mineiro.

Um livro revelador em todos os sentidos, “Olho por olho” é certamente uma das obras mais importantes lançadas nos últimos anos no Brasil, porque, além de contar a saga de dois dos mais importantes livros brasileiros de todos os tempos, ele também apresenta fatos históricos que precisam ser conhecidos e questionamentos que precisam de respostas.

Na entrevista a seguir, realizada via e-mail, Lucas Figueiredo, vencedor de três Prêmios Esso, fala sobre seu livro, sua inclinação para as reportagens de fôlego e sobre jornalismo e o fim dos jornais.

Quais foram as maiores dificuldades que você enfrentou durante a escritura de “Olho por olho”?
A maior dificuldade, sem dúvida, foi conseguir uma das quinze cópias artesanais do Orvil, o livro secreto que o Exército produziu entre 1985 e 1988 e que nunca foi publicado. Comecei minhas buscas pelo Orvil em 1998 e só obtive uma das 15 cópias, por intermédio de uma fonte militar, em 2007.

De onde vem sua predileção pelo jornalismo investigativo/político?
Não gosto muito desse termo “jornalismo investigativo”; prefiro “reportagem”, que é algo que se faz há séculos. Acho que, no Brasil, nós jornalistas temos o papel imenso de revelar as mazelas que nos atravancam. Meu fascínio é mostrar o que dá errado, com a esperança de que isso ajude a fazer o certo.

Nos últimos anos foram lançados muitos livros sobre os anos de chumbo no Brasil. Isso ocorre porque finalmente temos o distanciamento necessário para analisar friamente os fatos ou porque ainda há muito a ser dito sobre o assunto? Você acha que algum dia esse tema vai se esgotar?
Nos últimos anos, tem vindo à luz muita informação nova sobre o período, por isso a grande produção. Como a ditadura ainda tem grandes mistérios, como o destino dos 130 desaparecidos políticos, ainda temos campo para a publicação de centenas de obras. O interesse nunca irá se esgotar, porque esse foi um dos períodos mais trágicos do país.

Me parece que, durante o ensino médio, a História Contemporânea do Brasil não tem a atenção que merece. Fala-se muito sobre “Descobrimento” e pouco sobre a Ditadura, na minha opinião. E isso resulta em jovens que mal sabem que, durante anos, nosso país foi governado por militares, por exemplo. Você concorda? Isso não prejudica o desenvolvimento da nação e o entendimento da nossa situação social e política?
O problema é que nas escolas, em geral, a história é ensinada de forma mecânica, sem atrativos. Por isso os jornalistas têm um papel importante nesse campo, ou seja, não apenas levar informação histórica de qualidade ao público, mas também tornar a própria História uma coisa atraente. Aposto que muitos brasileiros aprenderam muito sobre Getúlio Vargas lendo os livros de Fernando Morais, muito sobre a ditadura lendo Elio Gaspari, e sobre o “Descobrimento” lendo Eduardo Bueno.

Mudando um pouco de assunto: recentemente o STF derrubou a exigência de diploma em jornalismo para se atuar na área. Naturalmente, houve muita reclamação por parte dos estudantes de jornalismo e também de jornalistas. Na sua opinião as reclamações são justas ou o STF agiu corretamente ao colocar um fim na exigência do diploma? O jornalismo ganhou ou perdeu com isso?
Acho que o jornalismo ganha com o fim da exigência do diploma. Nunca entendi porque um filósofo, um advogado, um historiador não poderiam ser também bons jornalistas. Tenho um amigo formado em matemática que é um dos melhores e mais corretos repórteres que já conheci. O que o diploma escondia era uma reserva de mercado.

Ainda sobre jornalismo: quase todos os dias alguém fala em fim dos jornais e até no fim do próprio jornalismo. O que você acha disso? Os jornais - e o jornalismo - vão mesmo acabar? O destino de reportagens como as suas será, mesmo, os livros? Ou haverá espaço para reportagens longas nos jornais e revistas? Você arrisca alguma espécie de previsão?
Muitos jornais vão acabar e os que sobreviverem terão de fazer grandes mudanças por questões financeiras, ou seja, terão de “encolher”. O que é uma pena, porque os jornais, com as reportagens, têm tido grande importância na história recente do país. Se a reportagem migrar para outro suporte, não vejo problema. Mas até agora a internet não tem rendido o suficiente para os portais terem jornalistas de qualidade fazendo reportagens. Nenhum portal brasileiro tem, por exemplo, um correspondente na Venezuela, na China, em Buenos Aires ou em Washington, como os jornais. Acho que passaremos por um período nebuloso, no qual teremos menos reportagens, ou seja, menos informação de qualidade. Mas acho que isso pode ser corrigido no futuro.

O que faz um bom jornalista? Uma graduação na área é mesmo necessária ou uma boa bagagem de leituras e, mais que isso, “correr atrás” dos fatos resolve? Quais os conselhos que você daria a um estudante de jornalismo ou a quem está dando os primeiros passos na profissão?
Primeiro, uma boa formação humanista. Toneladas de leitura: imprescindível!!! Por último, leitura de um bom jornal, pelo menos, da primeira a ultima página, incluindo editoriais e cartas ao leitor. As dicas: vá para a rua, não tenha preguiça, cheque seus dados obstinadamente!

Você já está pensando (ou trabalhando) num próximo livro? Se sim, pode revelar qual o assunto e quando pretende publicar?
Neste momento, estou lançando “Olho por olho”. Mas também estou trabalhando em outro livro, que deve ser publicado no segundo semestre do ano que vem. O assunto, por enquanto, é segredo…

Se eu fechar os olhos agora, de Edney Silvestre

March 16th, 2010

Em dezembro de 2009 foi publicada, na revista Brasileiros, uma entrevista que fiz com o Edney Silvestre, sobre seu primeiro romance. Além da entrevista eu havia feito uma resenha do livro, que foi parcialmente utilizada na introdução à entrevista. O texto na íntegra você lê abaixo.

O início de “Se eu fechar os olhos agora”, romance do jornalista e escritor Edney Silvestre, dá ao leitor, primeiro, a impressão de estar diante de um livro infanto-juvenil, por apresentar os dois protagonistas, Eduardo e Paulo, garotos de 12 anos de idade, no momento em que fazem mais uma de suas travessuras, matando aula para nadar em um lago; depois, o livro dá uma guinada, e o leitor se vê enredado em uma trama policial: os garotos encontram, nas imediações do lago, uma mulher morta a facadas. Mas, na verdade, e apesar de haver em “Se eu fechar os olhos agora” uma espécie de aura juvenil e de uma investigação ocupar grande parte do livro, o que se tem diante dos olhos é um romance de formação.

Ambientado na década de 1960, em Valença, pequena cidade fluminense – terra natal do autor –, “Se eu fechar os olhos agora” é o primeiro livro de ficção de Edney Silvestre, que tem várias outras obras publicadas – de crônicas e coletâneas de entrevistas. Um dos personagens, já adulto, é a voz que dá início ao livro: “Se eu fechar os olhos agora, ainda posso sentir o sangue dela grudado nos meus dedos. E era assim: grudava nos meus dedos como tinha grudado nos louros cabelos dela, na testa alta, nas sobrancelhas arqueadas e nos cílios negros, nas pálpebras, na face, no pescoço, nos braços, na blusa branca rasgada e nos botões que não tinham sido arrancados, no sutiã cortado ao meio, no seio direito, na ponta do bico do seio direito”. Este trecho, que é o primeiro parágrafo do romance, revela uma das características da prosa de Edney: a descrição. E não se trata apenas de descrever um ambiente, uma cena, mas principalmente os sentimentos dos personagens, o que eles pensam em momentos cruciais do livro. Detalhes muito importantes para entender melhor cada um dos protagonistas da história, que se atém, principalmente, ao misterioso assassinato, mas que, paralelamente, acompanha os garotos no processo de perda da inocência e iniciação no mundo adulto – naquela época se envelhecia mais cedo…

Depois de encontrarem a morta, avisarem a polícia, serem considerados suspeitos e, finalmente, liberados, os garotos se recusam a crer na “versão oficial dos fatos” – de que ela foi morta pelo marido supostamente traído. E passam a conversar sobre o crime, tentar entender o fato, levantar outras teorias para explicá-lo. Em seguida, vão até a casa do casal, para quem sabe encontrar ma pista que os leve a esclarecer a situação e, talvez, descobrir a verdadeira razão pela qual a mulher foi morta – além de, claro, descobrir quem é o verdadeiro assassino. É quando descobrem que não são os únicos a desconfiar da versão de crime passional: na mesma noite em que eles invadem a propriedade, uma outra pessoa faz o mesmo. Quem é esse outro “detetive” os garotos descobrem fácil, seguindo-o rumo ao seu lar, um asilo para idosos. Este senhor, a quem conhecemos melhor no decorrer do romance, serve como espécie de consciência dos meninos. Inexperientes em tudo, não conseguiriam jamais entender aquele crime sozinhos. Com a ajuda do velho Ubiratan, o que antes parecia ser uma brincadeira de criança, sem perspectiva alguma de chegar a um desfecho, a uma conclusão, se torna uma empreitada séria e perigosa, repleta de reviravoltas e que em certos momentos causa vertigem no leitor.

Apesar de estreante na ficção, Edney Silvestre tem como trunfo uma carreira sólida no jornalismo e uma bagagem literária invejável – tanto que é ele o apresentador/entrevistador do programa Espaço Aberto Literatura, do canal de TV a cabo GloboNews –, coisas que certamente lhe ajudaram no desenvolver do romance. Principalmente no que se refere à linguagem, à forma. A história, apesar de emaranhada, não se torna em momento algum confusa. A leitura é ágil e provoca uma enorme ansiedade de saber o que vai acontecer na próxima página. É admirável também a ambição do autor. Não parece que Edney Silvestre escreveu o livro apenas para ser publicado e ser premiado com a pecha de escritor. A impressão é que ele tentou escrever um romance diferenciado, marcante, relevante. E conseguiu não apenas isso, mas também produzir uma obra de inegável qualidade, beleza e força. É o mínimo que se pode esperar de um escritor, seja ele quem for.

O novo Estadão (meus pitacos)

March 15th, 2010

Como disse no sábado, fiquei de comprar o Estadão de ontem para ler e comentar aqui depois.

Antes de qualquer coisa, se eu não tivesse pedido para guardarem o jornal para mim na banca, não teria como comprá-lo, porque só chegou UM exemplar dele na banca mais próxima de minha casa. Tem uma outra na rodoviária que também recebe, mas não sei quantos exemplares. O que sei é que o jornal termina pouco depois que chega.

A edição de ontem veio com um caderno especial explicando as mudanças e também contando um pouco da história do Estadão. Por isso fiz questão de comprá-la.

A maior mudança apresentada pelo Estado de São Paulo é no site, que foi totalmente reformulado. A nova versão está, de fato, mais elegante e mais bonita. Mas como acontece com qualquer mudança, há certos pontos a serem acertados. Um exemplo? Esta matéria, que fala sobre a Alice Braga beijar o Jude Law (um assunto de extrema importância, ora pois) não abre de jeito nenhum. (Sério, eu queria ler a matéria.) Outro ponto que poderia ser pensado, mas talvez nem valha a pena trabalhar, é no redirecionamento dos links antigos para as novas seções. Exemplo: antes, para chegar ao conteúdo virtual do Caderno2, você ia para este link: http://www.estadao.com.br/arteelazer/ Aqui no meu navegador - eu uso o Firefox -, a página está completamente desfigurada. No novo site, os artigos do Caderno2 ficam neste link: http://www.estadao.com.br/cultura/ Talvez fosse melhor redirecionar aquele para este. Talvez.

Outra coisa, e isto vi agora: a página do horóscopo (não, eu não acredito, mas às vezes dou uma olhada, não posso negar) também está desfigurada, ao menos aqui no meu pc, e a esta hora, 00:14: http://www.estadao.com.br/horoscopo/cancer.shtm

Terminando minhas observações em relação ao site: senti falta de um link para visualizar o índice da edição do dia. No sábado, por exemplo, eu pude ver a lista de textos do Caderno2 por este link: http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20100313/caderno2.htm Ontem, domingo, passei o dia inteiro tentando visualizar o índice da edição - para que, se eu comprei a versão impressa? direi mais adiante - e não consegui. Só agora há pouco foi que tive sucesso, mas ainda assim a imagem da capa do caderno não carregou (ao menos até agora, 00:17) http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20100314/caderno2.htm

Na versão impressa, as mudanças principais se dão por conta de certos detalhes que passam despercebidos se você não é um leitor assíduo do jornal - como é o meu caso, já que o acompanho mais pela internet e também porque há uma dificuldade enorme para comprá-lo aqui, como dito parágrafos acima. A fonte mudou um pouco, os textos de opinião têm agora uma espécie de moldura, e as matérias e artigos mais importantes têm seus primeiros parágrafos em negrito. Além disso, algumas seções foram horizontalizadas. Ou seja: em vez de você ler um texto em duas colunas de tamanho razoável, você lê o texto em 4 ou 5 colunas de tamanho médio. No Sabático isso ficou muito bem explícito, nos textos do Sérgio Augoogle e de Silviano Santiago. Acho que há mais mudanças, mas não lembro de tudo agora.

Bom, para que eu tentei consultar o índice do Caderno2, se eu tinha comprado o jornal? Não sei por que cargas d’água, não veio nem o Caderno2 Domingo - que é o novo nome para o caderno aos domingos - e nem o Aliás. Ou seja, fiquei boiando. Como não consegui ver o Aliás no site, fiquei mais boiando ainda. (Aham-aham: isto não foi mau uso do português; é uma espécie de construção do dia a dia que usamos aqui na cidade/na Bahia/ no Nordeste.)

Como apontei mais o que não deu certo do que o que deu, talvez a impressão do post seja a de que eu não gostei das mudanças. Mas longe disso: gostei bastante, tanto que me dei o trabalho de comprar o jornal, lê-lo com alguma atenção - é complicado ler com muita atenção quando se está com os braços, ombros e pescoço doendo, como estou - e depois dedicar um post no blog sobre o assunto. A questão é que há detalhes para acertar.

O mais importante é que o maior passo foi dado. Posso estar enganado, mas acho que o Estadão é o primeiro grande jornal brasileiro a peitar, de verdade e de forma agressiva, a crise que vem atingindo os jornais em todo o mundo - e, óbvio, no Brasil. A tiragem de ontem do Estadão foi de mais de 500 mil exemplares. Pelo que me lembro, as tiragens dos outros grandes jornais não estavam chegando nem a 400 mil. É pouco provável que essa tiragem maior se torne comum a curto prazo, mas, pelo visto, o Estadão pretende, a médio prazo, aumentar tanto sua tiragem impressa quanto seu público virtual.

Que todas estas mudanças no Estadão surtam bons efeitos, e que sirvam de exemplo para os outros jornalões. Alguns parecem ter parado no tempo…

E antes que eu esqueça: neste link você pode conferir a apresentação virtual do novo Estadão, com direito a narração e tudo http://www.estadao.com.br/jornal_renovado.shtm

Atualização (às 15:43): O Pedro Doria, “editor-chefe de conteúdos digitais do Grupo Estado“, publicou em seu blog um texto sobre as principais dúvidas levantadas, no Twitter, sobre as mudanças no Estadão. Uma delas se refere a um dos pontos que abordei, a questão do índice da versão impressa.

Sabático e blog do Castello

March 14th, 2010

Duas excelentes novidades para os amantes dos livros e da literatura: a primeira é que ontem foi publicado o primeiro “Sabático”, novo caderno do jornal O Estado de São Paulo, que virá nas edições de sábado. Na edição “debutante”, textos de Sérgio Augusto, Silviano Santiago (não dá pra lincar, conteúdo fechado para assinantes), matéria de Lúcia Guimarães sobre a Biblioteca de Nova York, entrevista com Umberto Eco sobre o fim do livro, conto inédito de Ronaldo Correia de Brito e mais uma cacetada de coisas. Uma estreia pra lá de excelente.

O Estadão está passando por uma grande reformulação, tanto o site quanto a versão impressa. O marco zero das mudanças é justamente hoje, domingo. Inclusive, a edição de hoje virá com um caderno especial explicando as mudanças. Se tudo der certo, compro o jornal, leio o caderno e depois comento aqui.

A segunda boa notícia literária é que o grande José Castello ganhou um blog no site do O Globo. O nome, “A literatura da poltrona“, mesmo título do livro dele publicado em 2007 - que eu tenho mas não li inteiro. E não foi por falta de vontade, é que minhas leituras têm sido pautadas mais pela necessidade que pela vontade própria. Tento unir sempre as coisas, mas muitos livros acabam ficando para trás por conta das leituras “obrigatórias” - das quais gosto muito, diga-se.

Sob o céu de Samarcanda, de Ruy Espinheira Filho

March 12th, 2010

Um amigo recentemente me perguntou se eu tenho lido poesia. Eu disse que não e ele, que sempre me dá bons conselhos, disse que eu não deixasse de ler versos, que arrumasse um tempo para eles.

Isso coincidiu com a notícia do lançamento de “Sob o céu de Samarcanda“, de Ruy Espinheira Filho. Pensei, então, em unir o útil - o conselho - ao agradável - literatura - e voltar a ler poesia justamente com o novo livro do Ruy. Comprei-o há alguns dias e de fato li alguns poemas - destaque para o “Manuscrito encontrado entre os papéis do poeta, em envelope lacrado que ele, infelizmente, nunca chegou a abrir” (p.129), uma homenagem a Mário de Andrade -, mas não pude me dedicar exclusivamente a livro por conta de obrigações outras.

Farei isso em breve. Mas enquanto não me livro - olha só, um trocadilho! - de algumas leituras (veja bem… não estou reclamando delas, mas queria mesmo poder estar somente com o “Samarcanda”) sigo lendo alguns poemas, folheando o livro, me maravilhando com a poesia de Ruy.

Pra quem ficar curioso sobre o autor e o livro, aí vão dois links: um com minha resenha de “De paixões e de vampiros”, romance de Ruy publicado em 2008, e outro para uma matéria que o pessoal do Saraiva Conteúdo fez sobre o autor, com direito a um vídeo com trechos da entrevista que fizeram com ele.

CP Filosofia, CampiDigital e Melhores discos de 2009

March 6th, 2010

Pessoal, está nas bancas a revista Conhecimento Prático Filosofia nº 22, Karl Marx na capa, que traz uma resenha minha dos três livrinhos que compõem a coleção “Sobre o que nos perguntam os grandes filósofos”, de Leszek Kolakowski. O texto pode ser lido no site da revista, mas quem puder comprar, é bom, né? Até porque o visual da matéria ficou bem bonitão.

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Foi publicada hoje uma entrevista comigo no site do CampiDigital, um evento que vai rolar em Salvador, no dia 20 deste mês. A conversa foi sobre minha experiência com o Digestivo Cultural e como as mídias sociais podem interferir no jornalismo feito na internet. Ficou bem legal, confiram lá!

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E foi publicado ontem, no Digestivo, meu texto sobre os melhores discos de 2009 - na minha opinião, claro. Corram pra ver!